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Manifesto olímpico ou como a história passa pela gente – e a gente não vê

O ouro de Sarah Menezes e o bronze de Yane Marques - Fotos: AFP

O ouro de Sarah Menezes e o bronze de Yane Marques – Fotos: AFP

As Olimpíadas acabaram há trocentos dias, eu sei, e as Paralimpíadas, relegadas ao limbo, estão aí. Mas só agora bateu aquela coisa de escrever, de botar para fora algo que foi comentado – percebido, sentido – durante os Jogos. Sabe como é, depois de Londres, todo mundo que trabalhou no evento, daqui ou de lá, retomou a sua vidinha. Uma coisa, no entanto, ainda está engasgada: a gente não tem a menor noção da importância histórica de certas coisas ou deixa histórias maravilhosas se perderem – serem esquecidas? adormecidas? – durante os anos entre Olimpíadas.

Li há alguns dias sobre o assunto no sempre espetacular Blog do Menon, no post “A história passa. E nem sempre se percebe na hora”. Ele estava lá, em Londres, e notou, como o título diz, que a história passa e nem sempre se percebe na hora. Isso ajudou a formatar e clarear melhor o meu pensamento. Daqui, a gente – eu e quem estava mais perto de mim nos Jogos – também notamos isso, com outra conotação, mas percebemos como – e quanto, de quantidade mesmo – isso acontece.

A coisa é bem simples. Existem histórias que você sabe que serão espetaculares. Daquelas que você pode parar seis meses antes dos Jogos e começar a escrever um texto redondo, perfeito, condizente com a grandiosidade da coisa. Claro, muito desse texto vai pro limbo quando a coisa acontece, simplesmente porque o fato em si é tão grandioso que parte do que você pensou acaba – ainda bem – graças à emoção do momento. Se não houvesse isso, todo bom jornalista teria pronto o texto do ganha, perde e empata antes de todos os jogos de futebol.

Bolt, a lenda em Londres - Foto: AFP

Bolt, a lenda em Londres – Foto: AFP

Um exemplo espetacular: Michael Phelps. Outro: Usain Bolt. Ninguém nunca ganhou tantos ouros ou tantas medalhas na história olímpica como Phelps. Ninguém nunca havia vencido os 100 m e os 200 m em duas Olimpíadas seguidas – some a isso os ouros nos 4×100 m em Pequim e em Londres e você terá um inédito dono de seis vitórias olímpicas nas provas mais velozes do atletismo. Ambos são lendas. A história, aquela dos almanaques, dos livros, foi escrita dias atrás, na minha, na sua frente, seja na TV no Brasil, no Camboja, na casa do cacete, seja diante dos olhos de quem estava lá em Londres.

Outras histórias me chamaram a atenção. Sarah Menezes, 22 anos, a pequena notável e toda sua história de superação, passando do Piauí até a conquista da primeira medalha feminina de ouro no judô nacional, primeira medalha do Brasil em Londres. Yane Marques, 28 anos, e toda sua história de superação, passando de Afogados da Ingazeira até a conquista da primeira medalha brasileira no pentatlo moderno, última medalha do Brasil em Londres. Histórias legais e bacanas, exemplos de vida, mas que a gente só ficou sabendo por causa de um fator: o pódio.

Há quatro anos, Sarah perdia na estreia em Pequim. Também na China, Yane foi a 18ª colocada. Elas nasceram no mesmo lugar que a Sarah e a Yane que ganharam medalhas em Londres. Ambas tinham as mesmas histórias de superação, eram os mesmos exemplos de vida. Mas só se tornaram manchetes porque subiram ao pódio. Sem eles, seguiriam como “anônimas olímpicas”, ou seja, como a maior parte da delegação brasileira.

Pensando nisso, acho que, no Brasil, existe, sei lá, uma dúzia de jornalistas preocupados bem mais em saber – e contar – quem são esses “anônimos olímpicos”, essas pessoas que batalham a vida inteira e representam o país no maior momento do esporte mundial. Acredito que são abnegados, gente olhada meio torto por quem acredita que notícia mesmo é Corinthians, é Flamengo, é Ganso sai ou não sai do Santos, é Neymar vai ou não vai para o Real Madrid ou o Barcelona. Claro que isso é importante, mas não é só disso que vive o esporte – e nem o jornalismo.

Michael Phelps, a lenda em Londres - Foto: AFP

Michael Phelps, a lenda em Londres – Foto: AFP

O Brasil levou 257 atletas para Londres. Aposto que existem trocentas histórias boas no meio disso aí. Garanto que essa dúzia de jornalistas abnegados sabem muitas histórias e, tantas vezes, não conseguem contá-las. Em algumas vezes, contam tudo o que podem, mas ninguém vê, porque, claro, Corinthians, Flamengo e outros tantos dão mais audiência. Aí, anos depois, a gente – leia-se muito jornalista, leia-se 99,9999% de quem estava assistindo aos Jogos – fica sabendo que existem Sarahs e Yanes quando elas ganham alguma coisa.

Isso, aliás, tem muito a ver com o apoio governamental dado aos atletas. Devem ser poucos os países do mundo que recebem tanta grana para injetar no esporte. O problema é que, dos 100%, não garanto que a totalidade chegue às Confederações, nem que elas repassem um valor legal para as Federações, e por aí vai. Não há uma política de criação de atletas, afinal, os que ganham algo financeiramente são aqueles que ganharam algo esportivamente. A palavra que falta é investimento: dinheiro existe, mas há tanto pedágio sendo pago por aí que não sobra nada para quem realmente deveria receber, o atleta em formação. A palavra que sobra é, para não dizer outra coisa, bandalheira.

Quer um exemplo: Ketleyn Quadros. Você se lembra dela? A moça de Ceilândia foi a primeira mulher a ganhar uma medalha individual para o Brasil nos Jogos, e a primeira judoca a subir ao pódio. Foi um bronze histórico em Pequim, certo? Para a história, sim. Para ela, bem… Recentemente, ouvi uma entrevista à Rádio Bradesco Esportes na qual Ketleyn, que não se classificou para Londres, falava que não sabia qual seria sua próxima competição: o objetivo é lutar no Grand Prix, em Abu Dhabi, de 10 a 13 de outubro, mas a Confederação ainda não tinha informado se havia verba para a passagem. A moça é medalhista olímpica, cacete, e não tem verba para viagem? Ela, que há quatro anos foi uma baita história olímpica – claro, porque foi ao pódio -, agora batalha para competir, correndo o risco de meter a mão no bolso para viajar. É brincadeira…

O pior é que Ketleyn é apenas mais um exemplo do limbo do esporte nacional, esporte cada vez mais rico por fora, cada vez mais miserável por dentro. Esporte cheio de histórias, boas e ruins, e que passam batidas por 99,999999% das pessoas (jornalistas, inclusive, e eu me coloco nessa lista de ignorantes, no sentido de ignorar completamente muita coisa que está ao meu redor e que poderia virar algo sensacional visitando dois sites, dando dois telefonemas).

E aí chegam as Paralimpíadas, e tem um cara como Daniel Dias destruindo, com trocentas histórias para contar, mas a gente só lembra dele de quatro em quatro anos. Minto, de ano em ano, quando tem o prêmio Brasil Olímpico. E aí o mundo fala de Oscar Pistorius, mas um brasileiro aparece, Alan Fonteles, e acaba com o mito com uma vitória absurda nos 200 m T44. São incontáveis as histórias, mas a gente só foi correr atrás e contar porque ele ganhou. É fato. Se tivesse sido quarto colocado, ou ainda, bronze, nada seria dito ou escrito, como acontece com tantas outras histórias paralímpicas por aqui.

Alan Fonteles supera Oscar Pistorius nos 200 m T44

Esse texto é um grande desabafo. Desabafo por ver que a gente não se dá conta de histórias espetaculares de gente que já se mostrou imortal, como Phelps e Bolt. Desabafo por ver que a gente não se dá conta de histórias espetaculares de gente que está aqui ao nosso lado, de futuros atletas que podem alcançar o mais alto nível, mas damos mais valor àqueles nomes de sempre. Desabafo por ver que o esporte nacional – e a saúde, e a educação, e tudo mais – é tratado apenas e tão somente como interesse financeiro para gente que lucra, e muito, com isso, enquanto o atleta é só um degrau, uma “desculpa” para o enriquecimento alheio – e, claro, ilícito.

Um dos sonhos da minha carreira era desbravar isso. É óbvio que eu não seria capaz de escrever biografias espetaculares dos 257 atletas brasileiros que foram para Londres (e sabe Deus quantos estarão no Rio), mas acredito que existam muitas histórias aqui e ali para serem contadas ou para serem acompanhadas. Um dia, quem sabe, eu consiga ver tudo isso com uma lupa, com uma visão mais ampla e mais rica, sei lá, criar uma cooperativa de grandes pautas, de grandes histórias, uma espécie de revista “Piauí” do esporte.

É um baita chavão isso, mas o esporte, como a vida, não é feito só de medalhas de ouro. Pelo contrário, perde-se muito mais do que se ganha, mas sempre há espaço para uma boa história. História que passa, e que vai passar sempre, mas que a gente não perca o bonde. Que a gente tenha cada vez mais capacidade – conhecimento, preparação – de perceber na hora. Ou antes da hora, independentemente de vitórias ou derrotas. Sonho? Utopia…

P.S.1: Por mais capacidade, conhecimento e preparação, existe a surpresa, existe o instante, o momento. Por mais capacidade, conhecimento e preparação, o jornalista não pode perder a emoção da surpresa, do instante, do momento. É isso que diferencia quem vê in loco do que quem vê na TV. Sem essa emoção, não faria o menor sentido mandar aquele batalhão de jornalistas em qualquer grande evento. É por essa emoção, que mexe com quem faz, quem transmite e quem vê, que o esporte é o que é. E, via de regra, a preparação ajuda, mas ajuda ainda mais se turbinada pela emoção. Por que não?
P.S.2: O vídeo acima provavelmente foi feito depois das Olimpíadas de Pequim e é impressionante como continua cada vez mais atual. Vi o link no não menos espetacular Blog do Birner, no post “Triste e Brilhante! O esporte pede desculpa”.
P.S.3: Repito, aqui, o link para o post do Blog do Menon, “A história passa. E nem sempre se percebe na hora”.

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Fifa, Lusa, beisebol, All Blacks, tragédia e City

Pílulas do fim de semana:

– Excelentes avanços no que diz respeito à minha jogabilidade no Fifa 12. Rivaldo se encaixou perfeitamente no novo esquema de jogo, e Luis Fabiano desandou a fazer gols.

– Como é legal a Portuguesa já garantir a vaga para a Série A do ano que vem. Vale um post sobre o tema: precisa mesmo de um time cascudo, duro, seco, para voltar à elite? Jorginho e seus comandados provam que não.

– Albert Pujols, jogo 3 da World Series, Texas Rangers 7 x 16 St. Louis Cardinals: 5 de 6 nas rebatidas, 3 home runs, 6 corridas impulsionadas. Não entende nada de beisebol? Ok, isso quer dizer, basicamente, que o cara teve a maior apresentação individual na final da MLB. Monstruoso! Pitaco: Cardinals levam o título em 4 a 3, hein!

– All Blacks confirmaram o favoritismo e conquistaram o título do genial Mundial de rúgbi. Final tensa com a França, que surpreendeu e engrossou demais o jogo no segundo tempo. Uma baita decisão, para fechar com chave de ouro uma competição sensacional.

– Novo domingo, nova tragédia. O que dizer da morte de Marco Simoncelli na MotoGP. O sentimento é o mesmo da última semana. O melhor, acho, é o silêncio, como forma de homenagem.

– Manchester United 1 x 6 Manchester City. Clássico local, uma das maiores goleadas da história. Se fosse aqui, Alex Ferguson teria sido demitido antes de chegar ao vestiário. Mas é lá, e ele fica. Assim como eu fico por aqui!

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Sobre Orlando Silva

Orlando Silva, ministro dos Esportes - Foto: Vanessa Carvalho/AE

Orlando Silva, ministro dos Esportes - Foto: Vanessa Carvalho/AE

A semana tem um dono: Orlando Silva. O ministro dos Esportes está na capa de tudo que é jornal. Nos sites, as notícias mudam durante o dia, mas está lá ele, se afundando cada vez mais com uma série de acusações.

Vejo a situação por dois ângulos. Primeiro, todas as acusações têm de ser apuradas de verdade, sem politicagem (utopia?). (Não sabe quais são as acusações, entre aqui e confira, no fim da matéria.) Punir quem tem de ser punido é um dever moral de qualquer governo, ainda mais quando se trata de dinheiro público. Afinal, eu e você pagamos zilhões em impostos por ano para ter um mínimo de dignidade, não para financiar esquemas e mais esquemas.

Por outro lado, será que alguém ainda acredita que Orlando Silva deva continuar no cargo? Para mim, é fato que ele tem que sair, e já. Mas sair sem provas?, diria o outro. O próprio ministro afirmou que sabia disso e daquilo e que “mandou apurar”, mas nada aconteceu.

Orlando Silva pecou por sua omissão total diante das acusações, dos desvios, de tudo mais. E, se comprovada sua participação em tudo isso, tem que pagar criminalmente. Pela omissão ou pela ação, é hora de mais uma demissão em um ministério do governo Dilma. Simples assim.

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Em época de Copa, um vídeo ilustrativo e imperdível sobre as regras do rúgbi

A Copa do Mundo de rúgbi é um dos eventos mais esperados pelos fanáticos por esporte. Estádios lotados, torcedores alucinados, jogos memoráveis, enfim, tudo conspira para um grande evento.

Neste ano, a competição está sendo disputada na Nova Zelândia e tem parado muitos países por aí. Aqui no Brasil, o esporte já começa a ganhar centenas de adeptos, loucos para assistir a todas as partidas e comentar sobre os jogos.

E você, que não sabe absolutamente nada sobre o tema, vai ficar de fora? Claro que não. Convocamos uma turma que sabe tudo para dar uma aula estonteante sobre o assunto. E, claro, se você não entendeu nada, vale “rebobinar” a fita e ver de novo. E de novo… E de novo…

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Ou o futebol está ficando chato, ou eu estou ficando velho e ainda mais chato

Obra Bola Murcha, de Vik Muniz, 1989 - Foto: Divulgação

Obra Bola Murcha, de Vik Muniz, 1989 - Foto: Divulgação

Demorei para escrever sobre algumas coisas apenas por causa dos jogos da Liga dos Campeões, que começou nesta terça-feira. A competição sempre foi uma das minhas preferidas, daquelas de arrepiar. Mas, dessa vez, nada aconteceu.

Tenho achado o futebol chato demais. Claro, lances geniais de caras como Messi e Neymar são sensacionais, mas são exceções. E eu também não espero que todo jogador seja sensacional. A regra é ter muito jogador médio para poucos acima da média. É assim em toda a profissão, não?

Independentemente disso, a coisa toda está perdendo a graça. Ir ao estádio se tornou um martírio. Minha última experiência foi tão maçante, o jogo em si foi tão sem sal nem açúcar que, ao fim da noite, eu estava mais puto do que feliz. Em casa, o ritual também não se parece tão bacana: ficar duas horas em frente à TV para ver alguns segundos legais tem me soado como desperdício de tempo.

Claro, acompanho o meu time de coração, fico ansioso quando ele está em campo, mas é curioso que sinto mais emoção quando não sei nada do jogo do que quando estou assistindo à partida. Por isso, esperei a Liga, para ver se a magia que estava indo embora era apenas relacionada ao futebol nacional, ou já estava em águas internacionais.

Ao ver o Barcelona em campo, sempre se espera um show de bola. Criou-se o inconsciente coletivo de que o time é uma máquina (no bom sentido) de jogar bola. Mas tem gente que esquece que são jogadores, e não robôs, que estão ali. Tem dia que as coisas não dão muito certo, tem dia que dá tudo errado. É assim comigo, com você, com o Messi…

Barcelona x Milan foi um jogo, digamos, bom. Foi legal o Milan ter feito 1 a 0 com 24 segundos para dar aquela movimentada. Os espanhóis, como sempre, tiveram uma posse de bola absurda, mas as coisas não estavam rolando ontem. Iniesta passou mal e saiu, Xavi parecia não achar para quem passar a bola, Messi estava bem marcado. Enfim, nada de muito sensacional acontecia.

Aí Messi foi o único a acreditar em um lance perdido, e o Barça empatou. Villa acertou uma daquelas cobranças de falta espetaculares e virou. E foi aí que eu tirei vantagem de trabalhar em casa e, por volta de 35min, cochilei. Acordei com os caras se cumprimentando, crente que o Barça tinha vencido. Aí vejo o placar, vejo que empatou, vejo o gol de Thiago Silva nos acréscimos. Para alguns, deve ter sido um jogo sensacional, loucura total. Para mim, acho que o cochilo foi providencial e que não perdi muita coisa.

Por outro lado, outros esportes me trazem sentimentos muito mais divertidos e marcantes do que o futebol atual. Por exemplo:

– Ainda não sei descrever a emoção que eu senti ao ver o UFC Rio ao lado do meu sobrinho amado, todo o clima, toda a atmosfera, enfim, tudo que aconteceu foi mais do que sensacional.

– A abertura da temporada da NFL foi algo genial, tensão a cada lance e um show de bola entre Green Bay Packers e New Orleans Saints.

– Depois desse jogo, quem disse que eu conseguia dormir à espera da abertura da Copa do Mundo de rúgbi? Confesso que o sono me venceu mais de 6h da matina, mas tive a chance de ver, ao vivo, o comecinho de Nova Zelândia x Tonga. Dormir ao som do haka é dormir rejuvenescido!

– Aí vem o sábado, aniversário da sobrinho, e vejo o finzinho de Brasil x República Dominicana. Vai dizer que não foi emocionante ver aquela molecada vibrando como criança com o tão sonhado sonho olímpico?

– Alguém viu o pega entre Lewis Hamilton e Michael Schumacher no GP de Monza? Animal!

– Passa o domingo, volto para casa na madrugada de segunda, e me vejo vibrando com a vitória, sim, vitória do meu Buffalo Bills na estreia. Yeah, baby!

– Vem a segunda, e Djokovic e Nadal protagonizam um dos maiores jogos da história (da minha história, com certeza). Foi mais do que um jogo de tênis: um tirava um golpe da cartola e recebia em troca um golpe ainda mais espetacular. A final virou um show de mágica. Inesquecível.

– Saio para jantar com a namorada, chego em casa a tempo de perceber que estou xingando Kyle Orton, quarterback do Denver Broncos, por ser um mané em campo. Não tenho nenhuma ligação com o Denver, mas eu só queria ver mais um pouquinho do jogo contra o Oakland Raiders. Problemas de proteção ao quarterback à parte, queria mesmo que Orton levasse o time ao empate, apenas para eu acompanhar a prorrogação. Mané!

– E aí vem o Barça, eu durmo no fim e nem fico meio assim em ter perdido o gol de empate…

Não sei se vocês perceberam, eu evito falar de futebol aqui, mesmo sendo o esporte que me acompanha desde que eu lembro de alguma coisa e que me levou para a faculdade, para o jornalismo e para essa minha carreira de estonteante sucesso. Existem zilhões de blogs mais gabaritados para falar de futebol, existem muitas grifes mais famosas para comentar sobre o assunto. Não espero que alguém entre aqui para saber o que achei da rodada, se Messi é um gênio mesmo sem brilhar na Argentina, blábláblá. Não vou entrar nessas discussões (aliás, as mesas redondas e os politicamente corretos estão cada vez mais malas, não?).

O fato é que o futebol não me emociona mais como antes, enquanto esportes como basquete, futebol americano, MMA e tantos outros me fazem sorrir. Não sei o que acontece, mas, das duas, uma: ou o futebol está ficando chato, ou eu estou ficando velho e chato demais para o futebol.

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Kasparov mostra uma visão diferente do esporte e dá lições de vida

Garry Kasparov no Programa do Jô, dia 02/09/11 - Foto: Programa do Jô

Garry Kasparov no Programa do Jô, dia 02/09/11 - Foto: Programa do Jô

Garry Kasparov é um gênio, dominou o xadrez mundial por 20 anos. O cara está na América Latina para iniciar um trabalho de proliferação do esporte nas escolas. No Brasil, a ação tem a participação da ADX (Associação para o Desenvolvimento do Xadrez) e, em 2012, São Paulo deve receber a primeira escola oficial do russo, a “Kasparov Chess Foundation”.

Na última sexta-feira, ele deu uma entrevista para Jô Soares. Fazia um bom tempo que eu não via um papo tão bom no Programa do Jô. Por incrivel que pareça, Jô, de quem eu já gostei muito mais, deixou o entrevistado falar. E Kasparov falou, e muito.

O vídeo da entrevista está no fim desse post, mas pincelei alguns pontos que achei geniais. Só para lembrar: o russo é um enxadrista e, ao que pese se tratar de um esporte da mente, não deixa de ser um esporte.

“[Parei] porque atingimos limites. Acontece. Eu não me importava tanto com ganhar ou perder, apesar de ganhar quase sempre, mas eu me importava em fazer a diferença. Eu tinha 41 anos, já havia ultrapassado todos os limites, escalado os picos mais altos, conquistado mais do que jamais havia imaginado, e é importante sempre melhorar e aprender outras coisas, então decidi que era a hora.”

“Eu era um profissional e pode parecer estranho que eu diga isso, mas a capacidade de jogar xadrez não é nada além dela mesma. O importante é o que a gente faz com ela. Eu costumava escrever sobre xadrez e usar o xadrez como ferramenta para tomar decisões, mas, para a maioria, é só uma capacidade de jogar.”

“Esse tema é interessante, a ‘gravidade do sucesso anterior’. É possível se acomodar e pensar que se pode repetir o mesmo e continuar ganhando. Isso acontece no xadrez, na música, no futebol, em tudo. Assim que você para de avançar, os outros já te alcançaram, porque aprenderam com você. Não se pode confiar na mesma técnica para vencer. É necessário ser criativo. Sempre quis melhorar, encontrar opções com os computadores, com o meu técnico, não para um jogo específico, mas, de forma conceitual, para poder melhorar sempre.”

“O tempo é muito importante na tomada de decisões em qualquer situação. Não podemos pensar para sempre. Quanto mais rápido, melhor. Por isso o tempo é um fator no xadrez. Isso é necessário para que o jogo não dure demais e isso força as pessoas a decidirem com essa restrição. Todas as decisões que tomamos de material, tempo e qualidade, se excluírmos o tempo, a qualidade é prejudicada. Ter mais tempo significa que, na hora crucial, você pode pensar mais. É preciso identificar o clímax, o momento de usar toda a sua capacidade. Não dá para fazer isso o jogo inteiro. Os melhores jogadores sentem isso. Eles reconhecem o momento e se concentram mais, porque poucos momentos podem ser decisivos. Na vida, também. Você tem diversas tarefas em dias comuns, mas algumas decisões afetam a sua vida inteira. Se você identifica o clímax da sua vida, você pode vencer. Do contrário, será um perdedor.”

“Não confunda sua plateia falando em eleições, candidato, campanha… Sua plateia é jovem e cresceu na democracia, então não consegue imaginar que em lugares como a Rússia não lutamos para ganhar as eleições, mas para tê-las. A diferença é crucial. Para mim, ficar na Rússia e aceitar a ditadura de Putin era impossível, então não era como ganhar ou perder um jogo, mas era um dever moral. É necessário fazer. Não que eu ache que vá ganhar, mas não há outra escolha para um russo consciente.”

Ressalto, de novo, o fato de as palavras acima serem ditas por um esportista. Sim, o xadrez é um esporte da mente e blábláblá, mas volto a bater no ponto: o cara é um esportista. Quantos esportistas pensam um pouquinho como ele e têm essa noção ampla de como o esporte pode influenciar muito mais do que a sua própria vida? Quantos líderes conseguem pensar com tanta clareza? Quantos políticos fazem coisas pelo “dever moral de ser cidadão”?

Kasparov falou de xadrez, mas o que eu ouvi foi uma aula de cidadania e de como se pensar a vida. Em nenhum momento, ele falou em peão, bispo, rainha, cavalo. Ou seja, esporte é bem mais que bola, ponto, cesta, assim como política é bem mais do que levar vantagem pessoal em detrimento de cuidar do coletivo. É só ter a mente aberta e pensar diferente. Mas parece que, por aqui, isso é difícil. Tão difícil como bater Kasparov em uma partidinha.

P.S.: Não sei jogar xadrez, tenho o dom de nunca ter ganho um joguinho na versão que veio instalada no Windows. Sou muito perdedor. Isso foi só uma constatação e um desabafo…

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O melhor da semana (5): o mundo das Fabianas

Fabianas Beltrame (e) e Murer, campeãs do mundo - Foto: AP/Reuters

Fabianas Beltrame (e) e Murer, campeãs do mundo - Foto: AP/Reuters

Não precisa dizer muito. Elas são brasileiras e são campeãs do mundo em esportes individuais. Isso é algo digno de uma reverência eterna. As xarás Fabianas merecem, e muito. São humildes, guerreiras. Que venham mais e mais conquistas! O topo do mundo é pouco para vocês!

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