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Barbárie entre torcidas (?) ou lugar de bandido é na cadeia

Torcida ou bandidagem? - Foto: Arquivo, Arte/Ricardo Zanei

Torcida ou bandidagem? - Foto: Arquivo, Arte/Ricardo Zanei

Já vi muito jogo de futebol na minha vida. Já fui de carro estacionando dentro do estádio, já fui de ônibus, metrô e trem. Já fui em um domingão de sol e em uma quarta-feira de chuva, muita chuva. Vivi momentos memoráveis de vitórias, vivi derrotas doídas. Vivi, também, o medo.

Para quem mora em Santo André, ver qualquer time, seja no Pacaembu, no Palestra Itália, no Canindé ou ainda no Morumbi, requer planejamento. Primeiro, escolher o meio de transporte é fundamental. Se for transporte público, sair mais cedo ainda é primordial.

Quem é gente de bem e já foi em clássico de transporte coletivo sabe que existe uma tensão permanente, o medo de uma briga de torcidas está ali, pairando no ar. Quem é bandido vê nisso tudo uma adrenalina, vê nisso o grande barato, e não o jogo que está por vir.

Lembro de um dia em que eu pensei que seria o fim. Início dos anos 90, época em que times grandes jogavam em São Paulo no mesmo horário. O lugar era o trem, saindo de Santo André, a caminho da Barra Funda, onde o Palmeiras jogaria com sei lá quem. Minha mãe, palestrina doente, me levava mais uma vez para ver um jogo que não era do meu time. E eu ia, afinal, a mãe mandou, o filho obedece, sem reclamar.

Não lembro contra quem o Corinthians jogaria naquele dia, nem a estação, mas o trem parou e todos os palmeirenses – palmeirenses? – de torcida organizada – torcida? – saíram do vagão. Pela janela, deu pra ver que tinham alguns corintianos na estação. O pau quebrou, e meia dúzia de policiais seguraram a bronca, evitando algo pior. Antes de as portas fecharem, estavam todos de volta, comemorando como se fosse um título.

Isso durou alguns segundos, 1 minuto, se tanto, tempo suficiente para que eu pensasse, pela primeira vez, que eu poderia morrer por absolutamente nada. Imagine o que é isso para um moleque de 12, 13 anos, que acompanhava sua mãe de 50 anos ao estádio. Se acontece algo com ela, como vou reagir? Imagine ainda o que é ver uma briga daquelas entre palmeirenses – palmeirenses? – e corintianos – corintianos? – e você, são-paulino, ali, quietinho. Naquele dia, pensei: “Se os caras descobrem que sou tricolor, os torcedores – torcedores? – dos dois times se unem me matam. Em dois segundos”.

Fui ao estádio com a minha mãe em mais trocentas vezes depois disso. Cada vez, escolhíamos um horário para ir pensando em não encontrar nenhuma torcida – torcida?. Ora saíamos cedo para comer em algum lugar e entrar no estádio assim que os portões abrissem. Ora, com ingresso na mão, chegávamos bem em cima da hora. Tudo bem, era uma mãe – às vezes, algumas amigas, todas mais velhas que a minha mãe – e um filho adolescente, gente que não vai fazer mal a ninguém. Mas, sabe como é, esse tipo de torcedor – torcedor? – não olha para nada, apenas quer brigar. Ou pior, matar.

Tem gente que ainda fala em torcida, briga de torcida, mas quem torce por um time não faz esse tipo de coisa. Quem torce, torce para um time, e não para uma, digamos, facção. Quem briga na rua é bandido. Quem marca lugar para brigar e vai lá horas antes de um clássico também não é torcedor, longe disso, é bandido. Lugar de bandido é na cadeia.

P.S.: Fico extremamente triste pelas famílias das pessoas que morreram em brigas de torcida, seja em São Paulo, seja em Campinas, seja em qualquer lugar do planeta. É gente que sofre, hoje, pela perda de alguém. Pena que esse alguém não pensou nisso antes. Uma pena.

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