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“Vai lá, macaco! Volta pro zoológico!”

Wallace - Foto: Divulgação/CBV

Wallace - Foto: Divulgação/CBV

Nunca imaginei que começaria um post com uma frase como essa. Nunca mesmo, ainda mais em um blog que trata, basicamente, de esporte. Mas ainda existem animais no planeta, com perdão à ofensa cometida aos nobres bichinhos. Pior que existem muitos, muitos mesmo. São “pessoas” que se acham muito melhores, superiores que as outras, por causa da cor da pele. Acho que palavras como “lamentável” e “inaceitável” são ínfimas perto da brutalidade de um crime como o preconceito. Sim, preconceito é crime, e deve ser tratado como tal. Só assim essa sociedade ridícula e falida pode dar uma resposta no mínimo aceitável para esse ato de crueldade e covardia.

Todo mundo sabe o que aconteceu com Wallace, jogador do Sada/Cruzeiro, na Superliga masculina de vôlei, não? Se não sabe, clique aqui e assista à matéria do SporTV, que merece elogios por ser bem elucidativa.

Porém, existem vários pontos que não se encaixam, coisas de uma sociedade, repito, ridícula e falida. Vamos aos fatos e aos comentários:

– Em nota, veiculada em seu site oficial, que pode ser lida aqui, o Sada/Cruzeiro diz: “Foi solicitado que o delegado responsável pela partida registrasse o fato no relatório do jogo, que será encaminhado para a Confederação Brasileira de Voleibol – CBV.”

Com todo o respeito ao Sada/Cruzeiro, dane-se a CBV. Isso é caso de polícia. É pegar as imagens de TV, fazer Boletim de Ocorrência e dar trabalho para os advogados do clube: esse “ser” que disse o que disse tem que responder criminalmente pelo que falou.

É lei, meus caros, número 9.459, de 13 de maio de 1997, assinada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso: “Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Esse indivíduo, se é que pode ser chamado assim, tem que responder pelo que falou atrás das grades.

– Em nota, também em sua página oficial, que pode ser lida aqui, o Minas Tênis Clube diz que “lamenta e repudia o episódio” e que “É justo destacar que se tratou de manifestação individual, impossível de ser controlada pelo Clube e que em nada reflete a filosofia e os valores do Minas.”

Sinceramente, que nota oficial babaca. Sim, foi uma “manifestação individual” e é “impossível de ser controlada”: claro que o Minas, nem eu, nem ninguém, vai conseguir deter um ser acéfalo antes de ele cometer o crime que cometeu. Controlar não dá, mas coibir, dá sim. Falou o que falou, baixa polícia e pega o criminoso na unha. Mas, sabe como é, dá trabalho. E ninguém quer isso, né?

– O SporTV ouviu Ricardo Santiago, diretor de vôlei masculino do Minas, que “esclareceu” o que pode acontecer se a criminosa for descoberta, ou melhor, reconhecida: “Penalidade que vai até a exclusão do quadro de associados, isso não faz parte da cultura do Minas Tênis Clube”.

Para tudo, gente. Pelamordedeus, dane-se o quadro do clube. Cacete, estamos diante de um crime. Crime, sabe, daqueles que rola cadeia, que rola processo? Fico com a impressão que, para o Minas, é bem mais simples dizer que “repudia”, que isso e aquilo, ao invés de tomar ações drásticas. Vamos combinar que falar é bem mais simples que agir, não?

– Em nota, em seu site oficial, que pode ser lida aqui, a CBV diz: “Sobre o possível caso de preconceito” e blablabla. Segue a nota com “Sobre o fato, o relatório do delegado da partida em questão relata que, ao ser comunicado da agressão verbal direta, de cunho racista, (…) acionou a segurança para identificar o agressor. Até o fim da partida, o mesmo não foi identificado dentre o público presente na Arena Vivo, em Belo Horizonte (MG).”

A CBV, entidade que rege o vôlei no país, abre a sua nota oficial falando em “possível caso de preconceito”. Vamos lá: “Vai lá, macaco! Volta pro zoológico!”, realmente, deixa dúvida, não? O que esperar se, quem manda, começa uma nota oficial, ou seja, um documento, dessa maneira imbecil.

Vamos além. O delegado, pelo menos, acionou a segurança, mas não identificaram o agressor. Lembro que, quando a Lei Pelé passou a figurar, e as pessoas passaram a responder criminalmente sobre seus atos em arenas esportivas, qualquer papelzinho que caía num gramado era dedurado por quem estava ao lado. Sabe como é, aquele pedaço de algodão que foi lançado no campo pode tirar o mando de campo de seu time. Aí, quando rolava, não dava para contar a quantidade de dedo que apontava para o meliante, isso quando o mané já não tinha sido espancado pelos mais exaltados.

Mas agora estamos falando do quê? Racismo? Ah, que é isso, deixa pra lá. Não foi comigo mesmo, né? Meu time não vai perder o mando, né? Então, dane-se. Mas fico pensando: será que nenhum cidadão viu quem falou o que falou? Não tinha ninguém ali no ginásio, né? “Ah, é feio dedurar”. Sim, concordo. Mas, no caso de um crime, dedurar é denunciar, e denunciar é um ato de cidadania, mais do que isso, um dever.

O que passou pela minha cabeça ao ver o que aconteceu é impublicável, mesmo nesse blog que tem meia dúzia de leitores. Só posso dizer que o meu pensamento foi o mesmo de Wallace. Se ele falou que, graças a Deus, não encontrou a pessoa que falou o que falou, eu penso ao contrário: fico triste que ele não tenha encontrado. E, se eu estivesse ali, ajudaria. Com gosto.

O resumo da ópera é que nada vai acontecer. Ou, se acontecer, será no âmbito esportivo. Dane-se o esporte, o vôlei, dane-se tudo nesse episódio. É um caso de polícia, e é assim que tem que ser tratado. Ou seria, numa sociedade séria, mas, na nossa, falida e nojenta, não vai dar em nada.

Pior que tudo isso é saber que o caso Wallace é apenas mais um caso nesse Brasilzão preconceituoso. “Ah, que mentira, não tem preconceito no Brasil”. Ahã. Não tem pra você, que é branquinho (a) como eu, que é de classe média como eu. Preconceito existe em tudo que é canto, às vezes escondidinho, ali, debaixo do tapete, mas ele continua vivendo ali. O episódio em Minas é só um exemplo que, por sorte, foi flagrado pelo áudio da TV. E aqueles tantos outros, em quatro paredes, como ficam?

Não ficam, são tratados como se não existissem. Como se “Vai lá, macaco! Volta pro zoológico!” fosse um “possível caso de preconceito”. Nossa sociedade, especialmente quem manda nela, é de dar nojo.

P.S.1: Ao reler o texto, percebi que escrevi “tem que” várias vezes. Não mudei nenhuma delas. O “tem que” mostra como deveria ser se o nosso país fosse sério, mas não é, e o “tem que”, muitas vezes, pode ser lido como “teria que”.
P.S.2: Esse episódio me fez lembrar do Carnaval e aquele papelão em São Paulo, aquela revolta toda por causa de plumas, paetês, surdos e reco-recos. Agora, em um caso de preconceito, não teve uma alma que se levantou. Triste.
P.S.3: E ainda tem o caso Michael, que não podemos esquecer jamais.

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