Arquivo da tag: boneco

1962, Garrincha, Pelé, choro, riso e um presente de Dia dos Namorados

Garrincha - Foto: Divulgação

Garrincha – Foto: Divulgação

Foi em um 17 de junho de 1962 que Mané Garrincha coroava aquele que foi, talvez, o maior momento de sua carreira. No Chile, sem Pelé, ele não colocou a bola embaixo do braço como fizera Didi quatro anos antes, mas foi “o cara” da Copa. Deus e o mundo já escreveram sobre isso, sobre aquele Mundial, sobre os 50 anos daquele título.

Mas foi nos anos 80 que eu descobri que existia Garrincha. A descoberta veio como tantas outras do mundo futebolístico: de mãe para filho. Palmeirense doente, minha mãe foi responsável por falar para mim sobre Mané.

Era curioso como ela tratava aquele cara. Sempre que surgia o assunto “como você começou a gostar de futebol?”, ela falava sobre a influência do meu avô espanhol – e, se não me falhe a memória, corintiano -, dos irmãos torcedores de tudo que é time e, claro, dos ídolos que formaram o seu caráter boleiro.

Ademir da Guia era uma espécie de divindade na minha casa. Leão, Luis Pereira, Dudu, César Maluco, idem. Pelé sempre foi tratado como o maior de todos. Mas Garrincha. A frase, aliás, era quase sempre a mesma, algo do tipo: “Pelé é o rei do futebol, mas o Garrincha…”. Aquele silêncio que vinha depois do “Garrincha três pontinhos” tinha um ar de saudade, de lembrança boa, daquelas que a gente se anima quando passa pela cabeça.

Fui, aos poucos, descobrindo quem foi Mané. Lembrem-se que os anos eram os 80, e o advento do videocassete – não sabe o que é, jogue no Google – ajudou muito nisso. Uma fita – não sabe o que é, jogue no Google – em especial, chamada “Garrincha, Alegria do Povo”, foi fundamental: era um documentário sobre Mané, recheado de dribles e lances espetaculares (está no Youtube, dá para ver no vídeo abaixo). Nascia ali uma idolatria.

Era sensacional ver aquele cara entortar quem estivesse pela frente. Parecia até ficção. Não era possível aqueles dribles, quase sempre iguais e, exatamente por isso, geniais. Coisa de outro planeta, de outro mundo.

No videocassete, dava para gravar o que se passava na TV – é verdade, taí a Wikipedia que não me deixa mentir -, e isso, em tempos de “Grandes Momentos do Esporte”, “Gol, o Grande Momento do Futebol” e “Canal 100”, era espetacular. E só contribuiu para aumentar minha paixão por Mané.

“Garrincha, Alegria do Povo”

O tempo passa, veio a faculdade, e um amigo cantou a bola: na biblioteca, tinha um exemplar de “Estrela Solitária”, de Ruy Castro. Não leu? Não sabe o que é? Ainda está parado aí? Goste ou não de futebol, corra atrás. É simplesmente uma das melhores biografias já escritas.

Foi com “Estrela Solitária” que eu pude entender os três pontinhos da minha mãe. Quando eu via – vejo – Pelé, seus dribles, seus gols, fico com uma espécie de riso bobo no rosto. Quando eu via – vejo – Garrincha, seus dribles, seus gols, fico com os olhos cheios de lágrimas, um misto de saudade de um cara que eu não conheci e só vi na TV, de felicidade por ter visto e revisto o que ele fez, e uma tristeza absurda pelo fim, não pelo fim em si, mas pelo fim como foi. Pelé é riso, Mané, lágrimas.

É curioso que o primeiro texto que escrevi e foi publicado em algum lugar era sobre Garrincha. Foi em um sábado, 23 de janeiro de 1999. Ao voltar de um São Paulo x Flamengo no Morumbi, fui surpreendido com uma pilha de exemplares do infelizmente finado jornal “A Gazeta Esportiva” em casa. Alguém falou para minha mãe que um texto meu havia saído lá, e ela basicamente comprou o que tinha na banca.

Talvez aquele tenha sido o maior orgulho jornalístico que minha mãe sentiu por mim. Como eu não canso de escrever, ela era fanática por futebol e, por um bom tempo, assinamos “A Gazeta Esportiva”. Ou seja, um texto escrito pelo filho e publicado ali era motivo de festa.

Sabe aquela parte “Palavra do Leitor”, algo do tipo? Foi ali que saiu o texto. Eu tinha acabado de ler “Estrela Solitária”, escrevi e mandei para lá na semana do aniversário de morte dele (20 de janeiro de 1983). Era uma ficção sobre um sonho que eu teria tido com o “Anjo de Pernas Tortas”. Estava longe de ser uma obra literária, mas virou até quadro em casa.

Aí chega o Dia dos Namorados deste ano e eu, colecionador de miniaturas, ganho uma do Garrincha. Ao tirá-lo da caixa, todo esse filme passou pela minha cabeça. Fiquei olhando aquele boneco e lembrei dos dribles, dos gols, da vida que poderia ter sido e que não foi, enfim, de tudo. E me emocionei mais uma vez.

Garrincha não ganhou o bicampeonato mundial sozinho, mas foi o principal nome daquele título, o nome mais comentado em tudo que é texto sobre a conquista. Aqui em casa, ele está no ponto mais alto da minha pequena biblioteca esportiva. Acho que, de madrugada, quando todo mundo está dormindo, ele sai dando seus dribles e chamando seus colegas bonecos de “joão”. Acho, não. Tenho certeza.

Miniatura de Garrincha na minha casa - Foto: Ricardo Zanei

Miniatura de Garrincha na minha casa – Foto: Ricardo Zanei

Deixe um comentário

Arquivado em Copa do Mundo, Futebol