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O gol de Ganso

Ganso e o golaço - Foto: Ivan Storti/Divulgação Santos FC, Arte/Ricardo Zanei

Ganso e o golaço - Foto: Ivan Storti/Divulgação Santos FC, Arte/Ricardo Zanei

A surpresa talvez seja o fator que mais chama a atenção em qualquer disputa esportiva. É ela que faz com que aquele lance normal se torne algo espetacular e inesquecível. Sem ela, o esporte seria um marasmo. Mas, ela só existe graças aos gênios, monstros, craques, aos acima da média.

O gol de Paulo Henrique Ganso contra a Catanduvense foi um exemplo perfeito da surpresa. Bola na entrada da área, marcação distante, liberdade para soltar aquela cacetada para o gol. Aí, em um instante, em uma fração de segundo, ele bate o olho e resolver fazer o que ninguém pensou.

O toque por cobertura é perfeito por tantos motivos… A sutileza do movimento fez com Ganso escondesse o totózinho na bola até o último instante. O toque sai justo, a bola ganha a altura apenas e tão somente necessária para encobrir o goleiro. O goleirão se estica loucamente, plasticamente, mas não consegue evitar. E a bola, enfim, cai mansa nas redes.

Tudo bem, o adversário não era nenhum bicho de 7 cabeças, mas o time dos Santos fez o dever de casa. Além disso, abriu o segundo centenário com um gol daqueles especiais, espetaculares. Um belo cartão de visitas para os próximos 100, 200, 1000 anos.

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Ao Santos, 100, uma reverência

Santos, 100 anos - Foto: Site oficial do Santos

Santos, 100 anos - Foto: Site oficial do Santos

Não sou santista, mas cresci cercado por eles. Tios, amigos, vizinhos. Na escola, confesso, eram poucos. No trabalho, eram muitos e, admito, insuportáveis.

Não vi Pelé, nem Coutinho. Ouvi falar de Pepe, Gilmar, Dorval, Pagão… Li muito sobre caras como Ramos Delgado, Carlos Alberto, Mauro, Zito… Nunca fui à Vila Belmiro, confesso, e isso pode até ser encarado como um desvio de caráter. Aprendi a gostar muito de Toninho Guerreiro, Pita e Serginho Chulapa, especialmente pelos feitos no Morumbi.

Santos, 100 anos

Curioso como cinco momentos não saem da minha cabeça quando o assunto é Santos. O primeiro, claro, não tem data registrada na minha memória, mas talvez seja o mais nítido de todos. Bruno José Daniel, Santo André vencendo por 1 a 0. Escanteio para o Santos, a zaga afasta, e Marcelo Fernandes – se não me falha a memória – acerta um petardo da intermediária e empata o jogo. Golaço.

O segundo foi em 1995, na semifinal do Campeonato Brasileiro. Acho que todo paulista, nem que por um instante, torceu por aquele time. Como jogava bola! Macedo, Marcelo Passos, Carlinhos… E, obviamente, o monstro Giovanni. Aquele jogo contra o Fluminense, o ficar no gramado o intervalo, e a transmissão épica da rádio Jovem Pan arrepiam até hoje, só de lembrar.

Santos 5 x 2 Fluminense, semifinal do Brasileirão-2005

Em 2002, a coisa toda foi engraçada. Estava na casa da namorada na época. Ela e a mãe estavam no quarto, assistindo a seiláoquê, e me deixaram na sala vendo a final do Brasileiro. Quando Robinho eternizou a pedalada, entortou Rogério e sofreu o famoso pênalti, eu surtei.

Surtei completamente com aquilo, a velocidade, a sincronia de movimentos, a capacidade de ainda driblar depois daquele show – e pensar que Robinho era apenas um menino de 18 anos! Perdi a linha, fui na varanda e gritei algo como “esse moleque é um gênio”. Era um prédio chique, e eu não esperava que seria tão xingado pelos corintianos. Devo ter gritado muito, ou a acústica da rua era especialmente boa, pois ouvi impropérios das varandas do outro lado da rua.

Só sei que, depois disso, a sogra e a namorada, sempre das mais comportadas no prédio, ficaram dias e dias sem abrir a varanda. A culpa, claramente, não foi minha, mas exclusivamente de Robinho.

Corinthians 2 x 3 Santos, final do Brasileirão-2002

Enfim, em 2003, eu tinha acabado de começar no UOL quando um, então colega de redação e, hoje, grande amigo, me convenceu a ir ao Morumbi ver a final da Libertadores contra o Boca. Tínhamos credenciais e, de alguma forma, poderíamos ajudar na cobertura, como fizemos.

Lembro que fomos com meu carro e estacionamos na casa do chapéu. Vimos o primeiro tempo em pé, já que não tinha lugar nem na sala de imprensa. Fiquei impressionado com a torcida do Boca, que não parava de cantar e calou o estádio como se estivesse em La Bombonera.

Com a bola rolando, lembro da maneira sufocante que o Boca marcava. O Santos tinha a bola, mas não conseguia chegar. O que o tal do Bataglia marcou o Diego foi algo fora do comum, impressionante. Por fim, na entrevista coletiva de Carlos Bianchi, assim que ele entrou na sala de imprensa, foi aplaudido de pé pelos jornalistas argentinos. Foi a primeira e única vez que eu vi um técnico ser aplaudido e que vi uma manifestação pública de integrantes da imprensa.

Santos 1 x 3 Boca Juniors, final da Libertadores-2003

Enfim, em maio de 2010, fui convencido por um amigo a assistir ao segundo jogo da final do Paulistão contra um dos melhores e mais breves times da história do Santo André. “Pô, Ganso e Neymar vão jogar. Daqui a pouco são vendidos, e a gente não viu esses caras ao vivo”, foi o argumento que me tirou de casa e me levou ao Pacaembu. Foi, sem dúvida, eletrizante!

Mais do que o título, a festa, ficou na memória toque de Ganso para o segundo gol santista. Até hoje, depois de ver e rever esse lance, eu não entendo como o meia viu que Neymar estava ali. Uma coisa de outro mundo, assim como a cena de ver um amigo atravessar correndo a Dr. Arnaldo e ficar no meio da avenida gritando loucamente quando o “Baleião”, o ônibus do Santos, tomava seu caminho de casa. Hilário e histórico!

Santos 2 x 3 Santo André, final do Paulistão-2010

Tudo isso para dizer que todo time grande é feito de vitórias e tropeços, de craques e pernas de pau, de dribles e gols, para lá e para cá. O Santos é grande, gigante, estratosférico. E isso valoriza ainda mais os seus rivais.

Ao Santos e aos santistas, a maior das reverências. Que venham mais 100, 1000 anos de vitórias e sorrisos, algumas derrotas e poucas lágrimas e, por que não, um ou outro título. Que venham mais zilhões de anos de Copertinos, Giovannis, Robinho e, para dar graça, um ou outro Boca ou Barcelona pelo caminho. Afinal, hoje, mais do que nunca, quem dá bola é o Santos.

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Ano do Dragão? Que nada, Ano do Ganso, sem Paulo Henrique

Ganso em ação pela seleção - Foto: Mowa Press / Arte: Ricardo Zanei

Ganso em ação pela seleção - Foto: Mowa Press / Arte: Ricardo Zanei

Eles pareciam uma coisa só. Como SandyeJunior e ChitãozinhoeXororó, NeymareGanso surgiu como a dupla de maior potencial do futebol brasileiro desde Pelé e Garrincha. Neymar decolou, ganhou asas, assumiu um cabelo escroto e conquistou o mundo. Ganso parou no tempo.

Era ele a nossa esperança de camisa 10 da seleção de Dunga, mas o técnico não o levou (não vou discutir se acertou ou não ao não convocar). Era, então, a nossa esperança de camisa 10 da seleção de Mano, mas as lesões atrapalharam. A dupla, NeymareGanso, se desfez.

Claro que muita coisa aconteceu entre o lançamento daquele garoto no time profissional do Santos, em janeiro de 2008, até agora. É curioso que, em quatro anos, Ganso tenha vivido tanto no futebol. Infelizmente, suas últimas manchetes referem-se a eventos extracampo. O que me leva a pergunta: ainda há esperança? A resposta é uma incógnita.

Acho que o primeiro revés da carreira de Ganso foi ganhar nome próprio. Pior: nome composto. Paulo Henrique é pomposo demais. Parece aquele garoto bem de vida que faz escola de manhã e à tarde e, à noite, é levado pelo motorista particular para o inglês (terças e quintas), judô (segundas e quartas),  e, não contente, às sextas, treina pólo no “country club”. Não dá.

Ganso, sim, é nome de jogador. A discussão é bacana e prometo escrever sobre o assunto, mas, com o perdão do trocadilho, tucanaram o Ganso. É um nome de respeito, autoexplicativo a partir do momento que você bate o olho no jogador. Mas, não. Os Paulos Henriques do mundo que me perdoem, mas Paulo Henrique não combina com Ganso.

Os imbróglios contratuais, o sai não sai do Santos, enfim, a tumultuada gestão da carreira contribuiu, e muito, para que a separação de NeymareGanso ficasse mais evidente. Como desgraça pouca é bobagem, vieram as lesões. A de joelho, a mais grave de todas, atrapalhou, e muito, o desenvolvimento daquele moleque que prometia ser uma espécie de novo Zidade, um novo Platini, um novo Zico, ou, na pior das hipóteses, um novo Kaká (por favor, sem comparações).

Não foi só o Santos que deixou de ter um camisa 10, mas a seleção perdeu o cara que arrumaria o meio-campo. Depois de tantos anos clamando por criatividade, por um toque de classe, finalmente, o Brasil teria o seu meia, aquele que resgataria a mística da camisa 10. Claro que estou exagenrando, mas não rolou nada disso.

A China comemora, em 2012, o Ano do Dragão de Água. Penso diferente. Acho que esse tem tudo para ser o Ano do Ganso, a hora do Ganso beber água. Ano de redenção, de redescoberta, de renascimento do já saudoso NeymareGanso, de passes inacreditáveis, de assistências impensáveis, de um cérebro anos-luz acima da média. Um ano sem dores de cabeça fora de campo, de paz com o Santos e, principalmente, livre de lesões. Espero, sinceramente, que o Paulo Henrique fique apenas no RG, e que o Ganso, aquele que a gente teve um gostinho de ver, reapareça. Para o bem do futebol e da seleção. E para tristeza do dragão…

P.S.: “Ganso, o Dragão Branco” poderia ser uma série sensacional, em que um meia habilidoso combate o mal com dribles e passes açucarados. Aviso ao pessoal do Santos que cobrarei royalties pela ideia. Afinal, sou jornalista.

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Fevereiro sangrento e uma saudade dos janeiros de sempre

2011 acabou, 2012 começou, janeiro já era, e quase tudo continua na mesma. Quase. Seria até bom que continuasse igualzinho, igualzinho. Mas…

Temos as novelas. Dessa vez, Neymar não foi para o Barcelona, nem para o Real Madrid. Em mais um capítulo da trama, Paulo Henrique Ganso quase saiu, mas ficou. E Montillo? Ele foi para o Corinthians, voltou para o Cruzeiro, as negociações terminaram, as negociações recomeçaram, e só Deus sabe para que lado o martelo será batido.

Teve atraso de salário também, e isso não é novidade quando se fala em futebol. A novidade é a reação dos jogadores. Os do Vasco aboliram a concentração. Os do Cruzeiro escreveram uma carta aberta em repúdio à declaração imbecil do presidente Gilvan Tavares, que disse: ““Não podemos adiar, os atletas ganham muito pouco, essa miséria que ganham, faz falta danada, se atrasar três, quatro dias para eles”. A frase vai inspirar um novo post em breve…

O Flamengo vive o que o sábio Vampeta já afirmou. O clube finge que paga, os jogadores fingem que jogam. E aí não tem dinheiro para nada, mas se gasta uma bala por Vagner Love, que chega ganhando horrores. É o principal exemplo do colapso financeiro que não vai demorar muito para rolar no futebol daqui, é mais um tema para um post futuro.

E aí, na espera por uma quarta-feira de rodada por todo o país, começam a pipocar notícias de uma briga generalizada no Egito. É uma notícia atrás da outra, cada vez mais aterrorizante. Peraí, gente, é futebol, é esporte, é lazer, é diversão. Como assim 10 mortos? Ah, não, 20? Sério, 40? Caramba, como assim, 74 mortos? 188 feridos? Números de guerra.

Acho engraçado as novelas do mercado do futebol brasileiro, sempre me divirto com elas no começo do ano. Acho que os jogadores ainda reagem de forma tímida aos mandos e desmandos dos dirigentes, mas, dessa vez, reagiram de alguma forma mais palpável. Acho que o pensamento de que a crise global nunca vai chegar por aqui faz com que gaste muito no futebol – e em muitas outras coisas -, sem saber quem vai pagar a conta.

Acho, enfim, que o mundo do esporte poderia ficar como estava em janeiro, com novelas de contratações, salários atrasados, clubes gastando sem ter, técnicos na corda-bamba, times desarrumados, torcedores animados ou desesperados. Mas, infelizmente, não ficou assim. Fevereiro começou com um banho. Nenhum banho de bola, nenhum gol na banheira. Um banho de sangue. Uma pena que janeiro já acabou.

P.S.: Estou de volta. Graças aos acontecimentos recentes, bem menos animado do que eu queria. Mas a vida, pelo menos a nossa, segue. E vamô que vamô.

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