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“Quem não chora, não mama”: ditados populares e um quinteto de artilheiros

Use o ditado que quiser. Se quem não chora, não mama, quem não chuta, não marca. No futebol atual, finalizar é, por um lado, quase um pecado. Por outro, um dom. Nêgo tem medo de enfiar o bico na bola ou, pior, não tem qualidade para isso. Mas, no caso, a melhor qualidade é a coragem.

Por isso, admiro caras como Suárez, Ibrahimovic, Falcao, Negredo, Van Persie. Acredito que eles foram o “quinteto fantástico” quando o assunto é chute a gol. O motivo é simples, quase elementar. Eles não têm medo de errar. Chutam de longe, de perto, com ângulo, sem, batem faltas e até cabeceiam. É a velha história: quem não tem cão, caça com gato. Eles caçam com qualquer coisa.

Basta ver os lances – gols ou não – que esses caras criam. A bola vem toda torta, na intermediária, no campo molhado, e eles chutam. A bola bate aqui e rebate ali, quica pra lá, volta pra cá, e eles chutam. Quando a redonda chega macia, “pedindo me chuta, me chuta, me chuta”, como diria o imortal José Silvério, eles enchem o pé. Quem não arrisca, você sabe, não petisca.

Não tem marcação que sobreviva a tamanha “ousadia”. É comum a bola queimar no pé, e o passe para o lado, aquele que atrasa o jogo e ajuda a se livrar da pelota, se torna a melhor saída. O drible, bem, é uma opção, mas, sabe como é, pode dar errado. O chute? Esquece, nunca vai rolar acertar aquele retângulo branco. Com o quinteto, as opções aumentam exponencialmente: o passe é bom, o drible é demais, e o chute é a grande arma. Se tornam quase “imarcáveis” pela confusão mental que causam nos rivais, que ficam como cegos em tiroteios.

Se o trabalho enobrece o homem, esses nobres artilheiros labutam fazendo gols. Invertem a lógica: com eles, vale menos um pássaro na mão, vale mais um pombo sem asa voando. Enquanto eles estão em campo, há vida, há esperança. E há gols, muitos gols. Como diria o profeta Dadá Maravilha, “não existe gol feio, feio é não fazer gol”.

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Corinthians x Boca: “Por uma cabeza”

“Por una cabeza” é um dos tangos mais famosos do mundo, acho que o mais conhecido. A música fala de um apostador, que compara seu vício em corrida de cavalos a suas conquistas – e desilusões – amorosas.

É aquela coisa de perder – na corrida, no amor – e dizer que nunca mais vai apostar. Mas, sabe como é, se aparece um páreo interessante – ou uma mulher interessante -, por que não jogar? Parece até futebol: o time perde, você fica puto, diz que nunca mais vai ao estádio, mas aí chega a quarta-feira, tem aquele jogo sedutor e, sabe como é…

Em “Por una cabeza”, se ganha ou se perde sempre por muito pouco, daí o título. Como no mundo da bola, títulos são conquistados em um piscar de olhos: um chute de longe que desvia em alguém e entra, um bate-rebate na área, um drible, um chute perfeito. Sempre apertado, sempre suado.

Talvez a metáfora boleira tenha a ver com a origem da música. Carlos Gardel, o cantor que botou voz no tango e popularizou a música pelo mundo, nasceu em Toulouse, na França, mas chegou, ainda criancinha, a Tacuarembó, no Uruguai. Depois, naturalizou-se argentino.

A letra é de Alfredo Le Pera, nascido em São Paulo, mas “paulista”, de fato, por apenas alguns meses. Os pais, italianos, logo foram para a Argentina. Ainda garoto, escrevia poesias. Depois, letras de música. Quase todas as cantadas por Gardel têm o toque de Le Pera. “Por una cabeza” é uma delas.

“Por una cabeza” foi gravada em 19 de março de 1935, em Nova York. Mas Gardel e Le Pera não tiveram a oportunidade de ver a música explodir pelo mundo: a dupla morreu em um acidente aéreo na Colômbia, dia 24 de junho do mesmo ano. Gardel tinha 44. Le Pera, 35.

França, Uruguai, Brasil, Argentina, Itália, EUA, Colômbia, uma mistureba daquelas marca a origem e o fim do sucesso, a origem e o fim da dupla, marca “Por una cabeza”. Nessa minha ficção, é uma mistureba à la Corinthians, à la Boca, uma mistureba que, com o perdão da redundância, se mistura com as histórias de tantos brasileiros, tantos argentinos, separados por uma fronteira, um idioma e posturas distintas, mas “quase” parentes e sempre rivais.

Corinthians e Boca fazem uma final assim, cheia de paralelos e perpendiculares, de times que não são os melhores do mundo, mas passaram por cima de todos os rivais e hoje, merecidamente, decidem a América. Será um daqueles títulos chorados, emocionantes, uma explosão de felicidade para uns, um abismo de tristeza para outros. Será uma final com cara de tango, com sofrimento e alegria. Será uma final apertada, suada. Um campeão “por una cabeza”.

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Uma ansiedade chamada final de Libertadores

Você é corintiano? O coração está na ponta da língua, né? Não é? Tá com a boca seca, então? Torça ou não para o Corinthians, a ansiedade é a palavra do torcedor um dia antes da final da Libertadores contra o Boca Juniors.

Você liga a TV e só se fala do jogo. Está assistindo à novela e passam um, dois, três comerciais sobre a partida. Se bobear, no meio de um filme no cinema, Woody Allen é capaz de parar a cena e, olhando direto no seu olho, perguntar: “E aí? Corinthians ou Boca?”.

Os momentos que antecedem um grande jogo são dos mais tensos para qualquer torcedor. Para aquele que tem seu time envolvido, é uma verdadeira tortura esperar o apito inicial. Para quem não tem, é hora de esconder as unhas ruídas e encher o saco – no melhor sentido da expressão – antes do confronto.

A final da Libertadores é o momento mais esperado para o torcedor brasileiro. Talvez pela proximidade com jogo decisivo, disputado no Brasil, soa muitas vezes mais importante que um Mundial.

Nesta quarta, tudo que é torcedor estará ligado no grande jogo. Muitos torcendo, outros secando. Até, ansiedade. Ansiedade que descansa com o início da decisão, mas que só vai terminar com o apito final. Mas aí tem o Brasileiro, o Mundial, recomeça a Libertadores…

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Pequeno manual prático para ganhar – ou perder – do Boca Juniors

La Bombonera, palco da final - Foto: Ricardo Zanei

La Bombonera, palco da final – Foto: Ricardo Zanei

Rabisquei uma enorme análise tática, mas, ao fim, depois de escrever e escrever, percebi o óbvio: o Boca Juniors é um daqueles times sem mistério. Não tem suspense na escalação, não tem mudanças táticas mirabolantes. Assim, resolvi ir direito ao assunto e fazer um pequeno manual para se bater a equipe argentina – ou, se você preferir, para se vencer o Corinthians. Tudo depende da leitura…

O Boca atua num 4-4-2 sem frescura. A equipe de Julio César Falcioni joga com quatro defensores, três volantes (ou um volantão e dois meias recuados), um meia meia mesmo, dois atacantes. Simples.

Orión é um goleiro experiente, de 31 anos, mas ainda assim, inconstante. É capaz de pegar um chute de Rivellino no ângulo e, no lance seguinte, levar um gol de Xandão, em chute de canhota, sem força, do meio-campo.

A zaga é formada por Schiavi, 1,91 m, veteraníssimo de 39 anos, e Caruzzo, 1,83 m, 27 anos, que assumiu a vaga do lesionado Insaurralde. Aí, talvez, esteja o principal problema da equipe, principalmente pelas falhas nas bolas alçadas na área: afastar o perigo, muitas vezes, é um tormento para a dupla.

São dois laterais: Roncaglia, pela direita, ataca pouco e marca com deficiência, enquanto Clemente Rodrígues, pela esquerda, ataca. O carequinha é responsável pela saída de jogo, aparece bem à frente para cruzar, gosta de chutar de longe e de bater faltas. É um dos pontos altos do time.

O meio-campo começa com Somoza, volantão clássico, à frente da zaga. Pela direita, Ledesma é um meia recuado, com duas missões: a prioridade é ajudar na marcação, mas, se der brecha, avança. Pela esquerda, o cabeludinho Erviti tem velocidade para atacar e forma uma bela dupla com Clemente Rodríguez. A parceria é imprescindível para que o Boca agrida o Corinthians.

Centralizado está Riquelme. Minha opinião sobre ele está no texto “Boca e Libertadores e um capeta chamado Riquelme: feitos um para o outro”. É um meia clássico, o cara que pode decidir tudo com um tapa na bola. Um monstro!

No ataque, Mouche é um canhotinho que adora cair pela direita. Cruza bem, sabe driblar, enfim, é perigoso. Atenção redobrada também para Santiago “El Tanque” Silva, esse grosso que virou piada quando passou pelo Corinthians, mas que faz gols no Boca.

Riquelme - Foto: Ricardo Zanei

Riquelme – Foto: Ricardo Zanei


Como fazer um golzinho
O ataque do Corinthians não é nem um pouco avassalador, mas a zaga do Boca também não é a melhor do planeta. O problemão argentino é a bola alçada na área: levantar a redonda, especialmente da intermediária, pode ser o caminho. Dos sete gols sofridos, seis nasceram de cruzamentos para a área, três deles nas costas de Roncaglia.

Mas, sem um atacante de área, será que o Corinthians conseguirá tirar proveito disso? Por isso, é sempre bom ter um plano B. Se a zaga tirar, o rebote pode ser a saída. Dois gols nasceram, ambos dentro da área (ambos contra o Unión Española, um fora e um em casa), de bolas mal rebatidas pela defesa argentina.

Para fazer gol no Corinthians, pelo retrospecto na Libertadores, é necessário um fator imprescindível: sorte. Foram apenas três gols sofridos no torneio, dois na pequena área, um na marca do pênalti. O que falta no ataque corintiano, o tal “homem de área”, pode ser a solução xeneize. Palermo parou, mas, quem sabe, Santiago Silva pode ser a salvação.

Depois dessa análise espetacular, ficou claro que o jogo está praticamente definido. Quem leu sabe que a bola nem precisa rolar. Está na cara: o campeão será o… Quarta-feira, dia 4, a gente conversa.

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Ronaldinho, um conto de fadas para Atlético-MG ver

Ronaldinho Gaúcho no Atlético-MG - Foto: Bruno Cantini/Divulgação

Ronaldinho Gaúcho no Atlético-MG – Foto: Bruno Cantini/Divulgação

Ronaldinho deixou o Flamengo pela porta dos fundos, sorrateiro, na calada da noite. Mas chegou ao Atlético-MG à luz do dia, sem a mesma festa dos tempos da Gávea, mas com trabalho, muito trabalho.

Colocou o uniforme, bateu bola com os companheiros, correu, suou. Animou os outros jogadores com o seu ânimo de jogar.

Diminuiu bastante a sua pretensão salarial. Ou seja, dane-se o dinheiro, que ele já tem muito: agora é a hora de jogar bola, de mostrar a que veio.

Ronaldinho, enfim, está com sangue nos olhos.

Tem tudo para ser aquele cara que encantou o mundo com a camisa do Barcelona. Dribles desconcertantes e inesquecíveis. Passes mirabolantes, vesgos, daqueles de olhar para a frente e mandar a bola lá do outro lado, redonda, limpa, para o atacante marcar.

Estão de volta as cobranças de falta magníficas. Aquele olhar fixo na bola, na barreira, no gol, na bola, na barreira, no gol, marca registrada do Gaúcho, vão abrilhantar o futebol mineiro.

É a hora da redenção, de botar para quebrar, de mostrar que quem é rei nunca perde a majestade.

É agora que Ronaldinho vai fazer tudo o que já fez, aquele futebol moleque, quase irresponsável, somado a uma objetividade ímpar. Aquele futebol que o fez ser comparado a deuses como Maradona e até Pelé.

Serão gols e mais gols, dribles e mais dribles. Haja replay para mostrar tanta habilidade, tanta maestria.

Ronaldinho, enfim, será Ronaldinho. E vai mostrar para o mundo que esse lapso na sua carreira foi apenas um lapso, uma página a ser virada. Daqui pra frente, é escrever de vez o nome na história do mundo da bola. Com letras maiúsculas!

Você acredita em tudo isso? Eu não. De pé junto, “duvideodó”. Mas parece que tem gente que ainda acredita. Até quando?

Capa do Jornal Meia Hora, edição de 05/06/12 - Foto: Divulgação

Capa do Jornal Meia Hora, edição de 05/06/12 – Foto: Divulgação

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Boca e Libertadores e um capeta chamado Riquelme: feitos um para o outro

Riquelme comemora gol - Foto: Ivan Alvarado/Reuters, Arte/Ricardo Zanei

Riquelme comemora gol – Foto: Ivan Alvarado/Reuters, Arte/Ricardo Zanei

Existem jogadores que foram feitos para determinados clube e funcionam perfeitamente em determinadas competições. É o caso de Riquelme, Boca Juniors e Libertadores.

É curioso como os times brasileiros ficam contando vantagem ao falar de suas conquistas continentais. Santos e São Paulo dividem a primazia e as provocações com três títulos cada um. Riquelme tem três: 2000, 2001 e 2007.

Claro que ele não joga sozinho, mas, em todos os títulos, teve papel fundamental. Pergunte para qualquer palmeirense se o nome de Riquelme é bem visto? Pergunte para torcedores de Palmeiras, Vasco, Grêmio e tantos outros, e a resposta será a mesma: ele é o capeta. São calafrios e pesadelos até hoje.

É curioso que, quando se pensa em Boca, a imagem que vem à cabeça é de um rime guerreiro, raçudo, que dá carrinho e come grama. Riquelme é a antítese disso: refinado, sempre em pé e de cabeça erguida.

Em tempos de correria e de velocidade extrema, de jogadores polivalentes, de atacar, marcar, atacar, marcar, Riquelme é o porto seguro. Enquanto todos correm, ele, em slow motion, pensa. Parece que o mundo desacelera quando o meia está com a bola. E, num passe de mágica, está lá a redonda, mais veloz do que nunca, enquanto o camisa 10 segue o seu ritmo, impassível.

Mais do que pensar o jogo, Riquelme é o cara quando o assunto é decisão. Pode errar feio, mas peca pela tentativa, nunca pela omissão. Nesse sentido, ele é mais Boca do que qualquer xeneize. Só para citar, bateu e converteu pênalti na decisão contra o Palmeiras em 2000 e na final contra o Cruz Azul em 2001, fez três gols na duelo contra o Grêmio (um no primeiro jogo, dois no segundo) em 2007. Um capeta.

Além do Boca, o meia passou pelo Barcelona, sem sucesso, e pelo Villarreal, no qual foi o grande nome do time que conseguiu o terceiro lugar inédito no Campeonato Espanhol em 2004-2005. Na Liga dos Campeões 2005-2006, levou a equipe amarela ao seu melhor resultado continental. Passou invicto pela fase de grupos, deixando em último o monstruoso Manchester United. Eliminou os Rangers nas oitavas e a monstruosa Inter de Milão nas quartas. Só parou na semi, contra o Arsenal: Riquelme perdeu um pênalti e nunca mais jogou bem pelo time espanhol.

Tantas e tantas vezes ouvimos o nome de Riquelme sendo comentado como possível reforço de um time brasileiro. Nunca deu certo, e acredito que nunca daria: por sua história, pela maneira de jogar, mesmo com o sucesso no Villarreal, ele é Boca. E “só”.

Os brasileiros são fortes, a Universidad do Chile é muito boa, o Vélez é bem arrumado, mas ninguém bota mais medo na Libertadores do que Riquelme. O Boca tem um timinho bem meia-boca (há), e ele tem sido a salvação nos momentos de tensão. O que ele fez contra o Unión Española foi de arrepiar. O Boca precisa dele, ele sabe disso, e esse é o maior problema.

O Fluminense tem muito mais bola que o Boca. Tem Deco, Fred, Sóbis. Mas não tem Riquelme. Ele, Boca e Libertadores formam uma tríade daquelas de tirar o sono. Calafrios e pesadelos. Um capeta esse Riquelme.

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Yekini, gol, comemoração e fogos de artifício de um italianinho traíra

Yekini e a comemoração mais bonita - Foto: AP

Yekini e a comemoração mais bonita – Foto: AP

Yekini morreu na sexta-feira. Para muitos, o nome não significa nada. Para outros, é olhar no Google e ver que é o maior artilheiro da seleção da Nigéria, ou, ainda, autor do primeiro gol do país na história das Copas do Mundo. E esse post começa com esse gol e sua comemoração e passa por uma traição.

A estreia no Mundial de 1994 foi contra a Bulgária. Era um daqueles jogos que não dava para perder. Por um lado, havia toda a curiosidade para saber como jogaria aquela Nigéria. Sabe como é, time africano sempre apronta alguma, e aqueles caras de verde, ou melhor, com o inexplicável branco e cinza, tinham tudo para ser a bola da vez. Só a presença de Stoichkov do lado búlgaro já valia o “ingresso”, mas o time ainda vinha recheado de Ivanov, Borimirov, Letchkov, Kostadinov e Balakov. Imperdível.

Descobri que o lance saiu aos 21min do primeiro tempo. Jogada esperta, troca de passes envolvente, a defesa búlgara perdidassa. Bola na direita, cruzamento rasteiro, Yekini entra no meio da área e só tem o trabalho de empurrar para o gol vazio. Bacana, legal: em um primeiro momento, era apenas o primeiro gol da Nigéria em Copas. Mas bastou um instante para se tornar um dos lances mais belos e honestos da história da bola. Por quê? Pela comemoração.

Claro, muita gente escreveu sobre isso, mas não posso deixar batido. Aquele misto de desabafo e agradecimento em forma de oração e choro, entrelaçado à rede, é, na minha opinião, a redefinição de uma comemoração de um gol. Ou a definição pura de uma celebração. Sabe aquele papo dos deuses do futebol? Naquele momento, em algum lugar, foi a vez de todos eles se unirem e se ajoelharem em clemência para Yekini. Aquilo era tão verdadeiro que parecia de outro mundo. Até foi, vai saber. É de uma emoção sem precedentes e, por isso, inexplicável, sem a menor possibilidade de traduzir tudo aquilo em palavras. Caramba, até hoje arrepia!

Começava ali, e não no apito inicial do jogo, a trajetória de uma Nigéria encantadora. Toda Copa tem uma “seleção sensação”, e aquele gol de Yekini decretava a nigeriana como grande surpresa de 1994. E foi, como foi.

A Nigéria me encantou tanto que protagonizei uma cena de ódio dos meus vizinhos italianos. A data precisa foi 5 de julho, uma terça-feira (claro que eu pesquisei) ensolarada. O jogo era Nigéria x Itália. Eu estava de férias da escola, o saudoso segundo colegial, e, como todo adolescente, estava de bobeira em casa antes da partida.

Jaqueta da Itália e camisa da Nigéria: unidas no meu guarda-roupa - Foto: Ricardo Zanei

Jaqueta da Itália e camisa da Nigéria: união no guarda-roupa – Foto: Ricardo Zanei

Vale um parênteses para dizer que a presença italiana em Santo André, minha terra, é marcante. Na minha família, idem. Meu avô, por exemplo, era Mansueto Zanei. Minha avó, Orlando. Três nominhos que ajudam a entender o meu passado. Claro que eu tenho o lado do contra, o Parra Hernandez, meu avô materno, vindo da Espanha. E foi essa mistura da Itália traidicional com o furioso sangue espanhol que causou uma certa confusão.

Naquela época, a gente comprava fogos de artifício para usar nos jogos do Brasil. Bom, esse era o objetivo, mas, claro que, como qualquer adolescente, eu adorava fazer merda. Ou, digamos, expressar minha felicidade explodindo aquilo tudo pelo céu, especialmente quando minha mãe não estava em casa. Confesso que não lembro se ela estava ou não, mas, assim que Amunike abriu o placar para a Nigéria, não tive dúvida: eu, italianinho, peguei um rojão, fui para o quintal e BUM!

Era a minha maneira de mostrar o meu apreço por aquele time que me encantava. Só não esperava que xingamentos a torto e a direito eram a maneira dos meus vizinhos de mostrar o ódio pela minha atitude adolescente. Sem nenhum arrependimento, deixei o quintal e voltei para a TV. Roberto Baggio, um monstro, empatou, levou o jogo para a prorrogação e ainda fez o gol da vitória. Nigéria eliminada. Mais e mais xingamentos.

Na mesma época, o futebol de botão era algo muito presente na minha vida. Depois da Copa, o objeto de consumo era a Nigéria. Comprei um time feio que só, da marca Champion – e que deve estar perdido no que restou da casa da minha mãe -, mas responsável por um futebol-moleque que só ele. Graças à Copa e aos jogadores circulares, nunca me esqueci de nomes como Rufai, Eguavoen, Finidi George (ou George Finidi?), Amunike, Amokachi, Oliseh, Jay Jay Okocha (Jay Jay é um nome muito legal), Uche, Adepoju…

E, claro, Yekini. Nada disso existiria sem ele. Hoje, ele deve estar batendo aquele papo com os deuses do futebol. E não tenho dúvidas que, até os deuses, do alto de suas divindades, renderam homenagens a ele. Nada mais merecido.

Nigéria 3 x 0 Bulgária: os gols e “A” comemoração

P.S.: Não precisa fuçar muito para achar o jogo entre Nigéria e Bulgária inteiro no Youtube. Vale o investimento!

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