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Futebol, jornalismo e estômago

Se a lama fosse só na bola... - Foto: AFP

Se a lama fosse só na bola… – Foto: AFP

Prometi voltar à ativa neste blog nesta semana, mas a sequência de fatos foi das mais desanimadoras e me fez lembrar os trocentos motivos que me afastaram do futebol e da redação. Diante de tudo, está cada vez mais claro, pra mim, que a principal caraterística de um jornalista esportivo é estômago.

O mundo futebolístico é sujo, podre. Vivenciei isso por um pequeno período de tempo, há mais de uma década, e bastou aquele aninho para que eu ficasse distante do futebol. Admiro os colegas de profissão que conseguem cobrir a modalidade por tanto tempo sem se vender ou cair em tentação. Vira até uma espécie de profissão de fé.

O futebol é o esporte mais sensacional do planeta, mexe com as emoções de uma maneira única e trata de zilhões de aspectos da vida em um único lance (estão aí os grupos de estudo que não me deixam mentir). Mas, se emociona pelo bem por seu lado “campo, bola e gol”, emociona pelo mal nos seus bastidores. É ali que a bola perde a beleza e o lado monstro aparece da maneira mais escrota possível.

É preciso estômago forte para encarar tudo isso. É preciso estômago forte para engolir seco e seguir na batalha. Muitos desistem, como eu desisti, e não os culpo: a coisa, realmente, é para poucos.

Nos últimos dias, li e reli certas coisas inexplicáveis, e haja estômago para digerir tudo isso sem regurgitar. Li e reli os mandos e desmandos do Juvenal e seus podres poderes. Li o “ganhou o doping” do empresário Wagner Ribeiro sobre Cielo em detrimento do seu agenciado, Neymar, mas não reli porque ele apagou as mensagens no Twitter. Voltei a ler e reler as coisas inexplicáveis e, por serem inexplicáveis, para mim, são pura ficção.

Tudo isso é um dos lados que me fez deixar a redação, há pouco mais de um ano, e tirar um tempo para repensar a vida e, claro, o jornalismo, o jornalista. Ainda hoje continuo nesse exercício mental e, muitas vezes, me pego achando que não vale a pena tanto esforço. Afinal, é apenas uma profissão.

Há quatro anos, cruzou o meu caminho um moleque empolgadão com o jornalismo. Estagiário, figuraça. Bastou um ou outro texto, uma ou outra matéria para ver que era um diamante e ser lapidado, um daqueles caras que nasceram para ser repórter. A carreira dele foi deslanchando, quase sempre ligada ao mundo da bola, mas, diante de tanta bobagem nos últimos dias, ele mesmo questionou: “Para que fui trabalhar com futebol?”. Não sei, meu amigo. Só sei que é preciso ter estômago para isso.

P.S.: Sei que a discussão acima é longa, é papo de boteco, e aceito totalmente as opiniões contrárias. Também é meio óbvio que o jornalista que cobre política deve sentir a podridão a quilômetros de distância, mas eu nunca cobri. Meu foco sempre foi o esporte e, por isso, o texto trata apenas desse mundinho.

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