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Adriano, Manuel Bandeira e o Pneumotórax

Adriano - Foto: Junior Lago/UOL, Arte/Ricardo Zanei

Adriano - Foto: Junior Lago/UOL, Arte/Ricardo Zanei

“A vida inteira que podia ter sido e que não foi.”

Adriano já foi o melhor atacante do mundo. Parecia unir tudo que um grande centroavante precisa: força física, presença de área, boa impulsão. Ainda tinha um chute de extrema violência de pé esquerdo, de dentro ou fora da área. E mais: sabia driblar, tocar, se posicionar para receber. Parecia perfeito. Parecia…

O Imperador reinou como o melhor fazedor de gols do planeta entre 2004 e 2006, mas foi um fiasco na Copa da Alemanha. Muito se falou da forma física de Ronaldo no Mundial, mas Adriano estava explodindo – de gordo. Se foi decisivo na Copa América de 2004 e um monstro, um monstro, na histórica Copa das Confederações em 2005, parou por aí.

Renasceu no Flamengo, em 2009, mas voltou a dormir no começou de 2010 e perdeu a sua vaga na Copa da Alemanha. Por mais que eu ache que Nilmar é um bom jogador, por mais que eu tenha gratidão por Grafite pelos serviços prestados ao meu time, não dá para um jogador do quilate de Adriano perder a vaga no Mundial para qualquer um deles. É inadmissível.

A última vez que o Imperador bateu uma bola honestamente foi no Flamengo. Saiu de lá para enganar os italianos da Roma, voltou para renascer – de novo? – no Corinthians, mas foi no Parque São Jorge que caiu de vez. Lesão no tornozelo à parte, o comprometimento mostrado por ele foi digno de um amador. Ou melhor, de um peladeiro, porque amadores são mais profissionais que ele.

Adriano é o jogador com mais chances na face da terra. Pise na bola uma vez como ele pisou com qualquer chefe que você tenha tido pra ver o que acontece. Com ele, nada muda, a vida segue, e é capaz ainda de rolar um cafuné. É um cara gente boa, um amor de pessoa, e blablabla. Saiu do Corinthians, mas, segundo consta por aí, vai acertar com o Flamengo em questão de horas, no mais tardar, dias. É só esperar. E será mais um papelão…

Pior de tudo é achar/saber que o caso de Adriano vai muito além do gigantesco jogador de futebol que poderia ter sido e que não foi. Os problemas dele são muito mais profundos do que perder um gol sem goleiro. Ele deveria cuidar do futuro, cortar os laços umbilicais com quem lhe prejudica e ter uma vida tranquila como pessoa física, com a cabeça tranquila. Tranquilidade que pessoa jurídica não tem: deixa pra lá, não dá mais, foi legal e tal, mas acabou. Na bola, ele foi Imperador por pouco tempo. Resta desejar que seu reinado fora dos gramados seja, tranquilo, calmo, alegre, como nos dias de moleque na Vila Cruzeiro. E especialmente duradouro.

P.S.: A frase que abre esse texto faz parte do poema “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira. Diagnosticado com tuberculose antes dos 20 anos, o poeta foi desenganado pelos médicos e ficou, a vida toda, esperando a morte, que não chegava. Ele morreu aos 82 anos.

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Lopes Tigrão, Manuel Bandeira e o Pneumotórax

Lopes - Foto: Fernando Santos/Folha Imagem

Lopes - Foto: Fernando Santos/Folha Imagem

“A vida inteira que podia ter sido e que não foi.”

Há algum tempo eu penso em criar uma sessão aqui no blog sobre o tema. Achei que Adriano seria o meu primeiro personagem, mas outro cara assumiu a posição. Lopes, o Tigrão, e tudo que ele não foi…

Li na noite desta segunda (14/02) que ele havia sido dispensado do Metropolitano (SC) e confesso que nem sabia que ele estava por lá. Acordo e leio que o meia estava anunciando o fim da carreira. Aos 31 anos.

Lopes é o típico exemplo de um jogador que deu errado por trocentos motivos, especialmente, extracampo. Não conheço detalhes e não vou entrar nos méritos, mas me parece que as coisas vieram muito rápidas e escaparam pelas mãos em questão de segundos.

Surgiu no Volta Redonda como uma daquelas joias raras. Um meia-atacante alto, forte e veloz. Quem não gostaria de contar com um atleta que tem força física para brigar com os zagueiros, velocidade para chegar à frente e altura e impulsão suficientes para ganhar as disputas pelo alto? Mais: técnica suficiente para fazer a bola rolar e um arremate firme de fora da área?

Chegou no Palmeiras em 2000, e foi mais ou menos nessa época que eu o conheci. Eu trabalhava em um site de futebol (que fechou há tempos) e, toda a semana, fazia um ou dois jogos no estádio. Na época, acho que vi trocentos jogos do Palmeiras no Palestra. E Lopes era uma das promessas daquele time.

Talvez tenha sido ali, entre 2000 e 2002, que ele, ainda um moleque (nasceu em 1979, faça as contas), tenha vivido o seu melhor momento no futebol. Começou arrebentando no Palmeiras, mas aquela promessa toda acabou não vingando. Acho que foi ali que começou o “pneumotórax” do meia.

Saiu do Palmeiras, foi para o Flamengo e começou sua paregrinação por trocentos times. É engraçado que eu não lembro das passagens dele pelo Cruzeiro, por exemplo, em 2005, nem pelo Atlético-MG, em 2009. A torcida mineira deve lembrar com “carinho”…

A história do fim da carreira é mal contada. O fato é que ele não apareceu no sábado para viajar para um jogo e só deu as caras na segunda. A desculpa seria um problema com a filha, que mora no Rio de Janeiro, mas o próprio Lopes disse que perdeu o celular, perdeu a hora, comprou outro aparelho, não conseguiu ligar para ninguém. Ao ser comunicado que teria seu contrato rescindido, teria rebatido que estaria encerrando a carreira. Aos 31 anos.

Lopes tinha tudo para brilhar. Técnica e força. Tinha aquele perfil que o futebol europeu adora. Hoje, tem muitos jogadores atuando lá fora com qualidade inferior ao Tigrão. Mas, alguma coisa, no meio do caminho, mudou o rumo de tudo. Fico imaginando o que ele podia ter sido. E que não foi.

P.S.: A frase que abre esse texto faz parte do poema “Pneumotórax”, de Manuel Bandeira. Diagnosticado com tuberculose antes dos 20 anos, o poeta foi desenganado pelos médicos e ficou, a vida toda, esperando a morte, que não chegava. Ele morreu aos 82 anos.

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