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Kasparov mostra uma visão diferente do esporte e dá lições de vida

Garry Kasparov no Programa do Jô, dia 02/09/11 - Foto: Programa do Jô

Garry Kasparov no Programa do Jô, dia 02/09/11 - Foto: Programa do Jô

Garry Kasparov é um gênio, dominou o xadrez mundial por 20 anos. O cara está na América Latina para iniciar um trabalho de proliferação do esporte nas escolas. No Brasil, a ação tem a participação da ADX (Associação para o Desenvolvimento do Xadrez) e, em 2012, São Paulo deve receber a primeira escola oficial do russo, a “Kasparov Chess Foundation”.

Na última sexta-feira, ele deu uma entrevista para Jô Soares. Fazia um bom tempo que eu não via um papo tão bom no Programa do Jô. Por incrivel que pareça, Jô, de quem eu já gostei muito mais, deixou o entrevistado falar. E Kasparov falou, e muito.

O vídeo da entrevista está no fim desse post, mas pincelei alguns pontos que achei geniais. Só para lembrar: o russo é um enxadrista e, ao que pese se tratar de um esporte da mente, não deixa de ser um esporte.

“[Parei] porque atingimos limites. Acontece. Eu não me importava tanto com ganhar ou perder, apesar de ganhar quase sempre, mas eu me importava em fazer a diferença. Eu tinha 41 anos, já havia ultrapassado todos os limites, escalado os picos mais altos, conquistado mais do que jamais havia imaginado, e é importante sempre melhorar e aprender outras coisas, então decidi que era a hora.”

“Eu era um profissional e pode parecer estranho que eu diga isso, mas a capacidade de jogar xadrez não é nada além dela mesma. O importante é o que a gente faz com ela. Eu costumava escrever sobre xadrez e usar o xadrez como ferramenta para tomar decisões, mas, para a maioria, é só uma capacidade de jogar.”

“Esse tema é interessante, a ‘gravidade do sucesso anterior’. É possível se acomodar e pensar que se pode repetir o mesmo e continuar ganhando. Isso acontece no xadrez, na música, no futebol, em tudo. Assim que você para de avançar, os outros já te alcançaram, porque aprenderam com você. Não se pode confiar na mesma técnica para vencer. É necessário ser criativo. Sempre quis melhorar, encontrar opções com os computadores, com o meu técnico, não para um jogo específico, mas, de forma conceitual, para poder melhorar sempre.”

“O tempo é muito importante na tomada de decisões em qualquer situação. Não podemos pensar para sempre. Quanto mais rápido, melhor. Por isso o tempo é um fator no xadrez. Isso é necessário para que o jogo não dure demais e isso força as pessoas a decidirem com essa restrição. Todas as decisões que tomamos de material, tempo e qualidade, se excluírmos o tempo, a qualidade é prejudicada. Ter mais tempo significa que, na hora crucial, você pode pensar mais. É preciso identificar o clímax, o momento de usar toda a sua capacidade. Não dá para fazer isso o jogo inteiro. Os melhores jogadores sentem isso. Eles reconhecem o momento e se concentram mais, porque poucos momentos podem ser decisivos. Na vida, também. Você tem diversas tarefas em dias comuns, mas algumas decisões afetam a sua vida inteira. Se você identifica o clímax da sua vida, você pode vencer. Do contrário, será um perdedor.”

“Não confunda sua plateia falando em eleições, candidato, campanha… Sua plateia é jovem e cresceu na democracia, então não consegue imaginar que em lugares como a Rússia não lutamos para ganhar as eleições, mas para tê-las. A diferença é crucial. Para mim, ficar na Rússia e aceitar a ditadura de Putin era impossível, então não era como ganhar ou perder um jogo, mas era um dever moral. É necessário fazer. Não que eu ache que vá ganhar, mas não há outra escolha para um russo consciente.”

Ressalto, de novo, o fato de as palavras acima serem ditas por um esportista. Sim, o xadrez é um esporte da mente e blábláblá, mas volto a bater no ponto: o cara é um esportista. Quantos esportistas pensam um pouquinho como ele e têm essa noção ampla de como o esporte pode influenciar muito mais do que a sua própria vida? Quantos líderes conseguem pensar com tanta clareza? Quantos políticos fazem coisas pelo “dever moral de ser cidadão”?

Kasparov falou de xadrez, mas o que eu ouvi foi uma aula de cidadania e de como se pensar a vida. Em nenhum momento, ele falou em peão, bispo, rainha, cavalo. Ou seja, esporte é bem mais que bola, ponto, cesta, assim como política é bem mais do que levar vantagem pessoal em detrimento de cuidar do coletivo. É só ter a mente aberta e pensar diferente. Mas parece que, por aqui, isso é difícil. Tão difícil como bater Kasparov em uma partidinha.

P.S.: Não sei jogar xadrez, tenho o dom de nunca ter ganho um joguinho na versão que veio instalada no Windows. Sou muito perdedor. Isso foi só uma constatação e um desabafo…

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Da revista “Época”: Um jornalista e duas lições de vida

O autor é Ali Kamel, diretor da CGJ, Central Globo de Jornalismo, da “TV Globo”. Rodolfo Fernandes era diretor de Redação de “O Globo” e morreu no dia 27 de agosto. O texto foi publicado na edição 694, do dia 5 de setembro. Não tem muito o que dizer, é ler, reler, pensar na vida, se emocionar, enfim…

UM JORNALISTA E DUAS LIÇÕES DE VIDA, por Ali Kamel

“Há dois anos, eu estava pedalando no sul da França com Maria Silvia. Já tinha algo estranho na mão esquerda, mas me sentia mais disposto do que nunca. Há um ano, estava em Nova York, já de cadeira de rodas, mas com a mão direita intacta, falando e comendo perfeitamente. Há sete meses, você se lembra, jantamos na casa da Ana Tavares. Eu ainda sustentava, com muita dificuldade, uma conversa, comia com limitações, mais devidas à mastigação do que à deglutição. Hoje, só como coisas pastosas, com muita dificuldade. Para falar uma palavra apenas, faço enorme esforço. Minha capacidade respiratória não deve estar além de 20%. Digo isso tudo, Ali, para ilustrar o fato de que, por mais que eu e Maria Silvia lutemos, não há nada a fazer. A ciência e a religião não têm respostas. Não quero dizer que desisti. Continuo tendo prazer em acordar, ler meu jornal, vir trabalhar, fazer manchete, ver Mentalist sozinho com Maria Silvia, depois emendar em Vale tudo. Mas o que está feito, está feito.” RODOLFO FERNANDES, 9/6/2011

Rodolfo me escreveu esse texto graças a um software que O Globo comprou: absolutamente sem movimentos, sem poder falar, usando apenas os olhos, acionava um teclado. Ele era assim, franco, direto, direito, sem autopiedade. Não escrevo para destacar o seu talento de jornalista. A qualidade do Globo, cuja redação ele dirigiu desde 2003, fala por si. Quero dividir com os leitores a história de sua doença, da qual Rodolfo nunca falou em público. Não o traio tratando disso aqui, e vocês saberão por que ao terminar de ler este texto.

Eu o conheci em 1991 quando cheguei a Brasília. Ambos tínhamos 29 anos: eu, diretor da sucursal do Globo, ele, o coordenador de política. Logo me impressionei com a sua segurança. Se algum repórter errava, o tom de voz era sereno, mas ninguém duvidava de que estava ouvindo uma bronca. Logo no início, presenciei uma cena que definia a sua personalidade. Cheguei à redação e caminhei até a mesa dele. Ele falava ao telefone, num tom sério: “Da próxima vez que você quiser falar mal do meu pai, fale diretamente comigo. Não seja baixo, não use os repórteres para me atingir”. Levei um susto, mas ele me explicou. O então porta-voz do governo Collor xingara o pai dele para uma repórter, a troco de nada, e enfatizando o parentesco. Rodolfo se divertiu: “Estou fazendo o Claudio Humberto sentir na carne os efeitos de sua própria política de comunicação: ‘Bateu, levou'”. Rodolfo era assim: suave, mas firme. E sem perder o humor.

A relação com o pai, o polêmico jornalista Hélio Fernandes, dono do jornal Tribuna da Imprensa, estava àquela altura pacificada havia anos. Em 1982, com 20 anos, Rodolfo se desentendera com ele por causa da cobertura da eleição para governador. Saiu da Tribuna e, no ano seguinte, foi para Brasília, onde viveu 13 anos, trabalhando em muitos jornais, principalmente no Globo, onde se tornaria, já no Rio, diretor de redação, o posto máximo da carreira jornalística. O distanciamento físico e profissional deu a ele uma personalidade própria: nunca foi o “filho de Hélio Fernandes”, mas o jornalista Rodolfo Fernandes. E, assim, pôde ter com o pai a relação por que todos anseiam: afetiva, próxima, mas independente, aceitando-o com os defeitos que muitos veem nele e com as virtudes que só um filho pode conhecer. Rodolfo era assim: independente, reservado. E em paz com o que a vida lhe dera.

Brasília foi um marco na trajetória de Rodolfo: ali fez seus amigos da vida inteira, encantou-se pela cobertura política, casou-se com Sandra, com quem viveu 23 anos, e com ela teve dois filhos, o músico Felipe, hoje com 22 anos, e a estudante de jornalismo Letícia, de 21 anos. Quem vai à casa dos filhos se comove com as fotos na parede: Rodolfo, muito jovem, cobrindo de beijos Felipe, um bebê, levando ao colo Letícia, ainda de berço. Rodolfo era assim: amoroso, carinhoso. E um pai dedicado.

Não fumava, não bebia, praticava esportes, gostava de caminhar pela orla do Leblon, sem camisa quando fazia sol, para se bronzear. Era magro, colesterol baixo, gostava, enfim, de se cuidar. Rodolfo era assim: amante da vida, dos seus prazeres. E sempre um homem saudável.

Não era um santo. As qualidades excediam os defeitos, mas, claro, eles existiam. Se faço referência a eles, é porque Rodolfo detestava um jornalismo com omissões. O maior defeito era a teimosia. Se achava que tinha razão, teimava, demorava a admitir quando estava errado, e, às vezes, nunca admitia. Se considerava que alguém agira mal com ele (ou com outros), sabia ser duro e rompia a amizade. Com alguns, se reaproximava. Com outros, não. Rodolfo era assim, um homem de convicções, com um caráter forte. E teimoso, muito teimoso.

Em 2007, viveu uma nova paixão: Maria Silvia Bastos Marques. Namoraram, viajaram, divertiram-se, e, em novembro de 2009, já com o diagnóstico, casaram-se. E planejaram uma vida juntos. Era romântico, enviava bilhetes amorosos, falava da mulher com orgulho. Rodolfo era assim: apaixonado, com um jeito quase juvenil. E planejava cada passo de sua vida.

Pensando em tudo isso, parece ainda mais absurdo que uma doença tão cruel como a esclerose lateral amiotrófica tenha se abatido sobre ele. Não há mal mais terrível. Os nervos que comandam os músculos dos movimentos voluntários, sem que se saiba a razão, começam a morrer, paralisando o paciente. Primeiro as extremidades, os membros superiores e inferiores, a língua, a deglutição e, por fim, a respiração. Na definição de outra vítima da doença, o historiador Tony Judt, a pessoa acaba prisioneira do próprio corpo. Não se mexe, não pode falar, mas não perde a sensibilidade, o que pode ser ainda mais cruel: Judt dizia que aquela coceirinha que todos sentem no meio da noite continua lá, mas o paciente não pode coçá-la nem pedir que alguém coce.

Rodolfo agradecia uma vantagem: a inteligência e a lucidez permanecem intactas. E foi isso o que fez dele um herói no Globo. Com a redação adaptada para as condições dele e com o software que lhe permitia digitar com o olhar, ele comandou a redação até a antevéspera da morte. No dia 15 de março, ele explicou: “Olha, Ali, eu impressiono todos os meus médicos pelo meu estado de espírito, nunca reclamo de nada e estou sempre animado. Tem dias em que a Maria Silvia está pior do que eu. Mas sou muito racional e se há alguma vantagem nessa terrível doença é que você vai se acostumando com um possível desfecho. Fique tranquilo, estou bem de cabeça. Até meu humor está intacto”.

E estava. Comentava tudo, as idas e vindas da política, a revolta no mundo árabe, a crise econômica, mas também pequenos acontecimentos na vida dos amigos. Sempre com leveza. E rápido nas tiradas. Contaram a ele que certa personalidade política não entendera o porquê de uma matéria do Globo. Ele escreveu no ato: “Pelo menos, lê jornal. Entender já é querer demais”. Gostava de fazer humor com a própria doença. Se alguém perguntava como estava, escrevia: “Melhor do que amanhã”. Jorge Bastos Moreno, talvez o melhor e mais próximo amigo, conhecido por sua hipocondria, sentindo-se muito mal um dia, mandou um e-mail para ele: “Amigo, acho que estou morrendo”. Rodolfo replicou: “Somos dois”. Moreno, com intimidade para tal, disse: “Eu acho que vou primeiro”. E Rodolfo encerrou a conversa: “Taí uma disputa que não quero ganhar”.

Seu forte, porém, era falar sério. Ia todos os dias ao jornal, o que, para quem não tinha autonomia, não era nada trivial. Quando a redação se dava conta, ele já estava na sala dele, sem drama, sem alarde. O sucesso da operação muito se devia a Nadia Moraes, secretária de Rodolfo, que se tornou uma espécie de anjo da guarda, dedicada a que tudo desse certo. Enquanto podia falar, mesmo com dificuldade, recebia editores e discutia tudo. Depois, quando a fala desapareceu, a rotina pouco se alterou, graças ao software. Tinha a seu lado, na redação, revezando-se diariamente, os dois filhos, que o auxiliavam na escrita. Quando ainda falava, mas poucos o entendiam, eles ouviam e digitavam para ele. Quando perdeu a fala, iniciava as palavras com o olhar, abreviando-as, e, depois, os meninos passavam a limpo (na ausência deles, Nadia fazia esse papel, embora Rodolfo, ele próprio, gostasse de digitar).

Na quinta-feira 25 de agosto, Rodolfo chegou à redação especialmente cansado. Reuniu-se, como de hábito, com o diretor de redação adjunto, Ascânio Seleme, e com os editores executivos Luiz Antônio Novaes e Helena Celestino. Inteirou-se dos assuntos, concordou com a sugestão de manchete, quis saber do fim de semana e, depois, precisou ir embora mais cedo.

Na sexta, não foi trabalhar. A respiração estava um fiapo. À noite, Maria Silvia e o irmão dele, Bruno, chamaram o médico Paulo Niemeyer, amigo que o assistiu nos últimos meses. Rodolfo estava sereno, mas disse para Paulinho que queria ir para o hospital, ser sedado. Escreveu no computador que Paulinho prometera que, quando chegasse a hora, quando o sofrimento fosse muito grande, ele o pouparia, sedando-o, mas sem nada apressar. Paulinho, muito humano, e sabendo que estava mentindo diante da gravíssima e, agora, irreversível insuficiência respiratória, disse que não, que ele iria sim para o hospital, seria ventilado e, saindo da crise, voltaria para a casa. Não se cogitou traqueostomia, porque Rodolfo fez um testamento proibindo os médicos de adotar esse procedimento, inócuo no caso dele. Ao ouvir de Paulinho que não chegara a hora de sedá-lo, Rodolfo escreveu, ainda bem-humorado: “Você está querendo me dar uma volta”. No hospital, Rodolfo insistiu na sedação e fez questão de saber qual seria a medicação e seus efeitos. Depois, escreveu: “Legal”. Adormeceu. E não acordou mais.

Por que falo da doença, se Rodolfo evitava falar dela? No velório, na minha fala representando os amigos, eu disse que Rodolfo nunca foi dado a dar lições a ninguém, mas, no fim, involuntariamente, acabou nos legando duas. A primeira, óbvia, mas que preferimos esquecer: a vida é incerteza pura. De repente, algo terrível pode se abater sobre nós, mesmo que sejamos, como Rodolfo, suaves, firmes, bem-humorados, afetuosos, independentes, reservados, em paz com o que a vida nos deu, amorosos, carinhosos, de hábitos saudáveis, convictos, apaixonados, leves e juvenis. Nada disso nos imuniza, e é por isso que precisamos viver a vida de maneira intensa, cada minuto. Como Rodolfo viveu. A segunda lição, e esta não tem nada de óbvio, é que não há problema que não deva ser enfrentado com serenidade e dignidade. Quantas vezes não perdemos a cabeça diante de pequenos obstáculos, e nos desesperamos? Rodolfo viveu um drama dantesco, mas foi digno e sereno em todos os instantes. Inclusive no derradeiro. Essas duas lições foram aprendidas por nós, seus amigos, nos últimos dois anos, tempo entre o diagnóstico e a morte. Não acho justo que não as dividamos com vocês, leitores. Rodolfo sempre me dizia que eu tinha sempre argumentos bons para defender o meu ponto de vista (às vezes, dizia isso com certa ironia). Gosto de imaginar que ele repetiria hoje o elogio, de forma sincera.

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