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Buenos Aires, ignorância e preconceito

"Bendito é o fruto do teu ventre", Catedral Metropolitana de Buenos Aires, abril/12 - Foto: Ricardo Zanei

"Bendito é o fruto do teu ventre", Catedral Metropolitana de Buenos Aires, abril/12 - Foto: Ricardo Zanei

(Para aquelas duas pessoas que lêem esse blog por causa das bobagens que escrevo sobre esporte, abro um parênteses para tocar em outro assunto, a meu ver, bem mais importante e relevante que gol, cesta e ponto…)

Ficar uma semana em outro país, qualquer que seja, é um aprendizado. Pode ser aqui do lado, mas as coisas são diferentes. O ar e a vida são outros. Melhores? Piores? Não sei, mas são outros.

Moro em São Paulo há cinco anos, depois de passar quase 29 na aprazível Santo André. Confesso que conheço muito pouco do meu Estado e, inclusive, dessas duas cidades. Por exemplo, fui uma vez para Sorocaba. Piracicaba, Joanópolis, Serra Negra, São Roque, idem. Fui duas para Campinas e Águas de Lindoia. Algumas para Mogi Mirim, terra da minha mãe. Nunca entrei na Igreja da Sé, nem no Parque Burle Marx ou no Parque do Carmo. Mas completei, na última semana, minha terceira passagem por Buenos Aires. No total, é quase um mês de Argentina na minha vida.

Curioso como tem tanta coisa aqui do lado que eu não conheço e, ao mesmo tempo, como consigo me virar e me sentir tão bem na capital argentina. Voltei após uma ausência de quase quatro anos. A desculpa foi o show do Foo Fighters. Mas, admito, foi apenas um pretexto para matar a saudade.

Aproveitei a semana para me desligar das coisas. Levei o laptop, mas me neguei a escrever nesse blog, bem como a bater o olho em qualquer assunto que lembrasse trabalho. Uma semana de descompressão, de vinho e tango, de bife de chorizo e Foo Fighters, de parrillas, morcillas e Quilmes.

Argentina 3 x 0 Bolívia, eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, estádio Monumental de Nuñez, nov/07 - Foto: Ricardo Zanei

Argentina 3 x 0 Bolívia, eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, estádio Monumental de Nuñez, nov/07 - Foto: Ricardo Zanei

Foi, ainda, uma semana de surpresas. Encontrei um dos meus melhores amigos lá. Moramos a, no máximo, 3 km de distância em São Paulo e não conseguimos nos encontrar. Aí, na mesmoa semana, eu vou passear, ele vai trabalhar, e matamos um pouco da saudade. Além disso, a linda Cecília, direto de Washington, resolveu dizer o seu primeiro “oi” e completou o trio de pequenos que chegou agora e já encheu as nossas vidas de alegria.

Sempre falo que sou suspeito para dizer qualquer coisa sobre Buenos Aires. É uma cidade linda e com uma aura indescritível. Os bairros são peculiares, cada um com sua identidade, encantos e surpresas. O Real tem vencido o Peso com facilidade, e isso ajuda, mas já ajudou muito mais. A comida é das melhores – leia-se “carne, carne, carne”, e que carne boa! -, e o vinho é de chorar. Enfim, é tudo realmente muito bom.

Mas percebi, lendo aqui e ali, que ainda tem brasileiro, mas muito brasileiro, do meu ciclo de amizades ou de pessoas próximas a mim, que são completamente ignorantes quando o assunto é Argentina e Buenos Aires.

Ignorante, no dicionário Houaiss:

Acepções
■ adjetivo de dois gêneros
1 que desconhece a existência de algo; que não está a par de alguma coisa
Ex.: um povo ainda i. da escrita
2 que denota a ignorância do autor ou daquele que é responsável por uma obra
Ex.: um livro i., um filme i.
3 sem malícia; puro, inocente
Ex.: uma alma cândida, i.
■ adjetivo e substantivo de dois gêneros
4 que ou quem não tem conhecimento por não ter estudado, praticado ou experimentado; incompetente, inexperiente
Ex.: i. em matemática, não passa de um i.
5 mal-educado, grosseiro; pretensioso, presunçoso
Ex.: maneiras i., é um i. que se acredita dono da verdade

Vi que ainda tem gente que nunca topou com um argentino, mas acha que todos são filhos da p***. Mais: que é um país ridículo, escroto, que não merece ser notado, quanto mais visitado. Enfim, além de ignorância, há o preconceito.

Preconceito, no dicionário Houaiss:

Acepções
■ substantivo masculino
1 qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico
1.1 idéia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão
2 atitude, sentimento ou parecer insensato, esp. de natureza hostil, assumido em conseqüência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância
Obs.: cf. estereótipo (‘padrão fixo’, ‘idéia ou convicção’)
Ex.: p. contra um grupo religioso, nacional ou racial, p. racial
3 conjunto de tais atitudes
Ex.: combater o p.
4 Rubrica: psicanálise.
qualquer atitude étnica que preencha uma função irracional específica, para seu portador
Ex.: p. alimentados pelo inconsciente individual

Claro que eu sabia que isso existia, mas em tempos de Facebook, Twitter e informação imediata, fiquei impressionado, com a quantidade de gente que pensa assim.

Há, sim, uma rixa verdadeira entre Brasil e Argentina. Uma única rusga, única, ela se limita apenas e tão somente ao futebol. Saiu disso, acabou, meu caro. Eles são Maradona, a gente é Pelé. A gente, olha que engraçado, é verde e amarelo, e eles são azul e branco. Complementares?

“¿Qué Ves?” – Divididos
¿Que ves?
¿Que ves cuando me ves?
Cuando la mentira es la verdad

O argentino acha, sim, que é o melhor do mundo. Afinal, se eles não acharem, quem é que vai achar? A diferença é que eles não precisam me chamar de filho da p*** para isso, nem falar que meu país é uma bosta. Pelo contrário, todos com quem falei em quase um mês, em períodos distintos, elogiaram o Brasil. Alguns, sem saber que eu era brasileiro. Bem diferente do que temos aqui, não?

O que me deixa mais preocupado é que esse tipo de ignorância e preconceito pode tomar outros níveis. Alguém aí em sã consciência sabe me explicar por que a pessoa A xinga a pessoa B por causa da cor da sua pele? Paralelamente, temo que A seja a mesma pessoa que xingue a pessoa B – ou C ou D ou… – apenas pela localização geográfica de seu local de nascimento. Preconceito e ignorância, crimes que andam, via de regra, juntinhos, de mãos dadas.

Voltar para casa de uma viagem sempre me deixa meio deprimido, mas logo passa. Voltar de Buenos Aires sempre é diferente, porque a depressão é mais profunda, simplesmente pelo fato de “voltar”. Voltar de Buenos Aires e me deparar com o que deparei, esse preconceito e essa ignorância descabidos, me deixa ainda mais cabisbaixo. Pensar que, com tanta informação por aí, ainda tem gente que se nega a abrir os olhos.

Não sou a pessoa mais viajada do mundo, nem a mais inteligente, muito menos a mais correta. Mas, de uma forma ou de outra, procuro me informar. Não apenas por ser jornalista e ter que, muitas vezes, repassar uma informação da maneira mais simples e clara possível. Mas como cidadão, sabe? Tenho meus preconceitos e minhas ignorâncias, mas a mente está aberta para qualquer assunto e experiência. Claro que correr atrás de informação e tentar aprender algo aqui e ali é difícil. Mais fácil mesmo é achar que, se não é igual a mim, é tudo filho da p***, escroto, desprezível. E haja ignorância e preconceito. Uma pena.

“Por una cabeza” – Carlos Gardel


P.S.: Obviamente, generalizei as coisas. Claro que tem argentino filho da p***, assim como tem brasileiro filho da p***. Claro que lá não é o paraíso, assim como aqui não é também. É assim em todo o lugar do mundo, não? Bom, vocês entenderam, né?

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Foo Fighters em Buenos Aires: tempestade, um quase desastre, “but it’s all right”

Foo Fighters em Buenos Aires - Foto: Ricardo Zanei

Foo Fighters em Buenos Aires - Foto: Ricardo Zanei

Dias de sol, muito sol. Um calor daqueles. Nem parecia Buenos Aires. De domingo até quarta à noite, tudo ia maravilhosamente bem. O metrô até o estádio Monumental de Nuñez foi dos mais tranquilos. No ar, aquele clima de show de rock que só quem foi a um show de rock sabe como é. No ar, as nuvens começaram a querer participar da festa. E fizeram a festa.

No começo do show do Arctic Monkeys, veio a primeira pancada de chuva. Cinco minutos, se tanto. Deu para dar aquela molhadinha. Mas era uma espécie de “aquecimento” para o Foo Fighters, então, tudo bem. Por um instante, achei que o céu ia abrir. No instante seguinte, começou o show de luzes dos raios no céu, e tive a certeza que ia ser uma noite inesquecível.

Descobri que tormenta, em espanhol, é tempestade. E como choveu aquela noite. Eu não conseguia abrir os olhos para ver o palco e, mesmo se conseguisse, não ia enxergar nada. Em dois minutos, estávamos encharcados. Um vento gelado completava a cena caótica. Eu, que não sou muito de sentir frio, simplesmente tremia. O jeito foi fugir.

Ficamos embaixo das arquibancadas, ao lado de praticamente todo mundo que estava em cima delas antes do dilúvio. Ali, pelo menos, não chovia. Foi bom que deu para torcer a roupa e diminuir um pouco a sensação de frio. Do pouco que eu conseguia olhar para o estádio, não dava para ver a arquibancada à nossa frente. Para o lado de fora, era só uma cortina d’água.

Enquanto isso, Arctic Monkeys, de alguma maneira, acabava o seu show. Confesso que achei que iam adiar o Foo Fighters para a quinta-feira. Mas aí a tempestade virou temporal, que virou chuva, que virou garoa justamente quando Dave Grohl e sua trupe subiram ao palco e abriram com “All My Life”.

Obviamente, voltamos para as arquibancadas. A garoa desapareceu. E, mesmo com todas as luzes do estádio acesas, o Foo Fighters foi quem brilhou.

Eu poderia aqui encher a bola, citar trocentos adjetivos para descrever o show. Poderia dizer que Dave Grohl sabe como poucos como cativar o público. Poderia até falar que um filme inteiro passou na minha cabeça quando ele deixou a guitarra e assumiu a bateria. Enfim, todo mundo já ficou sabendo do que rolou lá na Argentina e aqui no Brasil. Todo mundo tem os seus adjetivos sobre o que aconteceu.

Por isso, deixo para que Dave Grohl diga o que ele achou da brincadeira toda em Buenos Aires. Os vídeos estão tremidos, e a qualidade da imagem é péssima, mas o áudio está bom, e é o que vale. Tinha tudo para dar tudo errado, mas foi uma noite memorável, inesquecível, daquelas que você vai guardar por vidas e vidas. Era para ser um desastre, “but it’s all right”.

No dia seguinte e em todos os outros, fez sol em Buenos Aires.

These Days

“Fucking disaster”

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Guga, Hall da Fama, Maria Esther Bueno, a lenda e uma história a ser contada

Maria Esther Bueno em Wimbledon - Foto: Arquivo

Maria Esther Bueno em Wimbledon - Foto: Arquivo

Tudo aconteceu mais ou menos na mesma época. O surgimento de Guga, o ápice dele e um, digamos, estudo meticuloso sobre a vida e a obra de Maria Esther Bueno. Não, essa não é, de longe, a cronologia do tênis. Mas é, mais ou menos, a da minha vida e o esporte de raquetes.

Lembro de assistir aos jogos de Andre Agassi, Pete Sampras, Ivan Lendl, Boris Becker, Michael Chang e tantos outros no fim dos anos 80, começo dos 90. Via de regra, todas as partidas tinham narrações do lendário Rui Viotti, eterna voz do tênis no Brasil.

Mas foi no fim dos anos 90 que o tênis explodiu na minha vida. Mais precisamente, foi com Guga, em 1997, que eu voltei a acompanhar o esporte mais de perto. Narrado por Viotti na extinta TV Manchete, o título do catarinense em Roland Garros foi, sem dúvida, um marco na história brasileira. E na minha, claro.

Guga repetiria o feito em 2000. Nessa época, o Brasil não estava no mapa do tênis mundial profissional – o Aberto do Brasil só entraria no calendário no ano seguinte, na baratíssima e acessível Costa do Sauípe. Para ver o catarinense, só saindo do país, o que a condição financeira não permitiu. Mas foi nesse ano que eu vi Guga em ação, ao vivo, pela primeira e única vez na minha vida: no desafio Brasil x Argentina, no Ibirapuera.

Aquele ginásio lotado, trocentas pessoas de camisa amarela (era dada na entrada), um clima sensacional. E lá estavam Guga e Fernando Meligeni pelo lado brasileiro, Franco Squillari e Gaston Gaudio por nossos vizinhos. Confesso que não lembro se fui no primeiro ou no terceiro dia, mas lembro que ver Guga, mesmo naquela grande brincadeira, era de arrepiar.

Em 2001, Guga ganharia Roland Garros mais uma vez. Nesse mesmo ano, me formei na Universidade Metodista de São Paulo. Ano de formatura é, basicamente, ano de TCC. Fui convidado por dois amigos para entrar de cabeça em um desafio: escrever a biografia de Maria Esther Bueno.

Para a minha surpresa, não havia nenhum livro que contasse a história da maior tenista e uma das maiores esportistas do Brasil. Até hoje, se você procurar, verá que não há nenhuma obra que trate apenas da carreira dela. Carreira, aliás, “humilde”: são 71 títulos em simples. Só para comparar, Roger Federer tem 72, Pete Sampras, 64, e Rafael Nadal, 46. Acha pouco?

Só pra constar, Maria Esther tem cinco títulos em Wimbledon e sua “grama sagrada” (1958, 1960, 1963, 1965 e 1966) e mais quatro no Aberto dos Estados Unidos (1960, 1962, 1966 e 1968). Se ganhar um Grand Slam é para poucos, imagine nove títulos desse porte. Um fenômeno.

Gustavo Kuerten em Roland Garros - Foto: Jacques Demarthon/AFP

Gustavo Kuerten em Roland Garros - Foto: Jacques Demarthon/AFP

Se existe tênis no Brasil, ele só sobreviveu por causa de Maria Esther. Foi ela que desbravou o mundo, ainda na fase amadora, e fez com que o Brasil aparecesse no esporte. Se até hoje são raros os tenistas brasileiros com uma carreira de verdade, consolidade, e, ainda mais, de sucesso, imagine nos anos 50, 60 e 70, quando ela bateu sua bolinha? Pai do céu!

Foi no TCC que eu “descobri” que a carreira de Maria Esther foi tão impressionante. Fuçando aqui e ali, “descobrimos” que ela tinha números estraordinários, e que, realmente, não é nenhum exagero falar que ela “inventou” o tênis no Brasil. “Descobri” e “descobrimos”, com aspas mesmo, porque a história dela é espetacular, sensacional, surreal e tudo quanto é adjetivo, mas ninguém sabe nada disso.

Por exemplo, você sabia que existem pelo menos três estátuas em São Paulo em homenagem a ela? Uma perambulou pelo clube Harmonia, onde ela treinou e até hoje bate sua bolinha, e hoje, se não me engano, está na Praça Califórnia, no Jardim Paulista, entre as ruas Groenlândia, Canadá e Argentina. A segunda, não menos itinerante, está (até onde eu sei) no estádio do Pacaembu, logo na entrada da garagem, atrás do tobogã. Enfim, a única que parece manter o endereço é a elaborada pela FPT (Federação Paulista de Tênis) e fica na porta da entidade, na rua Uruana, na Vila Mariana. Curioso, não?

Indo atrás dos jornais da época, vimos que está tudo ali, documentado. As vitórias, os títulos, a imprensa da época – especialmente o jornal O Estado de S. Paulo – cobriu, do jeito que dava, a trajetória de Maria Esther. Lembramos que não havia TV, e internet não passava nem pela cabeça dos escritores de ficção. Modéstia à parte, eu e meus companheiros de TCC fizemos entrevistas com Deus e o mundo, só não conseguimos falar com uma pessoa: a própria Maria Esther.

Falar é até exagero: não conseguimos nem chegar perto dela. As dificuldades e os limites impostos foram tão grandes e sufocantes que o livro foi “terminado” sem uma única frase de Maria Esther. Claro, lá estão frases dela na época das conquistas, o que saiu na imprensa da época, mas, nem uma única linha, nem um “oi” exclusivo para a gente.

Nesta semana, foi anunciado que Guga vai entrar para o Hall da Fama do tênis. Ele será o segundo brasileiro a figurar entre os imortais. Antes dele, apenas Maria Esther Bueno. Aquela mesma que, repito, praticamente criou o esporte no Brasil. Sem ela, talvez não existiriam Thomaz Koch, Carlos Kirmayr, Edison Mandarino, Cassio Mota, Luiz Mattar, Jaime Oncins, Fernando Meligeni, Gustavo Kuerten…

Curiosamente, a história de Guga está aí pra quem quiser aprender. São trocentos livros sobre ele, sites, vídeos. Aí você vai me dizer que não existiam sites e vídeos na era de Maria Esther. Sim, concordo. Mas, na mesma época, Adhemar Ferreira da Silva voava para duas medalhas olímpicas de ouro (1952 e 1956), o basquete brasileiro de Wlamir Marques, Amaury Pasos e Rosa Branca era bicampeão mundial (1959 e 1963), a seleção brasileira de Zizinho e Barbosa perdia a final da Copa do Mundo de 1950, Éder Jofre conquistava o título mundial dos galos (1963), enfim, gente tão genial como Maria Esther teve os seus feitos contados, detalhados, esmiuçados. Ela, não.

Cada vez que eu vejo o nome de Maria Esther, penso que ela é uma lenda. Lenda por tudo que conquistou, lenda porque parece que seus feitos são tão gigantescos que viraram mitológicos. O mais curioso de tudo é que a história de Maria Esther está aí, pulsando, doida para ser contada, espalhada. Mas corre o risco de ser esquecida, já que a história, em si, não quer fazer parte da História. Uma pena.

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Messi e Barcos, a quarta-feira argentina e uma caixinha de surpresas

O dia de Messi e Barcos - Foto: Reuters e AE, Arte/Ricardo Zanei

O dia de Messi e Barcos - Foto: Reuters e AE, Arte/Ricardo Zanei

É curioso como as histórias de dois caras completamente diferentes podem ter algo em comum no mesmo dia. Aliás, em comum, além da nacionalidade argentina, foi o fato de brilharem na mesma quarta-feira. A qualidade é incomparável, as torcidas são diferentes, mas Lionel Messi e Hernán Barcos fizeram a felicidade de muitos torcedores no planeta.

Começando pelo astro, parece até que foi a estreia de Messi com a camisa da Argentina. Mas ouso dizer que foi a primeira vez que ele se sentiu tão à vontade com o uniforme nacional. Parecia que ele era o 10 dos “hermanos” há décadas.

Mas o mais engraçado é que Messi fez basicamente o que faz no Barcelona. Aliás, essa era (era ou é?) a grande crítica sobre ele: o Messi da Argentina não é o mesmo Messi do Barça. Dessa vez, o cara que joga na Espanha se apresentou na melhor forma possível e atropelou a Suíça.

Tem gente que falou e vai falar “também, contra a Suíça, é obrigação”. O Brasil pega trocentas galinhas mortas por aí, zilhões de Suíças, e nem por isso tem jogador deitando e rolando. Também acho que jogar bem contra a Suíça é obrigação, e Messi cumpriu a dele com louvor. Batemos palmas, pois!

O lance do primeiro gol é um primor, dá vontade de emoldurar e colocar na parede. A arrancada tradicional de Messi, o passe preciso para Aguero, a assistência em um calcanhar socrático, a ajeitadinha já clássica e o tiro certeiro, letal, no cantinho. De chorar.

Suíça 1 x 3 Argentina

O curioso é que, mesmo com a imagem fechada, contei 11 suíços no campo de defesa. Quando Messi recebe a bola, são 7 caras à pequena ou média distância do craque. E ele não faz nada absurdo: gira o corpo, dá dois toques, passa para Aguero, recebe de volta, ajeita e bate. Talvez seja esse o segredo dele, a simplicidade. Monstruoso!

Messi, 1º gol contra a Suíça - Foto: Reprodução de TV e Arte/Ricardo Zanei

Messi, 1º gol contra a Suíça - Foto: Reprodução de TV e Arte/Ricardo Zanei

O outro argentino que roubou a cena na quarta-feira foi Barcos, do Palmeiras. Quem diria que esse cara ia ter tanto sucesso em tão pouco tempo, hein? Acho que nem Felipão, que bancou a sua contratação, achava que isso ia acontecer. Sonhar, sonhava, mas acreditar mesmo, acho que não.

A única pessoa que acreditava que Barcos teria sucesso no Palestra era o próprio Barcos. Como um cara que acaba de desembarcar em outro país fala que vai marcar 27 gols na temporada? Confiança, meus caros! E isso, ele tem de sobra. Já são cinco gols em seis jogos, faltam “só” 22. Corro o risco de uma análise precoce, mas acho que é o melhor centroavante que o Palmeiras teve desde a última passagem de Vágner Love pelo Palestra. Finalmente, o torcedor alviverde pode dizer que tem um camisa 9.

O primeiro gol contra o São Paulo mostrou que Barcos tem qualidade. O domínio de bola, o corte nos zagueiros, o chute de canhota: foi um belo lance. Agora, contra o Linense, ele fez um gol, digamos, à la Messi. Brigou para ganhar a bola no meio-campo. Arrancou para o ataque, deu uma meia-lua desconcertante no zagueiro. Aí, pensei que ele ia soltar aquela cacetada. Que nada, resolveu a situação com um toquinho por cobertura no goleiro. Que golaço! Ficaria bem bonito ao lado do de Messi na minha parede!

Golaço de Barcos contra o Linense

A narração de Cléber Machado, para uns, deprecia o futebol de Barcos. Para mim, é precisa: “Vai se revelando como um jogador com bons recursos. Ele é lento, ele não é habilidoso. Ele deu um pique bom. E deu uma meia-lua espetacular no Pablo. E para completar, um toque sutil”. O que o narrador global quer dizer é que o argentino está longe de ser um gênio da bola, mas também está longe de ser um troglodita. E, fazendo, gol, quem se importa?

Com Messi e Barcos, a quarta-feira teve um gostinho argentino. Quem diria que esse craque e esse artilheiro que o futebol brasileiro começa a conhecer seriam protagonistas no mesmo dia. E mais: com golaços e com elogios. Não tem mais bobo no futebol, mas o futebol continua a ser uma caixinha de surpresas.

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Encontros históricos (2) – Ronaldinho e Maradona

Ronaldinho e Maradona, criatura e criador - Foto: Alfred Cheng Jin/Reuters

Ronaldinho e Maradona, criatura e criador - Foto: Alfred Cheng Jin/Reuters

Quem? Criador e criatura. Desenho e esboço. Maradona e Ronaldinho Gaúcho.

De um lado… Maradona foi o Pelé que eu vi jogar. Foi aquele que mais chegou perto de toda a magia dos deuses. Foi capaz de coisas que até ele mesmo duvida. Um gênio incontestável da bola.

De outro… Já Ronaldinho Gaúcho é a versão rabiscada de Maradona. Foi, por dois, três anos, incontestável, monstruoso, mas parou. Se aposentou quando saiu do Barcelona. Hoje, perambula por aí.

Onde? No dia 23 de agosto de 2008, em Pequim, na China, na premiação do futebol nos Jogos Olímpicos. O Brasil, com Ronaldinho, perdeu nas semifinais para a Argentina por 3 a 0 e venceu a Bélgica pelo mesmo placar para ficar com a medalha de bronze. Já a Argentina, de Riquelme, Di María, Mascherano, Aguero e Messi, bateu a Nigéria na final e ficou com o ouro. Depois do pódio, o beijo.

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Encontros históricos (1) – Palermo e Valderrama

Palermo e Valderrama, gênios incompreendidos - Foto: EFE/Luis Eduardo Noriega

Palermo e Valderrama, gênios incompreendidos - Foto: EFE/Luis Eduardo Noriega

Quem? Para alguns, não significa nada. Para outros, é apenas um aperto de mãos entre dois jogadores. Para mim, são dois monstros. Martín Palermo e Carlos Valderrama.

Gênio número 1. Em poucas palavras, Palermo foi um dos atacantes mais grossos da história. Não sabia dar duas embaixadinhas, mas sabia fazer gols como poucos. E é para isso que centroavante serve, não?

Gênio número 2. Já Valderrama virou uma espécie de personagem folclórico por causa de seu cabelo, mas foi o comandante, o neurônio por trás da melhor seleção colombiana da história. Um meia de rara habilidade.

Onde? O encontro aconteceu no dia 22 de janeiro deste ano, em Medellín, na Colômbia, durante a disputa de um amistoso para arrecadar fundos para a “Fundación Héroe Camina”, que ajuda militares feridos em  combate.

P.S.: A ideia é trazer um “encontro histórico” a cada terça-feira. Não importa onde, quando, enfim. Vamos ver se rola. Se você tiver alguma foto – ou ideia – genial, mande pra mim!

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Lições de dois Brasil x Argentina

Lucas e Neymar contra a Argentina - Foto: AP Photo/Andre Penner

Lucas e Neymar contra a Argentina - Foto: AP Photo/Andre Penner

Depois de dois amistosos entre Brasil e Argentina, um empate sem gols e uma vitória da “amarelinha” por 2 a 0, ficam algumas lições para o seguimento da trajetória da seleção. Abaixo, algumas pinceladas:

– Brasil x Argentina deu sono. Pelo menos pra mim. Dormi no primeiro jogo quase inteiro, capotei no primeiro tempo da partida em Belém.

– Belém… Quando a fase não está boa, amistosos do Brasil no Brasil não podem ser disputados em praças como São Paulo, Rio e Porto Alegre, por exemplo. A recepção é fria, a crítica da arquibancada é feroz. Quando a fase não está boa, o negócio é jogar em praças mais carentes de futebol e de seleção. Belém, por exemplo, reagiu de maneira bem legal ao time de Mano Menezes. Claro, ganhou, é caça-níquel, foi tudo festa, mas a torcida ajudou também.

– O time de Mano ainda tem sérios problemas no sistema defensivo. Não sofreu pressão da fraca Argentina, mas, mesmo assim, deu alguns sustos. Quando falo em sistema defensivo, leia-se: a marcação tem de começar lá na frente. A culpa não pode estourar em volantes e zagueiros. Parece simples, elementar, até. Mas, na seleção de Mano, tem sido um problemão.

– Lucas fez uma de suas melhores partidas nos últimos tempos, talvez a melhor do segundo semestre. Mas fiquei com a sensação de que ele teve espaço demais para brilhar. Com espaço de menos, como tem sido a tônica no Brasileirão, ele tem sumido, desaparecido, e ainda não aprendeu a jogar quando pressionado.

– Bruno Cortês, salvo qualquer tropeço, parece ter vida longa na lateral esquerda da seleção. Foi o melhor em campo e deve brigar com Marcelo pela vaga de titular. André Santos vai ter que comer grama para voltar, ou contar com novo embate entre Mano e Marcelo para voltar.

– O que foi aquela gracinha de Neymar e Ronaldinho, passando o pezinho em cima da bola no fim do jogo, correndo o risco de levar uma bela cacetada e comprometer o fim da temporada? Desnecessário.

– Ah, que prazer receber um troféu chamado Nicolás Leoz das mãos do mesmo, hein? Que coisa linda!

Bom, é isso. Por enquanto, acabou a patacoada de Brasil x Argentina. Mas no ano que vem tem mais, atrapalhando o Brasileirão. Imperdível! Ahã…

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