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UFC 169: Barão e Aldo campeões e incríveis 6206 dias sem derrota

José Aldo, campeão dos pesos pena - Foto: Getty

José Aldo, campeão dos pesos pena – Foto: Getty

Renan Barão e José Aldo deram, às suas maneiras, aulas de como manter um cinturão de campeão no UFC 169. Somados, os brasileiros têm 6206 dias sem derrota, ou, se preferir, 16 anos, 11 meses e 26 dias. Não tem muito o que dizer, esses caras são especiais.

Vi, de fato, mais duas lutas do evento, e confesso que ignorei as demais, pelo simples fatos de terem sido extremamente chatas. O combate entre Frank Mir x Alistair Overeem, por “n” razões, não faria a menor falta ao card, enquanto a vitória de Abel Trujillo sobre Jamie Varner foi uma das coisas mais bonitas do UFC nos últimos tempos.

Abaixo, um resumão das quatro lutas que mais chamaram a atenção no UFC 169, que foi bom para os brasileiros, mas teve uma qualidade técnica bem discutível.

Renan Barão x Urijah Faber
Se havia uma dúvida sobre o cinturão de Barão, ela foi para o limbo na madrugada deste domingo. A aura de “interino” sondava o brasileiro, mesmo já sendo o campeão de fato. A aula que ele deu em Faber foi uma prova de que ele era o campeão undisputed há tempos.

Barão perdeu uma única luta em sua carreira no MMA, justamente a primeira, e 31 vitórias e 1 no contest em sua trajetória mais do que vitoriosa. São 3216 dias sem derrota (8 anos, 9 meses e 19 dias). Sério que alguém ainda tinha dúvida de alguma coisa? É um monstro!

José Aldo x Ricardo Lamas
Não tenho muito para dizer: é o melhor brasileiro no UFC. Entre WEC e UFC, são oito defesas de títulos. Mas dá para dizer que Lamas fez uma luta bem melhor do que o esperado. Coração gigante tem esse mexicano. Mostrou atrevimento, e assim que tem que ser. O problema é que do outro lado estava José Aldo, e aí complica. O campeão não deu show, mas dominou a luta por quatro rounds e só correu certo risco no fim do quinto. Risco controlado, cinturão defendido, e lá se vão 2990 dias (8 anos, 2 meses e 7 dias) sem derrota. Impressionante!

Frank Mir x Alistair Overeem
Joe Silva, o matchmaker do UFC, o cara que casa as lutas, conseguiu unir dois seres inexplicáveis no octógono. Overeem é um dos caras que mais cresceu fisicamente nos últimos anos, e leia isso como quiser. Mir já foi bom, mas é um peso pesado especialista em jiu jitsu que não luta direito em pé, ou seja, é meio estranho. Das duas, uma: ou Overeem ia nocautear em pé, ou Mir ia levar para o chão e sair de lá com a vitória.

Foi mais ou menos, mais ou menos assim. O fato é que Overeem só esteve em perigo em um momento, ao escapar de uma guilhotina. No restante, bateu como e quando quis em um Mir cada vez mais cansado. Pode ter sido o fim da linha para o norte-americano de 34 anos, que conheceu sua quarta derrota seguida. Sério, ele não vence desde que quebrou o braço de Minotauro em uma das lutas mais decepcionantes da minha história, em dezembro de 2011, no UFC 140.

Já Overeem desafiou Brock Lesnar, ex-campeão dos pesados, lenda do WWF/WWE, caso ele retorno ao UFC. Também em dezembro de 2011, no UFC 141, os dois se encontraram, e o holandês aposentou o grandalhão. Será que rola o reencontro? Com a palavra, Dana White.

Abel Trujillo x Jamie Varner
Foi uma das melhores lutas dos últimos anos e, mesmo me fevereiro, já é candidata a luta do ano. Combate franco, aberto, com muito mais raça do que técnica. Sabe MMA free style, moleque, à la Pride? Pois é, foi assim. Varner quase perdeu no começo, se recuperou e quase ganhou uma, duas, dez vezes, até que Trujillo, sabe-se lá como, acertou um petardo de direta. Verner beijou a lona. O primeiro nocaute da noite foi “o” nocaute da noite. Procure aí vídeos dessa luta e assista sem dó. Imperdível! Lutão!

P.S.: Clique aqui para saber como foi o UFC 169, round a round.

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Anderson Silva e um tipo tipicamente brasileiro

– Não sei se fui só o único, mas ao lado do meu sobrinho e de um amigo, quando Anderson caiu estatelado, imperou o silêncio. Ninguém falou nada por mais de 10min.

– Perder é parte do jogo. Ninguém ganha sempre. A maneira como se perde é que causa tudo isso.

– Provocar é parte do jogo. Provocar, às vezes, ganha jogo. Provocas, outras vezes, perde jogo. É assim.

– O limite da provocação para o desrespeito é tênue e vai de pessoa para pessoa. O meu limite é diferente do seu, do Anderson Silva, do Chris Weidman…

– Arcar com as consequências dos seus atos é algo default na minha vida. Se faço A, tenho que responder pelo A que foi feito. Simples.

– Existe, claro, o (in)consciente coletivo: há o brasileiro provocador vencedor e o brasileiro provocador perdedor.

– O brasileiro provocador vencedor é resultado da provocação que dá certo. É o malandro, é a ginga, é o jeitinho, é o esperto, é o inteligente. Amado e louvado, obviamente, porque vence, quando vence.

– O brasileiro provocador perdedor é resultado da provocação que dá errado. É o idiota, é o desrespeitoso, é o espertalhão, é o burro. Execrado e xingado, obviamente, porque perde, quando perde.

– E quando é o rival do brasileiro que provoca? Execramos o herege. Tanto na vitória ou na derrota dele.

Isto posto, uma breve análise do assunto: Anderson Silva perdeu. E é claro que a maneira como foi me deixa puto, mas isso não apaga a história do cara, por mais que a imagem recente fique brigando, na minha mente, com os nocautes anteriores e espetaculares.

Sobre a derrota em si, para mim, ele superou a tênue linha que separa a provocação do desrespeito. “Ah, se fosse comigo, eu enchia a cara dele de porrada”, pensei. Foi o que Weidman fez. E, pensando que o esporte consiste basicamente em derrubar o oponente, o fez muito bem.

Voltando ao (in)consciente coletivo: Anderson Silva se tornou, em um piscar de olhos, no brasileiro provocador perdedor. Era um gênio até 1h30. Aquele cara bacana, que brinca com a própria voz fina, que faz aulas de inglês e come hambúrgueres em rede nacional. Uma canhota no queixo e, à 1h31, virou um grandioso idiota. De bestial a besta em 1min.

Em tempos internéticos, meu sobrinho, acho que sem saber, demonstrou o que muita gente sente. Entrou na página do Anderson no Facebook e “descurtiu”. “Daqui a um mês eu volto a curtir, mas hoje…”. Confesso que dá para entender.

No caminho para casa, fiquei pensando. Sei que o “se” não existe, mas não me saiu da cabeça: E se ele ganhasse a luta? E se a provocação desse certo? E se, ao invés da esquerda de Weidman, uma direita de Anderson colocasse o rival na lona, estatelado? E se…

Se apenas uma das suposições acima acontecesse, e acho que o (in)consciente coletivo não me desmentiria, ele seria o brasileiro provocador vencedor, o Emerson que não cai na laia argentina, provoca o zagueiro do Boca e ainda é campeão da Libertadores. O brasileiro malandro, esperto, sagaz.

Mas, bem, o “se” não existe. Então, ele volta a estaca zero, ou melhor, ao pedestal de inimigo público número 1, o completo idiota, o pai de todos os babacas, uma espécie de Higuita que perde a bola para o Milla e dá adeus à Copa. O brasileiro imbecil, estúpido, o malandro que só se ferra. O brasileiro, acima de qualquer coisa, perdedor. É, quem diria, Anderson Silva…

(Outra coisa que li por aí: foi armação? Eu acho que não e, se você acha que sim, te respeito, mas não mudo a minha opinião até que me provem o contrário.)

P.S.: Esse texto foi escrito na madrugada e, por favor, perdoem ocasionais erros de digitação.

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UFC 151: o evento que não aconteceu e que não tem hora para acabar

Pôster do UFC 152, por enquanto - Foto: Divulgação

Pôster do UFC 152, por enquanto – Foto: Divulgação

O UFC 151 foi cancelado, mas parece que não tem hora para acabar. Cada dia que passa, pinta uma nova historinha, um detalhezinho aqui e ali que aumentam ainda mais o debate sobre a bizarrice toda.

Primeiro, foi Jon Jones quem assumiu a culpa. Quer dizer, ele disse que a culpa foi dele, mas que a decisão foi acertada. Algo como, “fiz o certo, galera, mas, sabe como é”. Dá a nítida impressão que é mais um caso de a corda estourando no lado mais fraco.

“Estou carregando a cruz da minha decisão. Se há alguém que pode ser culpado, eu assumo toda a responsabilidade pelo UFC 151 ter sido cancelado. Peço as mais sinceras desculpas a todos atletas e fãs que desperdiçaram tempo ou dinheiro. Estou me sentindo péssimo por tudo isso.”

“As criticas me incomodam, mas tenho de enfrentar minha decisão, de ser o homem que eu sou. Quanto mais a audiência, maiores são as críticas. Muita gente sempre estará me avaliando, mas tenho de ficar feliz com o que é melhor para mim. No fim do dia, sei que fiz a melhor escolha para mim e para minha família.”

Bom, minha opinião sobre o assunto segue a mesma e pode ser lida no post anterior, no irrepreensível texto “Jones x Belfort no UFC 152 e o grande culpado do dia: Dana White”.

O detalhe sórdido ficou a cargo de Dan Henderson, até então, o mocinho da história. Afinal, ele se machucou em cima da hora, certo? Bem, mais ou menos. O veterano admitiu que a lesão no joelho não aconteceu bem na véspera do evento, mas duas semanas antes. Ok, tudo bem, a gente compreende, o cara achava que ia se recuperar a tempo, mas não rolou. Tudo isso seria normal se não fosse por uma observação: Chael Sonnen é da mesma equipe que Hendo.

Daí, o anúncio da lesão às vésperas não teria nada a ver com se recuperar a tempo ou não, mas sim como estratégia para ajudar o amigo de treino que está subindo de categoria e já pinta como um contender. Com Sonnen aparecendo como rival de Jones a oito dias do evento, não teria como o campeão dizer “não”. Mas, sabe como é, o MMA é uma caixinha de surpresas, e o campeão disse o improvável “não”.

Hendo, é claro, negou a teoria da conspiração. Mais: disse que o boato foi plantado pelo técnico de Jones, Greg Jackson, que foi apontado por Dana White como uma espécie de diabo na terra. Foi dele o improvável “não” que culminou no cancelamento do UFC 151.

Quero acreditar que Hendo agiu de maneira correta, tentou se recuperar até onde deu e viu que não dava mesmo. No entanto, o que tem de bandido travestido de mocinho no mundo do esporte – e o MMA não é uma exceção – não é brincadeira. Fatalmente, esse jogo de equipe será um boato eterno, ou melhor, será a grande notícia do UFC que não aconteceu até que surja a próxima historinha, o próximo detalhezinho. E, assim, o UFC 151 entra para os almanaques como o evento que não aconteceu e que não tem hora para acabar.

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Jones x Belfort no UFC 152 e o grande culpado do dia: Dana White

Jones x Belfort, UFC 152 - Reprodução/UFC.com

Jones x Belfort, UFC 152 – Reprodução/UFC.com

Depois da desistência de Dan Henderson, por lesão…

Depois de Jon Jones não aceitar o combate com Chael Sonnen…

Depois de Lyoto Machida ser anunciado como rival de Jones…

Veio a bomba. Em plena madrugada brasileira, explodiu a notícia de que Lyoto acabara de desistir de enfrentar o campeão dos meio-pesados. Eis que surge Vitor Belfort como uma espécie de salvador da pátria, e o UFC confirma o carioca como o rival de Jones no UFC 152, dia 22 de setembro, em Toronto, no Canadá.

Segundo o site oficial da entidade, a nova mudança foi mais um capítulo da “série de eventos bizarros do dia”. Muita gente, muita gente mesmo, desceu a lenha em Jones. Mas, vamos por partes na “série de eventos bizarros do dia”:

Episódio 1: Dan Henderson – o cara se machucou a oito dias do evento, paciência. Uma lesão no joelho em qualquer garotão inspira cuidados. Em um cara de 42 anos, por melhor que seja o seu corpo e sua forma física, é algo, no mínimo, preocupante. Ou seja, culpa zero para o veterano na história.

Episódio 2: Chael Sonnen – sem Hendo, Chael, que já estava falando um monte contra Jones, apareceu como candidato à vaga. Dana White gostou da ideia, afinal, colocaria um tempero a mais no evento. Papo daqui, papo de lá, e a bola passou para as mãos do campeão.

Episódio 3: Jon Jones – Com a bola na mão, Jones conversa com seu staff. Entra em cena um cara chamado Greg Jackson, chefão da equipe que cerca o campeão. O técnico fura a bola cheia de Dana e Chael e diz “não”.

Episódio 3: Dana White – O dono do UFC fica puto, faz biquinho, fala um monte e cancela o UFC 151, primeira vez que algo do tipo acontece em 11 anos. Vou passar rapidamente por esse ponto, mas volto no assunto (abaixo, sob o título “A culpa de Dana”, tem toda a minha opinião sobre o tema). Em seguida, surge o nome de Lyoto, em nova data, em novo evento. Pôster feito, notícia confirmada, vamos que vamos.

Episódio 4: Lyoto Machida – Há exatos 20 dias, no UFC on Fox 4, Lyoto nocauteou Ryan Bader. Bela luta do brasileiro, bacana, legal, mais uma vez o brasileiro apareceu como um contender. Mas, quem se prepara para uma competição, sabe que, ao fim dela, no período de descanso, descanso é descanso. E foi isso que Lyoto fez. Apenas para constar, nos últimos dias, ele postou em seu Twitter oficial, @lyotomachidafw, dia 19, uma foto de seu churrasco à brasileira nos EUA. No mesmo dia, publicou que estava gravando um comercial (aqui, aqui e aqui, nas duas últimas, já no dia 20). No dia 22, já em Belém, dois posts, “Já estou na área galera,preparem se pra inauguração da nova academia na pedreira!!!!” e “Na Pedro Miranda!!Faltam poucos dias!!!”. Pedro Miranda é uma avenida em Belém, localizada no bairro Pedreira. Churrasco e comercial nos EUA, lançamento da academia em Belém. Acho que deu para perceber, apenas batendo o olho nos últimos eventos, que treinar não estava muito no calendário de Lyoto. E não tem nada de mal nisso, afinal, o cara lutou outro dia. Daí, é extremamente plausível a decisão de, depois do “sim”, pensar bem e falar um “não”.

Episódio 5: Vitor Belfort – O “não” de Lyoto não vazou para a imprensa e circulou, ao que parece, apenas nos bastidores do MMA. Pelo menos, aqui do Brasil, ninguém falava nisso. Mas, na madrugada, o próprio Vitor foi o primeiro a confirmar a desistência do seu compatriota e anunciar que enfrentaria Jones. Mais uma vez, o meio de comunicação foi o Twitter, em seu perfil oficial, @vitorbelfort. Abaixo, a mensagem com a última mudança de rumos do evento:

Mais ou menos ao mesmo tempo, Ariel Helwani, o melhor repórter do planeta quando o assunto é MMA, confirmava a mudança no conceituado site MMAFighting.com. A fonte do cara era outra, Dana White. Segundo o que Ariel apurou com o chefão, Lyoto achava que precisava de mais tempo para treinar e, durante o dia, Belfort já havia se oferecido para a vaga. Com a desistência de Lyoto, ao que parece, o único lutador de alto nível disponível era o carioca. E o martelo foi batido.

No meio disso tudo, quem ouviu poucas e boas foi Jon Jones, praticamente crucificado por Dana e pelos irmãos Fertitta, os caras que mandam no UFC. Pelo que falaram, deu até a impressão que a ideia era encerrar o contrato do campeão. Afinal, muita grana foi perdida com o cancelamento do evento. Mas, olhando por outros ângulos, será que Jones é o único culpado de tudo isso?

A culpa de Dana
Gosto de Dana. Tive o prazer de conhecê-lo pessoalmente no UFC 100, em 2009, e o o cara dá entrevistas belíssimas, sinceras. Mas, nessa, sou obrigado a discordar de praticamente tudo que ele falou e, principalmente, fez.

O primeiro fato é: por que cancelar um evento inteiro apenas por causa da desistência de um dos lutadores do card principal? Ok, é a luta principal, um contender ao título se machucou, mas, peraí. O evento em si é tão fraco assim que nenhuma outra luta poderia assumir a vaga? Olhando bem, é isso mesmo, é fraco pra caramba. O co-main event era Jake Ellenberger versus Jay Hieron, e ouço daqui vocês pensando “quem contra quem?”. Pois é, a aposta foi tamanha em Jones x Hendo que esqueceram das outras lutas. Culpa de Dana? Sim. Culpa de Joe Silva, o matchmaker, o responsável por “casar” as lutas do UFC? Sim também.

Mas a chefia errou mais, e a culpa de Dana não para por aí.

O grande motivo de o card ser fraco atende pelo nome de “ganância” e não se admire se cruzar com outros cards bem “meia-bocas” por aí. O UFC tem contrato com 352 lutadores (61 brasileiros), e essa galera tem que trabalhar, ou seja, entrar no octógono. Assim, a companhia que fazia 12, 14 eventos por ano, agora trabalha, por enquanto, com 31 eventos apenas em 2012. O dobro, quase o triplo do que era há três, quatro anos. O negócio cresceu, inchou, e o jeito é fazer evento atrás de evento, mesmo com cards péssimos encabeçados por uma grande luta, como era o UFC 151. Claro, o card com nomes ruins pode acabar se tornando uma noite memorável de MMA, mas, no caso do UFC 151, deu para perceber que os outros nomes escalados eram tão fracos que o evento inteiro acabou cancelado, ou seja, nem a chefia gostou do que tinha pela frente.

Uma outra saída seria mudar apenas a luta principal e manter o restante do card. Seria um UFC ruim? Muita gente ia reclamar? Nêgo não ia comprar um PPV sequer? Dane-se. Aconteceu um imprevisto, mas nós, do UFC, vamos arcar com as consequências, inclusive financeiras, e vamos tocar o barco. Vai ter 15 caras na torcida? Beleza, encaramos essa. Mas acho que nem isso foi cogitado. Seria até uma maneira de respeitar o torcedor, aquele cara que se programou, que comprou ingresso, que comprou passagem, que reservou hotel. Sei lá, enche o torcedor de mimos, dá camiseta, boné, desconto de 70% na próxima compra de ingresso, paga a estadia do cara (consta que o Mandalay Bay, onde seria o evento, é da família Fertitta, ou seja, libera quarto e comida de graça pra galera, além de fichas pro cara se divertir no cassino). As opções para agradar são imensas. Garanto que, com atitudes assim, o prejuízo poderia ser financeiro, mas a imagem de uma “companhia do bem” ficaria inabalada. E mais: o torcedor seria tratado com um respeito ímpar. Mas…

Outro fator atende pelo nome de Sonnen. O cara pode não ser o melhor do mundo, mas não é um lutador que cai tão fácil. Vide Anderson Silva volume 1, Anderson Silva primeiro round – volume 2. Você pode dizer que o Spider destruiu o falastrão, e foi isso mesmo, mas pode confessar, ninguém está ouvindo: deu um friozinho na barriga quando ele comandou o primeiro assalto da última luta, não? Passou um filminho na cabeça, né? Somado a isso, se preparar para pegar o Hendo, um cara que adora a trocação e é bom nela, é uma coisa. Pegar Sonnen, um cara de chão, atuando num peso acima do dele, é outra. E, se foi dada a opção de Jones dizer “não”, por que tanto alarde, hein, mister Dana?

Tem mais, o possível combate com Sonnen só teria um perdedor: Jones. Se ganhasse, não teria feito mais do que a obrigação de derrotar um cara que subiu de peso apenas para essa luta e que entrou na fila rumo ao título principalmente pelo excelente trabalho de falar – muito e muito e muito – e promover muito bem as suas aparições. Se perdesse, a imagem de Jones ficaria, aí sim, extremamente arranhada: como um campeão pode ser derrotado por um cara que subiu de peso e blábláblá? Pintaria a dúvida: será que ele é tão bom assim? E garanto, garanto mesmo, que viria a frase: “Por que Jones aceitou esse tipo de luta?”.

Aí, Dana joga tudo no ventilador e diz coisas do tipo:

“Chael Sonnen aceitou a luta com Jon Jones na última noite. Lá pelas oito ou nove horas da noite de ontem, aconteceu o que achei que não aconteceria em milhões de anos. Jon Jones disse ‘eu não enfrentarei Chael Sonnen com um aviso a oito dias do evento’. Isso nunca tinha acontecido com um campeão do UFC.”

“Nunca um lutador se recusou a enfrentar outro. Especialmente um cara, que não é apenas campeão mundial, mas supostamente é tido por muitos como o melhor pound-for-pound do mundo. Não posso fazer ninguém lutar contra ninguém. Não posso dizer ‘você vai lutar contra tal cara neste sábado e você tem que fazer isso’. Ou você é um lutador ou não é. Eu não posso te obrigar a lutar, mas não lutar, provavelmente, não é uma boa ideia.”

“Não acredito que essa é uma decisão que vai tornar Jon Jones popular com os torcedores, patrocinadores, distribuidores de TV a cabo, executivos de redes de TV ou outras figuras. Jon Jones tem sido um campeão que não é muito popular. Acho que algo como isso não vai fazer maravilhas com a sua popularidade.”

“Esse cara é um assassino do esporte. Greg Jackson nunca mais deveria ser entrevistado na vida, só por um psiquiatra.”

“Nós perdemos um monte de dinheiro. Dinheiro que já havia sido gasto. Estamos há oito dias do evento. O quanto isso vai nos machucar eu ainda não sei, pois é a primeira vez que acontece.”

“Quanto ao relacionamento com a gente, eu e Fertitta [Lorenzo] estamos enojados.”

Peraí, peraí, peraí… Como assim? Até outro dia, Jones era o queridinho da Zuffa, do UFC, do MMA, de todo o mundo. Ou não foi ele quem entrou com uniforme patrocinado justamente pelo UFC contra Rashad Evans em abril? A marca UFC, essa mesma, poderosa, que movimenta bilhões, pagou uma bolsa extra para ter o lutador que era a “cara” da franquia lutar usando o logotipo, não?

Peraí, peraí, peraí… Do dia 5 de fevereiro de 2011, quando ganhou de Ryan Bader, até 22 de setembro deste ano, serão 595 dias. Nesse período, Jones terá lutado seis vezes, contando Bader e já contabilizando Belfort. Em média, uma luta a cada 99 dias. E tudo lutinha tranquila: Bader, Shogun, Rampage, Lyoto, Rashad, Belfort. Uma pelo cinturão, quatro defesas de título. Desses, só Bader não teve o gostinho de ser campeão. Alguém, nos últimos tempos, entrou mais vezes no octógono do que Jones, com a responsabilidade de, aos 25 anos, derrubar todos esses cascas grossas?

Peraí, peraí, peraí… Ah, claro, eu ia me esquecendo: em todos esses eventos, há compromissos comerciais, não? Entrevistas coletivas, patacoadas de patrocinadores, um monte de perda de tempo para o atleta, mas que, no fim, gera dinheiro para o lutador (uma parte) e para o UFC (a maior parte do montante). Jones estava em todos eles, não? Fora as vezes em que apareceu no telão em algum UFC em que não estava lutando, inclusive aqui, no Rio, fazendo graça com a camisa da seleção brasileira. Esqueceu de tudo isso, Dana?

Peraí, peraí, e prometo que é o último peraí… Não foi Jones quem, outro dia, assinou contrato com a Nike e se tornou o primeiro, repito, o primeiro lutador do MMA da história a fechar com a superhipermega empresa de material esportivo? Ok, Anderson Silva luta com Nike, mas o contrato é com o Corinthians, não? Mas, voltando ao Jones, será que a Nike, aquela que tem contrato com caras como Michael Jordan e Ronaldo, apenas para citar dois exemplos dos mais simplórios, ia entrar no MMA assinando o primeiro contrato da história com um lutador sem prestígio ou popularidade?

O que era para ser um UFC se tornou, pra mim, uma tese que envolve organização, marketing, contratos de publicidade, obrigações de atletas, enfim, uma coisa de uma proporção gigantesca. Para quase todo o mundo, o grande culpado atende pelo nome de Jon Jones. Para mim, ele é apenas parte do processo e, no fim, o cara que mais tinha a perder. Dana, um cara que eu admiro, e várias outros integrantes do UFC erraram na condução e na solução do problema. Agora, terão de se contentar com Jones x Belfort, e meu palpite, desde já, é que o campeão continuará o mesmo. E aí, como será o clipe de apresentação de Jones? Será que a galera ainda vai encher a bola dele? Mais: será que Dana ficará feliz em colocar o cinturão mais uma vez em Jones? Cenas imperdíveis nos próximos capítulos…

P.S.: Nunca escrevi um post tão grande nesse blog, nunca demorei tanto para escrever um post. Afinal, são 5h26 da matina. Por isso, não vou reler. Se alguém chegou até aqui, por favor, me avise dos erros de português e digitação. Sabe como é, a essa altura do campeonato, quem está nocauteado sou eu.

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Renan Barão, a conquista do cinturão e o seleto “Clube dos 9”

Renan Barão, campeão do UFC - Foto: Nick Laham/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Renan Barão, campeão do UFC – Foto: Nick Laham/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Existe um seleto grupo brasileiro no UFC. Para entrar na confraria, a regra é simples: comer muito feijão com arroz, ganhar de algumas babas, ganhar de muita gente casca grossa e ganhar o cinturão. Simples assim.

O seleto grupo era conhecido mundialmente como “Clube dos 8”. Na verdade, acabei de inventar o termo, mas ele já nasce defasado. Isso por que, na madrugada deste domingo, graças a um cara chamado Renan Barão, o “Clube dos 8” virou “Clube dos 9”.

Barão se credenciou a entrar na patotinha – e a mudar o nome da turminha – com a vitória sobre Urijah Faber no UFC 149, resultado que garantiu ao potiguar o cinturão interino do peso galo. Dane-se que é interino, cinturão é cinturão.

Mas que raios é “Clube dos 9”? Curioso isso… O UFC conta com mais de 2000 lutas em quase 19 anos de história, com 350 lutadore, sendo 60 deles brasileiros. Hoje, o MMA é um fenômeno mundial, e boa partes dos brasileiros fala de lutas como fala de futebol. Mas, olha só que coisa estranha, apenas 9 (leia-se NOVE) lutadores do Brasil conseguiram um cinturão.

Esqueça, por enquanto, dos primórdios. Pense apenas na era de disputas por cinturões, era que vivemos até hoje. Nessa era, o número de brasileiros campeões é 9. Pareciam mais, não? Além dos atuais Anderson Silva (médio), José Aldo (pena) e Junior Cigano (pesado), a lista conta com Murilo Bustamante (médios, UFC 35), Vitor Belfort (meio-pesados, UFC 46), Minotauro (interino dos pesados, no UFC 81), Lyoto Machida (meio-pesados, UFC 98) e Maurício Shogun (meio-pesados, UFC 113).

Se contar a era dos campeões em um dia e dos GPs, que durou mais ou menos até o UFC 17 (há controvérsias), são apenas mais três caras na lista: Royce Gracie (campeão nos UFCs 1, 2 e 4), Marco Ruas (UFC 7) e Belfort (UFC 12). Some os vencedores do TUF, e chegamos ao enorme número de 15 campeões: Diego Brandão (TUF 14), Rony Jason e Cezar Mutante (ambos TUF Brasil). E acabou.

São tantos caras bons, fala-se tanto de MMA no Brasil, que a minha impressão é o número de brasileiros campeões era gigante, e achei curioso encontrar esse número pequeno, o tal 9. Talvez, a leitura seja outra: “Clube dos 9” é um baita clube, afinal, são 9 campeões no evento que reúne os principais lutadores do planeta. Analisando por esse ângulo, 9 deixa de ser pequeno e se torna, no mínimo, respeitável.

Pequeno ou respeitável, o fato é que o seleto clube conta agora com um cara chamado Renan Barão. Um cara que perdeu uma luta na carreira – na estreia – e ganhou “apenas” 29 combates quase seguidos (teve um no contest no meio disso) para ter a chance de lutar pelo cinturão. Lutou e ganhou. Hoje, está no patamar de Anderson, Aldo e Cigano. E foi o responsável por mudar o número e criar o “Clube dos 9”. Esse, sim, um feito gigante e respeitável.

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Quando o MMA é esporte, quando o MMA é briga

O pavor de Chael Sonnen - Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC UFC

O pavor de Chael Sonnen – Foto: Josh Hedges/Zuffa LLC UFC

Fui de um amadorismo tremendo ao escrever o texto “Silva x Sonnen 2: quando a luta vira briga”. Anderson Silva deu o show que todo mundo viu e, ainda no octógono, calou a minha boca.

“Não tenho nada contra o Chael. Ele desrespeitou meu país, mas isso é só uma luta. Acima de tudo, isso é esporte.”

Anderson Silva

“Acima de tudo, isso é esporte”, esse foi o grande detalhe que eu esqueci. Detalhe que separa o profissional vencedor, no caso, Anderson, do amador perdedor, no caso, eu e meu texto meia-boca.

Como já afirmei, a luta ganhou a proporção gigantesca especialmente pelas palavras de Chael Sonnen. Se foi orquestrado ou não, se foi “de coração” ou não, pouco importa. O que importa é que foi o “combate do século”, com uma vitória incontestável de um dos melhores lutadores que o esporte já viu. O olhar de terror de Sonnen na foto que abre esse post é uma das melhores fotos da história e ilustra bem o tamanho da genialidade do brasileiro.

Esporte, aliás, que ainda abre espaço para críticas, especialmente quando a agressividade se torna violência pura. Quando isso acontece? Quando o juizão fica ali vacilando e não para uma luta já encerrada. Foi isso que aconteceu no UFC on Fuel TV 4, justamente na luta principal.

Com uma bela cotovelada, Chris Weidman “apagou” Mark Muñoz, que caiu desacordado. Eu vi, você viu, até Mr. Magoo, famoso personagem cego dos desenhos animados, viu. Quem não viu foi Josh Rosenthal, o árbitro, ali do lado. Enquanto isso, Weidman batia sem dó no desacordado Muñoz. Duas horas depois, Rosenthal percebeu o estrago e pagou a luta (dá para ver o nocaute no vídeo abaixo, enquanto o UFC não tira do ar).

É por essas e outras que o MMA ainda sofre com críticas. Eu adoro o esporte, acho sensacional, espetacular, mas não dá para admitir um vacilo como esse. Afinal, é a vida do cara em jogo ali. Os árbitros, não apenas Rosenthal, têm que ficar mais ligador e, nesse caso, que paguem pelo excesso de zêlo ao invés de deixar a porrada comer solta.

O MMA, como provou Anderson Silva e, por que não, Chael Sonnen, é um baita esporte. Mas falhas como essa do juizão só dão pano pra manga para se perder torcedores e, pior, aumentar a antipatia. Pior ainda, com razão. Aí, o MMA vira briga. E briga é coisa de amador, não de profissional, nem de esportista.

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Silva x Sonnen 2: quando a luta vira briga

Silva x Sonnen - Foto: Divulgação, Arte/Ricardo Zanei

Silva x Sonnen – Foto: Divulgação, Arte/Ricardo Zanei

O esporte ficará de lado em Silva x Sonnen 2. Nada de cumprimentos, de “touch gloves”, de abraços emocionados ao fim. Nada de fair play, mesmo que muitos achem que fair play, em MMA, é balela. Neste sábado, nada de luta: é briga.

O segundo duelo entre Anderson Silva e Chael Sonnen ganhou o status de “luta do século” graças ao americano. Primeiro, em 7 de agosto de 2010, ele bateu no brasileiro como e quando quis. Foram quase 23min de pancadaria, com Anderson se segurando para não cair. Bastou um segundo de vacilo para Sonnen perder e se tornar uma celebridade.

Segundo, desde que a luta acabou, começou o falatório. Foram 700 dias de provocações, de frases fortes contra Silva, contra o Brasil, contra os brasileiros. Um ano e 11 meses de trash talking. Nisso, Sonnen é bom, muito bom.

Muitos acham que o tom do americano é desrespeitoso. Acho que, às vezes, ele passa dos limites. Mas, venhamos e convenhamos, quem seria Sonnen se não fosse a língua afiada? Mais: essa luta seria a “luta do século” se, nas 100 semanas que separaram o primeiro do segundo confronto, todos ficassem quietinhos?

Sonnen falou o que quis nesse período de tempo. Fez uma revanche ganhar uma proporção de outro mundo. Você já imaginou uma leva de brasileiros gritando “uh, vai morrer” em plena Las Vegas? Pois é, preste atenção no UFC 148 e você ouvirá isso. Coisa de outro mundo.

Sobre a briga desta noite… Aposto – e aí, topas? – que Anderson vai atropelar, mas não sei o caminho. Pode ser algo avassalador, coisa de segundos, ou algo com tons de crueldade: sabe aquele vilão que faz o mocinho sofrer e não “mata” o jogo (não estou dizendo que Silva é o vilão, hein)? O brasileiro pode adotar a vingança fria para dar mais gostinho de bater no rival. Saindo do muro, aposto na primeira opção: rápido, fácil, indolor.

Neste sábado, uma parte do planeta vai se desligar do mundo para ver Silva x Sonnen, uma “luta do século” com cara de briga de rua. Mas, cuidado, não pisque. Pode ser que você só veja o fim no replay.

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