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Dói demais perder de mais ou lágrimas de um jovem idoso

O choro italiano - Foto: Maurizio Brambatti/Ansa

O choro italiano – Foto: Maurizio Brambatti/Ansa

Acho que estou ficando velho. Ou melhor, idoso. Velho, jamais. Há um tempo, recente, até, eu via o futebol com desgosto, meio sem entender as razões de ainda gostar daquilo. Mas, neste ano, passei a me emocionar mais com o mundo da bola, algo que há um tempo, longínquo, eu não sentia.

A final da Liga Europa, o título inglês do City, o mata-mata da Libertadores… Alguns jogos me deixaram aflorar uma emoção escondida, algo que eu nem lembrava mais e que eu nem sabia que poderia voltar a sentir com o futebol.

Aí veio a Eurocopa, e o fato de trabalhar em casa me proporcionou algo que eu nunca tinha feito em minha vida jornalística: assistir a todos os jogos, rever os melhores lances, assistir a algumas mesas redondas. Enfim, há tempos, muitos, que eu não me divertia tanto com um evento esportivo.

No meio disso, veio a Itália. Sabe como é, o sangue é vermelho, mas, no fundo, no fundo mesmo, é azul. Sangue azul da Casa de Savoia, da pátria-mãe dos meus avós. Pior é ter também uma ascendência espanhola, mas, de tempos pra cá, o lado italiano tem falado mais alto. Bem mais alto.

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A campanha da Azzurra na Euro foi daquelas de tirar o fôlego. Parece que, para ir bem em qualquer competição, a Itália tem que chegar desacreditada e criticada. Primeira fase apertada, quartas de final nos pênaltis, semi no sufoco. Enfim, chegou a decisão, e os italianos eram as grandes zebras diante da Espanha campeã continental e mundial.

A final foi um baile. A Itália bem que tentou, e deu tudo o que pôde, mas não foi suficiente. Vitória merecida, mas foi de mais: 4 a 0 foi um placar muito mais do que o merecido. Mas, a vida não é justa, e o futebol, melhor representação esportiva da vida, também não.

Dói perder. Perder de mais, dói ainda mais. Quando Fernando Torres fez o terceiro, fiquei estático, olhando para a TV sem saber muito o que fazer. O quarto foi a pá de cal desnecessária, o tom de crueldade que os italianos não mereciam.

Fim de jogo, e as imagens da bela e merecida festa espanhola contrastavam com as cenas da derrota. O choro incontido de Bonucci me fez lembrar, nos olhos, que o sangue italiano corre nas minhas veias. Aí, tive a mesma reação da decisão da Liga Europa, do fim do Campeonato Inglês, de alguns jogos do mata-mata da Libertadores: chorei.

Pior de tudo foi parar de chorar. Montolivo, Pirlo, Buffon, Balotelli, Balzaretti… Cada vez que um deles aparecia na TV com os olhos cheio de lágrimas, eu, daqui, desabava. Caramba, se doeu em mim, um descendente que nunca foi pra Europa, que não conhece nenhum parente distante, imagine para quem vivenciou tudo isso? Dói demais perder de mais.

Dizem que se aprende nas derrotas. Se é assim, foi uma lição e tanto. Daqui um ano, a Itália estará no Brasil para a Copa das Confederações; se der certo, em 2014, voltará para a Copa. Até lá, muita água vai rolar. Mas, se classificando ou não, a Azzurra mostrou, mais uma vez, que é gigante, enorme. E a fé no futebol talvez eleve a fé na nação nesses períodos de crise.

E, no meio de tudo isso, cheguei à conclusão de que estou ficando idoso. Chorar com futebol é algo que há tempos eu não fazia e, nos últimos meses, ficou meio comum. Coração mole, sabe? Mas hoje foi diferente, dolorido. O sangue azul falou mais alto do que a carne vermelha. Enquanto escrevo isso, me lembro de tudo que vi da final. Ainda dói, a ferida ainda está aberta. E os olhos, marejados.

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Choro em Bilbao: lágrimas tocantes e de respeito

O choro de Muniain - Foto: Getty Images

O choro de Muniain – Foto: Getty Images

Foi uma final inesquecível de Liga Europa. Caramba, que jogo. Tenso, técnico. Falcao Garcia se firma a cada final como um dos atacantes mais letais do planeta. Festa em Madri, mas o que mais me chamou a atenção foi o choro em Bilbao. As lágrimas dos atletas do Athletic foram tocantes. De arrepiar.

O gol de Diego, aos 40min do segundo tempo, selou a vitória por 3 a 0 do Atlético de Madri. De um lado, a festa dos jogadores pelo título sacramentado. Do outro, as câmeras flagraram Iker Muniain, o camisa 19 do time basco, estatelado no chão, chorando que nem criança. Confesso que balancei.

Fui fuçar a vida de Muniain, garoto que completa 20 anos em dezembro. Nascino em Pamplona, Navarra, ele tem trocentos recordes com a camisa do Bilbao: o mais jovem a vestir a camisa do time em um jogo oficial, o mais jovem a fazer um gol pela equipe em um jogo oficial, o mais jovem da história a atuar em um jogo de Campeonato Espanhol, o mais jovem da história a marcar em um jogo de Campeonato Espanhol, tudo com menos de 17 anos.

Habilidoso, sabe esconder bem a bola, trabalha com ela colada aos pés. Tem velocidade, chuta bem. Por tudo isso, passou a ser chamado de “Messi espanhol” pela imprensa local. O Manchester United já está de olho no garoto.

Mas, quer saber, os dois últimos parágrafos pouco importam. Muniain poderia ter 40 anos e ter feito, na final, sua estreia no futebol. Dane-se. O que importa aqui é a reação dele, a maneira como ele sentiu a derrota.

O choro de Muniain – 1

É um resultado que diz muito mais do que o placar em campo. Quem conhece algum basco por aí sabe do orgulho e da luta admiráveis desse povo, peixe fora d’água no Estado espanhol, e dono de um sonho eterno de separatismo.

Infelizmente, esse blog não trata de história e geografia, elementos bem mais importantes para o mundo e para a vida que o futebol, e não vou ficar falando sobre o tema simplesmente por falta de conhecimento. Mas o choro de Muniain é, na verdade, o choro de um país, lágrimas que significam muito mais do que uma derrota esportiva.

Só joga no Athletic Bilbao quem é basco. Muitos atletas passam toda a carreira vestindo aquela bela camisa. O sonho de muitos deles não é a seleção espanhola, nem uma transferência, sei lá, para o Real Madrid, mas sim conquistar um título pelo seu time.

Outros não conquistam título, mas respeito. Antes da premiação, quase todo o elenco da equipe basca estava chorando, emocionado mesmo pela derrota. Mas o choro de Muniain foi aquele dolorido, doloroso, choro durante a batalha, choro de derrota anunciada, choro de tristeza pela impotência diante de um resultado. Choro de respeito.

Munian não ganhou o título, mas já está eternizado com a camisa do Bilbao. Não pelos recordes e marcas em sua carreira, muito menos pelo apelido de “Messi espanhol”. Mas pela hombridade. E, se virar um Messi, não será espanhol. Será basco. Com orgulho. E respeito.

O choro de Muniain – 2

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