Arquivo da categoria: Copa do Mundo

Além da imaginação: o último voo de Falcao?

Imagine que a seleção de seu país tem uma geração promissora, um time entrosado, que fez uma bela eliminatória. Imagine que essa equipe tem um jogador acima da média, um atacante veloz, feroz na arte de fazer gols. Imagine que essa seleção é a Colômbia. Imagine que esse cara, Falcao García, pode ser?, é a grande esperança de liderar essa molecada a uma sonhada participação histórica na Copa do Mundo.

Imagine, agora, que esse ídolo arranque para o gol em um jogo de sua equipe, imagine o nome dela, algo como Monaco. Imagine que o rival é fraco, que tal um tal de Monts D’Or Azergues, que imagine, jogue na quarta divisão. Imagine que o lance é dentro da área. Imagine que o zagueiro dê um carrinho infantil. Imagine que o joelho da sua estrela dobre para o lado errado. Imagine a queda. Imagine a mão no joelho. O grito de dor. A apreensão.

Imagine que, depois de passar por exames, venha um diagnóstico dos piores. Sei lá, imagine algo grave, como uma ruptura dos ligamentos. Imagine que o tempo de recuperação seja de seis meses. Imagine que o sonho de tudo isso, da Copa, da geração, dos gols, enfim, imagine que o sonho de toda uma nação caia por terra. Imagine a tristeza. É de ficar com o coração destroçado, não? Imagine só!

Claro, há de se imaginar o outro lado. Imagine que há esperança, mesmo que ela seja do tamanho de um grão de mostarda. Imagine que você tenha apenas e tão somente isso a se apegar. Imagine que isso seja suficiente, muito mais do que suficiente, para acreditar que o sonho daquele Mundial, o sonho de toda uma vida, de um país, ainda está vivo.

Agora, apague a nuvem da imaginação. A realidade dói, destroça mesmo o coração. Resta, realmente, um grão de esperança. É nele que Falcao García se agarra, com unhas e dentes, na expectativa de um próximo voo. Um voo rasante, fulminante, dilacerante rumo à Copa. Um único e último voo. Imagine só como seria legal. Eu imagino.

P.S.: Veja aqui o vídeo da lesão do colombiano. E como fica a Colômbia para a Copa sem sua principal estrela? Leonardo Bertozzi mata o assunto em seu blog, “Sem Falcao, veja 10 atacantes que a Colômbia pode usar na Copa”.

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O melhor ataque do mundo?

Minicraques de Cristiano Ronaldo, Messi e Neymar: algum deles será mega na Copa - Foto: Kodoto.com

Ronaldo, Messi e Neymar minis: quem será mega na Copa? – Foto: Kodoto.com

Higuaín, Lavezzi, Messi?

Postiga, Nani, Cristiano Ronaldo?

Suárez, Cavani, Forlán?

Insigne, Osvaldo, Balotelli?

Hulk, Fred, Neymar?

Negredo, Pedro, David Silva?

Giroud, Ribéry, Benzema?

Schuerrle, Muller, Ozil?

Rooney, Sturridge, Wellbeck?

Van Persie, Sneijder, Robben?

Hazard, Fellaini, Lukaku?

Falcao García, James Rodríguez, Jackson Martínez?

É ano de Copa do Mundo, amigo. Alguma dúvida que o campeão sairá de um dos 12 trios acima? Mas, e aí, quem tem o melhor ataque do planeta? Nomes ajudam, mas não respondem a pergunta.

Foi-se o tempo que um time tinha um ataque matador, suficiente para resolver os jogos sem se preocupar com uma defesa compacta. Foi-se a época em fazer sete e tomar cinco. Foi-se.

Caras como esses podem definir jogadas e jogos, mas, para ganhar campeonatos, ainda mais uma Copa, é preciso de mais. Se o Mundial é um tiro curto, pá-pum, não tem fase esplendorosa que vai salvar qualquer seleção.

Falar apenas do ataque de uma seleção/time é uma armadilha danada. É claro que qualquer equipe com Messi ou Cristiano Ronaldo ou Neymar ou tantos outros mete medo. Pavor, até. Mas, andorinhas não farão verão, muito menos no nosso rigoroso inverno aqui.

Está óbvio que não se ataca só com atacante, nem se defende só com zagueiro, e por aí vai. É legal no videogame, mas no mundinho real, esquece. Infelizmente – ou felizmente -, não vai rolar.

A resposta para a pergunta no título desse post vai além de quem define as jogadas. O contexto é bem maior, extramente repleto de variáveis. É o tal do futebol-total, que pode ser ou não bonito, mas é de uma eficiência absurda. E é isso que temos pra hoje.

Texto escrito, fica a questão: qual é ou quem tem o melhor ataque do mundo? Não sei a resposta, mas deixo outra pergunta no ar: isso basta?

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Brazuca, com “z”, um tatu-bola e histórias para um herdeiro imaginário

Tatu-bola sem nome e carisma segurando "Brazuca" - Foto: Reprodução/Veja

Tatu-bola sem nome segurando a carismática “Brazuca” – Foto: Reprodução/Veja

É brazuca, com “z”, o nome da bola da Copa do Mundo de 2014. Nem quando a gente tem chance de acertar, acerta. Brazuca é legal? Não, não mesmo. É um nominho insosso, sem sal, sem açúcar, que não representa absolutamente nada.

Pior é que os dois outros nomes que foram para a “final” na escolha popular não eram lá sensacionais. De qualquer forma, “Bossa Nova” e “Carnavalesca” são alcunhas com muito mais representatividade do que “Brazuca”.

Quando leio “Brazuca”, sempre fico com a sensação que é um apelidinho mequetrefe. A preguiça de falar “brasileiro” criou “brazuca”, assim como a preguiça de falar “carioca” criou “carica”. Ou seja, não significa muita coisa, né?

“Bossa Nova” e “Carnavalesca” me parecem ter mais DNA que “Brazuca”. Afinal, a música é, ao lado do futebol, o maior produto exportação do país no quesito cultural, certo? Agora “Brazuca” exporta o quê?

Por falar em DNA, claro que a minha preferência era por “Gorduchinha”. Caramba, seria uma bola com história, com um DNA nobre de um cara sensacional como Osmar Santos, dono de uma trajetória de vida admirável como a de trocentos brasileiros por aí.

No meio disso, eu me imagino, daqui 10 anos, pegando uma “Brazuca” na mão e explicando para o herdeiro que as bolas da Copa passaram a ser batizadas desde 1970. Cada uma tem uma história bacana, mas “Brazuca”, bem, “Brazuca” foi eleita na internet, olha que legal. E é isso.

Ainda tem o lance do “z”, americanizado mesmo, por causa do registro da marca. E ainda pinta a história que “Brazuca” é uma maneira pejorativa para os portugueses falarem dos brasileiros, com “s”. A fonte, segundo o jornal “O Dia”, é a ABL (Associação Brasileira de Letras).

O pacote “Brazuca” veio acompanhado de um tatu-bola, que será a mascote da Copa. Pelo menos é o que diz a revista “Veja”, que completa: o nome do bicho, que lembra o Sonic do Mega Drive, será escolhido em votação na internet.

Primeiro, por que raios um tatu-bola? Se for pelo trocadilho do nome, é demais, não? É como chamar um churrasco na praia de, sei lá, peixe-boi. Genial a piada, não? Deve ser para mostrar claramente que essa Copa tem tanto labirinto nebuloso que só um tatu-bola para encontrar alguma coisa por ali. Segundo, por que raios votação popular? É capaz de chamarem o bicho de “Brazuca”, aí alinha tudo, fica um nome só e é mais fácil pra gente guardar, né? Opa, pensando nisso, mais uma ideia espetacular: por que não chamar o tatu-bola de bicho-preguiça? Tudo em prol do hífen!

Tenho pena do meu herdeiro imaginário. Acho que vou contar duas histórias para ele. A verdadeira, sem graça, e a minha versão, bem mais temperada. Aposto que ele vai gostar mais da segunda opção.

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Um ano e um dia, uma falha e um título, um aniversário bacana

Há um ano e um dia, nascia esse blog. O objetivo era, simplesmente, escrever, algo que, mesmo sendo jornalista, eu não fazia (e a história é longa para contar). O objetivo era dar pitaco em um monte de coisa que eu não tenho conhecimento, mas gosto de palpitar. Enfim, o objetivo era encher o saco e escrever bobagens divertidas. Missão dada, missão cumprida.

Minha ideia era escrever um post por dia, algo que eu não consegui fazer. Sabe como é, os compromissos com quem me paga, às vezes, me deixam sem tempo de teclar por aqui. Uma pena… Foram 317 posts até hoje. Tirando os fins de semana, acho que, na média, dá um post por dia. Mas, o ideial mesmo, era escrever todo dia. Exercício diário mesmo, sabe? Mas, infelizmente, não rolou. Missão dada, missão, bem, deixa pra lá.

O que acho mais bacana é a audiência. No dia de aniversário, o blog bateu a marca de 50 mil unique visitors. Para quem trabalha com internet, o número é simplesmente ridículo. O valor se refere ao ano inteiro. Então, é mais ridículo ainda. Mas, vejo por outro lado: quem lê, basicamente, é quem me conhece. E ter mais ou menos 135 cliques diários é algo que me deixa bem feliz.

O primeiro post desse blog fazia menção ao dia do meu aniversário, 16 de julho, dia que eu recebo o carinho de tanta gente, dia que eu geralmente fico puto com facilidade. Na mesma data, em 1950, o Brasil assistia à sua maior tragédia esportiva, a derrota para o Uruguai no jogo que decidiu a Copa do Mundo. Mas foi um 16 de julho de 1994 que começou a preparação para a final da Copa, no dia seguinte, entre Brasil e Itália.

Lembro que rolou uma festa absurda em casa para celebrar os meus 16 anos. A molecada foi ficando, foi ficando, e a gente praticamente não dormiu. Sei lá, deve ter sido a somatória da batida de chocolate que minha mãe fazia com a tensão pré-final. O detalhe é que tinha outro jogo antes: a estreia do meu time nas Olimpíadas, no Aramaçan.

Brasil nas Olimpíadas do Aramaçan em 1994 - Foto: Arquivo pessoal

Brasil nas Olimpíadas do Aramaçan em 1994 – Foto: Arquivo pessoal

Era assim: eu jogava futebol no clube, o Aramaçan, em Santo André, desde criança (sim, teve uma boa época da minha vida que eu joguei bola e não era perna de pau, viu). O campeonato sempre parava em julho: por causa das férias, muita gente viajava, e aí não dava para ter jogo. Mas muita gente também ficava, e aí inventaram as Olimpíadas. Tinha competição de vários esportes, mas eu sempre jogava futebol.

Naquele ano, caí no Brasil. Era um time absurdo de bom no papel, uma panela de vários moleques bons de bola. Minha expectativa – e, acho, de todo mundo que fez parte daquele esquadrão – era atropelar e ser campeão. Mas foi feia a coisa.

A estreia foi no dia 17 de julho, de manhã. Como já escrevi, eu não tinha dormido. E fazia sol, muito sol (tá aí a foto acima que não me deixa mentir). Sei lá, com 5min do primeiro tempo, alguém do time rival – que eu não lembro qual país era, mas acho que era Itália -, deu um chutão para o ataque. Eu, zagueirasso de rara habilidade, pensei: vou emendar e mandar a bola de volta para o ataque.

A bola veio, olhei para cima e vi o sol. Lindão, redondão, brilhando forte. Sem dormir, ver aquele solzão na cara pela manhã e ainda fazer o movimento de pegar uma bola de primeira se tornou algo humanamente impossível. Em uma fração de segundos, minha mente de craque da bola mudou de ideia, e achei que o melhor era dominar. No fim, a mente pensou, o corpo executou, e o resultado é que não fiz nem uma coisa nem outra. Furei a tentativa de dominar, a bola quicou no chão, bateu na minha perna e sobrou limpa para o atacante marcar. Nunca esqueci essa falha bizarra, uma das piores na minha ex-carreira ex-promissora. Por culpa dela, perdemos aquele jogo por 3 a 0.

Depois de ficar puto com o resultado, veio a final da Copa. A minha lembrança é de um jogo tenso e de uma casa lotada de gente para ver. O Brasil não era de empolgar, e a Itália, menos ainda. Mas a história, você já sabe: Roberto Baggio, espécie de Romário da Itália na época – sim, ele jogava muita bola -, perdeu o pênalti, e o Brasil foi campeão. Foi meu primeiro título mundial, e fizemos a festa em casa. Um dia inesquecível.

Lembro que o Brasil, aquele das Olimpíadas do clube, aquele cheio de moleques bons de bola, perdeu outros jogos e não vingou. Tendo a achar que tudo foi culpa daquela estreia ridícula. Mais do que isso, daquele primeiro gol sofrido, aquele bizarro. Naquelas Olimpíadas, eu fui meio que o Baggio do meu time. Naquelas férias, eu não fui nem para o pódio. Mas, naquela Copa, eu me senti campeão do mundo pela primeira vez. Enfim, foi um aniversário bacana. Mas, se eu tivesse tirado aquela bola, teria sido perfeito.

Brasil campeão do mundo em 1994 - Foto: Arquivo

Brasil campeão do mundo em 1994 – Foto: Arquivo

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1962, Garrincha, Pelé, choro, riso e um presente de Dia dos Namorados

Garrincha - Foto: Divulgação

Garrincha – Foto: Divulgação

Foi em um 17 de junho de 1962 que Mané Garrincha coroava aquele que foi, talvez, o maior momento de sua carreira. No Chile, sem Pelé, ele não colocou a bola embaixo do braço como fizera Didi quatro anos antes, mas foi “o cara” da Copa. Deus e o mundo já escreveram sobre isso, sobre aquele Mundial, sobre os 50 anos daquele título.

Mas foi nos anos 80 que eu descobri que existia Garrincha. A descoberta veio como tantas outras do mundo futebolístico: de mãe para filho. Palmeirense doente, minha mãe foi responsável por falar para mim sobre Mané.

Era curioso como ela tratava aquele cara. Sempre que surgia o assunto “como você começou a gostar de futebol?”, ela falava sobre a influência do meu avô espanhol – e, se não me falhe a memória, corintiano -, dos irmãos torcedores de tudo que é time e, claro, dos ídolos que formaram o seu caráter boleiro.

Ademir da Guia era uma espécie de divindade na minha casa. Leão, Luis Pereira, Dudu, César Maluco, idem. Pelé sempre foi tratado como o maior de todos. Mas Garrincha. A frase, aliás, era quase sempre a mesma, algo do tipo: “Pelé é o rei do futebol, mas o Garrincha…”. Aquele silêncio que vinha depois do “Garrincha três pontinhos” tinha um ar de saudade, de lembrança boa, daquelas que a gente se anima quando passa pela cabeça.

Fui, aos poucos, descobrindo quem foi Mané. Lembrem-se que os anos eram os 80, e o advento do videocassete – não sabe o que é, jogue no Google – ajudou muito nisso. Uma fita – não sabe o que é, jogue no Google – em especial, chamada “Garrincha, Alegria do Povo”, foi fundamental: era um documentário sobre Mané, recheado de dribles e lances espetaculares (está no Youtube, dá para ver no vídeo abaixo). Nascia ali uma idolatria.

Era sensacional ver aquele cara entortar quem estivesse pela frente. Parecia até ficção. Não era possível aqueles dribles, quase sempre iguais e, exatamente por isso, geniais. Coisa de outro planeta, de outro mundo.

No videocassete, dava para gravar o que se passava na TV – é verdade, taí a Wikipedia que não me deixa mentir -, e isso, em tempos de “Grandes Momentos do Esporte”, “Gol, o Grande Momento do Futebol” e “Canal 100”, era espetacular. E só contribuiu para aumentar minha paixão por Mané.

“Garrincha, Alegria do Povo”

O tempo passa, veio a faculdade, e um amigo cantou a bola: na biblioteca, tinha um exemplar de “Estrela Solitária”, de Ruy Castro. Não leu? Não sabe o que é? Ainda está parado aí? Goste ou não de futebol, corra atrás. É simplesmente uma das melhores biografias já escritas.

Foi com “Estrela Solitária” que eu pude entender os três pontinhos da minha mãe. Quando eu via – vejo – Pelé, seus dribles, seus gols, fico com uma espécie de riso bobo no rosto. Quando eu via – vejo – Garrincha, seus dribles, seus gols, fico com os olhos cheios de lágrimas, um misto de saudade de um cara que eu não conheci e só vi na TV, de felicidade por ter visto e revisto o que ele fez, e uma tristeza absurda pelo fim, não pelo fim em si, mas pelo fim como foi. Pelé é riso, Mané, lágrimas.

É curioso que o primeiro texto que escrevi e foi publicado em algum lugar era sobre Garrincha. Foi em um sábado, 23 de janeiro de 1999. Ao voltar de um São Paulo x Flamengo no Morumbi, fui surpreendido com uma pilha de exemplares do infelizmente finado jornal “A Gazeta Esportiva” em casa. Alguém falou para minha mãe que um texto meu havia saído lá, e ela basicamente comprou o que tinha na banca.

Talvez aquele tenha sido o maior orgulho jornalístico que minha mãe sentiu por mim. Como eu não canso de escrever, ela era fanática por futebol e, por um bom tempo, assinamos “A Gazeta Esportiva”. Ou seja, um texto escrito pelo filho e publicado ali era motivo de festa.

Sabe aquela parte “Palavra do Leitor”, algo do tipo? Foi ali que saiu o texto. Eu tinha acabado de ler “Estrela Solitária”, escrevi e mandei para lá na semana do aniversário de morte dele (20 de janeiro de 1983). Era uma ficção sobre um sonho que eu teria tido com o “Anjo de Pernas Tortas”. Estava longe de ser uma obra literária, mas virou até quadro em casa.

Aí chega o Dia dos Namorados deste ano e eu, colecionador de miniaturas, ganho uma do Garrincha. Ao tirá-lo da caixa, todo esse filme passou pela minha cabeça. Fiquei olhando aquele boneco e lembrei dos dribles, dos gols, da vida que poderia ter sido e que não foi, enfim, de tudo. E me emocionei mais uma vez.

Garrincha não ganhou o bicampeonato mundial sozinho, mas foi o principal nome daquele título, o nome mais comentado em tudo que é texto sobre a conquista. Aqui em casa, ele está no ponto mais alto da minha pequena biblioteca esportiva. Acho que, de madrugada, quando todo mundo está dormindo, ele sai dando seus dribles e chamando seus colegas bonecos de “joão”. Acho, não. Tenho certeza.

Miniatura de Garrincha na minha casa - Foto: Ricardo Zanei

Miniatura de Garrincha na minha casa – Foto: Ricardo Zanei

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Yekini, gol, comemoração e fogos de artifício de um italianinho traíra

Yekini e a comemoração mais bonita - Foto: AP

Yekini e a comemoração mais bonita – Foto: AP

Yekini morreu na sexta-feira. Para muitos, o nome não significa nada. Para outros, é olhar no Google e ver que é o maior artilheiro da seleção da Nigéria, ou, ainda, autor do primeiro gol do país na história das Copas do Mundo. E esse post começa com esse gol e sua comemoração e passa por uma traição.

A estreia no Mundial de 1994 foi contra a Bulgária. Era um daqueles jogos que não dava para perder. Por um lado, havia toda a curiosidade para saber como jogaria aquela Nigéria. Sabe como é, time africano sempre apronta alguma, e aqueles caras de verde, ou melhor, com o inexplicável branco e cinza, tinham tudo para ser a bola da vez. Só a presença de Stoichkov do lado búlgaro já valia o “ingresso”, mas o time ainda vinha recheado de Ivanov, Borimirov, Letchkov, Kostadinov e Balakov. Imperdível.

Descobri que o lance saiu aos 21min do primeiro tempo. Jogada esperta, troca de passes envolvente, a defesa búlgara perdidassa. Bola na direita, cruzamento rasteiro, Yekini entra no meio da área e só tem o trabalho de empurrar para o gol vazio. Bacana, legal: em um primeiro momento, era apenas o primeiro gol da Nigéria em Copas. Mas bastou um instante para se tornar um dos lances mais belos e honestos da história da bola. Por quê? Pela comemoração.

Claro, muita gente escreveu sobre isso, mas não posso deixar batido. Aquele misto de desabafo e agradecimento em forma de oração e choro, entrelaçado à rede, é, na minha opinião, a redefinição de uma comemoração de um gol. Ou a definição pura de uma celebração. Sabe aquele papo dos deuses do futebol? Naquele momento, em algum lugar, foi a vez de todos eles se unirem e se ajoelharem em clemência para Yekini. Aquilo era tão verdadeiro que parecia de outro mundo. Até foi, vai saber. É de uma emoção sem precedentes e, por isso, inexplicável, sem a menor possibilidade de traduzir tudo aquilo em palavras. Caramba, até hoje arrepia!

Começava ali, e não no apito inicial do jogo, a trajetória de uma Nigéria encantadora. Toda Copa tem uma “seleção sensação”, e aquele gol de Yekini decretava a nigeriana como grande surpresa de 1994. E foi, como foi.

A Nigéria me encantou tanto que protagonizei uma cena de ódio dos meus vizinhos italianos. A data precisa foi 5 de julho, uma terça-feira (claro que eu pesquisei) ensolarada. O jogo era Nigéria x Itália. Eu estava de férias da escola, o saudoso segundo colegial, e, como todo adolescente, estava de bobeira em casa antes da partida.

Jaqueta da Itália e camisa da Nigéria: unidas no meu guarda-roupa - Foto: Ricardo Zanei

Jaqueta da Itália e camisa da Nigéria: união no guarda-roupa – Foto: Ricardo Zanei

Vale um parênteses para dizer que a presença italiana em Santo André, minha terra, é marcante. Na minha família, idem. Meu avô, por exemplo, era Mansueto Zanei. Minha avó, Orlando. Três nominhos que ajudam a entender o meu passado. Claro que eu tenho o lado do contra, o Parra Hernandez, meu avô materno, vindo da Espanha. E foi essa mistura da Itália traidicional com o furioso sangue espanhol que causou uma certa confusão.

Naquela época, a gente comprava fogos de artifício para usar nos jogos do Brasil. Bom, esse era o objetivo, mas, claro que, como qualquer adolescente, eu adorava fazer merda. Ou, digamos, expressar minha felicidade explodindo aquilo tudo pelo céu, especialmente quando minha mãe não estava em casa. Confesso que não lembro se ela estava ou não, mas, assim que Amunike abriu o placar para a Nigéria, não tive dúvida: eu, italianinho, peguei um rojão, fui para o quintal e BUM!

Era a minha maneira de mostrar o meu apreço por aquele time que me encantava. Só não esperava que xingamentos a torto e a direito eram a maneira dos meus vizinhos de mostrar o ódio pela minha atitude adolescente. Sem nenhum arrependimento, deixei o quintal e voltei para a TV. Roberto Baggio, um monstro, empatou, levou o jogo para a prorrogação e ainda fez o gol da vitória. Nigéria eliminada. Mais e mais xingamentos.

Na mesma época, o futebol de botão era algo muito presente na minha vida. Depois da Copa, o objeto de consumo era a Nigéria. Comprei um time feio que só, da marca Champion – e que deve estar perdido no que restou da casa da minha mãe -, mas responsável por um futebol-moleque que só ele. Graças à Copa e aos jogadores circulares, nunca me esqueci de nomes como Rufai, Eguavoen, Finidi George (ou George Finidi?), Amunike, Amokachi, Oliseh, Jay Jay Okocha (Jay Jay é um nome muito legal), Uche, Adepoju…

E, claro, Yekini. Nada disso existiria sem ele. Hoje, ele deve estar batendo aquele papo com os deuses do futebol. E não tenho dúvidas que, até os deuses, do alto de suas divindades, renderam homenagens a ele. Nada mais merecido.

Nigéria 3 x 0 Bulgária: os gols e “A” comemoração

P.S.: Não precisa fuçar muito para achar o jogo entre Nigéria e Bulgária inteiro no Youtube. Vale o investimento!

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Andrés, Mano e um processo de fritura

Mano e Andrés - Foto: Rubens Cavallari/Folhapress

Mano e Andrés - Foto: Rubens Cavallari/Folhapress

Estou longe de ser fã de Mano Menezes e não gosto da postura de Andrés Sanchez. Mas concordo com a “fritada” que o diretor de seleções fez com o treinador, em entrevista ao jornal “Extra”. Abaixo, dois momentos que chamam a atenção pela sinceridade:

“A ninguém [está agradando]. Nem o Mano está ‘se agradando’. Lógico que ele sabia das dificuldades que teria em um ano e meio. Ele agora vai pôr em prática o que já viu que precisa ser feito até a Copa do Mundo.”

“Mas não é por ser medalha de ouro, prata ou bronze que ele vai ser trocado ou não. Se for trocado, será pelo dia a dia que ele vem fazendo. Não vai ser por um campeonato.”

Pra mim, fica claro, a cada jogo, que Mano não será o técnico da seleção na Copa. Não sei quem será o escolhido, mas acho que ele não aguenta até lá. O pior de tudo isso é que a fritura não é Andrés, ele apenas jogou no ventilador muito do que todo mundo pensa. O fato é que o próprio Mano está se afundando no cargo. E a seleção vai junto.

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