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Saudade

“Oi, mãe!”

“Que horas são?”

“Meianoiteepouco”

(silêncio)

“O Palmeiras contratou o Riquelme?”

“Parece que vai contratar.”

(silêncio)

“Você jantou?”

“Comi no trabalho.”

“Tem macarrão e bife na cozinha, vai comer.”

E lá ia eu para a cozinha, beliscar alguma coisa. E, minutos depois, lá vinha ela atrás de mim, querendo saber se eu estava bem e se o Riquelme já era do Palmeiras. Mais ou menos assim era o diálogo diário quando eu chegava em casa. Mais ou menos nessa ordem. A diferença era a combinação carboidrato + proteína. Do mais, era mais ou menos assim.

Com o passar dos anos, você acaba percebendo que o número de “nunca mais” se multiplica. Você pode fazer o macarrão e fritar o bendito bife do mesmo jeito, mas “nunca mais” será igual ao dela. “Nunca mais” a roupa estará lavada daquele jeito. Sabe suco em pó, que vem com “manual”: pois é, “nunca mais” será igual ao dela. Nem aquele copo d’água, retirado do mesmo filtro, parece ter o mesmo sabor. É, amigo, “nunca mais”…

E de “nunca mais” em “nunca mais” os dias passam. Semanas, meses. Anos, até. Sete, mais precisamente. Sete anos sem a preocupação e as broncas maternas – que saudade das broncas! -, sem a maluquice alviverde, sem os diálogos, sem a presença… Sete anos de muitos “nunca mais”.

De “nunca mais” em “nunca mais” a gente vai levando e nem percebe que, cada vez mais, a gente se parece. O jeitão, as atitudes, as palavras, as reações, os pensamentos. Essa é a herança, o legado.

De “nunca mais” em “nunca mais”, a gente vai levando… Fica a saudade. Essa, inversamente proporcional. Essa, na casa do “sempre mais”. E é nessa gangorra que a gente vai levando…

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Chorando com o título de um time que não é o meu

Torcida do Palmeiras na final - Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress, Arte/Ricardo Zanei

Torcida do Palmeiras na final – Foto: Rivaldo Gomes/Folhapress, Arte/Ricardo Zanei

São 2h21 da manhã, e acabei agora minhas obrigações profissionais. Por causa delas, aliás, eu praticamente não assisti aos jogos da Copa do Brasil. Vi, por causa delas, a final. E foi na decisão, com o título palmeirense, que eu me vi chorando. Copiosamente. Por um time que não é o meu.

LEIA MAIS: Marcos: santo, imortal e a história de um “quase” palmeirense

Foi difícil terminar o trabalho da noite. O motivo foi a emoção. No caminho para o fim da labuta, me deparei, no Facebook, com algumas menções à minha mãe. Dona Zélia foi uma palmeirense fanática, daquelas malucas. Certa vez, ela me disse: “Tem três coisas na vida que eu amo: Deus, Palmeiras e você”. Provavelmente, a ordem era essa.

A primeira veio de uma prima minha, amada e querida, direto de Mogi Mirim, terra da minha mãe. “De alguma maneira, a Dona Zélia está mto feliz!”. Em seguida, veio meu sobrinho, direto de Santo André, minha terra. “Parabéns a maior torcedora do Palmeiras que já existiu. Parabéns Vó Zelia! O céu está em festa”, escreveu o moleque, hoje com 22 anos e trocentos centímetros maior que o tio. O detalhe é que minha prima é são-paulina. Meu sobrinho, corintiano.

Aliás, a história futebolística do meu sobrinho e da minha mãe é das mais divertidas: a cada fim de clássico com vitória do Corinthians, o telefone de casa tocava. Era o moleque, louco para tirar sarro da vó. Mais do que sarro, ele tirava a vó do sério, isso sim. Tanto que ela achou uma maneira das mais simples de não ter que ouvir mais desaforo e parou de atender o telefone. “Deixa tocar”, dizia. Eu via tudo de camarote e me divertia.

Na fria madrugada paulistana, a namorada, que vai acordar antes das 6h para trabalhar, dorme no quarto. Na sala, a TV está baixinha e, praticamente, só ouço o barulho das teclas do computador. Em meio a todo esse silêncio, tenho a nítida noção que, a qualquer momento, vou ouvir minha mãe explodindo de emoção, berrando, chorando com o Palestra dela.

Título que veio com um Felipão que era quase um deus para minha mãe. Título com os dedos de São Marcos e César Sampaio, dois caras que mereciam altares em casa. Até de Galeano, xingado e odiado tantas vezes por ela, amado e idolatrado eternamente por aquele gol contra o Corinthians.

Por tudo isso, caí no choro que nem criança. De soluçar, sabe? Por uma dessas coincidências da vida, me peguei, há pouco, enxugando as lágrimas palmeirenses na toalha com o escudo do meu time. Na fria madrugada paulistana, cá estou, chorando com o título de um time que não é o meu. Copiosamente.

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Boca e Libertadores e um capeta chamado Riquelme: feitos um para o outro

Riquelme comemora gol - Foto: Ivan Alvarado/Reuters, Arte/Ricardo Zanei

Riquelme comemora gol – Foto: Ivan Alvarado/Reuters, Arte/Ricardo Zanei

Existem jogadores que foram feitos para determinados clube e funcionam perfeitamente em determinadas competições. É o caso de Riquelme, Boca Juniors e Libertadores.

É curioso como os times brasileiros ficam contando vantagem ao falar de suas conquistas continentais. Santos e São Paulo dividem a primazia e as provocações com três títulos cada um. Riquelme tem três: 2000, 2001 e 2007.

Claro que ele não joga sozinho, mas, em todos os títulos, teve papel fundamental. Pergunte para qualquer palmeirense se o nome de Riquelme é bem visto? Pergunte para torcedores de Palmeiras, Vasco, Grêmio e tantos outros, e a resposta será a mesma: ele é o capeta. São calafrios e pesadelos até hoje.

É curioso que, quando se pensa em Boca, a imagem que vem à cabeça é de um rime guerreiro, raçudo, que dá carrinho e come grama. Riquelme é a antítese disso: refinado, sempre em pé e de cabeça erguida.

Em tempos de correria e de velocidade extrema, de jogadores polivalentes, de atacar, marcar, atacar, marcar, Riquelme é o porto seguro. Enquanto todos correm, ele, em slow motion, pensa. Parece que o mundo desacelera quando o meia está com a bola. E, num passe de mágica, está lá a redonda, mais veloz do que nunca, enquanto o camisa 10 segue o seu ritmo, impassível.

Mais do que pensar o jogo, Riquelme é o cara quando o assunto é decisão. Pode errar feio, mas peca pela tentativa, nunca pela omissão. Nesse sentido, ele é mais Boca do que qualquer xeneize. Só para citar, bateu e converteu pênalti na decisão contra o Palmeiras em 2000 e na final contra o Cruz Azul em 2001, fez três gols na duelo contra o Grêmio (um no primeiro jogo, dois no segundo) em 2007. Um capeta.

Além do Boca, o meia passou pelo Barcelona, sem sucesso, e pelo Villarreal, no qual foi o grande nome do time que conseguiu o terceiro lugar inédito no Campeonato Espanhol em 2004-2005. Na Liga dos Campeões 2005-2006, levou a equipe amarela ao seu melhor resultado continental. Passou invicto pela fase de grupos, deixando em último o monstruoso Manchester United. Eliminou os Rangers nas oitavas e a monstruosa Inter de Milão nas quartas. Só parou na semi, contra o Arsenal: Riquelme perdeu um pênalti e nunca mais jogou bem pelo time espanhol.

Tantas e tantas vezes ouvimos o nome de Riquelme sendo comentado como possível reforço de um time brasileiro. Nunca deu certo, e acredito que nunca daria: por sua história, pela maneira de jogar, mesmo com o sucesso no Villarreal, ele é Boca. E “só”.

Os brasileiros são fortes, a Universidad do Chile é muito boa, o Vélez é bem arrumado, mas ninguém bota mais medo na Libertadores do que Riquelme. O Boca tem um timinho bem meia-boca (há), e ele tem sido a salvação nos momentos de tensão. O que ele fez contra o Unión Española foi de arrepiar. O Boca precisa dele, ele sabe disso, e esse é o maior problema.

O Fluminense tem muito mais bola que o Boca. Tem Deco, Fred, Sóbis. Mas não tem Riquelme. Ele, Boca e Libertadores formam uma tríade daquelas de tirar o sono. Calafrios e pesadelos. Um capeta esse Riquelme.

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Messi e Barcos, a quarta-feira argentina e uma caixinha de surpresas

O dia de Messi e Barcos - Foto: Reuters e AE, Arte/Ricardo Zanei

O dia de Messi e Barcos - Foto: Reuters e AE, Arte/Ricardo Zanei

É curioso como as histórias de dois caras completamente diferentes podem ter algo em comum no mesmo dia. Aliás, em comum, além da nacionalidade argentina, foi o fato de brilharem na mesma quarta-feira. A qualidade é incomparável, as torcidas são diferentes, mas Lionel Messi e Hernán Barcos fizeram a felicidade de muitos torcedores no planeta.

Começando pelo astro, parece até que foi a estreia de Messi com a camisa da Argentina. Mas ouso dizer que foi a primeira vez que ele se sentiu tão à vontade com o uniforme nacional. Parecia que ele era o 10 dos “hermanos” há décadas.

Mas o mais engraçado é que Messi fez basicamente o que faz no Barcelona. Aliás, essa era (era ou é?) a grande crítica sobre ele: o Messi da Argentina não é o mesmo Messi do Barça. Dessa vez, o cara que joga na Espanha se apresentou na melhor forma possível e atropelou a Suíça.

Tem gente que falou e vai falar “também, contra a Suíça, é obrigação”. O Brasil pega trocentas galinhas mortas por aí, zilhões de Suíças, e nem por isso tem jogador deitando e rolando. Também acho que jogar bem contra a Suíça é obrigação, e Messi cumpriu a dele com louvor. Batemos palmas, pois!

O lance do primeiro gol é um primor, dá vontade de emoldurar e colocar na parede. A arrancada tradicional de Messi, o passe preciso para Aguero, a assistência em um calcanhar socrático, a ajeitadinha já clássica e o tiro certeiro, letal, no cantinho. De chorar.

Suíça 1 x 3 Argentina

O curioso é que, mesmo com a imagem fechada, contei 11 suíços no campo de defesa. Quando Messi recebe a bola, são 7 caras à pequena ou média distância do craque. E ele não faz nada absurdo: gira o corpo, dá dois toques, passa para Aguero, recebe de volta, ajeita e bate. Talvez seja esse o segredo dele, a simplicidade. Monstruoso!

Messi, 1º gol contra a Suíça - Foto: Reprodução de TV e Arte/Ricardo Zanei

Messi, 1º gol contra a Suíça - Foto: Reprodução de TV e Arte/Ricardo Zanei

O outro argentino que roubou a cena na quarta-feira foi Barcos, do Palmeiras. Quem diria que esse cara ia ter tanto sucesso em tão pouco tempo, hein? Acho que nem Felipão, que bancou a sua contratação, achava que isso ia acontecer. Sonhar, sonhava, mas acreditar mesmo, acho que não.

A única pessoa que acreditava que Barcos teria sucesso no Palestra era o próprio Barcos. Como um cara que acaba de desembarcar em outro país fala que vai marcar 27 gols na temporada? Confiança, meus caros! E isso, ele tem de sobra. Já são cinco gols em seis jogos, faltam “só” 22. Corro o risco de uma análise precoce, mas acho que é o melhor centroavante que o Palmeiras teve desde a última passagem de Vágner Love pelo Palestra. Finalmente, o torcedor alviverde pode dizer que tem um camisa 9.

O primeiro gol contra o São Paulo mostrou que Barcos tem qualidade. O domínio de bola, o corte nos zagueiros, o chute de canhota: foi um belo lance. Agora, contra o Linense, ele fez um gol, digamos, à la Messi. Brigou para ganhar a bola no meio-campo. Arrancou para o ataque, deu uma meia-lua desconcertante no zagueiro. Aí, pensei que ele ia soltar aquela cacetada. Que nada, resolveu a situação com um toquinho por cobertura no goleiro. Que golaço! Ficaria bem bonito ao lado do de Messi na minha parede!

Golaço de Barcos contra o Linense

A narração de Cléber Machado, para uns, deprecia o futebol de Barcos. Para mim, é precisa: “Vai se revelando como um jogador com bons recursos. Ele é lento, ele não é habilidoso. Ele deu um pique bom. E deu uma meia-lua espetacular no Pablo. E para completar, um toque sutil”. O que o narrador global quer dizer é que o argentino está longe de ser um gênio da bola, mas também está longe de ser um troglodita. E, fazendo, gol, quem se importa?

Com Messi e Barcos, a quarta-feira teve um gostinho argentino. Quem diria que esse craque e esse artilheiro que o futebol brasileiro começa a conhecer seriam protagonistas no mesmo dia. E mais: com golaços e com elogios. Não tem mais bobo no futebol, mas o futebol continua a ser uma caixinha de surpresas.

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Lopes Tigrão, Manuel Bandeira e o Pneumotórax

Lopes - Foto: Fernando Santos/Folha Imagem

Lopes - Foto: Fernando Santos/Folha Imagem

“A vida inteira que podia ter sido e que não foi.”

Há algum tempo eu penso em criar uma sessão aqui no blog sobre o tema. Achei que Adriano seria o meu primeiro personagem, mas outro cara assumiu a posição. Lopes, o Tigrão, e tudo que ele não foi…

Li na noite desta segunda (14/02) que ele havia sido dispensado do Metropolitano (SC) e confesso que nem sabia que ele estava por lá. Acordo e leio que o meia estava anunciando o fim da carreira. Aos 31 anos.

Lopes é o típico exemplo de um jogador que deu errado por trocentos motivos, especialmente, extracampo. Não conheço detalhes e não vou entrar nos méritos, mas me parece que as coisas vieram muito rápidas e escaparam pelas mãos em questão de segundos.

Surgiu no Volta Redonda como uma daquelas joias raras. Um meia-atacante alto, forte e veloz. Quem não gostaria de contar com um atleta que tem força física para brigar com os zagueiros, velocidade para chegar à frente e altura e impulsão suficientes para ganhar as disputas pelo alto? Mais: técnica suficiente para fazer a bola rolar e um arremate firme de fora da área?

Chegou no Palmeiras em 2000, e foi mais ou menos nessa época que eu o conheci. Eu trabalhava em um site de futebol (que fechou há tempos) e, toda a semana, fazia um ou dois jogos no estádio. Na época, acho que vi trocentos jogos do Palmeiras no Palestra. E Lopes era uma das promessas daquele time.

Talvez tenha sido ali, entre 2000 e 2002, que ele, ainda um moleque (nasceu em 1979, faça as contas), tenha vivido o seu melhor momento no futebol. Começou arrebentando no Palmeiras, mas aquela promessa toda acabou não vingando. Acho que foi ali que começou o “pneumotórax” do meia.

Saiu do Palmeiras, foi para o Flamengo e começou sua paregrinação por trocentos times. É engraçado que eu não lembro das passagens dele pelo Cruzeiro, por exemplo, em 2005, nem pelo Atlético-MG, em 2009. A torcida mineira deve lembrar com “carinho”…

A história do fim da carreira é mal contada. O fato é que ele não apareceu no sábado para viajar para um jogo e só deu as caras na segunda. A desculpa seria um problema com a filha, que mora no Rio de Janeiro, mas o próprio Lopes disse que perdeu o celular, perdeu a hora, comprou outro aparelho, não conseguiu ligar para ninguém. Ao ser comunicado que teria seu contrato rescindido, teria rebatido que estaria encerrando a carreira. Aos 31 anos.

Lopes tinha tudo para brilhar. Técnica e força. Tinha aquele perfil que o futebol europeu adora. Hoje, tem muitos jogadores atuando lá fora com qualidade inferior ao Tigrão. Mas, alguma coisa, no meio do caminho, mudou o rumo de tudo. Fico imaginando o que ele podia ter sido. E que não foi.

P.S.: A frase que abre esse texto faz parte do poema “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira. Diagnosticado com tuberculose antes dos 20 anos, o poeta foi desenganado pelos médicos e ficou, a vida toda, esperando a morte, que não chegava. Ele morreu aos 82 anos.

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Marcos: santo, imortal e a história de um “quase” palmeirense

Marcos e sua reza - Foto: Epitacio Pessoa/AE

Marcos e sua reza - Foto: Epitacio Pessoa/AE

Nasci são-paulino. Em casa, todo mundo era tricolor. Quer dizer, quase todo mundo. Minha mãe, essa intrusa no clã, era palmeirense. Todo mundo que conhece um torcedor alviverde sabe da insanidade que é conviver com esse tipo de pessoa. E eu tive o enorme prazer de crescer e viver ao lado de uma delas.

Meu pai morreu quando eu tinha 5 anos. Meus irmãos, filhos do primeiro casamento dele, são bem mais velhos do que eu (25 e 23 anos). Quando minha mãe ficou viúva, eles já beiravam os 30 e estavam cuidando de começar as suas respectivas família. Normal. Mas isso teve um impacto, digamos, alviverde na minha criação futebolística…

O primeiro jogo que eu fui ver no estádio foi com meu irmão mais velho, bem mais fanático que o do meio, um glorioso Santo André 2 x 1 XV de Jaú, no não menos glorioso estádio Bruno José Daniel, nos idos de 1983 (a foto do ingresso e a legenda escrita pela minha mãe não me deixam mentir). Mas a minha primeira lembrança de ver um jogo ao vivo tem íntima ligação com o Palmeiras.

Minha estreia nos gramados, em vitória do poderoso Santo André - Foto: Arquivo pessoal

Minha estreia no estádio, em vitória do poderoso Santo André - Foto: Arquivo pessoal

No dia 24 de maio de 1987, do alto dos meus quase 9 anos, fui com a louca da minha mãe assistir a um Santo André x Palmeiras. Estávamos nas cadeiras cobertas, e o teto balançava, tremia de dar medo. Na TV, à noite, descobrimos o motivo: uma invasão em massa tomou conta da cobertura das cadeiras. Zetti, então um jovem goleiro, que acabara de assumir a titularidade alviverde, perdeu ali, num chute do veterano Luís Pereira (sim, eu vi Luís Pereira jogar, ao vivo), sua invencibilidade de 1.238 minutos sem levar gol. Foi ali que a minha ligação com o Palmeiras começou a ficar mais, digamos, íntima.

Dois outros fatores levaram a isso: a minha mãe insana e a logística, já que era (e ainda é) bem mais fácil sair de Santo André e chegar ao Palestra do que deixar a cidade mais sensacional do ABC e vislumbrar o gigante Morumbi.

Minha mãe era do tipo de torcedora de estádio, de arquibancada. Pouco depois, quando eu passei a ter uma idade aceitável, uns 12, 13 anos, ela me carregava sempre que dava para o Palestra. Engana-se quem pensa que a gente ia de carro, estacionava lindamente e assistia aos jogos das cadeiras. Nada disso: o trem de Santo André até a Barra Funda demorava uns 50 minutos, e o ingresso era de arquibancada. E não ia só na boa, não: guardo até os ingressos de todos os jogos do time na Série B, que ela, orgulhosa, acompanhou ali, de pertinho. Tomei muita chuva naquele concreto!

Foi graças à idolatria materna que eu conheci Ademir da Guia, Leão, Luís Pereira, César Maluco… Minha mãe amava esses caras, assim como amava Evair, Edmundo, César Sampaio, e um goleiro que começou a ganhar espaço no clube, um tal de Marcos. Mal sabia ele, ela, e tudo quanto é palmeirense, que aquele moleque que fez muita gente chorar com o título da Libertadores de 1999 se tornaria um dos maiores nomes da história da bola.

Não demorou muito para ganhar o apelido de “santo”, “São” Marcos. Um santo que se fere nas batalhas. Um santo que comete erros, que fala o que vem à cabeça, que tropeça, cai e levanta. Um santo verdadeiro. Um santo mortal em tudo o que faz e fez, e imortal exatamente por tudo que fez e faz. Um santo que, como todo santo, realizou milagres e levou milhares de fiéis ao delírio. Marcos foi um ídolo para a minha mãe, o maior ídolo de todos, e acho que peguei um pouquinho dessa idolatria dela para mim. É, de fato, o melhor goleiro que eu vi jogar, capaz de coisas impossíveis. Impossíveis, sim. Afinal, o cara é santo.

P.S.1: Antes que encham o meu saco, sou são-paulino, repito, mas não tenho medo de falar que Marcos foi o melhor goleiro que eu vi em campo, goleiro, aquele cara que fica entre as traves fazendo defesas inacreditáveis. E não é crime isso não! Depois dele, vem Zetti e, em terceiro, Rogério Ceni. Como ídolo, claro que Raí marcou a minha geração, mas é inegável que Ceni, pelo conjunto da obra, como personagem da história da bola, é um monstro.

P.S.2: Foi convivendo com minha mãe que eu, anos depois, descobri que ela havia me ensinado a respeitar as diferenças, a perceber que o esporte é legal, divertido, e é assim que tem que ser. Foi por isso que fiz jornalismo, e é por isso que você, único leitor desse blog, lê essas linhas. “Dona” Zélia era uma esportista de mão cheia, e só perdia a linha quando o neto, então um pequenino corintiano, malinha que só ele, mal esperava o juiz apitar um tropeço alviverde para ligar em casa e encher o saco da vó. Hoje, se ela estivesse viva, com certeza, daria risada de tudo isso.

P.S.3: A imagem que abre esse texto é a imagem mais marcante, para mim, de Marcos. Todo jogador de futebol tem as suas mandingas. Goleiro, então, nem se fala. Mas a maneira simples e intensa que Marcos se benzia antes dos jogos era sensacional. Curioso é que se repetia em todas as partidas, mas, para mim, sempre parecia algo novo. Coisa de santo…

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Taça das Bolinhas e assuntos que eu não aguento mais ouvir

Às vezes, muitas vezes, a imprensa fica martelando assuntos por séculos, sem chegar nunca a lugar nenhum. E não é apenas no âmbito esportivo: ouso dizer que o fenômeno se repete em todas as editorias.

Vi agora que o Flamengo ganhou sei lá o quê na Justiça e recuperou a Taça das Bolinhas, o que me fez pensar em assuntos esportivos que eu não aguento mais ouvir, falar, ler, ver…

Abaixo, a lista de temas que deveriam ser banidos e retomados apenas e tão somente se algo definitivo acontecesse:

– Taça das Bolinhas;

– Neymar no Barça? Neymar no Real?;

– Ganso no Corinthians;

– Dagoberto fora do São Paulo;

– Estreia de Adriano no Corinthians;

– Pelé no Mundial de Clubes;

– Felipão fica ou sai do Palmeiras;

– Tite fica ou sai do Corinthians;

– Mundial 2000 da Fifa (lembrança do amigo Flavio Nakano)

– Maradona ou Pelé?

– Messi ou Cristiano Ronaldo?

– Rogério Ceni x Marcos? (devo essa e as duas contribuições acima à amiga Paula Almeida)

A lista foi feita às pressas e conta apenas com temas do futebol paulista, mas, com certeza, é bem maior que isso. Aceito sugestões para ampliar o número de encheções de saco. Sem mais.

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