Arquivo da tag: sub-12

Cabelo de Neymar, marra de Romário, sonho de ser Messi

Neymar e Messi - Foto: AFP, Arte/Ricardo Zanei

Neymar e Messi - Foto: AFP, Arte/Ricardo Zanei

Ainda falando sobre a Copa Danone, meu programa do domingão, é bater o olho no gramado que você percebe que Neymar fez a cabeça da galera. Literalmente. Cada time tem pelo menos um garoto com um moicano daqueles. Isso quando não são dois, três…

É engraçado ver o penteado da molecada e impressiona ver como Neymar influencia. Gelzinho, cabelinho todo arrepiado. Isso quando não tem alguns com a cabeleira tingida das cores mais diversas. E é molecada mesmo, sub-12!

Mas o mais curioso foi saber que, se Neymar está na cabeça, o sonho, no pé, é de ser Messi. Tudo que é moleque que você pergunta quem é o ídolo, se ele se inspira em alguém, o nome do argentino é citado. “E o Neymar?”. “Neymar também”. É sempre assim, Messi em primeiro, Neymar vem depois.

Também fica clara a globalização da bola. Hoje, se você assina um pacote de TV a cabo com os canais esportivos disponíveis, sem contar o pay-per-view, fatalmente vai ver mais jogo do Messi do que de qualquer outro time brasileiro. Por exemplo, é mais fácil para qualquer garoto se espelhar nele do que, sei lá, no Ronaldinho jogando no Flamengo, caso o Ronaldinho estivesse jogando, de fato, no Flamengo.

A influência negativa é a marra da molecada. Lembra do Romário, na fase áurea, de como era marrento? É bem assim. Tem garoto de 10 anos falando como se realmente jogasse como o Messi, ganhasse o salário do Messi, tivesse os títulos do Messi, mas com o cabelo do Neymar. E não é falando todo tímido não: tem moleque que sabe falar, mas fala exatamente como um profissional mascarado.

O garoto, já com 9, 10 anos, sabe que é melhor do que muitos outros. Não só sabe como fala que é melhor mesmo. Muitos deles já jogam em times grandes de São Paulo (leia-se Estado, não apenas cidade). A maioria tem noção que, se pintar o cabelo, ou fazer um penteado invocado, chama mais a atenção. Muitos, infelizmente, se bobear, já têm empresário. Acabou o futebol moleque, meu caro. Agora, chegou outro tempo. Tempo de cabelo de Neymar, de marra de Romário, mas ainda com o sonho distante de ser Messi. Espero que o cabelo e a marra não deixem o sonho ficar pelo caminho…

P.S.: Uma outra coisa que chama a atenção é a enorme quantidade de garotos que torce para o Santos, reflexo total do sucesso da geração de Diego e Robinho. Se o time é sub-12, molecada nasceu em 2000, 2001. A geração de Diego e Robinho explodiu por ali, ganhando o Brasileirão de 2002. Dois anos depois, repetiu o feito, ainda com Robson de Souza no time. Ou seja…

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Futebol

Espiões da bola ou como agem os olheiros em um torneio de futebol para molecada

Domingão de sol, muito sol. Por motivos matrimoniais, fui acompanhar a Copa Danone, na verdade, segundo o site, o nome correto é Copa das Nações Danone. É uma competição sub-12 que reúne moleques de escolas particulares e públicas, clubes e associações. O patrono nacional é o Cafu, o mundial, Zidane. Claro, nenhum deles estava lá. No Brasil, serão os jogos serão em São Paulo, Poços de Caldas e Rio de Janeiro. O campeão nacional vai para a Polônia, em setembro, para a final mundial.

A organização é bem bacana, o evento é legal. Rola um Danoninho pra galera – comentário de quem tem sobrepeso e adora comida de graça. Molecada animadona para jogar, pais acompanhando, professores. Enfim, é uma baita maneira de educar com esporte e unir a família. Até lembrei dos tempos que eu jogava bola, que minha mãe torcia como louca, enfim, foi um dia de nostalgia e muita bola.

Mas foi mais do que isso. Boné, óculos escuros, camiseta e bermuda. Tudo de marca. Em um domingo de sol na USP, o traje é dos mais comuns. É assim, sem gerar suspeita, que eles atuam na Copa Danone. Quem? Os olheiros.

Os alvos são marcados. Não há ponto sem nó. Claro que uma ou outra novidade pode aparecer no caminho. Mas, de fato, eles estão ali para confirmar as informações. Ou melhor, para entrar em contato com as “informações”. Sabe aquele garotinho que destruiu no jogo e fez 2 gols? Surpresa pra mim, mas, pra eles, não.

Uma folha de papel no bolso com a ordem dos jogos é um objeto de trabalho. Com quatro campos e partidas simultâneas, é bom se programar. Mas, imprescindível mesmo é o celular, recheado de contatos, nomes, informações, e sempre, sempre, sempre na mão.

Eles praticamente atuam sozinhos. Se misturam na galera sem ser notados. Sol, bermuda e boné, lembra? No máximo, agem em duplas. “Ele não quis conversar”, disse um, ao pé do ouvido do outro. O “ele” era o pai de um dos garotos. O “conversar” era um número de telefone.

Já outro teve sucesso. Eu estava ali do lado, e a abordagem é daquelas que beira o cinismo. “O senhor é pai dele? Como é mesmo o nome do garoto?”, perguntou um deles ao pai de X – claro que eu não vou citar o nome -, 11 anos, moleque bom de bola, habilidoso, driblador, fazedor de gols e já atuando nas categorias de base de um clube grande de São Paulo.

“Queria marcar uma reunião com o senhor sobre o garoto. O senhor poderia me passar o seu celular? É sobre uma oportunidade de negócio, tem até um clube do exterior interessado nele. Só queria que o senhor não comentasse, é um negócio sigiloso”, disse.

O pai passou o contato, claro. Com o telefone anotado no celular, o olheiro sumiu no meio da galera. Minutos depois, lá estava o mesmo, colado na grade, de olho em algum moleque bom de bola. O jogo acabou, e ele sumiu. Não o vi mais. O que eu sei é que, durante a semana, um celular vai tocar. E o destino de uma promessa do futebol brasileiro, ou melhor, de um garoto de 11 anos que só quer chutar uma bola, será traçado. Ou perdido.

1 comentário

Arquivado em Futebol