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Anderson Silva e um tipo tipicamente brasileiro

– Não sei se fui só o único, mas ao lado do meu sobrinho e de um amigo, quando Anderson caiu estatelado, imperou o silêncio. Ninguém falou nada por mais de 10min.

– Perder é parte do jogo. Ninguém ganha sempre. A maneira como se perde é que causa tudo isso.

– Provocar é parte do jogo. Provocar, às vezes, ganha jogo. Provocas, outras vezes, perde jogo. É assim.

– O limite da provocação para o desrespeito é tênue e vai de pessoa para pessoa. O meu limite é diferente do seu, do Anderson Silva, do Chris Weidman…

– Arcar com as consequências dos seus atos é algo default na minha vida. Se faço A, tenho que responder pelo A que foi feito. Simples.

– Existe, claro, o (in)consciente coletivo: há o brasileiro provocador vencedor e o brasileiro provocador perdedor.

– O brasileiro provocador vencedor é resultado da provocação que dá certo. É o malandro, é a ginga, é o jeitinho, é o esperto, é o inteligente. Amado e louvado, obviamente, porque vence, quando vence.

– O brasileiro provocador perdedor é resultado da provocação que dá errado. É o idiota, é o desrespeitoso, é o espertalhão, é o burro. Execrado e xingado, obviamente, porque perde, quando perde.

– E quando é o rival do brasileiro que provoca? Execramos o herege. Tanto na vitória ou na derrota dele.

Isto posto, uma breve análise do assunto: Anderson Silva perdeu. E é claro que a maneira como foi me deixa puto, mas isso não apaga a história do cara, por mais que a imagem recente fique brigando, na minha mente, com os nocautes anteriores e espetaculares.

Sobre a derrota em si, para mim, ele superou a tênue linha que separa a provocação do desrespeito. “Ah, se fosse comigo, eu enchia a cara dele de porrada”, pensei. Foi o que Weidman fez. E, pensando que o esporte consiste basicamente em derrubar o oponente, o fez muito bem.

Voltando ao (in)consciente coletivo: Anderson Silva se tornou, em um piscar de olhos, no brasileiro provocador perdedor. Era um gênio até 1h30. Aquele cara bacana, que brinca com a própria voz fina, que faz aulas de inglês e come hambúrgueres em rede nacional. Uma canhota no queixo e, à 1h31, virou um grandioso idiota. De bestial a besta em 1min.

Em tempos internéticos, meu sobrinho, acho que sem saber, demonstrou o que muita gente sente. Entrou na página do Anderson no Facebook e “descurtiu”. “Daqui a um mês eu volto a curtir, mas hoje…”. Confesso que dá para entender.

No caminho para casa, fiquei pensando. Sei que o “se” não existe, mas não me saiu da cabeça: E se ele ganhasse a luta? E se a provocação desse certo? E se, ao invés da esquerda de Weidman, uma direita de Anderson colocasse o rival na lona, estatelado? E se…

Se apenas uma das suposições acima acontecesse, e acho que o (in)consciente coletivo não me desmentiria, ele seria o brasileiro provocador vencedor, o Emerson que não cai na laia argentina, provoca o zagueiro do Boca e ainda é campeão da Libertadores. O brasileiro malandro, esperto, sagaz.

Mas, bem, o “se” não existe. Então, ele volta a estaca zero, ou melhor, ao pedestal de inimigo público número 1, o completo idiota, o pai de todos os babacas, uma espécie de Higuita que perde a bola para o Milla e dá adeus à Copa. O brasileiro imbecil, estúpido, o malandro que só se ferra. O brasileiro, acima de qualquer coisa, perdedor. É, quem diria, Anderson Silva…

(Outra coisa que li por aí: foi armação? Eu acho que não e, se você acha que sim, te respeito, mas não mudo a minha opinião até que me provem o contrário.)

P.S.: Esse texto foi escrito na madrugada e, por favor, perdoem ocasionais erros de digitação.

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Jones, Rashad, cinco rounds e um round

Jon Jones mantém o cinturão - Foto: Al Bello/Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Jon Jones mantém o cinturão - Foto: Al Bello/Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

O resultado foi o esperado: vitória de Jon Jones. Eu sei, eu sei, não foi em dois rounds como a minha bola de cristal me disse, e a culpa é toda dela. Foram cinco rounds de algumas cacetadas e pelo menos três lições.

A primeira: Jones é muito superior, especialmente quando o assunto é forma física, que qualquer rival. Quanto mais a luta durar, melhor para ele.

Diante disso, a segunda lição é: seja lá qual for o adversário, é bom ir para cima de Jones no primeiro round. Como? Aí o problema é de quem entrar no octógono. O fato é que, a partir do segundo, o campeão passa a sobrar fisicamente, e a vida complica.

A terceira lição quem deu foi Rashad Evans, que achou um ou outro espaço na guarda de Jones e balançou o campeão pelo menos duas vezes. Ou seja, é ver e rever como os golpes entraram e tentar achar alguma brecha por aí.

Se eu esperava um nocaute no segundo round, é claro que fiquei decepcionado com a decisão em cinco. Esperava, claro, um Jones mais ligado, mais veloz, mais ativo no ataque. Claro que, mesmo em slow motion, ele é melhor que qualquer um. Tanto que ganhou. Mas poderia ter acelerado mais a luta.

E aí eu acho que o fator “adversário” pesou. Ex-amiguinho, ex-companheiro de treino… Jones respeitou demais Rashad. Teve chance de derrubar o ex-brother em algumas oportunidades, mas meio que deixou a luta rolar. Se fosse qualquer outro, acho que Jones iria para cima sem dó. Contra Evans, rolou uma certa compaixão pelo passado. Isso é bom? Não, mas é apenas uma suposição.

Jones agora tem Dan Henderson pela frente. O cara é veterano, mas ainda tem uma mão pesada. Foi ele o responsável pelo meu primeiro nocaute ao vivo, quando apagou Michael Bisping no UFC 100. Ainda tenho a cena completamente nítida na memória. Mas nem isso nem os bons resultados recentes serão capazes de melhorar a vida do desafiante contra o campeão. Para vencer, ele tem um round, um round. Depois, Jones sobra.

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Jones, Rashad e dois rounds

Jones x Evans  - Foto: Al Bello/Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Jones x Evans - Foto: Al Bello/Getty Images, Arte/Ricardo Zanei


Dessa vez eu não vou dar pitacos em tudo que é luta do UFC. A edição 145, que acontece neste sábado, tem o duelo entre Jon Jones, dono do cinturão dos meio-pesados, e Rashad Evans como combate principal. E, por isso, vou direto para o prato principal.

Quem acompanha um pouco sabe que eles eram amiguinhos, mas agora são inimiguinhos. Trocaram farpas desde que a luta foi definida. O clima esfriou nas últimas semanas, mas a pesagem foi tensa. Faltou pouco para que eles saíssem no tapa. De qualquer forma, o circo está pronto.

Já gostei mais de Rashad. É um cara com um bom jogo de chão, bom na trocação. Enfim, é um bom lutador. Mas, às vezes, ser bom não é o suficiente para que você fique no topo. Talvez por isso ele tenha apenas uma derrota na carreira, justamente quando na única vez que colocou seu cinturão em jogo: levou uma aula de Lyoto Machida e perdeu o título.

Pelo fato de ser bom e de ser “ex-amigo”, Rashad vai durar um pouco mais no octógono. Um round, com certeza. Três, se Jones quiser brincar. Como o atual campeão não é muito de enrolação, a luta acabará no segundo round. Nocaute, nocaute técnico, finalização, sabe Deus como Jones vai encerrar o assunto, mas, para mim, está claro que ele vai destruir e permanecer com o cinturão.

O palpite, então, é simples: Jones no segundo round. Podem cobrar depois.

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Anderson Silva, Jon Jones, GSP e a luta que ninguém quer ver

Jon Jones, Anderson Silva e GSP - Foto: Reprodução/UFC

Jon Jones, Anderson Silva e GSP - Foto: Reprodução/UFC

Julho de 2009. Logo depois do UFC 100, em Las Vegas, cruzo com um integrante da equipe de mídia da Zuffa, dona da franquia de lutas. No caminho para a sala de imprensa, falamos sobre a vitória de Georges St-Pierre sobre Thiago “Pitbull” Alves. O canadense não deu chances para o brasileiro e seguiu com o cinturão do peso meio-médio.

“Ele é um ‘mister picture boy’, né? Lutou cinco rounds e parece que acabou de tirar o terno”, disse o rapaz, cujo nome me reservo a não citar. E é bem assim, GSP sai da luta como se não tivesse lutado. Na época, ainda com a adrenalina do meu primeiro UFC in loco pulsando, concordei com a análise e me calei. Hoje, provavelmente, perguntaria: “mas será que isso é tão legal assim?”.

Leio no excelente blog Na Grade do MMA, comandado pelo amigo Jorge Corrêa (e não é pela amizade que o blog é excelente), uma entrevista de Anderson Silva à “ESPN” nos EUA. Nela, o brasileiro admite enfrentar GSP.

“GSP é uma pessoa muito educada e gosto muito dele. Contra ele seria uma grande, grande, grande luta e isso realmente pode acontecer.”

O combate entre Anderson e GSP já foi tratado como um sonho pelo próprio UFC. O duelo seria algo como uma luta suprema, que definiria o melhor lutador “pound by pound” (em todos os pesos) da história. Seria mítico, inesquecível, histórico. Os superlativos aqui tratados foram lidos por mim nos últimos anos na imprensa especializada. Mas, fico com um único questionamento: será?

É fato que Anderson é um dos lutadores mais criativos da história. O cara sabe como poucos esconder seus golpes até o último momento e, via de regra, surpreende os rivais. Até hoje, no UFC, surpreendeu todo mundo. Parece que ele sempre tem um coelho na cartola, uma carta na manga…

Já GSP é uma espécie de robô do MMA. Tem técnica? Claro que tem, se não, não seria campeão por tanto tempo – ganhou seu segundo cinturão em agosto de 2008, defendeu o título em seis lutas e só não foi para a sétima por causa de lesão. Não espere um drible, uma finta, uma ginga sensacional dele. Não discuto a eficiência, mas suas lutas, venhamos e convenhamos, são chatas, mas muito, muito, muito chatas.

Enquanto Anderson é capoeira, é mutante, GSP é, digamos, ciência exata.

Se Anderson x GSP já foi um sonho, hoje, não é mais. Parece até meio sem sentido pensar num duelo entre os dois. Pelo momento, pela técnica, pela carreira… O brasileiro é infinitamente superior. Se já foi um combate dos mais esperados, hoje, ninguém quer ver.

Por outro lado, a luta mais esperada do momento reuniria Anderson e sua versão nos meio-pesados, Jon “Bones” Jones. São dois caras com estilos semelhantes, com golpes que fogem da lógica. Mas, ao que parece, esse é um duelo que só vai rolar no videogame. Pelo menos é que o brasileiro afirmou e o Na Grade do MMA reproduziu:

“Não pretendo mais subir de categoria. Ele tem outro peso. Treino com caras maiores, como Lyoto Machida e Minotauro e sei como é complicado. Sempre que encontro Jones, falo para ele manter o foco, pois se fizer isso, não terá adversários. Ele é melhor de todos. Ele levaria muita vantagem, é bem mais novo que eu e não seria algo tão interessante.”

Será, Anderson? Vou discordar de você. Seria interessante demais, uma daquelas lutas memoráveis. Seria tão dramático para o brasileiro subir de peso? Ele já lutou nos meio-pesados e, somados, James Irvin e Forrest Griffin duraram 4min24 no octógono (1min01 e 3min23, respectivamente). Dá para afirmar, com todas as letras, que seria “A” luta, de tirar o fôlego, de ser vista e revista e, sim, aquela que mereceria todos os superlativos citados acima.

Ao que parece, em breve, quem sabe no fim deste ano ou no ano que vem, teremos um Anderson x GSP. É claro que terá uma audiência absurda, mas, acredito, com aquele sentimento de “Puts, e se fosse o Jon Jones ali?”. Essa, sim, a luta que todo mundo quer ver.

P.S.: Não sei para as outras plataformas, mas, quem baixou o demo do game “UFC Undisputed 3” para PlayStation 3 tinha duas opções de luta: ou Wanderlei Silva x Quinton Rampage Jackson no ringue do extinto Pride, ou Anderson Silva x Jon Jones no octógono do UFC. Pelo menos no videogame, dava jogo. E como!

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