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Saudade

“Oi, mãe!”

“Que horas são?”

“Meianoiteepouco”

(silêncio)

“O Palmeiras contratou o Riquelme?”

“Parece que vai contratar.”

(silêncio)

“Você jantou?”

“Comi no trabalho.”

“Tem macarrão e bife na cozinha, vai comer.”

E lá ia eu para a cozinha, beliscar alguma coisa. E, minutos depois, lá vinha ela atrás de mim, querendo saber se eu estava bem e se o Riquelme já era do Palmeiras. Mais ou menos assim era o diálogo diário quando eu chegava em casa. Mais ou menos nessa ordem. A diferença era a combinação carboidrato + proteína. Do mais, era mais ou menos assim.

Com o passar dos anos, você acaba percebendo que o número de “nunca mais” se multiplica. Você pode fazer o macarrão e fritar o bendito bife do mesmo jeito, mas “nunca mais” será igual ao dela. “Nunca mais” a roupa estará lavada daquele jeito. Sabe suco em pó, que vem com “manual”: pois é, “nunca mais” será igual ao dela. Nem aquele copo d’água, retirado do mesmo filtro, parece ter o mesmo sabor. É, amigo, “nunca mais”…

E de “nunca mais” em “nunca mais” os dias passam. Semanas, meses. Anos, até. Sete, mais precisamente. Sete anos sem a preocupação e as broncas maternas – que saudade das broncas! -, sem a maluquice alviverde, sem os diálogos, sem a presença… Sete anos de muitos “nunca mais”.

De “nunca mais” em “nunca mais” a gente vai levando e nem percebe que, cada vez mais, a gente se parece. O jeitão, as atitudes, as palavras, as reações, os pensamentos. Essa é a herança, o legado.

De “nunca mais” em “nunca mais”, a gente vai levando… Fica a saudade. Essa, inversamente proporcional. Essa, na casa do “sempre mais”. E é nessa gangorra que a gente vai levando…

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Corinthians x Boca: “Por uma cabeza”

“Por una cabeza” é um dos tangos mais famosos do mundo, acho que o mais conhecido. A música fala de um apostador, que compara seu vício em corrida de cavalos a suas conquistas – e desilusões – amorosas.

É aquela coisa de perder – na corrida, no amor – e dizer que nunca mais vai apostar. Mas, sabe como é, se aparece um páreo interessante – ou uma mulher interessante -, por que não jogar? Parece até futebol: o time perde, você fica puto, diz que nunca mais vai ao estádio, mas aí chega a quarta-feira, tem aquele jogo sedutor e, sabe como é…

Em “Por una cabeza”, se ganha ou se perde sempre por muito pouco, daí o título. Como no mundo da bola, títulos são conquistados em um piscar de olhos: um chute de longe que desvia em alguém e entra, um bate-rebate na área, um drible, um chute perfeito. Sempre apertado, sempre suado.

Talvez a metáfora boleira tenha a ver com a origem da música. Carlos Gardel, o cantor que botou voz no tango e popularizou a música pelo mundo, nasceu em Toulouse, na França, mas chegou, ainda criancinha, a Tacuarembó, no Uruguai. Depois, naturalizou-se argentino.

A letra é de Alfredo Le Pera, nascido em São Paulo, mas “paulista”, de fato, por apenas alguns meses. Os pais, italianos, logo foram para a Argentina. Ainda garoto, escrevia poesias. Depois, letras de música. Quase todas as cantadas por Gardel têm o toque de Le Pera. “Por una cabeza” é uma delas.

“Por una cabeza” foi gravada em 19 de março de 1935, em Nova York. Mas Gardel e Le Pera não tiveram a oportunidade de ver a música explodir pelo mundo: a dupla morreu em um acidente aéreo na Colômbia, dia 24 de junho do mesmo ano. Gardel tinha 44. Le Pera, 35.

França, Uruguai, Brasil, Argentina, Itália, EUA, Colômbia, uma mistureba daquelas marca a origem e o fim do sucesso, a origem e o fim da dupla, marca “Por una cabeza”. Nessa minha ficção, é uma mistureba à la Corinthians, à la Boca, uma mistureba que, com o perdão da redundância, se mistura com as histórias de tantos brasileiros, tantos argentinos, separados por uma fronteira, um idioma e posturas distintas, mas “quase” parentes e sempre rivais.

Corinthians e Boca fazem uma final assim, cheia de paralelos e perpendiculares, de times que não são os melhores do mundo, mas passaram por cima de todos os rivais e hoje, merecidamente, decidem a América. Será um daqueles títulos chorados, emocionantes, uma explosão de felicidade para uns, um abismo de tristeza para outros. Será uma final com cara de tango, com sofrimento e alegria. Será uma final apertada, suada. Um campeão “por una cabeza”.

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Uma ansiedade chamada final de Libertadores

Você é corintiano? O coração está na ponta da língua, né? Não é? Tá com a boca seca, então? Torça ou não para o Corinthians, a ansiedade é a palavra do torcedor um dia antes da final da Libertadores contra o Boca Juniors.

Você liga a TV e só se fala do jogo. Está assistindo à novela e passam um, dois, três comerciais sobre a partida. Se bobear, no meio de um filme no cinema, Woody Allen é capaz de parar a cena e, olhando direto no seu olho, perguntar: “E aí? Corinthians ou Boca?”.

Os momentos que antecedem um grande jogo são dos mais tensos para qualquer torcedor. Para aquele que tem seu time envolvido, é uma verdadeira tortura esperar o apito inicial. Para quem não tem, é hora de esconder as unhas ruídas e encher o saco – no melhor sentido da expressão – antes do confronto.

A final da Libertadores é o momento mais esperado para o torcedor brasileiro. Talvez pela proximidade com jogo decisivo, disputado no Brasil, soa muitas vezes mais importante que um Mundial.

Nesta quarta, tudo que é torcedor estará ligado no grande jogo. Muitos torcendo, outros secando. Até, ansiedade. Ansiedade que descansa com o início da decisão, mas que só vai terminar com o apito final. Mas aí tem o Brasileiro, o Mundial, recomeça a Libertadores…

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Pequeno manual prático para ganhar – ou perder – do Boca Juniors

La Bombonera, palco da final - Foto: Ricardo Zanei

La Bombonera, palco da final – Foto: Ricardo Zanei

Rabisquei uma enorme análise tática, mas, ao fim, depois de escrever e escrever, percebi o óbvio: o Boca Juniors é um daqueles times sem mistério. Não tem suspense na escalação, não tem mudanças táticas mirabolantes. Assim, resolvi ir direito ao assunto e fazer um pequeno manual para se bater a equipe argentina – ou, se você preferir, para se vencer o Corinthians. Tudo depende da leitura…

O Boca atua num 4-4-2 sem frescura. A equipe de Julio César Falcioni joga com quatro defensores, três volantes (ou um volantão e dois meias recuados), um meia meia mesmo, dois atacantes. Simples.

Orión é um goleiro experiente, de 31 anos, mas ainda assim, inconstante. É capaz de pegar um chute de Rivellino no ângulo e, no lance seguinte, levar um gol de Xandão, em chute de canhota, sem força, do meio-campo.

A zaga é formada por Schiavi, 1,91 m, veteraníssimo de 39 anos, e Caruzzo, 1,83 m, 27 anos, que assumiu a vaga do lesionado Insaurralde. Aí, talvez, esteja o principal problema da equipe, principalmente pelas falhas nas bolas alçadas na área: afastar o perigo, muitas vezes, é um tormento para a dupla.

São dois laterais: Roncaglia, pela direita, ataca pouco e marca com deficiência, enquanto Clemente Rodrígues, pela esquerda, ataca. O carequinha é responsável pela saída de jogo, aparece bem à frente para cruzar, gosta de chutar de longe e de bater faltas. É um dos pontos altos do time.

O meio-campo começa com Somoza, volantão clássico, à frente da zaga. Pela direita, Ledesma é um meia recuado, com duas missões: a prioridade é ajudar na marcação, mas, se der brecha, avança. Pela esquerda, o cabeludinho Erviti tem velocidade para atacar e forma uma bela dupla com Clemente Rodríguez. A parceria é imprescindível para que o Boca agrida o Corinthians.

Centralizado está Riquelme. Minha opinião sobre ele está no texto “Boca e Libertadores e um capeta chamado Riquelme: feitos um para o outro”. É um meia clássico, o cara que pode decidir tudo com um tapa na bola. Um monstro!

No ataque, Mouche é um canhotinho que adora cair pela direita. Cruza bem, sabe driblar, enfim, é perigoso. Atenção redobrada também para Santiago “El Tanque” Silva, esse grosso que virou piada quando passou pelo Corinthians, mas que faz gols no Boca.

Riquelme - Foto: Ricardo Zanei

Riquelme – Foto: Ricardo Zanei


Como fazer um golzinho
O ataque do Corinthians não é nem um pouco avassalador, mas a zaga do Boca também não é a melhor do planeta. O problemão argentino é a bola alçada na área: levantar a redonda, especialmente da intermediária, pode ser o caminho. Dos sete gols sofridos, seis nasceram de cruzamentos para a área, três deles nas costas de Roncaglia.

Mas, sem um atacante de área, será que o Corinthians conseguirá tirar proveito disso? Por isso, é sempre bom ter um plano B. Se a zaga tirar, o rebote pode ser a saída. Dois gols nasceram, ambos dentro da área (ambos contra o Unión Española, um fora e um em casa), de bolas mal rebatidas pela defesa argentina.

Para fazer gol no Corinthians, pelo retrospecto na Libertadores, é necessário um fator imprescindível: sorte. Foram apenas três gols sofridos no torneio, dois na pequena área, um na marca do pênalti. O que falta no ataque corintiano, o tal “homem de área”, pode ser a solução xeneize. Palermo parou, mas, quem sabe, Santiago Silva pode ser a salvação.

Depois dessa análise espetacular, ficou claro que o jogo está praticamente definido. Quem leu sabe que a bola nem precisa rolar. Está na cara: o campeão será o… Quarta-feira, dia 4, a gente conversa.

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