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Guga, Hall da Fama, Maria Esther Bueno, a lenda e uma história a ser contada

Maria Esther Bueno em Wimbledon - Foto: Arquivo

Maria Esther Bueno em Wimbledon - Foto: Arquivo

Tudo aconteceu mais ou menos na mesma época. O surgimento de Guga, o ápice dele e um, digamos, estudo meticuloso sobre a vida e a obra de Maria Esther Bueno. Não, essa não é, de longe, a cronologia do tênis. Mas é, mais ou menos, a da minha vida e o esporte de raquetes.

Lembro de assistir aos jogos de Andre Agassi, Pete Sampras, Ivan Lendl, Boris Becker, Michael Chang e tantos outros no fim dos anos 80, começo dos 90. Via de regra, todas as partidas tinham narrações do lendário Rui Viotti, eterna voz do tênis no Brasil.

Mas foi no fim dos anos 90 que o tênis explodiu na minha vida. Mais precisamente, foi com Guga, em 1997, que eu voltei a acompanhar o esporte mais de perto. Narrado por Viotti na extinta TV Manchete, o título do catarinense em Roland Garros foi, sem dúvida, um marco na história brasileira. E na minha, claro.

Guga repetiria o feito em 2000. Nessa época, o Brasil não estava no mapa do tênis mundial profissional – o Aberto do Brasil só entraria no calendário no ano seguinte, na baratíssima e acessível Costa do Sauípe. Para ver o catarinense, só saindo do país, o que a condição financeira não permitiu. Mas foi nesse ano que eu vi Guga em ação, ao vivo, pela primeira e única vez na minha vida: no desafio Brasil x Argentina, no Ibirapuera.

Aquele ginásio lotado, trocentas pessoas de camisa amarela (era dada na entrada), um clima sensacional. E lá estavam Guga e Fernando Meligeni pelo lado brasileiro, Franco Squillari e Gaston Gaudio por nossos vizinhos. Confesso que não lembro se fui no primeiro ou no terceiro dia, mas lembro que ver Guga, mesmo naquela grande brincadeira, era de arrepiar.

Em 2001, Guga ganharia Roland Garros mais uma vez. Nesse mesmo ano, me formei na Universidade Metodista de São Paulo. Ano de formatura é, basicamente, ano de TCC. Fui convidado por dois amigos para entrar de cabeça em um desafio: escrever a biografia de Maria Esther Bueno.

Para a minha surpresa, não havia nenhum livro que contasse a história da maior tenista e uma das maiores esportistas do Brasil. Até hoje, se você procurar, verá que não há nenhuma obra que trate apenas da carreira dela. Carreira, aliás, “humilde”: são 71 títulos em simples. Só para comparar, Roger Federer tem 72, Pete Sampras, 64, e Rafael Nadal, 46. Acha pouco?

Só pra constar, Maria Esther tem cinco títulos em Wimbledon e sua “grama sagrada” (1958, 1960, 1963, 1965 e 1966) e mais quatro no Aberto dos Estados Unidos (1960, 1962, 1966 e 1968). Se ganhar um Grand Slam é para poucos, imagine nove títulos desse porte. Um fenômeno.

Gustavo Kuerten em Roland Garros - Foto: Jacques Demarthon/AFP

Gustavo Kuerten em Roland Garros - Foto: Jacques Demarthon/AFP

Se existe tênis no Brasil, ele só sobreviveu por causa de Maria Esther. Foi ela que desbravou o mundo, ainda na fase amadora, e fez com que o Brasil aparecesse no esporte. Se até hoje são raros os tenistas brasileiros com uma carreira de verdade, consolidade, e, ainda mais, de sucesso, imagine nos anos 50, 60 e 70, quando ela bateu sua bolinha? Pai do céu!

Foi no TCC que eu “descobri” que a carreira de Maria Esther foi tão impressionante. Fuçando aqui e ali, “descobrimos” que ela tinha números estraordinários, e que, realmente, não é nenhum exagero falar que ela “inventou” o tênis no Brasil. “Descobri” e “descobrimos”, com aspas mesmo, porque a história dela é espetacular, sensacional, surreal e tudo quanto é adjetivo, mas ninguém sabe nada disso.

Por exemplo, você sabia que existem pelo menos três estátuas em São Paulo em homenagem a ela? Uma perambulou pelo clube Harmonia, onde ela treinou e até hoje bate sua bolinha, e hoje, se não me engano, está na Praça Califórnia, no Jardim Paulista, entre as ruas Groenlândia, Canadá e Argentina. A segunda, não menos itinerante, está (até onde eu sei) no estádio do Pacaembu, logo na entrada da garagem, atrás do tobogã. Enfim, a única que parece manter o endereço é a elaborada pela FPT (Federação Paulista de Tênis) e fica na porta da entidade, na rua Uruana, na Vila Mariana. Curioso, não?

Indo atrás dos jornais da época, vimos que está tudo ali, documentado. As vitórias, os títulos, a imprensa da época – especialmente o jornal O Estado de S. Paulo – cobriu, do jeito que dava, a trajetória de Maria Esther. Lembramos que não havia TV, e internet não passava nem pela cabeça dos escritores de ficção. Modéstia à parte, eu e meus companheiros de TCC fizemos entrevistas com Deus e o mundo, só não conseguimos falar com uma pessoa: a própria Maria Esther.

Falar é até exagero: não conseguimos nem chegar perto dela. As dificuldades e os limites impostos foram tão grandes e sufocantes que o livro foi “terminado” sem uma única frase de Maria Esther. Claro, lá estão frases dela na época das conquistas, o que saiu na imprensa da época, mas, nem uma única linha, nem um “oi” exclusivo para a gente.

Nesta semana, foi anunciado que Guga vai entrar para o Hall da Fama do tênis. Ele será o segundo brasileiro a figurar entre os imortais. Antes dele, apenas Maria Esther Bueno. Aquela mesma que, repito, praticamente criou o esporte no Brasil. Sem ela, talvez não existiriam Thomaz Koch, Carlos Kirmayr, Edison Mandarino, Cassio Mota, Luiz Mattar, Jaime Oncins, Fernando Meligeni, Gustavo Kuerten…

Curiosamente, a história de Guga está aí pra quem quiser aprender. São trocentos livros sobre ele, sites, vídeos. Aí você vai me dizer que não existiam sites e vídeos na era de Maria Esther. Sim, concordo. Mas, na mesma época, Adhemar Ferreira da Silva voava para duas medalhas olímpicas de ouro (1952 e 1956), o basquete brasileiro de Wlamir Marques, Amaury Pasos e Rosa Branca era bicampeão mundial (1959 e 1963), a seleção brasileira de Zizinho e Barbosa perdia a final da Copa do Mundo de 1950, Éder Jofre conquistava o título mundial dos galos (1963), enfim, gente tão genial como Maria Esther teve os seus feitos contados, detalhados, esmiuçados. Ela, não.

Cada vez que eu vejo o nome de Maria Esther, penso que ela é uma lenda. Lenda por tudo que conquistou, lenda porque parece que seus feitos são tão gigantescos que viraram mitológicos. O mais curioso de tudo é que a história de Maria Esther está aí, pulsando, doida para ser contada, espalhada. Mas corre o risco de ser esquecida, já que a história, em si, não quer fazer parte da História. Uma pena.

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