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Sobre “Get Lucky”, imbecis e “a música que une o mundo”

A apresentação lendária no Grammy - Foto: Divulgação

A apresentação lendária no Grammy – Foto: Divulgação

Sou um imbecil em muitos assuntos. Um deles: cinema. Não vi os últimos lançamentos, não sei quem são os grandes diretores, não tenho atores prediletos, muito menos consigo analisar a cenografia, a luz, o som, a montagem. Tudo isso para repetir que sou um imbecil em cinema.

Mas, em um filme chamado “Empire Records”, traduzido sensacionalmente como “Sexo, Rock e Confusão”, que eu tenho em DVD (sim, tenho alguns DVDs), de 1995, o personagem Eddie, interpretado por James “Kimo” Wills, diz uma das frases mais sensatas da história da humanidade.

“Esta música é a cola do mundo, cara. É o que une tudo. Sem isso, a vida não teria sentido.”

Obviamente, sou um imbecil quando o assunto é música também. Claro que, aí, tenho meus prediletos, sou chato – leia-se intolerante – com muita tranqueira, gosto de coisas que não deveria gostar, enfim, a imbecilidade continua.

Mas até um imbecil como eu sabe quando alguma coisa é boa. Muito boa. Genial. Histórica. Lendária. E todos os clichês cabem na frase.

Foi em agosto do ano passado que eu viajei a trabalho para os EUA. Uma tal “Get Lucky” bombava nas rádios de lá. O caminho de carro entre New York e Bristol, ida e volta, teve essa música como trilha, e não foram poucas vezes que ela tocou. Voltei, claro, com ela na cabeça.

Passa agosto, passa setembro, o imbecil aqui é internado, quase morre, mas sobrevive e sai do hospital. Na loucura por respirar a poluição e curtir o trânsito, resolve ir para casa dirigindo. Depois de 13 dias praticamente preso em uma cama – ou em um quarto -, você passa a dar valor para as coisas que odeia, no caso, poluição e trânsito. Ligar o rádio fazia parte do pacote, e lá estava ela, “Get Lucky”, me dando sorte no sonhado retorno para casa.

O tempo segue passando e descubro de sopetão que está rolando o Grammy – sabe como é, plantão de fim de semana é pesado. Bom, vamos lá dar uma olhada. Música vai, música vem, vejo pessoas que eu nem sabia que existiam sendo premiadas, enfim, a coisa vai rolando até que surge a tal “Get Lucky” no caminho. Dessa vez, ao vivo.

Não dá para negar que o que aconteceu naquele palco foi uma das coisas mais surreais da música planetária nos últimos tempos. Catarse coletiva. Até Yoko One levantou os bracinhos. A música do Daft Punk é um aceno de que há uma luz no fim do túnel. O vocal de Pharrell Williams, goste ou não, cai como uma luva. A guitarra matadora de Nile Rodgers é de arrepiar, com direito até a uma canja do clássico “Freak Out”. O baixo de Nathan East é a cadência do samba naquela doideira. E a bateria de Omar Hakim dita um ritmo que, se você não for um ser inanimado, é impossível de não se mexer. Caras com anos-luz de história na música. Só podia dar em coisa boa. Muito boa.

Não contente, um tal de Stevie Wonder é a cereja no bolo. “Get Lucky” é boa demais, a apresentação é impressionante demais, e aí esse mestre surge para dar uma pitadinha de “Another Star”, uma daquelas músicas que você ouve, ouve, ouve e quer sempre ouvir mais, afinal, nunca é demais. Não precisava, sabe.

Vi e revi o vídeo algumas vezes. Em todas, a certeza é que, por mais imbecil que eu seja, sei que aquilo ali foi bom. Muito bom. Genial. Histórico. Foi tão sensacional que me fez lembrar a frase de um filme, um tal “Empire Records”. “Esta música é a cola do mundo, cara”: com Stevie Wonder, Daft Punk e toda a sua trupe, faz muito sentido.

P.S.1: O assunto é velho? Sim. Mas, sabe como é, leva tempo para se recuperar de algo assim, tão emocionante. Leva tanto tempo que, se me dão licença, vou ali ver e rever mais algumas vezes.
P.S.2: Assista “Empire Records”. A trilha é matadora. Claro, não vai ganhar o Oscar, mas agrada ao meu gosto, digamos, “refinado”.

"Sexo, Rock e Confusão" - Foto: Divulgação

“Sexo, Rock e Confusão” – Foto: Divulgação

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Meu encontro com Chorão

O Offspring veio ao Brasil em 1997. Eu gostava de Offspring e ainda me divirto com uma ou outra música, mas isso não vem ao caso. O fato é que, ao lado de três amigos, saímos de Santo André rumo ao finado Olympia para ver os caras. No show de abertura, Charlie Brown Jr. Skatistas pra todo lado. E, do que eu lembro, foi um baita show. O primeiro de uns quatro, cinco que vi dos caras na minha vida. Sempre, do que eu lembro, muito bons.

Naquela noite, entre um show e outro, fui ao banheiro. O caminho era meio que um corredorzinho que desembocava em um corredor de verdade, dividido por uma barra. Do lado, digamos, de lá, era o caminho da galera VIP. Do lado de cá, uma rampinha e a porta do banheiro.

Saio do banheiro e dou de cara com Chorão, encostado ali na barra, como um cara “normal” curtindo a noite. Minha reação foi adolescente – se bem que eu tinha uns 19 anos – e sincera: “Meu, você é foda, puta show”, disse eu (ou foi mais ou menos isso), fazendo o tradicional gesto de cumprimentar alguém.

O que eu não contava, a parte “meu, tu não sabe o que aconteceu” da cena, é que Chorão tinha um cigarro na mão direita. Logo, meu gesto mandou o tubo de nicotina pra casa do cacete. “Porra, era meu último”, disse ele. Fiz menção de pedir um cigarro pra alguém, mas não deu tempo: juntou uma galerinha em volta do cara. Acabei saindo dali. E ele ficou sem cigarro. Pelo menos, sem aquele.

P.S.: Prometi a mim mesmo que não escreveria nada sobre a morte de Chorão. Até queria, mas o enorme teor de pieguice e idiotice das redes sociais me deixou enojado. O que acho é mais ou menos o que o André Forastieri escreveu no blog dele. O resto, um dia, a gente conversa num boteco por aí.

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Corinthians x Boca: “Por uma cabeza”

“Por una cabeza” é um dos tangos mais famosos do mundo, acho que o mais conhecido. A música fala de um apostador, que compara seu vício em corrida de cavalos a suas conquistas – e desilusões – amorosas.

É aquela coisa de perder – na corrida, no amor – e dizer que nunca mais vai apostar. Mas, sabe como é, se aparece um páreo interessante – ou uma mulher interessante -, por que não jogar? Parece até futebol: o time perde, você fica puto, diz que nunca mais vai ao estádio, mas aí chega a quarta-feira, tem aquele jogo sedutor e, sabe como é…

Em “Por una cabeza”, se ganha ou se perde sempre por muito pouco, daí o título. Como no mundo da bola, títulos são conquistados em um piscar de olhos: um chute de longe que desvia em alguém e entra, um bate-rebate na área, um drible, um chute perfeito. Sempre apertado, sempre suado.

Talvez a metáfora boleira tenha a ver com a origem da música. Carlos Gardel, o cantor que botou voz no tango e popularizou a música pelo mundo, nasceu em Toulouse, na França, mas chegou, ainda criancinha, a Tacuarembó, no Uruguai. Depois, naturalizou-se argentino.

A letra é de Alfredo Le Pera, nascido em São Paulo, mas “paulista”, de fato, por apenas alguns meses. Os pais, italianos, logo foram para a Argentina. Ainda garoto, escrevia poesias. Depois, letras de música. Quase todas as cantadas por Gardel têm o toque de Le Pera. “Por una cabeza” é uma delas.

“Por una cabeza” foi gravada em 19 de março de 1935, em Nova York. Mas Gardel e Le Pera não tiveram a oportunidade de ver a música explodir pelo mundo: a dupla morreu em um acidente aéreo na Colômbia, dia 24 de junho do mesmo ano. Gardel tinha 44. Le Pera, 35.

França, Uruguai, Brasil, Argentina, Itália, EUA, Colômbia, uma mistureba daquelas marca a origem e o fim do sucesso, a origem e o fim da dupla, marca “Por una cabeza”. Nessa minha ficção, é uma mistureba à la Corinthians, à la Boca, uma mistureba que, com o perdão da redundância, se mistura com as histórias de tantos brasileiros, tantos argentinos, separados por uma fronteira, um idioma e posturas distintas, mas “quase” parentes e sempre rivais.

Corinthians e Boca fazem uma final assim, cheia de paralelos e perpendiculares, de times que não são os melhores do mundo, mas passaram por cima de todos os rivais e hoje, merecidamente, decidem a América. Será um daqueles títulos chorados, emocionantes, uma explosão de felicidade para uns, um abismo de tristeza para outros. Será uma final com cara de tango, com sofrimento e alegria. Será uma final apertada, suada. Um campeão “por una cabeza”.

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Foo Fighters em Buenos Aires: tempestade, um quase desastre, “but it’s all right”

Foo Fighters em Buenos Aires - Foto: Ricardo Zanei

Foo Fighters em Buenos Aires - Foto: Ricardo Zanei

Dias de sol, muito sol. Um calor daqueles. Nem parecia Buenos Aires. De domingo até quarta à noite, tudo ia maravilhosamente bem. O metrô até o estádio Monumental de Nuñez foi dos mais tranquilos. No ar, aquele clima de show de rock que só quem foi a um show de rock sabe como é. No ar, as nuvens começaram a querer participar da festa. E fizeram a festa.

No começo do show do Arctic Monkeys, veio a primeira pancada de chuva. Cinco minutos, se tanto. Deu para dar aquela molhadinha. Mas era uma espécie de “aquecimento” para o Foo Fighters, então, tudo bem. Por um instante, achei que o céu ia abrir. No instante seguinte, começou o show de luzes dos raios no céu, e tive a certeza que ia ser uma noite inesquecível.

Descobri que tormenta, em espanhol, é tempestade. E como choveu aquela noite. Eu não conseguia abrir os olhos para ver o palco e, mesmo se conseguisse, não ia enxergar nada. Em dois minutos, estávamos encharcados. Um vento gelado completava a cena caótica. Eu, que não sou muito de sentir frio, simplesmente tremia. O jeito foi fugir.

Ficamos embaixo das arquibancadas, ao lado de praticamente todo mundo que estava em cima delas antes do dilúvio. Ali, pelo menos, não chovia. Foi bom que deu para torcer a roupa e diminuir um pouco a sensação de frio. Do pouco que eu conseguia olhar para o estádio, não dava para ver a arquibancada à nossa frente. Para o lado de fora, era só uma cortina d’água.

Enquanto isso, Arctic Monkeys, de alguma maneira, acabava o seu show. Confesso que achei que iam adiar o Foo Fighters para a quinta-feira. Mas aí a tempestade virou temporal, que virou chuva, que virou garoa justamente quando Dave Grohl e sua trupe subiram ao palco e abriram com “All My Life”.

Obviamente, voltamos para as arquibancadas. A garoa desapareceu. E, mesmo com todas as luzes do estádio acesas, o Foo Fighters foi quem brilhou.

Eu poderia aqui encher a bola, citar trocentos adjetivos para descrever o show. Poderia dizer que Dave Grohl sabe como poucos como cativar o público. Poderia até falar que um filme inteiro passou na minha cabeça quando ele deixou a guitarra e assumiu a bateria. Enfim, todo mundo já ficou sabendo do que rolou lá na Argentina e aqui no Brasil. Todo mundo tem os seus adjetivos sobre o que aconteceu.

Por isso, deixo para que Dave Grohl diga o que ele achou da brincadeira toda em Buenos Aires. Os vídeos estão tremidos, e a qualidade da imagem é péssima, mas o áudio está bom, e é o que vale. Tinha tudo para dar tudo errado, mas foi uma noite memorável, inesquecível, daquelas que você vai guardar por vidas e vidas. Era para ser um desastre, “but it’s all right”.

No dia seguinte e em todos os outros, fez sol em Buenos Aires.

These Days

“Fucking disaster”

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Wando, a luz, o raio, a estrela, o luar e, claro, o carmim

Wando - Foto: Divulgação

Wando - Foto: Divulgação

O que seria do mundo sem a rosa vermelha? Sem o vinho tinto melado? Sem o perfume doce? Sem aquela safadeza canalha no olhar?

Luz, raio, estrela e luar. Manhã de sol. O que acontece entre o luar e a manhã de sol? Iáiá, iôiô…

O que seria do mundo sem a loucura apaixonada? Que seria do planeta sem o beijo na boca? E quem nunca se jogou no chão de paixão?

O que seria do ser humano sem o doce do mel? Sem aquele pedido de canto da boca, “céu”? Sem aquela calcinha lançada no ar?

E o carmim? Talvez, a substância responsável pelo equilíbrio das forças terrenas. Sem o carmim, nada teria sentido. Como falar do vermelho do amor e da paixão sem o carmim? Impossível.

Hoje, com certeza, a vitrola naquela penteadeira toca triste. A calcinha, cor carmim, não vai sair da gaveta. Chora coração. Chora, coração.

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A Cartola, 103, uma reverência e uma saudade

Cartola - Foto: Arquivo

Cartola - Foto: Arquivo

Nesta terça-feira, Cartola completaria 103 anos. Não é data cheia, nem nada, então passa desapercebida por aí. Mas vale sempre a reverência a esse cara que, sem sombra de dúvida, foi, ops, é um dos maiores compositores e intérpretes da música brasileira. Fosse em outro país, seria nome de avenida, de rua, de museu, de estátua… Aqui, passou décadas esquecido, por “n” motivos, para depois voltar a brilhar como deveria ter sido sempre.

Abaixo, duas músicas que representam a genialidade desse monstro chamado Cartola. Famosas, sim, mas muitas vezes esquecidas. Sabe aquelas músicas que te fazem lembrar de um tempo que nem você sabe quando? Sabe aquele som que te transporta pra outro lugar do universo e, quando você percebe, tem lágrimas nos olhos? Isso é Cartola.

“O Mundo é Um Moinho”

“Corra e Olha o Céu”

P.S.: Na foto acima, Cartola nos faz uma reverência. Que erro. A reverância eterna, Cartola, quem tem que fazer é a gente. Um eterno obrigado!

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Guns N’ Roses no Rock in Rio: foi ruim, mas foi bom

Axl Rose encerra o Rock in Rio 2011 - Foto: Marcelo Saião/EFE

Axl Rose encerra o Rock in Rio 2011 - Foto: Marcelo Saião/EFE

Não vi muito o Rock in Rio. Pra falar a verdade, vi bem pouco. Mas, por causa da insônia, fiquei até quase 5h da matina vendo o show do Guns N’ Roses. Dei uma olhada nos comentários no Twitter e no Facebook, e a galera estava dividida. Muita gente desceu a lenha, outros encheram a bola. Eu entendo os dois lados.

Qualquer um que tenha uns 30 anos sabe uma penca de músicas do “Guns”, que era como a gente chamava a banda do Axl, do Slash, do Duff, do Izzy, do Steven. E acho que, para qualquer trintão, era um daqueles shows, no mínimo, que se espera para ver, nem que seja um pouquinho.

O que eu vi do show… Foram duas visões que, pensando bem, se assemelham. Alguém aí se lembra de Elvis Presley antes da morte? Gordo, ainda usando os modelitos do auge, tentando cantar os seus sucessos, mas esbarrando em suas limitações (a voz tinha acabado) e, no fim, fazendo o que dava para fazer. Ou ainda: imagine um tiozinho, com uns quilos a mais, cabeleira cumprida e bandana na cabeça fazendo covers do Guns?

Guns N’ Roses – Knockin’ On Heaven’s Door (Rock in Rio 2011)

Fiquei com essas sensações. Claro que Axl não tem a mesma voz de 20 anos atrás e, às vezes, dava a impressão que ele estava mais preocupado em não se molhar do que em tentar cantar. Em outras, ele se esforçava, mas, simplesmente, a voz já não está mais entre nós. Ou seja, estava ali fazendo o que dava pra fazer. Claro que teve guitarrista errando nota e que bateu uma saudade danada do Slash, mas, bem, o que tinha pra hoje eram aqueles caras e vamos que vamos.

Axl parecia um Elvis no fim da carreira, não conseguindo cantar direito? Sim. A banda errou várias vezes, como erram bandas covers mundo afora? Opa, com certeza. Parecia uma banda cover com o Elvis decadente cantando? Sim.

Ou seja, tecnicamente falando, fiquei com a impressão de que foi um show péssimo. Teve um monte de evento pirotécnico que entrou errado, vide “Live And Let Die” ou “November Rain”.

Mas, virando a moeda, era o Guns, sabe? “Welcome To The Jungle”, “You Could Be Mine”, “Patience”, enfim, alguns dos maiores hits da vida dos trintões brasileiros, bem ou mal, estavam lá. Confesso que, em alguns momentos, me vi cantando junto. Baixinho, pra não acordar a vizinhança, mas cantando junto. Ou vai dizer que dá pra ficar quieto ao som de “Paradise City”?

Resumindo, foi ruim, mas foi bom.

Guns N’ Roses – Melhores momentos do Rock in Rio 1991

P.S.: Pra que ninguém encha o saco, em nenhum momento estou comparando musicalmente Elvis e Axl, pelamordedeus. Comparo as situações, e apenas isso.

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