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“30 for 30”: Jimmy Connors, um bom livro de auto-ajuda e um babaca feliz

Jimmy Connors, "This Is What They Want" - Foto: Reprodução/ESPN

Jimmy Connors, “This Is What They Want” – Foto: Reprodução/ESPN

Um tenista de 39 anos, afastado das quadras, e sua última participação no US Open. Jimmy Connors fez de tudo, inclusive chover, na sua derradeira corrida, em 1991. Foi, sem dúvida nenhuma, uma das maiores sequências de jogos da história do esporte, não apenas pela qualidade, mas pela emoção e devaneio coletivo que o norte-americano causou na torcida local.

“This Is What They Want” é o documentário da espetacular e inigualável série “30 for 30” que trata desse torneio. Assista, está na programação dos canais ESPN. É de arrepiar, chorar, rir, se irritar, enfim, é tudo o que Connors representou naquele torneio. Mais: é reflexo de tudo que ele foi e fez em sua vitoriosa e quase interminável carreira.

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Tudo sobre o genial “This Is What They Want” no site oficial da série “30 for 30”

A narrativa do filme é sensacional e te coloca naquele torneio como se fosse ontem. E ainda tem um lado que eu achei demais: imagine que exista um livro bom de auto-ajuda, e talvez, quem sabe, ele até já tenha sido escrito. Sabe aquelas frases de efeito, aquelas que servem em qualquer situação da sua vida, no esporte, na feira, em uma loja de CDs? Pois o filme é repleto de metáforas e de frases feitas que soam até como mantras. E o pior, ops, e o melhor é que todas fazem sentido. Sem elas, o filme não teria sentido.

Connors foi um gênio em quadra, um monstro da garra e da raça. Foi, também, um grande babaca, simplesmente porque ele era – e ainda é – um babaca. Sabe aquelas pessoas que você ama e odeia, ama porque são demais, odeia porque são babacas demais? Pois bem, Connors é um desses caras.

O final é dos mais surpreendentes. É tocante, quase indecifrável, ficam tantas perguntas no ar que o filme não acaba ali, faz você refletir sobre a vida, o mundo, enfim, como deve ser um bom livro de auto-ajuda.

Claro que não vou contar o que acontece, mas uma das frases mais curiosas vem do próprio Connors ao saber que era – é – chamado de babaca. O mais divertido é que o instante de indignação é substituído por um segundo de sinceridade, quando ele admite: “Quer saber, sou um babaca, mas sou um babaca feliz”.

E vendo o filme, fica muito claro: dá para amar e odiar muito esse babaca feliz.

P.S.: Para quem ainda não sabe, a ESPN fará uma série “30 for 30” apenas sobre futebol, aproveitando a Copa do Mundo. Não dá para adiantar nada, mas pelo que sei do que está rolando, sou obrigado a parafrasear Anitta, essa filósofa contemporânea: “Prepara”. Mais detalhes aqui.

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Guga, Hall da Fama, Maria Esther Bueno, a lenda e uma história a ser contada

Maria Esther Bueno em Wimbledon - Foto: Arquivo

Maria Esther Bueno em Wimbledon - Foto: Arquivo

Tudo aconteceu mais ou menos na mesma época. O surgimento de Guga, o ápice dele e um, digamos, estudo meticuloso sobre a vida e a obra de Maria Esther Bueno. Não, essa não é, de longe, a cronologia do tênis. Mas é, mais ou menos, a da minha vida e o esporte de raquetes.

Lembro de assistir aos jogos de Andre Agassi, Pete Sampras, Ivan Lendl, Boris Becker, Michael Chang e tantos outros no fim dos anos 80, começo dos 90. Via de regra, todas as partidas tinham narrações do lendário Rui Viotti, eterna voz do tênis no Brasil.

Mas foi no fim dos anos 90 que o tênis explodiu na minha vida. Mais precisamente, foi com Guga, em 1997, que eu voltei a acompanhar o esporte mais de perto. Narrado por Viotti na extinta TV Manchete, o título do catarinense em Roland Garros foi, sem dúvida, um marco na história brasileira. E na minha, claro.

Guga repetiria o feito em 2000. Nessa época, o Brasil não estava no mapa do tênis mundial profissional – o Aberto do Brasil só entraria no calendário no ano seguinte, na baratíssima e acessível Costa do Sauípe. Para ver o catarinense, só saindo do país, o que a condição financeira não permitiu. Mas foi nesse ano que eu vi Guga em ação, ao vivo, pela primeira e única vez na minha vida: no desafio Brasil x Argentina, no Ibirapuera.

Aquele ginásio lotado, trocentas pessoas de camisa amarela (era dada na entrada), um clima sensacional. E lá estavam Guga e Fernando Meligeni pelo lado brasileiro, Franco Squillari e Gaston Gaudio por nossos vizinhos. Confesso que não lembro se fui no primeiro ou no terceiro dia, mas lembro que ver Guga, mesmo naquela grande brincadeira, era de arrepiar.

Em 2001, Guga ganharia Roland Garros mais uma vez. Nesse mesmo ano, me formei na Universidade Metodista de São Paulo. Ano de formatura é, basicamente, ano de TCC. Fui convidado por dois amigos para entrar de cabeça em um desafio: escrever a biografia de Maria Esther Bueno.

Para a minha surpresa, não havia nenhum livro que contasse a história da maior tenista e uma das maiores esportistas do Brasil. Até hoje, se você procurar, verá que não há nenhuma obra que trate apenas da carreira dela. Carreira, aliás, “humilde”: são 71 títulos em simples. Só para comparar, Roger Federer tem 72, Pete Sampras, 64, e Rafael Nadal, 46. Acha pouco?

Só pra constar, Maria Esther tem cinco títulos em Wimbledon e sua “grama sagrada” (1958, 1960, 1963, 1965 e 1966) e mais quatro no Aberto dos Estados Unidos (1960, 1962, 1966 e 1968). Se ganhar um Grand Slam é para poucos, imagine nove títulos desse porte. Um fenômeno.

Gustavo Kuerten em Roland Garros - Foto: Jacques Demarthon/AFP

Gustavo Kuerten em Roland Garros - Foto: Jacques Demarthon/AFP

Se existe tênis no Brasil, ele só sobreviveu por causa de Maria Esther. Foi ela que desbravou o mundo, ainda na fase amadora, e fez com que o Brasil aparecesse no esporte. Se até hoje são raros os tenistas brasileiros com uma carreira de verdade, consolidade, e, ainda mais, de sucesso, imagine nos anos 50, 60 e 70, quando ela bateu sua bolinha? Pai do céu!

Foi no TCC que eu “descobri” que a carreira de Maria Esther foi tão impressionante. Fuçando aqui e ali, “descobrimos” que ela tinha números estraordinários, e que, realmente, não é nenhum exagero falar que ela “inventou” o tênis no Brasil. “Descobri” e “descobrimos”, com aspas mesmo, porque a história dela é espetacular, sensacional, surreal e tudo quanto é adjetivo, mas ninguém sabe nada disso.

Por exemplo, você sabia que existem pelo menos três estátuas em São Paulo em homenagem a ela? Uma perambulou pelo clube Harmonia, onde ela treinou e até hoje bate sua bolinha, e hoje, se não me engano, está na Praça Califórnia, no Jardim Paulista, entre as ruas Groenlândia, Canadá e Argentina. A segunda, não menos itinerante, está (até onde eu sei) no estádio do Pacaembu, logo na entrada da garagem, atrás do tobogã. Enfim, a única que parece manter o endereço é a elaborada pela FPT (Federação Paulista de Tênis) e fica na porta da entidade, na rua Uruana, na Vila Mariana. Curioso, não?

Indo atrás dos jornais da época, vimos que está tudo ali, documentado. As vitórias, os títulos, a imprensa da época – especialmente o jornal O Estado de S. Paulo – cobriu, do jeito que dava, a trajetória de Maria Esther. Lembramos que não havia TV, e internet não passava nem pela cabeça dos escritores de ficção. Modéstia à parte, eu e meus companheiros de TCC fizemos entrevistas com Deus e o mundo, só não conseguimos falar com uma pessoa: a própria Maria Esther.

Falar é até exagero: não conseguimos nem chegar perto dela. As dificuldades e os limites impostos foram tão grandes e sufocantes que o livro foi “terminado” sem uma única frase de Maria Esther. Claro, lá estão frases dela na época das conquistas, o que saiu na imprensa da época, mas, nem uma única linha, nem um “oi” exclusivo para a gente.

Nesta semana, foi anunciado que Guga vai entrar para o Hall da Fama do tênis. Ele será o segundo brasileiro a figurar entre os imortais. Antes dele, apenas Maria Esther Bueno. Aquela mesma que, repito, praticamente criou o esporte no Brasil. Sem ela, talvez não existiriam Thomaz Koch, Carlos Kirmayr, Edison Mandarino, Cassio Mota, Luiz Mattar, Jaime Oncins, Fernando Meligeni, Gustavo Kuerten…

Curiosamente, a história de Guga está aí pra quem quiser aprender. São trocentos livros sobre ele, sites, vídeos. Aí você vai me dizer que não existiam sites e vídeos na era de Maria Esther. Sim, concordo. Mas, na mesma época, Adhemar Ferreira da Silva voava para duas medalhas olímpicas de ouro (1952 e 1956), o basquete brasileiro de Wlamir Marques, Amaury Pasos e Rosa Branca era bicampeão mundial (1959 e 1963), a seleção brasileira de Zizinho e Barbosa perdia a final da Copa do Mundo de 1950, Éder Jofre conquistava o título mundial dos galos (1963), enfim, gente tão genial como Maria Esther teve os seus feitos contados, detalhados, esmiuçados. Ela, não.

Cada vez que eu vejo o nome de Maria Esther, penso que ela é uma lenda. Lenda por tudo que conquistou, lenda porque parece que seus feitos são tão gigantescos que viraram mitológicos. O mais curioso de tudo é que a história de Maria Esther está aí, pulsando, doida para ser contada, espalhada. Mas corre o risco de ser esquecida, já que a história, em si, não quer fazer parte da História. Uma pena.

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Quatro coisas que você deve saber sobre Rafael Nadal

"Rafa", biografia de Rafael Nadal - Foto: Divulgação

"Rafa", biografia de Rafael Nadal - Foto: Divulgação

No fim de agosto, foi lançado nos EUA a biografia de Rafael Nadal, intitulada “Rafa”. Enquanto o livro não chega em casa, segue uma lista de quatro coisas que você deve saber sobre o tenista:

– Nadal não gosta de animais, especialmente cachorros. “Eu tenho dúvida sobre as intenções deles”, disse.

– O ex-número 1 do mundo não gosta de tempestades, de dormir no escuro, nem de comer presunto ou queijo.

– De acordo com sua irmã, Nadal é um péssimo motorista.

– Quando criança, o tenista achava que seu tio Toni, hoje seu treinador, tinha o poder de fazer com que parasse de chover.

Mudou sua vida, não?

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Qual é o tamanho de Novak Djokovic no tênis mundial?

Novak Djokovic, campeão do Aberto dos EUA - Foto: Chris Trotman/AFP

Novak Djokovic, campeão do Aberto dos EUA - Foto: Chris Trotman/AFP

Novak Djokovic parecia uma espécie de patinho feio no trio formado por Roger Federer e Rafael Nadal. Os dois já ganharam status absurdos, são verdadeiras lendas do tênis mundial. Mas, e o sérvio, que há tempos tentava invadir o espaço ocupado pela dupla? Qual é o tamanho de sua relevância no esporte?

Djokovic começou o ano como começara todos os outros: é um grande tenista, dos melhores da atualidade, mas seria ele capaz de duelar com o jogo cirúrgico de Federer ou com a vitalidade de Nadal?

O sérvio acabou com todas as dúvidas. Se alguém pode bater no peito e dizer “esse ano foi meu”, esse cara é Djokovic. Pode perder tudo daqui para a frente, mas ninguém tira: 2011 é dele.

Foram cinco jogos contra Federer na atual temporada, com quatro vitórias. Só perdeu na semifinal em Roland Garros, curiosamente, o único Grand Slam que Djokovic não ganhou em 2011. Não tem jogo cirúrgico que aguente.

Contra Nadal, o retrospecto é ainda mais expressivo: seis jogos, seis vitórias, todas em finais. As duas primeiras, nos Masters 1000 de Indian Wells e Miami, foram de virada. Mais dois Masters 1000, Madri e Roma, e vitórias em sets diretos. Wimbledon e Aberto dos EUA, Djokovic 3 a 1. A vitalidade ruiu.

Até agora, o sérvio entrou 66 vezes em quadra neste ano, com 64 vitórias. Perdeu para Federer na França por 3 a 1, perdeu a final do Masters 1000 de Cincinnati para Andy Murray por desistência. O aproveitamento é de “apenas” 96,97%. Avassalador.

Diante dos fatos, fica clara a resposta para a segunda pergunta: Djokovic não só é capaz de duelar com Federer e Nadal, como consegue, hoje, ser dominante contra os rivais. Falta a primeira pergunta…

Existem alguns nomes indiscutíveis no tênis mundial, caras que são ídolos, gênios, enfim, estão cravados na história. Alguém discute Ilie Năstase, Sergi Bruguera, Patrick Rafter, Yevgeny Kafelnikov e Marat Safin (2)? Arthur Ashe ou o melhor brasileiro de todos, Gustavo Kuerten (3)? Ou ainda Guillermo Vilas e Jim Courier (4)? São monstros, certo?

Os números em parênteses no parágrafo acima correspondem aos títulos de Grand Slam conquistados por cada um dos tenistas na era aberta do esporte. Djokovic, 24 anos, está na mesma linha que Vilas e Courier, com quatro conquistas. Que tal, hein? Mais um título e ele iguala as marcas de caras como Rod Laver e John Newcombe. Nada mal.

Diante disso, acho que dá para dizer que Djokovic já faz parte de um seleto grupo. Em alguns momentos, rebate bolas com a precisão de Federer. Em outros, mostra a garra de Nadal. É um misto dos dois. O suíço e o espanhol têm números extremamente superiores que o sérvio, mas, hoje, o discípulo é quem dita as regras diante dos mestres.

Somado ao lado técnico da coisa, Djokovic conseguiu um feito dos mais notáveis: tirou aquela sisudez do tênis e tem mostrado que é possível jogar uma final de Grand Slam e se divertir. Mais do que isso, sabe como ninguém divertir o público. É um “show man” e tem um bom humor absurdo. E tem carisma, todo o carisma do mundo.

Por tudo, Djokovic deixou de ser um “patinho feio” e enterrou todas as dúvidas em relação à sua capacidade. Cresce a cada dia, a cada ponto. É um dos tenistas que mais me dá gosto de ver jogar. Tem apenas 24 anos, e só Deus sabe qual será o seu limite. Não é um Nadal, nem um Federer. É Djokovic. Um monstro.

P.S.: Não viu a final do Aberto dos EUA? Ache alguma reprise, procure quem gravou, espere sair em DVD, enfim, corra atrás. É um dos melhores jogos que eu vi na vida. Sem medo de errar, Djokovic e Nadal protagonizaram pelo menos uns 10 ralis históricos, daqueles que te deixa torcendo para que ninguém erre, só para que o ponto não acabe nunca. Um jogo épico, inesquecível. Um pouquinho desse show você pode ver abaixo.

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Djokovic, o cara mais carismático da cidade

Do Houaiss:

Carisma
(entre outras definições)

3    Derivação: por analogia.
     conjunto de habilidades e/ou poder de encantar, de seduzir, que faz com que um indivíduo (p.ex., um cantor, um ator) desperte de imediato a aprovação e a simpatia das massas
4    Derivação: por extensão de sentido.
     fascínio, fascinação

Assim, é fácil dizer: Novak Djokovic é um dos esportistas mais carismáticos da história. Ponto. O cara é gente boa, é bem humorado, joga pra caramba. É o tipo de cara que você quer sentar ao lado no boteco, ouvir as histórias e dar risada pra caramba.

Prova disso é que, nos últimos dias, Djoko conseguiu pregar uma peça em um repórter durante uma entrevista (tem muito cara de encenação, mas é divertido) e imitou Maria Sharapova mais uma vez, agora com direito a peruca. Mais: parou para dar uma entrevista para a ESPN e foi cercado por cerca de 1 mil torcedores no Masters 1.000 de Cincinnati.

Tem certas coisas que não se consegue comprar, nem conquistar. Carisma é uma delas. Ou o cara tem, ou não tem. Djoko tem de sobra. E é por essas e outras que ele é um dos caras mais queridos deste blog, de outros blogs e de milhares de torcedores pelo mundo.

Pegadinha com repórter

Nova imitação de Sharapova

Mil de amigos

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