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Renan Barão, a conquista do cinturão e o seleto “Clube dos 9”

Renan Barão, campeão do UFC - Foto: Nick Laham/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Renan Barão, campeão do UFC – Foto: Nick Laham/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Existe um seleto grupo brasileiro no UFC. Para entrar na confraria, a regra é simples: comer muito feijão com arroz, ganhar de algumas babas, ganhar de muita gente casca grossa e ganhar o cinturão. Simples assim.

O seleto grupo era conhecido mundialmente como “Clube dos 8”. Na verdade, acabei de inventar o termo, mas ele já nasce defasado. Isso por que, na madrugada deste domingo, graças a um cara chamado Renan Barão, o “Clube dos 8” virou “Clube dos 9”.

Barão se credenciou a entrar na patotinha – e a mudar o nome da turminha – com a vitória sobre Urijah Faber no UFC 149, resultado que garantiu ao potiguar o cinturão interino do peso galo. Dane-se que é interino, cinturão é cinturão.

Mas que raios é “Clube dos 9”? Curioso isso… O UFC conta com mais de 2000 lutas em quase 19 anos de história, com 350 lutadore, sendo 60 deles brasileiros. Hoje, o MMA é um fenômeno mundial, e boa partes dos brasileiros fala de lutas como fala de futebol. Mas, olha só que coisa estranha, apenas 9 (leia-se NOVE) lutadores do Brasil conseguiram um cinturão.

Esqueça, por enquanto, dos primórdios. Pense apenas na era de disputas por cinturões, era que vivemos até hoje. Nessa era, o número de brasileiros campeões é 9. Pareciam mais, não? Além dos atuais Anderson Silva (médio), José Aldo (pena) e Junior Cigano (pesado), a lista conta com Murilo Bustamante (médios, UFC 35), Vitor Belfort (meio-pesados, UFC 46), Minotauro (interino dos pesados, no UFC 81), Lyoto Machida (meio-pesados, UFC 98) e Maurício Shogun (meio-pesados, UFC 113).

Se contar a era dos campeões em um dia e dos GPs, que durou mais ou menos até o UFC 17 (há controvérsias), são apenas mais três caras na lista: Royce Gracie (campeão nos UFCs 1, 2 e 4), Marco Ruas (UFC 7) e Belfort (UFC 12). Some os vencedores do TUF, e chegamos ao enorme número de 15 campeões: Diego Brandão (TUF 14), Rony Jason e Cezar Mutante (ambos TUF Brasil). E acabou.

São tantos caras bons, fala-se tanto de MMA no Brasil, que a minha impressão é o número de brasileiros campeões era gigante, e achei curioso encontrar esse número pequeno, o tal 9. Talvez, a leitura seja outra: “Clube dos 9” é um baita clube, afinal, são 9 campeões no evento que reúne os principais lutadores do planeta. Analisando por esse ângulo, 9 deixa de ser pequeno e se torna, no mínimo, respeitável.

Pequeno ou respeitável, o fato é que o seleto clube conta agora com um cara chamado Renan Barão. Um cara que perdeu uma luta na carreira – na estreia – e ganhou “apenas” 29 combates quase seguidos (teve um no contest no meio disso) para ter a chance de lutar pelo cinturão. Lutou e ganhou. Hoje, está no patamar de Anderson, Aldo e Cigano. E foi o responsável por mudar o número e criar o “Clube dos 9”. Esse, sim, um feito gigante e respeitável.

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Um ano e um dia, uma falha e um título, um aniversário bacana

Há um ano e um dia, nascia esse blog. O objetivo era, simplesmente, escrever, algo que, mesmo sendo jornalista, eu não fazia (e a história é longa para contar). O objetivo era dar pitaco em um monte de coisa que eu não tenho conhecimento, mas gosto de palpitar. Enfim, o objetivo era encher o saco e escrever bobagens divertidas. Missão dada, missão cumprida.

Minha ideia era escrever um post por dia, algo que eu não consegui fazer. Sabe como é, os compromissos com quem me paga, às vezes, me deixam sem tempo de teclar por aqui. Uma pena… Foram 317 posts até hoje. Tirando os fins de semana, acho que, na média, dá um post por dia. Mas, o ideial mesmo, era escrever todo dia. Exercício diário mesmo, sabe? Mas, infelizmente, não rolou. Missão dada, missão, bem, deixa pra lá.

O que acho mais bacana é a audiência. No dia de aniversário, o blog bateu a marca de 50 mil unique visitors. Para quem trabalha com internet, o número é simplesmente ridículo. O valor se refere ao ano inteiro. Então, é mais ridículo ainda. Mas, vejo por outro lado: quem lê, basicamente, é quem me conhece. E ter mais ou menos 135 cliques diários é algo que me deixa bem feliz.

O primeiro post desse blog fazia menção ao dia do meu aniversário, 16 de julho, dia que eu recebo o carinho de tanta gente, dia que eu geralmente fico puto com facilidade. Na mesma data, em 1950, o Brasil assistia à sua maior tragédia esportiva, a derrota para o Uruguai no jogo que decidiu a Copa do Mundo. Mas foi um 16 de julho de 1994 que começou a preparação para a final da Copa, no dia seguinte, entre Brasil e Itália.

Lembro que rolou uma festa absurda em casa para celebrar os meus 16 anos. A molecada foi ficando, foi ficando, e a gente praticamente não dormiu. Sei lá, deve ter sido a somatória da batida de chocolate que minha mãe fazia com a tensão pré-final. O detalhe é que tinha outro jogo antes: a estreia do meu time nas Olimpíadas, no Aramaçan.

Brasil nas Olimpíadas do Aramaçan em 1994 - Foto: Arquivo pessoal

Brasil nas Olimpíadas do Aramaçan em 1994 – Foto: Arquivo pessoal

Era assim: eu jogava futebol no clube, o Aramaçan, em Santo André, desde criança (sim, teve uma boa época da minha vida que eu joguei bola e não era perna de pau, viu). O campeonato sempre parava em julho: por causa das férias, muita gente viajava, e aí não dava para ter jogo. Mas muita gente também ficava, e aí inventaram as Olimpíadas. Tinha competição de vários esportes, mas eu sempre jogava futebol.

Naquele ano, caí no Brasil. Era um time absurdo de bom no papel, uma panela de vários moleques bons de bola. Minha expectativa – e, acho, de todo mundo que fez parte daquele esquadrão – era atropelar e ser campeão. Mas foi feia a coisa.

A estreia foi no dia 17 de julho, de manhã. Como já escrevi, eu não tinha dormido. E fazia sol, muito sol (tá aí a foto acima que não me deixa mentir). Sei lá, com 5min do primeiro tempo, alguém do time rival – que eu não lembro qual país era, mas acho que era Itália -, deu um chutão para o ataque. Eu, zagueirasso de rara habilidade, pensei: vou emendar e mandar a bola de volta para o ataque.

A bola veio, olhei para cima e vi o sol. Lindão, redondão, brilhando forte. Sem dormir, ver aquele solzão na cara pela manhã e ainda fazer o movimento de pegar uma bola de primeira se tornou algo humanamente impossível. Em uma fração de segundos, minha mente de craque da bola mudou de ideia, e achei que o melhor era dominar. No fim, a mente pensou, o corpo executou, e o resultado é que não fiz nem uma coisa nem outra. Furei a tentativa de dominar, a bola quicou no chão, bateu na minha perna e sobrou limpa para o atacante marcar. Nunca esqueci essa falha bizarra, uma das piores na minha ex-carreira ex-promissora. Por culpa dela, perdemos aquele jogo por 3 a 0.

Depois de ficar puto com o resultado, veio a final da Copa. A minha lembrança é de um jogo tenso e de uma casa lotada de gente para ver. O Brasil não era de empolgar, e a Itália, menos ainda. Mas a história, você já sabe: Roberto Baggio, espécie de Romário da Itália na época – sim, ele jogava muita bola -, perdeu o pênalti, e o Brasil foi campeão. Foi meu primeiro título mundial, e fizemos a festa em casa. Um dia inesquecível.

Lembro que o Brasil, aquele das Olimpíadas do clube, aquele cheio de moleques bons de bola, perdeu outros jogos e não vingou. Tendo a achar que tudo foi culpa daquela estreia ridícula. Mais do que isso, daquele primeiro gol sofrido, aquele bizarro. Naquelas Olimpíadas, eu fui meio que o Baggio do meu time. Naquelas férias, eu não fui nem para o pódio. Mas, naquela Copa, eu me senti campeão do mundo pela primeira vez. Enfim, foi um aniversário bacana. Mas, se eu tivesse tirado aquela bola, teria sido perfeito.

Brasil campeão do mundo em 1994 - Foto: Arquivo

Brasil campeão do mundo em 1994 – Foto: Arquivo

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Chorando com o título de um time que não é o meu

Torcida do Palmeiras na final - Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress, Arte/Ricardo Zanei

Torcida do Palmeiras na final – Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress, Arte/Ricardo Zanei

São 2h21 da manhã, e acabei agora minhas obrigações profissionais. Por causa delas, aliás, eu praticamente não assisti aos jogos da Copa do Brasil. Vi, por causa delas, a final. E foi na decisão, com o título palmeirense, que eu me vi chorando. Copiosamente. Por um time que não é o meu.

LEIA MAIS: Marcos: santo, imortal e a história de um “quase” palmeirense

Foi difícil terminar o trabalho da noite. O motivo foi a emoção. No caminho para o fim da labuta, me deparei, no Facebook, com algumas menções à minha mãe. Dona Zélia foi uma palmeirense fanática, daquelas malucas. Certa vez, ela me disse: “Tem três coisas na vida que eu amo: Deus, Palmeiras e você”. Provavelmente, a ordem era essa.

A primeira veio de uma prima minha, amada e querida, direto de Mogi Mirim, terra da minha mãe. “De alguma maneira, a Dona Zélia está mto feliz!”. Em seguida, veio meu sobrinho, direto de Santo André, minha terra. “Parabéns a maior torcedora do Palmeiras que já existiu. Parabéns Vó Zelia! O céu está em festa”, escreveu o moleque, hoje com 22 anos e trocentos centímetros maior que o tio. O detalhe é que minha prima é são-paulina. Meu sobrinho, corintiano.

Aliás, a história futebolística do meu sobrinho e da minha mãe é das mais divertidas: a cada fim de clássico com vitória do Corinthians, o telefone de casa tocava. Era o moleque, louco para tirar sarro da vó. Mais do que sarro, ele tirava a vó do sério, isso sim. Tanto que ela achou uma maneira das mais simples de não ter que ouvir mais desaforo e parou de atender o telefone. “Deixa tocar”, dizia. Eu via tudo de camarote e me divertia.

Na fria madrugada paulistana, a namorada, que vai acordar antes das 6h para trabalhar, dorme no quarto. Na sala, a TV está baixinha e, praticamente, só ouço o barulho das teclas do computador. Em meio a todo esse silêncio, tenho a nítida noção que, a qualquer momento, vou ouvir minha mãe explodindo de emoção, berrando, chorando com o Palestra dela.

Título que veio com um Felipão que era quase um deus para minha mãe. Título com os dedos de São Marcos e César Sampaio, dois caras que mereciam altares em casa. Até de Galeano, xingado e odiado tantas vezes por ela, amado e idolatrado eternamente por aquele gol contra o Corinthians.

Por tudo isso, caí no choro que nem criança. De soluçar, sabe? Por uma dessas coincidências da vida, me peguei, há pouco, enxugando as lágrimas palmeirenses na toalha com o escudo do meu time. Na fria madrugada paulistana, cá estou, chorando com o título de um time que não é o meu. Copiosamente.

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Dói demais perder de mais ou lágrimas de um jovem idoso

O choro italiano - Foto: Maurizio Brambatti/Ansa

O choro italiano – Foto: Maurizio Brambatti/Ansa

Acho que estou ficando velho. Ou melhor, idoso. Velho, jamais. Há um tempo, recente, até, eu via o futebol com desgosto, meio sem entender as razões de ainda gostar daquilo. Mas, neste ano, passei a me emocionar mais com o mundo da bola, algo que há um tempo, longínquo, eu não sentia.

A final da Liga Europa, o título inglês do City, o mata-mata da Libertadores… Alguns jogos me deixaram aflorar uma emoção escondida, algo que eu nem lembrava mais e que eu nem sabia que poderia voltar a sentir com o futebol.

Aí veio a Eurocopa, e o fato de trabalhar em casa me proporcionou algo que eu nunca tinha feito em minha vida jornalística: assistir a todos os jogos, rever os melhores lances, assistir a algumas mesas redondas. Enfim, há tempos, muitos, que eu não me divertia tanto com um evento esportivo.

No meio disso, veio a Itália. Sabe como é, o sangue é vermelho, mas, no fundo, no fundo mesmo, é azul. Sangue azul da Casa de Savoia, da pátria-mãe dos meus avós. Pior é ter também uma ascendência espanhola, mas, de tempos pra cá, o lado italiano tem falado mais alto. Bem mais alto.

LEIA TAMBÉM: Espanha x Itália e a história de mais um brasileiro

A campanha da Azzurra na Euro foi daquelas de tirar o fôlego. Parece que, para ir bem em qualquer competição, a Itália tem que chegar desacreditada e criticada. Primeira fase apertada, quartas de final nos pênaltis, semi no sufoco. Enfim, chegou a decisão, e os italianos eram as grandes zebras diante da Espanha campeã continental e mundial.

A final foi um baile. A Itália bem que tentou, e deu tudo o que pôde, mas não foi suficiente. Vitória merecida, mas foi de mais: 4 a 0 foi um placar muito mais do que o merecido. Mas, a vida não é justa, e o futebol, melhor representação esportiva da vida, também não.

Dói perder. Perder de mais, dói ainda mais. Quando Fernando Torres fez o terceiro, fiquei estático, olhando para a TV sem saber muito o que fazer. O quarto foi a pá de cal desnecessária, o tom de crueldade que os italianos não mereciam.

Fim de jogo, e as imagens da bela e merecida festa espanhola contrastavam com as cenas da derrota. O choro incontido de Bonucci me fez lembrar, nos olhos, que o sangue italiano corre nas minhas veias. Aí, tive a mesma reação da decisão da Liga Europa, do fim do Campeonato Inglês, de alguns jogos do mata-mata da Libertadores: chorei.

Pior de tudo foi parar de chorar. Montolivo, Pirlo, Buffon, Balotelli, Balzaretti… Cada vez que um deles aparecia na TV com os olhos cheio de lágrimas, eu, daqui, desabava. Caramba, se doeu em mim, um descendente que nunca foi pra Europa, que não conhece nenhum parente distante, imagine para quem vivenciou tudo isso? Dói demais perder de mais.

Dizem que se aprende nas derrotas. Se é assim, foi uma lição e tanto. Daqui um ano, a Itália estará no Brasil para a Copa das Confederações; se der certo, em 2014, voltará para a Copa. Até lá, muita água vai rolar. Mas, se classificando ou não, a Azzurra mostrou, mais uma vez, que é gigante, enorme. E a fé no futebol talvez eleve a fé na nação nesses períodos de crise.

E, no meio de tudo isso, cheguei à conclusão de que estou ficando idoso. Chorar com futebol é algo que há tempos eu não fazia e, nos últimos meses, ficou meio comum. Coração mole, sabe? Mas hoje foi diferente, dolorido. O sangue azul falou mais alto do que a carne vermelha. Enquanto escrevo isso, me lembro de tudo que vi da final. Ainda dói, a ferida ainda está aberta. E os olhos, marejados.

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LeBron, Durant, dois abraços e grandes histórias

Cena 1

LeBron James abraça Kevin Durant - Foto: Don Emmert/AFP

LeBron James abraça Kevin Durant – Foto: Don Emmert/AFP

LeBron James, enfim, conquista o seu primeiro título da NBA. Um dos maiores jogadores da história da liga tem, agora, o carimbo de campeão. Era, basicamente, o que faltava.

Seu primeiro ato como campeão foi um abraço apertado em Kevin Durant. Um encontro emocionante entre presente e presente do basquete. A estrela do Oklahoma City Thunder é, pra mim, top 3 entre os melhores da liga e está a poucos passos do rol de imortais.

Isso tudo aos 22 anos, com foi com LeBron no passado. O abraço representa muito, muito mesmo. Imagino o cara que chegou ao Olimpo dizendo: “Meu amigo, eu já estive aí, já perdi, mas, veja só, ganhei agora. O próximo é você”. Emocionante, emocionante!

A entrevista

Doris Burke, da ESPN, é uma das melhores perguntadoras do jornalismo mundial, não apenas quando o assunto é esporte. Sem rodeios, ela tem o sangue frio de arrancar dos caras, ainda no calor do momento, respostas das mais francas. Quem é jornalista sabe que isso é uma arte.

A pergunta que me chamou a atenção foi: “Você dominou a final em um contraste com o que vimos na final do último ano. O que te colocou no trilho para voltar a ser LeBron James?”. É, ao mesmo tempo, uma pergunta crítica, pelo sumiço do craque na decisão da última temporada, e elogiosa, pela ascensão da fera na decisão de agora.

“Losing in the Finals last year put me back in place.”

Cena 2

Kevin Durant é consolado por seus familiares - Foto: Reprodução de TV

Kevin Durant é consolado por seus familiares – Foto: Reprodução de TV

Perder a final para o Dallas Mavericks na última temporada foi o “turning point” para LeBron. Talvez não apenas pela derrota em si, mas pela maneira como foi: fora de quadra, repleta de comentários pejorativos contra os rivais; com a bola nas mãos, apática.

Perder a final fez LeBron acordar, perceber que só se ganha no basquete com um jogo coletivo. Michael Jordan, Julius Erving, Magic Johnson, Wilt Charberlain, Bill Russell, Kobe Bryant, Larry Bird, monstros sagrados da história do esporte, nunca venceram nada sozinhos.

Perder a final fez LeBron crescer, amadurecer. O louco da história é constatar que, jogando coletivamente, o desempenho individual do craque floresceu, renasceu e, mais do que isso, explodiu. LeBron foi o cara das finais não porque pegou a bola e fez tudo sozinho. Foi o cara das finais porque soube o momento de decidir, soube o momento – e isso deve doer para quem tem habilidade para decidir – de passar a bola para alguém nem tão bom como ele soltar o braço.

Aí, as câmeras mostram a saída dos jogadores do Thunder. Durant, visivelmente abatido e abalado com aquele turbilhão de emoções, encontra os pais. Um abraço daqueles que enche os olhos de lágrimas só de lembrar. É mais do que o ato de colocar aos braços ao redor da cria: é acolher um gigante que, naquele momento, nada mais é do que uma criança cambaleante, sem destino, querendo apenas o colo dos pais.

Ontem, hoje, amanhã
É aí que passado e presente se unem. É aí que o círculo se fecha: a derrota de LeBron na última temporada, o abraço dele em Durant e o encontro da fera do Thunder com os pais. É aí que o tropeço – e, mais do que isso, a dor profunda que traz esse tropeço – de um ano vira aprendizado para o dia seguinte, o jogo seguinte, a final seguinte, o título inédito.

Durant talvez seja o LeBron de amanhã. Talvez seja mais, talvez seja menos. O futuro vai dizer. Mas deixam no ar que esses abraços, essa vitória e essa derrota significam muito, muito mesmo, para o esporte. Derrota e vitória, dor e sorriso unidos por um abraço. Nada mais bonito.

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1962, Garrincha, Pelé, choro, riso e um presente de Dia dos Namorados

Garrincha - Foto: Divulgação

Garrincha – Foto: Divulgação

Foi em um 17 de junho de 1962 que Mané Garrincha coroava aquele que foi, talvez, o maior momento de sua carreira. No Chile, sem Pelé, ele não colocou a bola embaixo do braço como fizera Didi quatro anos antes, mas foi “o cara” da Copa. Deus e o mundo já escreveram sobre isso, sobre aquele Mundial, sobre os 50 anos daquele título.

Mas foi nos anos 80 que eu descobri que existia Garrincha. A descoberta veio como tantas outras do mundo futebolístico: de mãe para filho. Palmeirense doente, minha mãe foi responsável por falar para mim sobre Mané.

Era curioso como ela tratava aquele cara. Sempre que surgia o assunto “como você começou a gostar de futebol?”, ela falava sobre a influência do meu avô espanhol – e, se não me falhe a memória, corintiano -, dos irmãos torcedores de tudo que é time e, claro, dos ídolos que formaram o seu caráter boleiro.

Ademir da Guia era uma espécie de divindade na minha casa. Leão, Luis Pereira, Dudu, César Maluco, idem. Pelé sempre foi tratado como o maior de todos. Mas Garrincha. A frase, aliás, era quase sempre a mesma, algo do tipo: “Pelé é o rei do futebol, mas o Garrincha…”. Aquele silêncio que vinha depois do “Garrincha três pontinhos” tinha um ar de saudade, de lembrança boa, daquelas que a gente se anima quando passa pela cabeça.

Fui, aos poucos, descobrindo quem foi Mané. Lembrem-se que os anos eram os 80, e o advento do videocassete – não sabe o que é, jogue no Google – ajudou muito nisso. Uma fita – não sabe o que é, jogue no Google – em especial, chamada “Garrincha, Alegria do Povo”, foi fundamental: era um documentário sobre Mané, recheado de dribles e lances espetaculares (está no Youtube, dá para ver no vídeo abaixo). Nascia ali uma idolatria.

Era sensacional ver aquele cara entortar quem estivesse pela frente. Parecia até ficção. Não era possível aqueles dribles, quase sempre iguais e, exatamente por isso, geniais. Coisa de outro planeta, de outro mundo.

No videocassete, dava para gravar o que se passava na TV – é verdade, taí a Wikipedia que não me deixa mentir -, e isso, em tempos de “Grandes Momentos do Esporte”, “Gol, o Grande Momento do Futebol” e “Canal 100”, era espetacular. E só contribuiu para aumentar minha paixão por Mané.

“Garrincha, Alegria do Povo”

O tempo passa, veio a faculdade, e um amigo cantou a bola: na biblioteca, tinha um exemplar de “Estrela Solitária”, de Ruy Castro. Não leu? Não sabe o que é? Ainda está parado aí? Goste ou não de futebol, corra atrás. É simplesmente uma das melhores biografias já escritas.

Foi com “Estrela Solitária” que eu pude entender os três pontinhos da minha mãe. Quando eu via – vejo – Pelé, seus dribles, seus gols, fico com uma espécie de riso bobo no rosto. Quando eu via – vejo – Garrincha, seus dribles, seus gols, fico com os olhos cheios de lágrimas, um misto de saudade de um cara que eu não conheci e só vi na TV, de felicidade por ter visto e revisto o que ele fez, e uma tristeza absurda pelo fim, não pelo fim em si, mas pelo fim como foi. Pelé é riso, Mané, lágrimas.

É curioso que o primeiro texto que escrevi e foi publicado em algum lugar era sobre Garrincha. Foi em um sábado, 23 de janeiro de 1999. Ao voltar de um São Paulo x Flamengo no Morumbi, fui surpreendido com uma pilha de exemplares do infelizmente finado jornal “A Gazeta Esportiva” em casa. Alguém falou para minha mãe que um texto meu havia saído lá, e ela basicamente comprou o que tinha na banca.

Talvez aquele tenha sido o maior orgulho jornalístico que minha mãe sentiu por mim. Como eu não canso de escrever, ela era fanática por futebol e, por um bom tempo, assinamos “A Gazeta Esportiva”. Ou seja, um texto escrito pelo filho e publicado ali era motivo de festa.

Sabe aquela parte “Palavra do Leitor”, algo do tipo? Foi ali que saiu o texto. Eu tinha acabado de ler “Estrela Solitária”, escrevi e mandei para lá na semana do aniversário de morte dele (20 de janeiro de 1983). Era uma ficção sobre um sonho que eu teria tido com o “Anjo de Pernas Tortas”. Estava longe de ser uma obra literária, mas virou até quadro em casa.

Aí chega o Dia dos Namorados deste ano e eu, colecionador de miniaturas, ganho uma do Garrincha. Ao tirá-lo da caixa, todo esse filme passou pela minha cabeça. Fiquei olhando aquele boneco e lembrei dos dribles, dos gols, da vida que poderia ter sido e que não foi, enfim, de tudo. E me emocionei mais uma vez.

Garrincha não ganhou o bicampeonato mundial sozinho, mas foi o principal nome daquele título, o nome mais comentado em tudo que é texto sobre a conquista. Aqui em casa, ele está no ponto mais alto da minha pequena biblioteca esportiva. Acho que, de madrugada, quando todo mundo está dormindo, ele sai dando seus dribles e chamando seus colegas bonecos de “joão”. Acho, não. Tenho certeza.

Miniatura de Garrincha na minha casa - Foto: Ricardo Zanei

Miniatura de Garrincha na minha casa – Foto: Ricardo Zanei

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City, um tango, um título e muita emoção

City, festa em campo, festa na galera - Foto: AP, Arte/Ricardo Zanei

City, festa em campo, festa na galera – Foto: AP, Arte/Ricardo Zanei

“Sabíamos que não estávamos conseguindo o campeonato, e em cinco minutos conseguimos dois gols. A verdade é que não sei como fizemos.”
Aguero, hoje, mais do que o genro de Maradona

Há muito o que se dizer sobre o título do Manchester City. Mas acho que a palavra-chave é emoção. Foi tudo, teve de tudo, mas, no fim, foi pura emoção.

Aproveitando os personagens argentinos da história, dá para dizer que foi um verdadeiro tango. A música, vira e mexe, ronda com o tom de tragédia, uma tragédia que vai se construindo aos poucos. A regra é que tudo dê errado, mas, às vezes, o cenário muda, e o que era para ser terrível se torna maravilhoso. O tango é assim. O futebol, muitas vezes, idem. O título do City foi muito, mas muito assim.

O último minuto da partida foi daqueles de arrepiar, de ver e rever e rever e rever. É capaz de ter gente já produzindo DVD apenas com isso, com toda a anatomia dos lances. Isso se já não estiver nas prateleiras de toda a Inglaterra.

Três imagens estão nítidas na minha cabeça, duas com o mesmo personagem, Aguero. A primeira é o gol da virada, um gol daqueles que só os predestinados são capazes de fazer. Último minuto do último jogo, último lance de 38 rodadas, último suspiro. Imagine o peso de ficar com a bola nesse instante, ainda mais precisando de um gol. Pois o argentino recebeu, dominou, driblou, marcou. Um sangue frio impressionante.

A segunda imagem foi sendo construída por todo o jogo. O 1 a 0, o empate do Queens Park Rangers, a virada. A cada lance, a torcida do City aparecia na tela. Era o tal do tango na tela, representado por um monte de gente que nunca tinha visto aquele time ganhar nada. Euforia, apreensão, desespero, esperança, explosão. A sucessão de sentimentos foi de chorar.

Por fim, Aguero falou para os canais ESPN, e a frase que mais me chamou a atenção abre esse post. Nada daquele papo de “acreditamos até o fim” e todo o blablabla que a gente está acostumado a escutar. Para mim, ele deixou claro que o time teve medo, pavor de perder o título. “A verdade é que não sei como fizemos” mostra que a virada veio totalmente no “vamo que vamo”, um misto de susto e oportunidade.

É por jogos como esse que ainda existe esse amor pelo futebol. Confesso que o esporte me deixa muito, mas muito desanimado em tantas oportunidades, mas basta 1 minuto assim para que o coração volte a pulsar e você relembre por que começou a amar a bola. A vitória do City foi um tango, foi do drama para a festa, foi humano. Humana como a festa impressionante da torcida com o gol salvador, festa em ritmo de obra de arte. Emocionante.

P.S.: Para quem não viu ao vivo, a narração de Paulo Andrade, da ESPN, especialmente do terceiro gol do City, é de arrepiar. Os melhores momentos estão aqui, mas vale a pena procurar toda a sequência de lances. Emocionante.

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