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Marcos: santo, imortal e a história de um “quase” palmeirense

Marcos e sua reza - Foto: Epitacio Pessoa/AE

Marcos e sua reza - Foto: Epitacio Pessoa/AE

Nasci são-paulino. Em casa, todo mundo era tricolor. Quer dizer, quase todo mundo. Minha mãe, essa intrusa no clã, era palmeirense. Todo mundo que conhece um torcedor alviverde sabe da insanidade que é conviver com esse tipo de pessoa. E eu tive o enorme prazer de crescer e viver ao lado de uma delas.

Meu pai morreu quando eu tinha 5 anos. Meus irmãos, filhos do primeiro casamento dele, são bem mais velhos do que eu (25 e 23 anos). Quando minha mãe ficou viúva, eles já beiravam os 30 e estavam cuidando de começar as suas respectivas família. Normal. Mas isso teve um impacto, digamos, alviverde na minha criação futebolística…

O primeiro jogo que eu fui ver no estádio foi com meu irmão mais velho, bem mais fanático que o do meio, um glorioso Santo André 2 x 1 XV de Jaú, no não menos glorioso estádio Bruno José Daniel, nos idos de 1983 (a foto do ingresso e a legenda escrita pela minha mãe não me deixam mentir). Mas a minha primeira lembrança de ver um jogo ao vivo tem íntima ligação com o Palmeiras.

Minha estreia nos gramados, em vitória do poderoso Santo André - Foto: Arquivo pessoal

Minha estreia no estádio, em vitória do poderoso Santo André - Foto: Arquivo pessoal

No dia 24 de maio de 1987, do alto dos meus quase 9 anos, fui com a louca da minha mãe assistir a um Santo André x Palmeiras. Estávamos nas cadeiras cobertas, e o teto balançava, tremia de dar medo. Na TV, à noite, descobrimos o motivo: uma invasão em massa tomou conta da cobertura das cadeiras. Zetti, então um jovem goleiro, que acabara de assumir a titularidade alviverde, perdeu ali, num chute do veterano Luís Pereira (sim, eu vi Luís Pereira jogar, ao vivo), sua invencibilidade de 1.238 minutos sem levar gol. Foi ali que a minha ligação com o Palmeiras começou a ficar mais, digamos, íntima.

Dois outros fatores levaram a isso: a minha mãe insana e a logística, já que era (e ainda é) bem mais fácil sair de Santo André e chegar ao Palestra do que deixar a cidade mais sensacional do ABC e vislumbrar o gigante Morumbi.

Minha mãe era do tipo de torcedora de estádio, de arquibancada. Pouco depois, quando eu passei a ter uma idade aceitável, uns 12, 13 anos, ela me carregava sempre que dava para o Palestra. Engana-se quem pensa que a gente ia de carro, estacionava lindamente e assistia aos jogos das cadeiras. Nada disso: o trem de Santo André até a Barra Funda demorava uns 50 minutos, e o ingresso era de arquibancada. E não ia só na boa, não: guardo até os ingressos de todos os jogos do time na Série B, que ela, orgulhosa, acompanhou ali, de pertinho. Tomei muita chuva naquele concreto!

Foi graças à idolatria materna que eu conheci Ademir da Guia, Leão, Luís Pereira, César Maluco… Minha mãe amava esses caras, assim como amava Evair, Edmundo, César Sampaio, e um goleiro que começou a ganhar espaço no clube, um tal de Marcos. Mal sabia ele, ela, e tudo quanto é palmeirense, que aquele moleque que fez muita gente chorar com o título da Libertadores de 1999 se tornaria um dos maiores nomes da história da bola.

Não demorou muito para ganhar o apelido de “santo”, “São” Marcos. Um santo que se fere nas batalhas. Um santo que comete erros, que fala o que vem à cabeça, que tropeça, cai e levanta. Um santo verdadeiro. Um santo mortal em tudo o que faz e fez, e imortal exatamente por tudo que fez e faz. Um santo que, como todo santo, realizou milagres e levou milhares de fiéis ao delírio. Marcos foi um ídolo para a minha mãe, o maior ídolo de todos, e acho que peguei um pouquinho dessa idolatria dela para mim. É, de fato, o melhor goleiro que eu vi jogar, capaz de coisas impossíveis. Impossíveis, sim. Afinal, o cara é santo.

P.S.1: Antes que encham o meu saco, sou são-paulino, repito, mas não tenho medo de falar que Marcos foi o melhor goleiro que eu vi em campo, goleiro, aquele cara que fica entre as traves fazendo defesas inacreditáveis. E não é crime isso não! Depois dele, vem Zetti e, em terceiro, Rogério Ceni. Como ídolo, claro que Raí marcou a minha geração, mas é inegável que Ceni, pelo conjunto da obra, como personagem da história da bola, é um monstro.

P.S.2: Foi convivendo com minha mãe que eu, anos depois, descobri que ela havia me ensinado a respeitar as diferenças, a perceber que o esporte é legal, divertido, e é assim que tem que ser. Foi por isso que fiz jornalismo, e é por isso que você, único leitor desse blog, lê essas linhas. “Dona” Zélia era uma esportista de mão cheia, e só perdia a linha quando o neto, então um pequenino corintiano, malinha que só ele, mal esperava o juiz apitar um tropeço alviverde para ligar em casa e encher o saco da vó. Hoje, se ela estivesse viva, com certeza, daria risada de tudo isso.

P.S.3: A imagem que abre esse texto é a imagem mais marcante, para mim, de Marcos. Todo jogador de futebol tem as suas mandingas. Goleiro, então, nem se fala. Mas a maneira simples e intensa que Marcos se benzia antes dos jogos era sensacional. Curioso é que se repetia em todas as partidas, mas, para mim, sempre parecia algo novo. Coisa de santo…

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