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Não existe racismo no Brasil*

Racismo? No Brasil? Não existe. Sério, pessoal, que papinho é esse.

Estamos no século 21, nosso país está mais civilizado e evoluído do que nunca. Racismo? Há!

Não entendo as pessoas ainda falarem disso. É claro, é cristalino, vejam meu exemplo.

A família do meu pai, italianos e cariocas, Orlandos, Mansuetos e Zaneis. Meu avô materno, espanhol, Parra Hernández, de Salamanca. Minha avó materna, de linhagem indígena, carregou um Camargo, que pode indicar um encontro espanhol antes do meu avô ou, ainda, ter nascido em Portugal. Ou seja, minhas raízes vieram de todos os cantos!

Minha pele é branca, bem branca, branca mesmo. Quando tomo sol, ou fico naquele rosa ridículo, ou naquele vermelho prestes a dar entrada no pronto-socorro. Tomo até vitamina D para suprir a falta dela no meu organismo!

Sou de Santo André. Para quem não sabe onde é, São Paulo faz parte da Grande Santo André. Para muitos, é interior. “Interior”. Há, balela.

Minha família sempre foi de classe média. Estudei em escola particular. Fiz faculdade particular.

Mesmo com tudo isso, com tudo isso, gente do céu, nunca fui vítima de racismo. Sou miscigenado, vindo do interior, e nunca vi nada disso. É verdade, gente. Nunca mesmo!

Deve ter muita gente (gente?) que pensa assim. É essa gente (gente?) que não pensa (pensa?) duas vezes antes de soltar um “macaco”, um “tinha que ser preto” ou qualquer outra blasfêmia preconceituosa. O motivo: a cor da pele.

Não existe racismo no Brasil. Claro que não, especialmente para alguém como eu. Mas, deveria, né? Afinal, é quase incompreensível que eu seja branco, ou, para quem olhar de perto, basicamente pálido. É só bater o olho, por exemplo, na família da minha mãe, que você tem a nítida noção da mistureba: tem negro, tem branco, tem todas as variações de cores entre o “negro” e o “branco”. Eu saí branco. Tem primo meu que é negro. E, bem, e daí?

E daí que tem muita gente como eu por aqui. Quando digo “por aqui”, falo com propriedade de São Paulo e sua mistureba toda. Quando digo como eu, digo essa essa gente (gente?) de pele branca e cara de gringo (e gringo, é bom explicar, não é preconceito com quem não é brasileiro, é apenas uma palavra de cinco letras para designar que estou falando de pessoas não nascidas no nosso país, ok?). Quando digo “como eu por aqui”, é gente (gente?) que está lendo esse texto e, pasmem, chegou até aqui na leitura. Para essa gente (gente?), para mim, não tem racismo no Brasil. É gente (gente?) que bate no peito para defender a tese furada do título desse post. Gente (Gente?)???

Tudo isso é incompreensível, mas aposto que tem gente (gente?) que consegue explicar, por A + B, todo o motivo desse repúdio. Gente (gente?) que convive comigo, com você. Gente (gente?) da minha, da sua família.

Esse blog trata prioritariamente de esporte. Os últimos acontecimentos racistas ligados a esportistas são, como diria Datena, “um tapa na cara da sociedade”. Um tapa na minha cara branca, que ficaria vermelha, depois rosa, depois voltaria ao transparente habitual. Um tapa que escancara como o brasileiro (gente, sabe?) é preconceituoso. É muito, mas muito preconceituoso.

PAUSE! Antes que os patrulheiros surjam, me antecipo. Por favor, não me venham falar que espanhol é preconceituoso, que africano é preconceituoso, que holandês, dinamarquês, japonês, dane-se. Esse texto não fala de espanhol, nem de africano, nem de holandês, dinamarquês, muito menos de japonês. Esse texto fala sobre coisas que estão acontecendo nas nossas caras, com brasileiros como eu e você, e essas “coisas” são apenas e tão somente a amplificação (“tapa na cara da sociedade”, manja?) de algo que está enraizado no nosso mundinho verde e amarelo desde sempre. Preconceito existe no Brasil desde que o “terra à vista” de Cabral, existe desde a criação da melhor mistura da história do homem, arroz com feijão. Arroz branco e feijão preto. Curioso, não? PLAY!

Se eu olhar para o meu umbigo, se eu quiser ler de uma maneira torta a parte em itálico desse texto, a conclusão clara e cristalina (clara? cristalina?) é que não existe mesmo racismo no Brasil. E tem gente (gente?) que pode não entender o quanto é torto – e mesquinho e infeliz, enfim, escolham os “elogios” – o texto em itálico aqui escrito. Uma pena que muita gente (gente?) viva a sua vida apenas em itálico, vida torta como o itálico. Pior que isso, é gente (gente?) que acredite piamente nesse papo que preconceito não existe. Século 21? Sociedade evoluída, civilizada? Balela.

P.S.1: Para quem não entendeu nada, duas aberrações nesta quinta-feira. “Árbitro relata insultos racistas e encontra bananas sobre seu carro” e “Racismo outra vez: Arouca é chamado de ‘macaco’ na saída de campo”, com direito ao áudio da agressão, que eu tive o total desprazer de ouvir ao vivo. Repugnante.
P.S.2: Ah, e para quem acha que isso é coisa de agora, tem um textinho de minha autoria na ESPN dos EUA, em inglês, que versa sobre o tema, “The not-so-beautiful side of Brazilian football”.
P.S.3: Ao me dar um beijo de boa noite, minha amada leu o título desse texto e soltou um “você realmente não está passando bem”, acho que em parte um trocadilho sobre a minha ausência no trabalho nesta quinta por motivos de saúde. Nada grave, calma, mas poderia ser se ela achasse, realmente, que eu defendia a “tese” do título. Ainda bem que foi só a pressão e a glicemia que baixaram demais. A noção de decência, não. Nem minha, nem dela.

*A falta que um sinal de ironia faz

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Buenos Aires, ignorância e preconceito

"Bendito é o fruto do teu ventre", Catedral Metropolitana de Buenos Aires, abril/12 - Foto: Ricardo Zanei

"Bendito é o fruto do teu ventre", Catedral Metropolitana de Buenos Aires, abril/12 - Foto: Ricardo Zanei

(Para aquelas duas pessoas que lêem esse blog por causa das bobagens que escrevo sobre esporte, abro um parênteses para tocar em outro assunto, a meu ver, bem mais importante e relevante que gol, cesta e ponto…)

Ficar uma semana em outro país, qualquer que seja, é um aprendizado. Pode ser aqui do lado, mas as coisas são diferentes. O ar e a vida são outros. Melhores? Piores? Não sei, mas são outros.

Moro em São Paulo há cinco anos, depois de passar quase 29 na aprazível Santo André. Confesso que conheço muito pouco do meu Estado e, inclusive, dessas duas cidades. Por exemplo, fui uma vez para Sorocaba. Piracicaba, Joanópolis, Serra Negra, São Roque, idem. Fui duas para Campinas e Águas de Lindoia. Algumas para Mogi Mirim, terra da minha mãe. Nunca entrei na Igreja da Sé, nem no Parque Burle Marx ou no Parque do Carmo. Mas completei, na última semana, minha terceira passagem por Buenos Aires. No total, é quase um mês de Argentina na minha vida.

Curioso como tem tanta coisa aqui do lado que eu não conheço e, ao mesmo tempo, como consigo me virar e me sentir tão bem na capital argentina. Voltei após uma ausência de quase quatro anos. A desculpa foi o show do Foo Fighters. Mas, admito, foi apenas um pretexto para matar a saudade.

Aproveitei a semana para me desligar das coisas. Levei o laptop, mas me neguei a escrever nesse blog, bem como a bater o olho em qualquer assunto que lembrasse trabalho. Uma semana de descompressão, de vinho e tango, de bife de chorizo e Foo Fighters, de parrillas, morcillas e Quilmes.

Argentina 3 x 0 Bolívia, eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, estádio Monumental de Nuñez, nov/07 - Foto: Ricardo Zanei

Argentina 3 x 0 Bolívia, eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, estádio Monumental de Nuñez, nov/07 - Foto: Ricardo Zanei

Foi, ainda, uma semana de surpresas. Encontrei um dos meus melhores amigos lá. Moramos a, no máximo, 3 km de distância em São Paulo e não conseguimos nos encontrar. Aí, na mesmoa semana, eu vou passear, ele vai trabalhar, e matamos um pouco da saudade. Além disso, a linda Cecília, direto de Washington, resolveu dizer o seu primeiro “oi” e completou o trio de pequenos que chegou agora e já encheu as nossas vidas de alegria.

Sempre falo que sou suspeito para dizer qualquer coisa sobre Buenos Aires. É uma cidade linda e com uma aura indescritível. Os bairros são peculiares, cada um com sua identidade, encantos e surpresas. O Real tem vencido o Peso com facilidade, e isso ajuda, mas já ajudou muito mais. A comida é das melhores – leia-se “carne, carne, carne”, e que carne boa! -, e o vinho é de chorar. Enfim, é tudo realmente muito bom.

Mas percebi, lendo aqui e ali, que ainda tem brasileiro, mas muito brasileiro, do meu ciclo de amizades ou de pessoas próximas a mim, que são completamente ignorantes quando o assunto é Argentina e Buenos Aires.

Ignorante, no dicionário Houaiss:

Acepções
■ adjetivo de dois gêneros
1 que desconhece a existência de algo; que não está a par de alguma coisa
Ex.: um povo ainda i. da escrita
2 que denota a ignorância do autor ou daquele que é responsável por uma obra
Ex.: um livro i., um filme i.
3 sem malícia; puro, inocente
Ex.: uma alma cândida, i.
■ adjetivo e substantivo de dois gêneros
4 que ou quem não tem conhecimento por não ter estudado, praticado ou experimentado; incompetente, inexperiente
Ex.: i. em matemática, não passa de um i.
5 mal-educado, grosseiro; pretensioso, presunçoso
Ex.: maneiras i., é um i. que se acredita dono da verdade

Vi que ainda tem gente que nunca topou com um argentino, mas acha que todos são filhos da p***. Mais: que é um país ridículo, escroto, que não merece ser notado, quanto mais visitado. Enfim, além de ignorância, há o preconceito.

Preconceito, no dicionário Houaiss:

Acepções
■ substantivo masculino
1 qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico
1.1 idéia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão
2 atitude, sentimento ou parecer insensato, esp. de natureza hostil, assumido em conseqüência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância
Obs.: cf. estereótipo (‘padrão fixo’, ‘idéia ou convicção’)
Ex.: p. contra um grupo religioso, nacional ou racial, p. racial
3 conjunto de tais atitudes
Ex.: combater o p.
4 Rubrica: psicanálise.
qualquer atitude étnica que preencha uma função irracional específica, para seu portador
Ex.: p. alimentados pelo inconsciente individual

Claro que eu sabia que isso existia, mas em tempos de Facebook, Twitter e informação imediata, fiquei impressionado, com a quantidade de gente que pensa assim.

Há, sim, uma rixa verdadeira entre Brasil e Argentina. Uma única rusga, única, ela se limita apenas e tão somente ao futebol. Saiu disso, acabou, meu caro. Eles são Maradona, a gente é Pelé. A gente, olha que engraçado, é verde e amarelo, e eles são azul e branco. Complementares?

“¿Qué Ves?” – Divididos
¿Que ves?
¿Que ves cuando me ves?
Cuando la mentira es la verdad

O argentino acha, sim, que é o melhor do mundo. Afinal, se eles não acharem, quem é que vai achar? A diferença é que eles não precisam me chamar de filho da p*** para isso, nem falar que meu país é uma bosta. Pelo contrário, todos com quem falei em quase um mês, em períodos distintos, elogiaram o Brasil. Alguns, sem saber que eu era brasileiro. Bem diferente do que temos aqui, não?

O que me deixa mais preocupado é que esse tipo de ignorância e preconceito pode tomar outros níveis. Alguém aí em sã consciência sabe me explicar por que a pessoa A xinga a pessoa B por causa da cor da sua pele? Paralelamente, temo que A seja a mesma pessoa que xingue a pessoa B – ou C ou D ou… – apenas pela localização geográfica de seu local de nascimento. Preconceito e ignorância, crimes que andam, via de regra, juntinhos, de mãos dadas.

Voltar para casa de uma viagem sempre me deixa meio deprimido, mas logo passa. Voltar de Buenos Aires sempre é diferente, porque a depressão é mais profunda, simplesmente pelo fato de “voltar”. Voltar de Buenos Aires e me deparar com o que deparei, esse preconceito e essa ignorância descabidos, me deixa ainda mais cabisbaixo. Pensar que, com tanta informação por aí, ainda tem gente que se nega a abrir os olhos.

Não sou a pessoa mais viajada do mundo, nem a mais inteligente, muito menos a mais correta. Mas, de uma forma ou de outra, procuro me informar. Não apenas por ser jornalista e ter que, muitas vezes, repassar uma informação da maneira mais simples e clara possível. Mas como cidadão, sabe? Tenho meus preconceitos e minhas ignorâncias, mas a mente está aberta para qualquer assunto e experiência. Claro que correr atrás de informação e tentar aprender algo aqui e ali é difícil. Mais fácil mesmo é achar que, se não é igual a mim, é tudo filho da p***, escroto, desprezível. E haja ignorância e preconceito. Uma pena.

“Por una cabeza” – Carlos Gardel


P.S.: Obviamente, generalizei as coisas. Claro que tem argentino filho da p***, assim como tem brasileiro filho da p***. Claro que lá não é o paraíso, assim como aqui não é também. É assim em todo o lugar do mundo, não? Bom, vocês entenderam, né?

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“Vai lá, macaco! Volta pro zoológico!”

Wallace - Foto: Divulgação/CBV

Wallace - Foto: Divulgação/CBV

Nunca imaginei que começaria um post com uma frase como essa. Nunca mesmo, ainda mais em um blog que trata, basicamente, de esporte. Mas ainda existem animais no planeta, com perdão à ofensa cometida aos nobres bichinhos. Pior que existem muitos, muitos mesmo. São “pessoas” que se acham muito melhores, superiores que as outras, por causa da cor da pele. Acho que palavras como “lamentável” e “inaceitável” são ínfimas perto da brutalidade de um crime como o preconceito. Sim, preconceito é crime, e deve ser tratado como tal. Só assim essa sociedade ridícula e falida pode dar uma resposta no mínimo aceitável para esse ato de crueldade e covardia.

Todo mundo sabe o que aconteceu com Wallace, jogador do Sada/Cruzeiro, na Superliga masculina de vôlei, não? Se não sabe, clique aqui e assista à matéria do SporTV, que merece elogios por ser bem elucidativa.

Porém, existem vários pontos que não se encaixam, coisas de uma sociedade, repito, ridícula e falida. Vamos aos fatos e aos comentários:

– Em nota, veiculada em seu site oficial, que pode ser lida aqui, o Sada/Cruzeiro diz: “Foi solicitado que o delegado responsável pela partida registrasse o fato no relatório do jogo, que será encaminhado para a Confederação Brasileira de Voleibol – CBV.”

Com todo o respeito ao Sada/Cruzeiro, dane-se a CBV. Isso é caso de polícia. É pegar as imagens de TV, fazer Boletim de Ocorrência e dar trabalho para os advogados do clube: esse “ser” que disse o que disse tem que responder criminalmente pelo que falou.

É lei, meus caros, número 9.459, de 13 de maio de 1997, assinada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso: “Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Esse indivíduo, se é que pode ser chamado assim, tem que responder pelo que falou atrás das grades.

– Em nota, também em sua página oficial, que pode ser lida aqui, o Minas Tênis Clube diz que “lamenta e repudia o episódio” e que “É justo destacar que se tratou de manifestação individual, impossível de ser controlada pelo Clube e que em nada reflete a filosofia e os valores do Minas.”

Sinceramente, que nota oficial babaca. Sim, foi uma “manifestação individual” e é “impossível de ser controlada”: claro que o Minas, nem eu, nem ninguém, vai conseguir deter um ser acéfalo antes de ele cometer o crime que cometeu. Controlar não dá, mas coibir, dá sim. Falou o que falou, baixa polícia e pega o criminoso na unha. Mas, sabe como é, dá trabalho. E ninguém quer isso, né?

– O SporTV ouviu Ricardo Santiago, diretor de vôlei masculino do Minas, que “esclareceu” o que pode acontecer se a criminosa for descoberta, ou melhor, reconhecida: “Penalidade que vai até a exclusão do quadro de associados, isso não faz parte da cultura do Minas Tênis Clube”.

Para tudo, gente. Pelamordedeus, dane-se o quadro do clube. Cacete, estamos diante de um crime. Crime, sabe, daqueles que rola cadeia, que rola processo? Fico com a impressão que, para o Minas, é bem mais simples dizer que “repudia”, que isso e aquilo, ao invés de tomar ações drásticas. Vamos combinar que falar é bem mais simples que agir, não?

– Em nota, em seu site oficial, que pode ser lida aqui, a CBV diz: “Sobre o possível caso de preconceito” e blablabla. Segue a nota com “Sobre o fato, o relatório do delegado da partida em questão relata que, ao ser comunicado da agressão verbal direta, de cunho racista, (…) acionou a segurança para identificar o agressor. Até o fim da partida, o mesmo não foi identificado dentre o público presente na Arena Vivo, em Belo Horizonte (MG).”

A CBV, entidade que rege o vôlei no país, abre a sua nota oficial falando em “possível caso de preconceito”. Vamos lá: “Vai lá, macaco! Volta pro zoológico!”, realmente, deixa dúvida, não? O que esperar se, quem manda, começa uma nota oficial, ou seja, um documento, dessa maneira imbecil.

Vamos além. O delegado, pelo menos, acionou a segurança, mas não identificaram o agressor. Lembro que, quando a Lei Pelé passou a figurar, e as pessoas passaram a responder criminalmente sobre seus atos em arenas esportivas, qualquer papelzinho que caía num gramado era dedurado por quem estava ao lado. Sabe como é, aquele pedaço de algodão que foi lançado no campo pode tirar o mando de campo de seu time. Aí, quando rolava, não dava para contar a quantidade de dedo que apontava para o meliante, isso quando o mané já não tinha sido espancado pelos mais exaltados.

Mas agora estamos falando do quê? Racismo? Ah, que é isso, deixa pra lá. Não foi comigo mesmo, né? Meu time não vai perder o mando, né? Então, dane-se. Mas fico pensando: será que nenhum cidadão viu quem falou o que falou? Não tinha ninguém ali no ginásio, né? “Ah, é feio dedurar”. Sim, concordo. Mas, no caso de um crime, dedurar é denunciar, e denunciar é um ato de cidadania, mais do que isso, um dever.

O que passou pela minha cabeça ao ver o que aconteceu é impublicável, mesmo nesse blog que tem meia dúzia de leitores. Só posso dizer que o meu pensamento foi o mesmo de Wallace. Se ele falou que, graças a Deus, não encontrou a pessoa que falou o que falou, eu penso ao contrário: fico triste que ele não tenha encontrado. E, se eu estivesse ali, ajudaria. Com gosto.

O resumo da ópera é que nada vai acontecer. Ou, se acontecer, será no âmbito esportivo. Dane-se o esporte, o vôlei, dane-se tudo nesse episódio. É um caso de polícia, e é assim que tem que ser tratado. Ou seria, numa sociedade séria, mas, na nossa, falida e nojenta, não vai dar em nada.

Pior que tudo isso é saber que o caso Wallace é apenas mais um caso nesse Brasilzão preconceituoso. “Ah, que mentira, não tem preconceito no Brasil”. Ahã. Não tem pra você, que é branquinho (a) como eu, que é de classe média como eu. Preconceito existe em tudo que é canto, às vezes escondidinho, ali, debaixo do tapete, mas ele continua vivendo ali. O episódio em Minas é só um exemplo que, por sorte, foi flagrado pelo áudio da TV. E aqueles tantos outros, em quatro paredes, como ficam?

Não ficam, são tratados como se não existissem. Como se “Vai lá, macaco! Volta pro zoológico!” fosse um “possível caso de preconceito”. Nossa sociedade, especialmente quem manda nela, é de dar nojo.

P.S.1: Ao reler o texto, percebi que escrevi “tem que” várias vezes. Não mudei nenhuma delas. O “tem que” mostra como deveria ser se o nosso país fosse sério, mas não é, e o “tem que”, muitas vezes, pode ser lido como “teria que”.
P.S.2: Esse episódio me fez lembrar do Carnaval e aquele papelão em São Paulo, aquela revolta toda por causa de plumas, paetês, surdos e reco-recos. Agora, em um caso de preconceito, não teve uma alma que se levantou. Triste.
P.S.3: E ainda tem o caso Michael, que não podemos esquecer jamais.

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