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Xandão, o gol de calcanhar e as lendas do futebol

Xandão (93) antes do calcanhar e do golaço - Foto: Francisco Seco/AP

Xandão (93) antes do calcanhar e do golaço - Foto: Francisco Seco/AP

Tinha tanto para escrever sobre isso, mas é tão inacreditável que eu resolvi reciclar um post antigo. Quando Deivid perdeu aquele gol, sabe, aqueeeele, eu escrevi as linhas abaixo. Quando Xandão, aquele Xandão, sabe, aqueeeele, que teve uma passagem de sucesso estrondoso no São Paulo, faz um gol de calcanhar na Liga Europa, o mundo para.

Messi é um gênio, Neymar é um gênio, mas, diante das qualidades dos jogadores envolvidos, o gol de Xandão é uma das coisas mais inacreditáveis do futebol mundial. Da história da bola. É algo que rompe as leis da física, da química e, claro, do bom-senso. Paradigmas caíram. Enfim, só o texto abaixo para tentar explicar o que aconteceu.

O drible de Garrincha.

O chapéu de Pelé.

A magia de Maradona.

O passe de Didi.

O lançamento de Gerson.

A volúpia de Puskas.

A trivela de Rivellino.

A classe de Carlos Alberto Torres.

O arranque de Messi.

A explosão de Jairzinho.

A leveza de Tostão.

A versatilidade de Cruijff.

A falta de Rogério Ceni.

A frieza de Romário.

A delicadeza de Zidane.

Os gols de Ronaldo.

A cadência de Ademir da Guia.

O requinte de Baggio.

O faro de Careca.

O toque de Zico.

O chute de Van Basten.

A decisão de Rivaldo.

A enciclopédia de Nilton Santos.

O talento de Di Steffano.

As mãos de Gilmar.

A finta de Neymar.

A velocidade de Cristiano Ronaldo.

A bicicleta de Leônidas.

A lenda de Friedenreich.

O sonho de Milla.

A taça de Bellini.

A liderança de Beckenbauer.

O calcanhar de Sócrates.

O milagre de Marcos.

O gol de calcanhar de Xandão.

Texto original: “Deivid, o gol perdido e as lendas do futebol”, 23/03/12.

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São Paulo, o time mais divertido de se ver

São Paulo, ainda desfigurado - Foto: Wagner Carmo/Vipcomm e Arte/Ricardo Zanei

São Paulo, ainda desfigurado - Foto: Wagner Carmo/Vipcomm e Arte/Ricardo Zanei

Você, aí, torcedor de qualquer time, está correndo os canais e descobre que vai passar um jogo do São Paulo. Pare tudo e assista. Com certeza, você não vai se repetir. Para o torcedor tricolor, tem sido um martírio, mas, para quem torce para outro time – ou contra aquele do Morumbi -, ver o São Paulo em campo é diversão garantida.

Tudo se deve a dois fatores. O primeiro, é um time em formação. O segundo: parece que tudo está acontecendo ao mesmo tempo no Morumbi. Jogadores chegam, alguns se machucam, outros se lesionam seriamente (Wellington, uma pena), tem cara suspenso… Aí o time tem que mudar toda hora, não acha o conjunto, enfim… Bata tudo que é problema no liquidificador e, basicamente, o que sai é o São Paulo.

Mas aí você assiste ao jogo e vê que, do meio para a frente, é um time bem armado, bacana de se ver. Tem toque de bola com o Jadson, com o Cícero, até com o Maicon. O Casemiro parece ter acordado de novo. O Cortez caiu como uma luva ali na esquerda. Lucas tem sido mais decisivo. Luis Fabiano se machuca, você pensa “e agora?”, mas um William José ressurge e desanda a fazer gols. Entra um Fernandinho e decide. Enfim, se você é são-paulino ou gosta do bom futebol, é divertido de ver!

Por outro lado, achei apenas uma expressão para definir a defesa tricolor: uma zona. Não vou entrar no mérito de que a marcação tem que começar com os atacantes e blablabla, mas, individualmente, a coisa está triste. Piris, cada vez mais, dá pinta de ser um jogador para time mediano, ou seja, está no lugar errado. Rodolfo está longe dos seus melhores dias. Paulo Miranda é uma tristeza, e Edson Silva começou bem, mas sumiu.

Lá atrás, o time começa com um Denis inconstante, o que é mais do que normal. Afinal, o cara vai treinar e tem um Rogério Ceni babando, louco para voltar. Olha para o banco e tem um cara como Emerson Leão, um dos melhores goleiros da história, gritando com ele. Tem que ter um sangue frio do caramba para assumir a posição e não vacilar. Piscou, levou gol.

Enquanto o São Paulo não se acertar como um todo, tenho certeza que seus jogos serão os mais divertidos de se ver. Hoje, é um time com um ataque insinuante e uma defesa vacilante. Quem sabe, em um, dois meses, essa equipe tenha um ataque ainda mais envolvente, mas ganhe uma defesa segura e consistente. Aí, o São Paulo tem tudo para agradar quem ele mais precisa, o seu torcedor. Por enquanto, é diversão garantida para todos os gostos, menos para o paladar tricolor.

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Deivid, o gol perdido e as lendas do futebol

Deivid, uma lenda - Foto: André Portugal/Vipcomm

Deivid, uma lenda - Foto: André Portugal/Vipcomm

O drible de Garrincha.

O chapéu de Pelé.

A magia de Maradona.

O passe de Didi.

O lançamento de Gerson.

A volúpia de Puskas.

A trivela de Rivellino.

A classe de Carlos Alberto Torres.

O arranque de Messi.

A explosão de Jairzinho.

A leveza de Tostão.

A versatilidade de Cruijff.

A falta de Rogério Ceni.

A frieza de Romário.

A delicadeza de Zidane.

Os gols de Ronaldo.

A cadência de Ademir da Guia.

O requinte de Baggio.

O faro de Careca.

O toque de Zico.

O chute de Van Basten.

A decisão de Rivaldo.

A enciclopédia de Nilton Santos.

O talento de Di Steffano.

As mãos de Gilmar.

A finta de Neymar.

A velocidade de Cristiano Ronaldo.

A bicicleta de Leônidas.

A lenda de Friedenreich.

O sonho de Milla.

A taça de Bellini.

A liderança de Beckenbauer.

O calcanhar de Sócrates.

O milagre de Marcos.

O gol perdido por Deivid.

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Marcos: santo, imortal e a história de um “quase” palmeirense

Marcos e sua reza - Foto: Epitacio Pessoa/AE

Marcos e sua reza - Foto: Epitacio Pessoa/AE

Nasci são-paulino. Em casa, todo mundo era tricolor. Quer dizer, quase todo mundo. Minha mãe, essa intrusa no clã, era palmeirense. Todo mundo que conhece um torcedor alviverde sabe da insanidade que é conviver com esse tipo de pessoa. E eu tive o enorme prazer de crescer e viver ao lado de uma delas.

Meu pai morreu quando eu tinha 5 anos. Meus irmãos, filhos do primeiro casamento dele, são bem mais velhos do que eu (25 e 23 anos). Quando minha mãe ficou viúva, eles já beiravam os 30 e estavam cuidando de começar as suas respectivas família. Normal. Mas isso teve um impacto, digamos, alviverde na minha criação futebolística…

O primeiro jogo que eu fui ver no estádio foi com meu irmão mais velho, bem mais fanático que o do meio, um glorioso Santo André 2 x 1 XV de Jaú, no não menos glorioso estádio Bruno José Daniel, nos idos de 1983 (a foto do ingresso e a legenda escrita pela minha mãe não me deixam mentir). Mas a minha primeira lembrança de ver um jogo ao vivo tem íntima ligação com o Palmeiras.

Minha estreia nos gramados, em vitória do poderoso Santo André - Foto: Arquivo pessoal

Minha estreia no estádio, em vitória do poderoso Santo André - Foto: Arquivo pessoal

No dia 24 de maio de 1987, do alto dos meus quase 9 anos, fui com a louca da minha mãe assistir a um Santo André x Palmeiras. Estávamos nas cadeiras cobertas, e o teto balançava, tremia de dar medo. Na TV, à noite, descobrimos o motivo: uma invasão em massa tomou conta da cobertura das cadeiras. Zetti, então um jovem goleiro, que acabara de assumir a titularidade alviverde, perdeu ali, num chute do veterano Luís Pereira (sim, eu vi Luís Pereira jogar, ao vivo), sua invencibilidade de 1.238 minutos sem levar gol. Foi ali que a minha ligação com o Palmeiras começou a ficar mais, digamos, íntima.

Dois outros fatores levaram a isso: a minha mãe insana e a logística, já que era (e ainda é) bem mais fácil sair de Santo André e chegar ao Palestra do que deixar a cidade mais sensacional do ABC e vislumbrar o gigante Morumbi.

Minha mãe era do tipo de torcedora de estádio, de arquibancada. Pouco depois, quando eu passei a ter uma idade aceitável, uns 12, 13 anos, ela me carregava sempre que dava para o Palestra. Engana-se quem pensa que a gente ia de carro, estacionava lindamente e assistia aos jogos das cadeiras. Nada disso: o trem de Santo André até a Barra Funda demorava uns 50 minutos, e o ingresso era de arquibancada. E não ia só na boa, não: guardo até os ingressos de todos os jogos do time na Série B, que ela, orgulhosa, acompanhou ali, de pertinho. Tomei muita chuva naquele concreto!

Foi graças à idolatria materna que eu conheci Ademir da Guia, Leão, Luís Pereira, César Maluco… Minha mãe amava esses caras, assim como amava Evair, Edmundo, César Sampaio, e um goleiro que começou a ganhar espaço no clube, um tal de Marcos. Mal sabia ele, ela, e tudo quanto é palmeirense, que aquele moleque que fez muita gente chorar com o título da Libertadores de 1999 se tornaria um dos maiores nomes da história da bola.

Não demorou muito para ganhar o apelido de “santo”, “São” Marcos. Um santo que se fere nas batalhas. Um santo que comete erros, que fala o que vem à cabeça, que tropeça, cai e levanta. Um santo verdadeiro. Um santo mortal em tudo o que faz e fez, e imortal exatamente por tudo que fez e faz. Um santo que, como todo santo, realizou milagres e levou milhares de fiéis ao delírio. Marcos foi um ídolo para a minha mãe, o maior ídolo de todos, e acho que peguei um pouquinho dessa idolatria dela para mim. É, de fato, o melhor goleiro que eu vi jogar, capaz de coisas impossíveis. Impossíveis, sim. Afinal, o cara é santo.

P.S.1: Antes que encham o meu saco, sou são-paulino, repito, mas não tenho medo de falar que Marcos foi o melhor goleiro que eu vi em campo, goleiro, aquele cara que fica entre as traves fazendo defesas inacreditáveis. E não é crime isso não! Depois dele, vem Zetti e, em terceiro, Rogério Ceni. Como ídolo, claro que Raí marcou a minha geração, mas é inegável que Ceni, pelo conjunto da obra, como personagem da história da bola, é um monstro.

P.S.2: Foi convivendo com minha mãe que eu, anos depois, descobri que ela havia me ensinado a respeitar as diferenças, a perceber que o esporte é legal, divertido, e é assim que tem que ser. Foi por isso que fiz jornalismo, e é por isso que você, único leitor desse blog, lê essas linhas. “Dona” Zélia era uma esportista de mão cheia, e só perdia a linha quando o neto, então um pequenino corintiano, malinha que só ele, mal esperava o juiz apitar um tropeço alviverde para ligar em casa e encher o saco da vó. Hoje, se ela estivesse viva, com certeza, daria risada de tudo isso.

P.S.3: A imagem que abre esse texto é a imagem mais marcante, para mim, de Marcos. Todo jogador de futebol tem as suas mandingas. Goleiro, então, nem se fala. Mas a maneira simples e intensa que Marcos se benzia antes dos jogos era sensacional. Curioso é que se repetia em todas as partidas, mas, para mim, sempre parecia algo novo. Coisa de santo…

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O São Paulo sabe a receita para o título ou o campeão na última rodada

Rogério Ceni em treno no São Paulo - Foto: João Neto/VIPCOMM

Rogério Ceni em treno no São Paulo - Foto: João Neto/VIPCOMM

É ridículo falar isso, pela situação e pelas palavras, mas os jogadores do São Paulo, mesmo antes da queda do técnico Adilson Batista, deram a receita para um time conquistar o Campeonato Brasileiro de 2011. Eu disse um time, ou seja, um time qualquer, não especialmente o São Paulo.

Vamos às frases, todas ditas depois da derrota para o Atlético-GO:

“Antes de voltar a pensar no título, temos que repensar nossa situação. Precisamos entender o que está acontecendo, não é possível ficar tanto tempo sem ganhar. Precisamos melhorar muito se ainda quisermos algo neste campeonato. O resultado é ruim, principalmente pelo que fizemos no primeiro tempo”, Luis Fabiano

“Não ganhamos há seis jogos, como vou falar sobre título? Tem de falar sobre ganhar o próximo jogo”, Rogério Ceni

Todos os times já tiveram altos e baixos, alguns demoraram mais para retomar a boa fase, outros caíram de vez, outros se recuperaram de vez. Analisar a situação e procurar uma resposta, como disse Luis Fabiano, é o começo do caminho. Não pensar lá no fim do campeonato e sim na próxima rodada, como afirmou Ceni, é o outro passo a ser dado.

Só discordo de uma frase:

“Todo mundo caiu de rendimento. Quando o time não está bem, o individual não aparece. Quando o coletivo vai bem, o individual aparece. Todo mundo está devendo um pouco, o time, principalmente. Eu não carrego o time nas costas, não sou o salvador da pátria”, Lucas

Lucas é jovem, é uma promessa, ainda tem uma vida inteira futebolística para crescer. Mas, se pensar assim, fica difícil. É nos momentos de dificuldade de um time que um cara melhor tecnicamente salva a pátria. O Flamengo, por exemplo, foi campeão porque o Adriano fez tudo que é gol na reta final ou o time estava batendo um bolão? Do outro lado da história, o Fluminense se salvou de um rebaixamento porque goleou todo mundo por 1 a 0 com gol de Fred ou porque o time se achou na reta decisiva?

Ninguém cobra de Lucas que carregue o time nas costas, mas o grande jogador (aquele acima da média) sabe que, na hora de decidir, é ele quem pode pegar a bola e, em um lance, matar o jogo. Esse é o último fator que completa tríade e faz com que os são-paulinos saibam, pelo menos nas palavras, o que é necessário para ser campeão: corrigir os erros, pensar jogo a jogo e, invertendo o que Lucas disse, contar com lampejos de A, B ou C para vencer os jogos mais duros.

Hoje, não consigo dizer se o Corinthians é melhor que o Vasco ou o Flamengo ou o Botafogo e por aí vai. Não conseguirei fazer essa distinção nem amanhã, nem na última rodada. Em um campeonato tão equilibrado como esse, com bons jogos, bons jogadores e nenhum time excepcional, será campeão quem fizer o dever de casa citado acima. O melhor time será campeão? Talvez. O que eu sei é que o campeão será aquele que terminar a última rodada em primeiro.

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