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Renan Barão, a conquista do cinturão e o seleto “Clube dos 9”

Renan Barão, campeão do UFC - Foto: Nick Laham/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Renan Barão, campeão do UFC – Foto: Nick Laham/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Existe um seleto grupo brasileiro no UFC. Para entrar na confraria, a regra é simples: comer muito feijão com arroz, ganhar de algumas babas, ganhar de muita gente casca grossa e ganhar o cinturão. Simples assim.

O seleto grupo era conhecido mundialmente como “Clube dos 8”. Na verdade, acabei de inventar o termo, mas ele já nasce defasado. Isso por que, na madrugada deste domingo, graças a um cara chamado Renan Barão, o “Clube dos 8” virou “Clube dos 9”.

Barão se credenciou a entrar na patotinha – e a mudar o nome da turminha – com a vitória sobre Urijah Faber no UFC 149, resultado que garantiu ao potiguar o cinturão interino do peso galo. Dane-se que é interino, cinturão é cinturão.

Mas que raios é “Clube dos 9”? Curioso isso… O UFC conta com mais de 2000 lutas em quase 19 anos de história, com 350 lutadore, sendo 60 deles brasileiros. Hoje, o MMA é um fenômeno mundial, e boa partes dos brasileiros fala de lutas como fala de futebol. Mas, olha só que coisa estranha, apenas 9 (leia-se NOVE) lutadores do Brasil conseguiram um cinturão.

Esqueça, por enquanto, dos primórdios. Pense apenas na era de disputas por cinturões, era que vivemos até hoje. Nessa era, o número de brasileiros campeões é 9. Pareciam mais, não? Além dos atuais Anderson Silva (médio), José Aldo (pena) e Junior Cigano (pesado), a lista conta com Murilo Bustamante (médios, UFC 35), Vitor Belfort (meio-pesados, UFC 46), Minotauro (interino dos pesados, no UFC 81), Lyoto Machida (meio-pesados, UFC 98) e Maurício Shogun (meio-pesados, UFC 113).

Se contar a era dos campeões em um dia e dos GPs, que durou mais ou menos até o UFC 17 (há controvérsias), são apenas mais três caras na lista: Royce Gracie (campeão nos UFCs 1, 2 e 4), Marco Ruas (UFC 7) e Belfort (UFC 12). Some os vencedores do TUF, e chegamos ao enorme número de 15 campeões: Diego Brandão (TUF 14), Rony Jason e Cezar Mutante (ambos TUF Brasil). E acabou.

São tantos caras bons, fala-se tanto de MMA no Brasil, que a minha impressão é o número de brasileiros campeões era gigante, e achei curioso encontrar esse número pequeno, o tal 9. Talvez, a leitura seja outra: “Clube dos 9” é um baita clube, afinal, são 9 campeões no evento que reúne os principais lutadores do planeta. Analisando por esse ângulo, 9 deixa de ser pequeno e se torna, no mínimo, respeitável.

Pequeno ou respeitável, o fato é que o seleto clube conta agora com um cara chamado Renan Barão. Um cara que perdeu uma luta na carreira – na estreia – e ganhou “apenas” 29 combates quase seguidos (teve um no contest no meio disso) para ter a chance de lutar pelo cinturão. Lutou e ganhou. Hoje, está no patamar de Anderson, Aldo e Cigano. E foi o responsável por mudar o número e criar o “Clube dos 9”. Esse, sim, um feito gigante e respeitável.

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UFC 144, Pride e a volta do MMA ao Japão

UFC está de volta ao Japão - Foto: Divulgação

UFC está de volta ao Japão - Foto: Divulgação

Você escolhe. O Japão esperou 4.089 dias – ou 11 anos, 2 meses e 10 dias – para rever um evento do UFC. Desde o fim do Pride, já se vão 1.667 dias – ou 4 anos, 6 meses e 22 dias – sem uma grande apresentação de MMA no país. Enfim, o bom filho à casa torna, e a “meca” das artes marciais se reencontra com o UFC.

O Japão já teve o evento de maior prestígio do mundo das lutas, o Pride. Pode se dizer que era a maior competição de vale-tudo do planeta. As regras eram menos rígidas, o que gerava golpes mais violentos e lutas mais sangrentas. Só de lembrar dos “tiros de meta” dá calafrios…

Agora, o país vê o MMA, com normas que servem justamente para proteger os combatentes. Foi esse MMA, agressivo, mas sem a violência do vale-tudo, que conquistou o planeta. E, agora, tenta reconquistar o Japão.

O último UFC no Japão - Foto: Divulgação

O último UFC no Japão - Foto: Divulgação

Fuçando aqui, descobri que o último UFC por lá foi o 29, justamente o último antes da venda da franquia da SEG para a Zuffa. Foi lá que Tito Ortiz e Pat Miletich mantiveram seus cinturões. Foi lá que Dennis Hallman massacrou Matt Hughes em apenas 20 segundos, e Chuck Liddell venceu Jeff Monson após 15 minutos de combate. Foi lá que acabou o UFC “à moda antiga” e foi dado o primeiro passo rumo ao UFC que conhecemos hoje.

Foi graças ao Pride que alguns brasileiros conquistaram fama e prestígio internacional, em combates de tirar o fôlego. De cabeça, lembro das duas lutas entre Wanderlei Silva e Quinton Rampage Jackson, de Wanderlei contra Mirko Cro Cop, de Minotauro renascendo das cinzas contra Cro Cop e Bob Sapp, de Shogun e Minotouro em um duelo de arrepiar.

Tirando os brasileiros, o Japão foi palco da formação da lenda sobre Fedor Emelianenko e é a terra de um cara que foi muito odiado por aqui, Kazushi Sakuraba, o “Caçador de Gracies”, que ganhou nada mais nada menos de Royler Gracie, Renzo Gracie, Ryan Gracie e Royce Gracie. Um fenômeno.

Você deve estar se perguntando por que o UFC demorou tanto para voltar a um país que tem uma tradição milenar em lutas, não? Mesmo depois que a Zuffa comprou o Pride, em março de 2007, o domínio dos eventos de artes marciais seguiu nas mãos de gente graúda no Japão, e o UFC simplesmente não conseguia negociar com esses caras. As arestas foram se aparando e, depois de muito papo e muito mais dinheiro, chegou-se a um acordo.

A minha expectativa é que, além de renascer o MMA no país, a realização de um UFC sirva como o primeiro passo para a recuperação de algumas artes marciais no Japão. O milenar sumô, por exemplo, está à beira da falência, graças a desvios absurdos e resultados combinados em bolsas de apostas. O UFC não é o messias, longe disso, mas pode servir de exemplo e alavancar outras modalidades de lutas no país.

Música de abertura do Pride

Historinhas à parte, o evento deste fim de semana lembra, e muito, os realizados no Brasil. Alguns combates são bem legais, outros, especialmente do card preliminar, reúnem estrelas ou promessas locais. Confesso que tem lutador ali que eu nem sabia que existia. A novidade é um card principal inchado, com sete lutas, provavelmente atendendo a uma solicitação dos promotores japoneses.

O foco são as duas lutas principais, com Quinton Rampage Jackson x Ryan Bader e a disputa do cinturão dos leves entre Frankie Edgar e Ben Henderson. Mas uma outra luta me chama a atenção: Anthony Pettis x Joe Lauzon. São dois caras que adoram uma pancadaria, uma luta aberta. Lauzon é um dos lutadores que eu mais gosto de ver, principalmente pela versatilidade e pelo enorme coração. Ainda tem Yushin Okami x Tim Boetsch, Yoshihiro Akiyama x Jake Shields, e Cheick Kongo x Mark Hunt. Diversão garantida!

P.S.: Caros, já disse aqui e repito: em qualquer esporte, você tem que ser agressivo. Por isso, acho que o MMA e qualquer outra modalidade de luta agressiva, não violenta. O vale-tudo, sim, era violento, briga de rua. Goste ou não, o MMA é um esporte.

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MMA vai do VHS ao cinema e vê “esporte do futuro” chegar cedo

Capa da fita em VHS do UFC 1 - Foto: Divulgação

Capa da fita em VHS do UFC 1 - Foto: Divulgação

Metade da década de 90, 1994, 1995, talvez. Santo André, São Paulo. Eu era um moleque de 16, 17 anos, que passava boas tardes da semana na locadora perto de casa, Foto Muito Bom. Sabe aquelas famílias que se conhecem e se respeitam desde sempre, passando esse carinho para cada nova geração? Assim eram (são) os Zaneis e os Nakanos, donos da hoje extinta Foto Muito Bom.

Naquelas tardes, a gente colocava o papo em dia, falava muita bobagem, ria bastante, via algum filminho de graça. E eu sempre levava um filme para casa. Foi ali que eu descobri que existia um tal de “vale-tudo”, com nêgo dentro de uma ringue fechando dando porrada um no outro a torto e a direito. Foi ali que eu descobri que existia um gênio chamado Royce Gracie, que havia uma família, Gracie, que reinvantara o jiu-jitsu. Enfim, foi ali que, vendo e revendo aquelas fitas em VHS, que eu descobri o “vale-tudo”.

Dana White concede entrevista antes do UFC 100 - Foto: Ricardo Zanei/UOL

Dana White concede entrevista antes do UFC 100 - Foto: Ricardo Zanei/UOL

Sábado, 11 de julho de 2009, Las Vegas. Em uma sala perdida no Mandalay Bay Events Center, sem nenhuma parafernália (nem backdrop tinha), Dana White, chefão do UFC, falava com a imprensa estrangeira sobre o evento da noite, a histórica 100ª edição. Muitos mexicanos, alguns japonses e exatos cinco brasileiros formavam a lista de entrevistadores. Eu era um deles.

Dana falou sobre todos os assuntos. Estava felizão com a repercussão do evento, agradeceu a imprensa estrangeira por estar ali. Falou que eles tinham como meta entrar em três mercados: EUA, México e Grã-Bretanha, e haviam conseguido isso, e comemorou o número de pay per views que já haviam sido vendidos para o UFC 100.

Perguntei se o MMA era o esporte do futuro. Ele abre a resposta com: “O MMA é o esporte do futuro, não tenho dúvida disso. Eu também acho que é o esporte de hoje também”. A resposta completa está no vídeo abaixo:

Quarta-feira, 12 de outubro de 2011, Rio de Janeiro. Anderson Silva chega ao Cine Odeon com a família inteira para a primeira sessão no Brasil do documentário “Anderson Silva: Como Água”, que estreou no Festival do Rio.

“Em nenhum momento pensei que o MMA pudesse dar esse tipo de reconhecimento. Estou muito feliz e realizado”, disse Anderson, antes da apresentação do filme.

Anderson Silva na estreia de "Como Água" - Foto: PhotoRioNews

Anderson Silva na estreia de "Como Água" - Foto: PhotoRioNews

Entre o UFC 1, dia 12 de novembro de 1993, até a exibição de “Anderson Silva: Como Água”, passaram-se 6.543 dias, ou 17 anos e 11 meses. O vale-tudo virou MMA, criou regras e protegeu seus lutadores. O evento deixou os EUA, o México e a Grã-Bretanha e chegou a outros cantos do mundo, como Alemanha, Austrália, Brasil, Canadá, Emirados Árabes Unidos, e vai desembarcar no Japão em 2012.

As fitas em VHS viraram DVDs, Blu-rays e chegaram até as telas de cinema. No Brasil, basta ligar a TV para ver que Anderson Silva é a cara do MMA do país, participando de tudo que é programa e ainda entrando na sua casa nos intervalos comerciais. Virou ídolo.

Em menos de 20 anos, um negócio pioneiro e marginalizado chamado UFC se tornou a franquia mais valiosa do mundo esportivo. Há dois anos, Dana dizia que o MMA era o esporte do futuro, mas acho que nem ele pensaria que esse futuro chegaria tão cedo.

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MMA, Anderson Silva e o melhor negócio do mundo

Anderson Silva em entrevista coletiva antes do UFC 126 - Foto Josh Hedges/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty ImagesSe alguém, no início dos anos 90, dissesse que estava investindo em “vale-tudo”, claramente, seu pensamento seria: “é um maluco”. Hoje, se alguém fizer o mesmo comentário, a história é outra: “rola uma sociedade?”. O MMA se tornou um esporte massificado e, com isso, uma mina de dinheiro. Como negócio, ouso dizer que é o melhor do mundo.

Você pode gostar ou não (eu adoro), mas é fato que a popularidade do MMA tem tomado proporções gigantescas. Confesso que eu não achava que isso ia acontecer. Parecia mais uma moda, um esporte do momento, do que algo duradouro. Além de ser algo já enraizado, o esporte se mostrou muito mais lucrativo do que parecia ser.

A história já se tornou conhecida. Em 2001, os irmãos Lorenzo e Frank Fertitta, então executivos da Station Casinos, além de Dana White, promotor de boxe, compraram o então falido UFC. Reorganizaram a competição, criaram regras (surgiu, então, o MMA, e o vale-tudo morreu), conseguiram entrar na TV a cabo (vendas cada vez maiores de pay-per-view), foram para a Europa, Ásia, voltam agora ao Brasil. Dez anos depois, o trio se parece com o Tio Patinhas: sentados em uma montanha de dinheiro que cresce a cada segundo.

O esporte parece não ter um nível de saturação. Por isso, vem crescendo de maneira assustadora, avassaladora. Tem criado novos ídolos, novos monstros. O melhor exemplo disso é Anderson Silva. Para quem acompanha esporte, o nome dele não é nenhuma novidade. Mas, nos últimos meses, ele tem sido figurinha carimbada em vários programas da TV aberta brasileira (leia-se Globo). É uma inversão na lógica: o futebol, esporte conhecido, cria ídolos, os jogadores. Com o brasileiro, a história é outra: o ídolo, Anderson,  faz com que o esporte passe a ser conhecido.

A semana tem sido cheia para o “Spider”, apelido de Anderson. Na segunda-feira, ele assinou com o Corinthians. Na terça, fechou um contrato com a Nike e se tornou o primeiro lutador brasileiro de MMA da história a fechar negócio com a empresa. Antes, já havia assinado com a Hypermarcas. Tudo sob a batuta da 9ine, agência de marketing esportivo comandada por Ronaldo. Ronaldo que jogou no Corinthians com patrocínio da Hypermarcas e tem contrato vitalício com a Nike. Coincidências…

Anderson Silva se torna, assim, o primeiro superstar brasileiro do MMA. Não vou entrar no mérito da família Gracie e no lado esportivo da coisa. Na minha adolescência, cansei de alugar fitas de vídeo (sim, vídeo, VHS) com as lutas de Royce Gracie. Com 1,85 m, ele parecia um anão perto dos mamutes que derrubava. Era demais!

Mas o foco é o lado midiático. Anderson é um grande lutador? Sim, um monstro, um dos melhores da história. E deve se tornar, agora, um fenômeno da mídia. Deve pipocar em ainda mais programas de TV. Deve estampar propagandas e até produtos por aqui. Brinquedos? Jogos? Camisetas? Bonés? Luvas? Fora o fato de ser “a cara” do UFC Rio, no dia 28 de agosto, quando a franquia retorna ao Brasil (a busca insana por ingressos é outro fator que comprova a popularidade do esporte). O universo é imenso para uma overdose de Anderson Silva.

Tudo isso é fruto de seu trabalho, claro, mas também fruto de Ronaldo e sua 9ine. O Fenômeno do futebol está colocando a cara do Fenômeno das lutas na mídia. Algo nunca antes pensado. Não precisa nem ir para os anos 90, mas pergunte a Ronaldo, em 2000, se ele colocaria seu dinheiro em MMA. A resposta seria algo como “o que é MMA”. Agora, pergunte hoje. “Onde eu assino”, diria o ex-jogador.  Ronaldo, melhor do mundo, não ficaria fora do melhor negócio do mundo, né?

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