Arquivo da tag: Éric Abidal

Sobre Abidal, continuar e duas lições

Passei quatro dias longe de Internet, computador, trabalho e esporte. Vi quase nada do mundo. Depois de trocentos dias consecutivos – e algumas madrugadas – de trabalho, precisava dar férias para os neurônios. Mas, sabe como é, para fechar o domingo, resolvi ligar o maldito laptop. Dessa vez, bendito.

E foi só aí que vi que Abidal voltou a jogar.

É difícil encontrar palavras para falar sobre Abidal (recomendo o belo texto de Leandro Stein no Trivela). Dane-se se você gosta ou não de futebol. Saber que Abidal é um defensor francês que atua no Barcelona não muda em nada a história toda. O ponto central da questão é: por causa de caras como Abidal que a gente, inutilmente pequeno, vê que uma maneira digna de viver é continuar.

Ganhar e perder é do jogo, é da vida. Sabe como é, você pode fazer tudo direitinho e perder aos 48min do segundo tempo. Paciência. Ou, ainda, errar completamente a bola, pegar meio de canela e pensar que o chute vai sair do estádio, mas ela desvia no zagueirão, mata o goleiro e, olha só, é o seu time ganhando aos 48min.

A lição de Abidal é continuar. Continuar não significa fazer a mesma coisa sempre. Continuar é, sim, não desistir. É ver que, ganhando ou perdendo, mandando ou não a bola na arquibancada, ainda há esperança de ter mais um segundo, mais um momento para sorrir. Se esse segundo existir, agarre-se a ele. É de segundo em segundo que pequenas vitórias se transformam em conquistas.

Madrugada dessas, assisti ao mais do que espetacular “Survive and Advance”, mais um daqueles filmes da série “30 for 30” da ESPN que você tem vontade de ver, rever, rever, rever… E chorar em todas elas.

O discurdo de Jimmy Valvano no ESPY Awards de 1993 é daqueles para deixar sempre por perto. Naqueles dias em que o mundo está acabando, leia e releia. A transcrição pode ser encontrada nesse link, e o vídeo do discurso completo está aqui embaixo.

Uma parte veio muito a calhar neste domingo:

When people say to me how do you get through life or each day, it’s the same thing. To me, there are three things we all should do every day. We should do this every day of our lives. Number one is laugh. You should laugh every day. Number two is think. You should spend some time in thought. Number three is, you should have your emotions moved to tears, could be happiness or joy. But think about it. If you laugh, you think, and you cry, that’s a full day. That’s a heck of a day. You do that seven days a week, you’re going to have something special.

Ri neste domingo. Pensei na vida neste domingo. E, graças a Abidal, se tornou um dia completo.

I just got one last thing, I urge all of you, all of you, to enjoy your life, the precious moments you have. To spend each day with some laughter and some thought, to get you’re emotions going. To be enthusiastic every day and as Ralph Waldo Emerson said, “Nothing great could be accomplished without enthusiasm,” to keep your dreams alive in spite of problems whatever you have. The ability to be able to work hard for your dreams to come true, to become a reality.

Valeu, Jim. Obrigado, Abidal.

Texto de 05/08/2011 – Abidal, a cicatriz e a foto que diz mais que mil palavras

Anúncios

Deixe um comentário

Arquivado em Análises espertas do cotidiano, Futebol

Abidal, a cicatriz e a foto que diz mais que mil palavras

Eric Abidal na capa da versão italiana da revista GQ - Foto: Reprodução

Eric Abidal na capa da versão italiana da revista GQ - Foto: Reprodução

Foi em março, em um exame de rotina no Barcelona, que Eric Abidal descobriu que tinha um tumor no fígado. A notícia caiu como uma bomba. Afinal, o cara é jogador de futebol, tem uma vida regrada, se cuida. É o tipo de coisa que você não entende.

O lateral foi operado um dia antes do previsto, ainda em março. Um dia a menos pode ser algo que muda a vida de alguém, assim como um dia a mais. No caso, uma antecipação poderia ser um sinal de que algo grave estava ali.

O tumor no fígado foi retirado com sucesso. O prazo de recuperação era de cinco meses. Recuperação, nesse caso, significa retornar aos gramados.

Abidal voltou antes do previsto. Muito antes. Em maio, participou dos minutos finais  do clássico com o Real Madrid, 1 a 1, pela semifinal da Liga dos Campeões.

No final de maio, dia 28, veio a redenção. Estádio de Wembley, final da Liga contra o Manchester . Lá estava Abidal como titular do Barcelona, correndo como um moleque. Vitória por 3 a 1, e a Europa era espanhola, catalã. A Europa era de Abidal.

O capitão é quem levanta a taça. O capitão do Barça é Puyol. Mas, naquele dia, naquele momento, ele abdicou da honraria e passou a tarja para Abidal. Coube ao francês, recuperado 100%, levantar a taça da Liga. Ali, o mundo era de Abidal.

Pode parecer bobagem, mas o capitão de um time na Europa tem uma relevância muito maior do que no Brasil, por exemplo. O capitão é um cara com história no clube, alguém que comeu muita areia, roeu muito osso para chegar a esse posto. É a voz do técnico e da torcida dentro de campo. No Barcelona, a tarja ainda leva as cores da Catalunha, o que leva o capitão a ser um ídolo eterno.

Assim, o gesto de Puyol ganha uma importância ainda maior. Começar nas categorias de base, passar por todos os estágios e chegar ao profissional como um ídolo é algo sensacional na carreira de Puyol. Mas ele entendeu, naquele momento, que a história de vida de Abidal era algo que merecia ser reverenciado. E assim o foi.

Agora, em agosto, Abidal estampa a capa da versão italiana da revista GQ. A foto é marcante: a cicatriz da cirurgia que salvou a vida do jogador. “A ferida do campeão”, diz a revista. “Com essa cicatriz, eu joguei o jogo da vida vencendo a minha doença.”

Simples, mas de uma beleza ímpar. A história de Abidal pode ser contada por livros e livros, mas aquela cicatriz resume o que é esse jogador. Um risco na pele traz toda a sua biografia, suas dores, suas derrotas e sua maior vitória. A imagem que diz mais que mil palavras.

Deixe um comentário

Arquivado em Futebol