“30 for 30”: Jimmy Connors, um bom livro de auto-ajuda e um babaca feliz

Jimmy Connors, "This Is What They Want" - Foto: Reprodução/ESPN

Jimmy Connors, “This Is What They Want” – Foto: Reprodução/ESPN

Um tenista de 39 anos, afastado das quadras, e sua última participação no US Open. Jimmy Connors fez de tudo, inclusive chover, na sua derradeira corrida, em 1991. Foi, sem dúvida nenhuma, uma das maiores sequências de jogos da história do esporte, não apenas pela qualidade, mas pela emoção e devaneio coletivo que o norte-americano causou na torcida local.

“This Is What They Want” é o documentário da espetacular e inigualável série “30 for 30” que trata desse torneio. Assista, está na programação dos canais ESPN. É de arrepiar, chorar, rir, se irritar, enfim, é tudo o que Connors representou naquele torneio. Mais: é reflexo de tudo que ele foi e fez em sua vitoriosa e quase interminável carreira.

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Tudo sobre o genial “This Is What They Want” no site oficial da série “30 for 30”

A narrativa do filme é sensacional e te coloca naquele torneio como se fosse ontem. E ainda tem um lado que eu achei demais: imagine que exista um livro bom de auto-ajuda, e talvez, quem sabe, ele até já tenha sido escrito. Sabe aquelas frases de efeito, aquelas que servem em qualquer situação da sua vida, no esporte, na feira, em uma loja de CDs? Pois o filme é repleto de metáforas e de frases feitas que soam até como mantras. E o pior, ops, e o melhor é que todas fazem sentido. Sem elas, o filme não teria sentido.

Connors foi um gênio em quadra, um monstro da garra e da raça. Foi, também, um grande babaca, simplesmente porque ele era – e ainda é – um babaca. Sabe aquelas pessoas que você ama e odeia, ama porque são demais, odeia porque são babacas demais? Pois bem, Connors é um desses caras.

O final é dos mais surpreendentes. É tocante, quase indecifrável, ficam tantas perguntas no ar que o filme não acaba ali, faz você refletir sobre a vida, o mundo, enfim, como deve ser um bom livro de auto-ajuda.

Claro que não vou contar o que acontece, mas uma das frases mais curiosas vem do próprio Connors ao saber que era – é – chamado de babaca. O mais divertido é que o instante de indignação é substituído por um segundo de sinceridade, quando ele admite: “Quer saber, sou um babaca, mas sou um babaca feliz”.

E vendo o filme, fica muito claro: dá para amar e odiar muito esse babaca feliz.

P.S.: Para quem ainda não sabe, a ESPN fará uma série “30 for 30” apenas sobre futebol, aproveitando a Copa do Mundo. Não dá para adiantar nada, mas pelo que sei do que está rolando, sou obrigado a parafrasear Anitta, essa filósofa contemporânea: “Prepara”. Mais detalhes aqui.

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São Seedorf não faz milagre

“Non faccio miracoli”

Detalhe da capa de La Gazzetta dello Sport - Foto: Reprodução

Detalhe da capa de La Gazzetta dello Sport – Foto: Reprodução

Está aí em cima, na capa do jornal desta quinta-feira, e está lá, no site da “Gazzetta dello Sport”. A primeira derrota de Seedorf. A primeira eliminação no único torneio que o Milan tinha chance na temporada.

Futebol é quarta e domingo, diria Muricy. No caso, domingo e quarta. Domingo, estreia com vitória, elogios, esperanças. Quarta, primeiro revés, eliminação, críticas, mais críticas.

“Non faccio miracoli”

A frase fica ecoando. Seedorf precisou de uma derrota para sentir na pele o que todos já sabiam: o Milan tem um time limitado. Limitado é uma maneira educada de dizer que a equipe é fraca. Na bola, na técnica, não vai longe. Precisa de reforços urgentes, mas falta grana.

O ditado diz que, se a vida te dá um limão, faça uma limonada. E o que fazer com o Milan? Com o perdão do trocadilho, nada.

Claro que, no papel, existem bons jogadores. Mas aí você pega o elenco (que você pode ver aqui) e enxerga fragilidade para tudo que é canto. Monte o seu time aí e me diga: empolgante, não? Não mesmo. E quando os bons são poucos e ainda estão em má fase, a coisa fica ainda mais complicada.

Resta a Seedorf, então, apelar para o emocional. A reação, se vier, só chegará aliada à dignidade, à base da raça, da garra, do comer a grama. Mexer com o elenco, com os brios, me parece a única saída. Mas isso vai resolver os problemas eternamente? Que nada, é o “fator bombeiro”, é apagar o incêndio. Sem limão, sabe como é…

“Non faccio miracoli”

Fora de casa, o holandês fez milagre. Alguns, eu diria. Primeiro, ao aceitar a proposta de vir jogar no Brasil. Daí vieram outros: Taça Rio, Taça Guanabara, Carioca, vaga na Libertadores. Agora, em casa, carrega a esperança dos rossoneros para reerguer o time, o clube, enfim, tudo. Santo de casa faz milagre? São Seedorf já deixou claro que não.

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“LAZIO MERDA”: o esquecível Michel Bastos inesquecível para Roma e Lazio

Michel Bastos e a faixa da idolatria – ou discórdia – Foto: Twitter

Michel Bastos é um daqueles caras esquecidos na história. Tente lembrar todos os convocados para a Copa de 2010. Se faltou algum, pode apostar que é ele. E se, daqui alguns dias – semanas, meses ou anos, tanto faz -, você refizer a lista, pode acreditar: ele sumirá de novo da sua memória.

Lateral de velocidade, arrancada, chute potente e preciso, virou uma espécie de ponta na Europa, aquele meia com cara de ponta que joga aberto na segunda linha de quatro homens. Assim, se deu bem na França, onde chegou depois de voar no Figueirense. Do Lille para o Lyon – e para a Copa -, do Lyon para o Schalke 04, de lá para ganhar uma grana no Al Ain. Bolso em dia, veio a Roma.

A apresentação não foi preparada para ser das mais pomposas, mas ser visto e aplaudido pela torcida antes de um clássico contra a Juventus não é de se jogar fora. Aí veio a bomba, o primeiro canhão de Michel Bastos na Roma. Visto, ok. Aplaudido? Digamos, ovacionado. E, claro, execrado.

Com um cachecol escrito “LAZIO MERDA”, (devidamente em letras maiúsculas ou, se preferir, com o CAPS LOCK ligado) ele virou uma espécie de ídolo instantâneo da torcida romana. Afinal, chegar xingando o arquirrival publicamente é, sim, para poucos.

A Roma se desculpou, disse que o cachecol foi jogado pela torcida, e que o jogador o mostrou a todos sem ver o que estava escrito. Posso até acreditar, mas não é necessário ser nenhum estudioso de italiano, muito menos de português, para saber que “LAZIO MERDA” é “LAZIO MERDA” do Coliseu ao Oiapoque.

Se rolou uma idolatria de um lado, é fato que Michel Bastos terá sérios problemas com o outro. Além da rivalidade intensa, a seção fascista dos torcedores azuis, os temidos e inconsequentes Irriducibili, já deve ter espalhado a imagem da apresentação por tudo que é canto. Lembrando que o jogador é negro, a coisa pode ser ainda pior. “Procurado vivo ou morto”, manja? Tenso!

Torcida à parte, a minha é para que Michel Bastos jogue muita bola, se firme na Roma e vire ídolo por lá, boleiristicamente falando. E que a frase fique esquecida na história. Falando em esquecida, alguém se lembra dos 23 convocados por Dunga em 2010? Faltou um? Uma dica: joga na Itália, é ídolo romanista e inimigo laziale.

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Começando pelo goleiro, o meu time ideal

Higuita e a famosa defesa escorpião - Foto: 8bit-football.com

Higuita e a famosa defesa escorpião – Foto: 8bit-football.com

Quando era moleque, semana sim, semana também, eu e um amigo fazíamos a mesma pergunta: qual é o seu time ideal? A base era o time do coração. Daí para a frente, dois critérios: 1 – imaginação; 2 – realidade.

Na imaginação, era simples: você escolhia a equipe dos sonhos, usando os melhores jogadores do planeta, e pronto. Muitas vezes, o meu 11 ideal era quase igual ao dele. Legal, bacana, diversão garantida.

A realidade era, de fato, um verdadeiro exercício de como ser um dirigente de futebol. Quando custa, como viria, quando viria, quem sairia pra bancar o jogador A ou B, se daria para trocar com o time C ou D ou, quem sabe, até um E entrava na dança. Era complicado e demorávamos horas falando disso. Ou seja, completamente genial!

Ultimamente, com esse mercado da bola extremamente movimentado, essas idas e vindas insanas de jogadores para lá e para cá, tenho pensado muito sobre isso. Eu sei, poderia ter uma vida social melhor e fazer muitas outras coisas. Mas, bem, esse sou eu.

É mais ou menos o que você fazia na febre da Master Liga no Winning Eleven. Você queria comprar o mundo, a seleção do planeta (a equipe dos sonhos, a imaginação), mas a realidade da falta de dinheiro aqui e ali batia à porta (o melhor time que dá para ter, a realidade).

Explicação feita, vamos à brincadeira.

Parte 1, o goleiro dos sonhos
É a mais direta possível. Qualidade é incontestável, então, a questão, aqui, é a preferência. Vou me limitar a apenas cinco nomes: Neuer, Casillas, Buffon, Courtois, Cech. A ordem é essa? Sim, é essa, mas imagine que seu time contrate um desses cara. Seu time aqui do Brasil mesmo. Obviamente, deixaria elenco e torcida em uma festa eterna.

Neuer vive um grande momento, é o melhor da Alemanha e, aos 27 anos, tem muita lenha para queimar. Cech, com 31, Casillas, 32, jogam fácil por pelo menos mais sete, oito anos. Buffon, 35, idem por mais cinco anos. Courtois seria aquela aposta ainda mais a longo prazo: aos 21 anos, o belga tem tudo para jogar pelo menos duas décadas e encher a prateleira de prêmios ano sim, ano também.

Parte 2, o goleiro da realidade
Aqui, poderia ponderar e citar trocentos nomes, mas como meu time tem goleiro (todos têm goleiros, blábláblá), minha lista tem apenas um nome: um monstro chamado Martín Silva.

O Vasco fez uma das melhores contratações do ano ao tirar o uruguaio de 30 anos do Olimpia (PAR). Ele é muito bom, daqueles que podem jogar, e bem, por 10 anos no seu time. É o cara com potencial para ser ídolo eterno. Sou fã desse cara e, admito, tenho uma inveja gigante dos vascaínos.

Entre os brasileiros, pela temporada 2013, Vítor foi espetacular. Pela carreira, já mostrou que é extremamente confiável. Jefferson e Fábio são muito bons, mas nenhum deles que me empolgue a ponto de um “nossa, queria esse cara no meu time”. Ou seja, o capitão fica e segue o jogo! Mas, se viesse o Martín Silva – ou o Neuer, vai -, ele poderia pendurar luvas e chuteiras.

P.S.: Quem me conhece sabe que estou longe de ser um defensor árduo de Rogério Ceni, mas dizer que ele falhou no segundo gol do Bragantino é de uma heresia absurda. Li coisas como “golpe de vista”, “erro de cálculo”, “ah, estava adiantado”. Fala sério! No primeiro, claro, rolou uma indefinição ali que pode ter sido fatal, mas, no segundo, poderia colocar dois, três Cenis, mais Neuer e Casillas ali que a bola entraria do mesmo jeito.

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Diabo veste azul: Eto’o e a química com Mourinho

Foto do ano? Eto'o, o rei do clássico - Foto: Getty

Foto do ano? Eto’o, o rei do clássico – Foto: Getty

Chelsea 3 x 1 Manchester United. Samuel Eto’o 3 x 1 Red Devils. Ou seria Blue Devil 3 x 1 Reds de vergonha?

Samuel Eto’o sempre soube fazer gols. Sempre. Nasceu para isso. Veloz, habilidoso, exímio finalizador. O que mais de características um artilheiro precisa? Nenhuma. Ele sempre foi assim.

Mas quis o destino que um tal José Mourinho surgisse na vida do camaronês. Justo ele, que havia afirmado que não gostaria de trabalhar com o português. Mal sabia o atacante que seria com o “Special One” que ele somaria outros atributos à sua lista de qualidades: poder de marcação, recomposição no meio-campo, arranque de longa distância para o ataque.

Foi assim, na Inter de Milão, que Mourinho transformou um time limitado em campeão da Champions League. Diego Milito pode ter sido o grande matador daquela equipe dona da Europa em 2009-2010, mas, sem o esforço e desapego de Eto’o, duvido se iria tão longe.

A saída de Mourinho para o Real Madrid, em maio de 2010, mostrou muito bem o quanto aqueles jogadores entenderam o recado de um técnico. A despedida emocionada de Marco Materazzi, duro que nem pedra, mostra que os brutos também amam. E amaram muito aquele cara.

Ano vai, ano vem, e Mourinho volta ao Chelsea. O técnico pede, e Eto’o troca os zilhões do Anzhi por Stamford Bridge. Dane-se o salário, mas dizem por aí que ele abriu mão de mais de metade do que ele ganhava para ir para Londres. Você faria isso? “Ah, ele ganha milhões, é fácil”. Será? Confiança pouca, não?

Passa jogo, entra jogo, e pinta um Chelsea x United. Um time azul brigando pelo título palmo a palmo com Arsenal, Manchester City e, quem sabe, Liverpool, Tottenham e Everton. Um time vermelho que numa draga danada, lutando por um milagre para chegar à próxima Champions.

E vai o destino de novo abençoar Eto’o. Sorte no primeiro, posicionamento no segundo, oportunismo no terceiro. Um, dois, três gols, e o camaronês renasce sob o comando de Mourinho, mantém o Chelsea na briga e afunda ainda mais o United. Melhor, impossível. Que os deuses do futebol explicam. Ou os diabos, né, Red Devils?

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Kaká sonha com a Copa; Felipão, não

Kaká contra a Croácia, em 2006; esperança de jogar em 2014 - Foto: Reuters

Kaká, Croácia, golaço em 2006; esperança de jogar em 2014 – Foto: Reuters

Babando, com sorriso no rosto e olhos marejados cheios de esperança, Kaká falou que sonha em ser convocado para a Copa do Mundo de 2014. Chegou a ser emocionante ver a vontade que ele mostrou em disputar mais um Mundial, vontade ampliada após Felipão “deixar as portas abertas” para seu retorno à seleção. A vontade é tamanha que ele toparia jogar “meia hora”, como fez em 2002. Mas, sejamos sinceros, não vai rolar.

Galvão Bueno conduziu muito bem a entrevista com o meia, veiculada no “Esporte Espetacular”. A proximidade do narrador com o jogador fez com que ele se soltasse e falasse sobre tudo: lesão, recuperação, Real Madrid e, por fim, seleção e Copa.

Claro que tem o lado ufanista da coisa, e isso ajudou no clima emotivo. Galvão disse torcer (um torcer com cara de “tenho certeza”) para ver o craque em campo ou no banco no Brasil x Croácia, dia 12 de junho, abertura da Copa. Kaká ficou besta com isso. Eu também ficaria, visualizaria, até.

O sonho é lindo, e tem que sonhar mesmo, mas é certeza que não vai rolar. Quem conhece a história de Felipão sabe que o técnico fecha a sua “Família Scolari” bem antes de um Mundial. O grupo está definido desde a Copa das Confederações, com uma ou outra dúvida, e Kaká, nem de longe, faz “cósquinha” nas dores de cabeça do treinador. “Portas abertas” é uma maneira educada e inteligente para não queimar um jogador do quilate de Kaká, mesmo que a história recente – ou nem tão recente assim – mostre que sua cotação está bem abaixo do que já foi.

Se ele estivesse quebrando tudo, rasgando a bola, arrancando como nunca, fazendo gols, sendo rei das assistências, rolaria ainda um clamor popular por sua convocação. Mas o meia ainda oscila demais, é pouco ou nada comentado no Brasil. Ou seja, segunda-feira chega e quase ninguém sabe se ele jogou ou não no fim de semana.

A chegada de Seedorf pode ser um novo alento para Kaká, mais um combustível em seu sonho de jogar a Copa. Acho, inclusive, que vai ajudá-lo a recuperar o bom futebol. Mas nem uma explosão vai fazer Felipão mudar de ideia.

Brasil x Croácia, primeiro jogo da seleção na Copa-2006. Um chute de canhota, de fora da área, 1 a 0, vitória do “quarteto fantástico”. Aquele, sim, foi o último grande lampejo de um Kaká já debilitado. Brasil x Croácia, abertura da Copa-2014. Kaká, jogue o que jogar até lá, verá pela TV.

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Neymar, CBF, milhões e nenhuma surpresa

No ESPN.com.br: CBF propõe adiantamento financeiro para Portuguesa aceitar Série B

Alguém, sinceramente, se choca com a atitude da CBF? Pelas pessoas envolvidas, não dá para ficar abismado com isso. Dá para ensinar índole e caráter? Não, não dá.

Obviamente, o fato de não se chocar não quer dizer o quando isso é repugnante. Nojo, sabe? É esse o tipo de gente que manda no “nosso” mundinho da bola. “Nosso”, há!

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Manchete do “El Mundo”: Neymar custou mais do que o anunciado e foi mais caro que Cristiano Ronaldo

Simples, rápido, apenas duas palavras explicam: Sandro Rosell. Sem mais.

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O futebol tem a sorte de ser um esporte absolutamente sensacional e apaixonante, que mexe, muito, com corações e emoções. Sinceramente, o submundo dele, que nem é tão sub assim, é de uma podridão absurda. Se não fosse pela magia, já era, estava morto e enterrado. Uma pena.

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Como convencer um time a perder?

Joakim Noah: retroceder nunca, render-se jamais - Foto: Divulgação/McFarlane

Joakim Noah: retroceder nunca, render-se jamais – Foto: Divulgação/McFarlane

A temporada 2013-2014 da NBA tem vivido um fenômeno dos mais curiosos: se seu time é de médio para ruim, desista já do campeonato e brigue para ficar entre os últimos. O objetivo é garantir uma boa posição no próximo draft e contratar um jogador com potencial de craque a preço de banana. Todos os anos são assim, mas, dessa vez, parece que os candidatos a piores estão se multiplicando. O problema é convencer um time que perder é o grande negócio. O mais bizarro é a torcida concordar com isso. Alguns nem discutem mais isso, já admitiram que estão ali cumprindo tabela. Mas, no caso do Chicago Bulls, esse convencimento é simplesmente impossível.

A história que ronda o ex-manto de Michael Jordan não é nova: a franquia cedeu Luol Deng para o Cleveland Cavaliers por escolhas nos próximos drafts e Andrew Bynum. Em seguida, se desfez do pivô. Ou seja, abriu mão de uma de suas maiores estrelas no século para ganhar força na folha salarial. Todos os detalhes você encontra em “Para perder, Bulls tem primeiro de vencer Thibodeau”, do monstro Giancarlo Giampietro. Vale a leitura.

Pensando no futuro, a coisa é maravilhosa, afinal, repito, gasta-se menos, abre-se espaço para contratações, e as chances de candidatos a astros chegarem nos próximos drafts são boas. Para ficar perfeito, é só o time naufragar com gosto na temporada e ficar em uma péssima posição, abrindo caminho para mais um bom draft. Só esqueceram de combinar isso com o elenco e, principalmente, com o técnico Tom Thibodeau, fato que chegou a “irritar” alguns fãs de Chicago.

Muitos, mas muitos torcedores dos Bulls querem que o time siga ganhando, mas, sabe como é, nem tanto. Explicando a mentalidade: ganhar é bacana, é legal, mas ir para os playoffs e cair logo não vale a pena. O que vale a pena é tropeçar aqui e ali, fazer um ano ridículo e garantir um bom lugar no draft na próxima temporada. Você concorda?

Thibodeau, não. O coach é um daqueles caras que mataria e morreria pelo time. Exigente, estudioso, enérgico: características de um cara que não sabe perder. Não sabe e não quer perder. E passa isso para os seus comandados.

Joakim Noah, pivôzão, ídolo da torcida, resolveu dar a cara para bater contra a galera que prefere perder agora a ganhar lá na frente do que jogar o jogo como deve ser.

“Não digo nada para esses fãs, eles podem pensar o que quiserem. Mas, sabe, esse não é o verdadeiro torcedor para mim. Entende o que estou dizendo? Você quer mesmo que seu time perca? O que é isso?”

O espírito é, basicamente, aquele que deveria permear todo e qualquer atleta profissional: quando eu jogo, corro, nado, entro para vencer. Ponto final. Não importa se meu time é um lixo, não importa se é ruim para os negócios, não importa se o futuro pode ser sombrio. Dane-se. Se entrei em quadra, minha obrigação é jogar para ganhar.

Talvez por isso, por essa mentalidade, é que o Chicago apareça como a segunda melhor defesa da temporada. O ataque é péssimo, o segundo pior da liga, e pode “liderar” o quesito com a saída de Deng. Mas, de fato, isso não importa. Afinal, no basquete, não se ganha atacando, mas, sim, defendendo. E só defende, e defende bem, quem não quer perder. Tanto não quer perder que o time é o sexto melhor do Leste e, se o campeonato acabasse hoje, estaria nos playoffs. Dos sete jogos no ano, seis vitórias.

“Você realmente pensa que falamos sobre isso [perder jogos]? Sem chance, cara. Sem chance. Isso é tão distante da nossa realidade. Jogamos para um técnico que… é difícil. É difícil todos os dias. Nos trituramos todos os dias, nos esforçamos ao máximo todos os dias.”

O cenário desolador com a saída de um ídolo como Deng parecia perfeito pela maneira como a troca foi arranjada. Tudo combinado para que o time tivesse chance de fazer uma restruturação daquelas. Só esqueceram que, para ter a cereja no bolo, era necessário perder. E como convencer um elenco que isso é o melhor? Que treinar duro, duro mesmo – e Thibodeau cobra, cobra mesmo – não é a saída? Que lutar com unhas e dentes não é o melhor negócio? Que perder, ao invés de lutar para ganhar, é a bola da vez? Todas a perguntas têm a mesma resposta: com os Bulls, não vai rolar. É um time que pode não ganhar, e não vai ganhar muitas e muitas vezes, mas abrir de lutar, jamais.

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E se Neymar…

A lesão de Neymar - Foto: Reprodução

A lesão de Neymar – Foto: Reprodução

… tiver uma lesão mais complicada?

E se essa lesão o tirar da Copa do Mundo?

Ah, o “se” não existe. Concordo, e tudo aqui é um exercício de futurologia, é pensar na pior situação possível. Há uma possibilidade? Sim, e vamos trabalhar com ela.

A respostas para a questão acima é simples: sem Neymar, o Brasil perde a Copa. Se, com ele, já acho que será um feito e tanto, sem ele, já era.

A comparação é simples. Se acontece o mesmo com Messi, a resposta seria a mesma. Cristiano Ronaldo? Ribéry? Idem e idem. Eles são os melhores do mundo. Com eles, há chances, umas melhores, outras nem tanto. Perdendo qualquer um deles, esquece.

O desfalque de um cara como Neymar faria com que Felipão tivesse que quebrar a cabeça e mudar tudo em uma seleção armada, em um grupo fechado. Lembrando que o Brasil tem apenas um amistoso antes da Copa, contra a África do Sul, dia 5 de março, a situação seria calamitosa, catastrófica.

Obviamente, os deuses do futebol aprontam aqui e ali, e seria politicamente correto dizer que “tudo pode acontecer”. Neymar pode sofrer a lesão, Felipão convocar Lucas, Lucas destruir e ser “o cara” do hexa. Mas sem ficar em cima do muro, um desfalque do quilate do craque do Barcelona seria devastador. Ousaria até dizer que as chances de avançar em um mata-mata seriam ridiculamente pequenas.

Para muitos, a Copa começa dia 12 de junho, com Brasil x Croácia. Para mim, ela pode acabar em um 17 de janeiro.

P.S.: Escrevo esse texto na noite desta quinta, então, ele tem prazo de validade. Se, olha o “se” de novo aí, tudo der certo, eu mudo. Se não, fica por isso mesmo.

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Nenê x LeBron: quando um toco vale mais que mil palavras

O toco de Nenê em LeBron: antológico - Foto: Getty

O toco de Nenê em LeBron: antológico – Foto: Getty

Toco. Block, chame como quiser. O fato é que a jogada é uma das mais especiais do esporte. O objetivo do basquete, claro, é a cesta. O toco é a “anti-cesta”, o momento em que a frustração de quem o leva se mistura com a euforia de quem o aplica. É nessa hora que os imortais percebem do que uma mão espalmada batendo na bola é capaz. É nessa hora que os imortais se tornam se sentem meros mortais.

Quarta-feira, 15 de julho. Washington Wizards 114 x 97 Miami Heat. O placar, nesse caso, nada importa. O que valeu mesmo não demorou nem 1min para acontecer. Contragolpe do Heat, bola nas mãos de LeBron James. Explosão, velocidade, apetite pela cesta. A cena se repete noite após noite na NBA: lá vem mais uma jogada absurda do herdeiro de Michael Jordan.

Quando uma cena se repete muito, a gente sabe o que vai acontecer. Talvez Nenê Hilário, em um daqueles lampejos que sabe deus de onde surgem, soubesse desde o início. LeBron arranca. O brasileiro, no meio do garrafão, parece desistir da jogada. O gênio do Heat acelera e passa fácil por dois rivais. O pivô, “morto” no meio do garrafão, também. O craque voa. O gigante, idem. O monstro ensaia e executa uma bandeja. Uma mão estratosférica surge no caminho, um tapão na bola daqueles ecoa. A cena de sempre, pasmem, teve um novo final. O imortal, pasmem, trombou com um mortal. O imortal, pasmem, acaba a jogada no chão. O imortal, pasmem, se vê como um ser humano normal.

O lance é um dos mais espetaculares da temporada da NBA. Esqueçam que Nenê é brasileiro. O ponto é outro: parar LeBron é quase impossível. No ar, então, fazendo o que mais sabe, que é atacar a cesta, a tarefa é praticamente impraticável. O que geralmente se faz é parar, ver o que vai rolar e bater palma: ponto para o Heat, mais uma jogada para o DVD infinito de melhores momentos do craque. É assim o script.

Mas o pivô subverteu a ordem natural das coisas. Ousou. Os passos, contei dois aqui, foram rápidos, precisos. O salto, o tapa na bola, enfim, o movimento todo foi extremamente sincronizado. E LeBron, que cansou de fazer cestas assim, se viu estatelado no chão.

É óbvio que não foi o primeiro toco que LeBron levou na vida. É óbvio que não será o último. Mas foi “o” toco. com todos os ingredientes de crueldade que um block tem. Chame como quiser, e esse texto de seis parágrafos tenta, tenta, mas não explica nada. É a imagem que vale. E Nenê mostrou para uma das lendas vivas do esporte mundial que um belo toco vale mais que mil palavras.

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