Arquivo da categoria: Análises espertas do cotidiano

Futebol, jornalismo e estômago

Se a lama fosse só na bola... - Foto: AFP

Se a lama fosse só na bola… – Foto: AFP

Prometi voltar à ativa neste blog nesta semana, mas a sequência de fatos foi das mais desanimadoras e me fez lembrar os trocentos motivos que me afastaram do futebol e da redação. Diante de tudo, está cada vez mais claro, pra mim, que a principal caraterística de um jornalista esportivo é estômago.

O mundo futebolístico é sujo, podre. Vivenciei isso por um pequeno período de tempo, há mais de uma década, e bastou aquele aninho para que eu ficasse distante do futebol. Admiro os colegas de profissão que conseguem cobrir a modalidade por tanto tempo sem se vender ou cair em tentação. Vira até uma espécie de profissão de fé.

O futebol é o esporte mais sensacional do planeta, mexe com as emoções de uma maneira única e trata de zilhões de aspectos da vida em um único lance (estão aí os grupos de estudo que não me deixam mentir). Mas, se emociona pelo bem por seu lado “campo, bola e gol”, emociona pelo mal nos seus bastidores. É ali que a bola perde a beleza e o lado monstro aparece da maneira mais escrota possível.

É preciso estômago forte para encarar tudo isso. É preciso estômago forte para engolir seco e seguir na batalha. Muitos desistem, como eu desisti, e não os culpo: a coisa, realmente, é para poucos.

Nos últimos dias, li e reli certas coisas inexplicáveis, e haja estômago para digerir tudo isso sem regurgitar. Li e reli os mandos e desmandos do Juvenal e seus podres poderes. Li o “ganhou o doping” do empresário Wagner Ribeiro sobre Cielo em detrimento do seu agenciado, Neymar, mas não reli porque ele apagou as mensagens no Twitter. Voltei a ler e reler as coisas inexplicáveis e, por serem inexplicáveis, para mim, são pura ficção.

Tudo isso é um dos lados que me fez deixar a redação, há pouco mais de um ano, e tirar um tempo para repensar a vida e, claro, o jornalismo, o jornalista. Ainda hoje continuo nesse exercício mental e, muitas vezes, me pego achando que não vale a pena tanto esforço. Afinal, é apenas uma profissão.

Há quatro anos, cruzou o meu caminho um moleque empolgadão com o jornalismo. Estagiário, figuraça. Bastou um ou outro texto, uma ou outra matéria para ver que era um diamante e ser lapidado, um daqueles caras que nasceram para ser repórter. A carreira dele foi deslanchando, quase sempre ligada ao mundo da bola, mas, diante de tanta bobagem nos últimos dias, ele mesmo questionou: “Para que fui trabalhar com futebol?”. Não sei, meu amigo. Só sei que é preciso ter estômago para isso.

P.S.: Sei que a discussão acima é longa, é papo de boteco, e aceito totalmente as opiniões contrárias. Também é meio óbvio que o jornalista que cobre política deve sentir a podridão a quilômetros de distância, mas eu nunca cobri. Meu foco sempre foi o esporte e, por isso, o texto trata apenas desse mundinho.

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“Superman vs. Muhammad Ali” e um objeto de desejo

Superman vs. Muhammad Ali - Foto: Divulgação

Superman vs. Muhammad Ali - Foto: Divulgação

Não sou aquele fã de histórias em quadrinhos, mas adoro boxe. Confesso a completa minha ignorância sobre o tema, e não sabia que, em 1978, foi lançado “Superman vs. Muhammad Ali”, livro de 72 páginas com o encontro entre o super-herói e aquele cara que veste roupa azul e capa vermelha.

O livro foi relançado em 2010. Para promover a nova edição, nada melhor do que recriar a capa em uma escultura, assinada por Jack Matthews. E é aí que eu queria chegar: venhamos e convenhamos, é espetacular!

Sou colecionador de miniaturas ligadas ao esporte. Começou em 1998, com a coleção da Coca-Cola com os mini-craques da seleção brasileira, e descambou. Depois de ver esse “Superman vs. Muhammad Ali”, ficou claro que é o meu mais novo objeto de consumo.

Como o blog é meu, única e exclusivamente, uso o espaço para dizer que aceito doações, ou melhor, podem mandar entregar em casa essa brincadeira. Meu aniversário é em julho, mas estou ficando velho e aceito presentes adiantados. Pelo que fucei, o valor varia entre US$ 175 e US$ 275, uma mixaria, uma pechincha, praticamente de graça!

Capa do HQ "Superman vs. Muhammad Ali" - Foto: Divulgação

Capa do HQ "Superman vs. Muhammad Ali" - Foto: Divulgação

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Buenos Aires, ignorância e preconceito

"Bendito é o fruto do teu ventre", Catedral Metropolitana de Buenos Aires, abril/12 - Foto: Ricardo Zanei

"Bendito é o fruto do teu ventre", Catedral Metropolitana de Buenos Aires, abril/12 - Foto: Ricardo Zanei

(Para aquelas duas pessoas que lêem esse blog por causa das bobagens que escrevo sobre esporte, abro um parênteses para tocar em outro assunto, a meu ver, bem mais importante e relevante que gol, cesta e ponto…)

Ficar uma semana em outro país, qualquer que seja, é um aprendizado. Pode ser aqui do lado, mas as coisas são diferentes. O ar e a vida são outros. Melhores? Piores? Não sei, mas são outros.

Moro em São Paulo há cinco anos, depois de passar quase 29 na aprazível Santo André. Confesso que conheço muito pouco do meu Estado e, inclusive, dessas duas cidades. Por exemplo, fui uma vez para Sorocaba. Piracicaba, Joanópolis, Serra Negra, São Roque, idem. Fui duas para Campinas e Águas de Lindoia. Algumas para Mogi Mirim, terra da minha mãe. Nunca entrei na Igreja da Sé, nem no Parque Burle Marx ou no Parque do Carmo. Mas completei, na última semana, minha terceira passagem por Buenos Aires. No total, é quase um mês de Argentina na minha vida.

Curioso como tem tanta coisa aqui do lado que eu não conheço e, ao mesmo tempo, como consigo me virar e me sentir tão bem na capital argentina. Voltei após uma ausência de quase quatro anos. A desculpa foi o show do Foo Fighters. Mas, admito, foi apenas um pretexto para matar a saudade.

Aproveitei a semana para me desligar das coisas. Levei o laptop, mas me neguei a escrever nesse blog, bem como a bater o olho em qualquer assunto que lembrasse trabalho. Uma semana de descompressão, de vinho e tango, de bife de chorizo e Foo Fighters, de parrillas, morcillas e Quilmes.

Argentina 3 x 0 Bolívia, eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, estádio Monumental de Nuñez, nov/07 - Foto: Ricardo Zanei

Argentina 3 x 0 Bolívia, eliminatórias para a Copa do Mundo de 2010, estádio Monumental de Nuñez, nov/07 - Foto: Ricardo Zanei

Foi, ainda, uma semana de surpresas. Encontrei um dos meus melhores amigos lá. Moramos a, no máximo, 3 km de distância em São Paulo e não conseguimos nos encontrar. Aí, na mesmoa semana, eu vou passear, ele vai trabalhar, e matamos um pouco da saudade. Além disso, a linda Cecília, direto de Washington, resolveu dizer o seu primeiro “oi” e completou o trio de pequenos que chegou agora e já encheu as nossas vidas de alegria.

Sempre falo que sou suspeito para dizer qualquer coisa sobre Buenos Aires. É uma cidade linda e com uma aura indescritível. Os bairros são peculiares, cada um com sua identidade, encantos e surpresas. O Real tem vencido o Peso com facilidade, e isso ajuda, mas já ajudou muito mais. A comida é das melhores – leia-se “carne, carne, carne”, e que carne boa! -, e o vinho é de chorar. Enfim, é tudo realmente muito bom.

Mas percebi, lendo aqui e ali, que ainda tem brasileiro, mas muito brasileiro, do meu ciclo de amizades ou de pessoas próximas a mim, que são completamente ignorantes quando o assunto é Argentina e Buenos Aires.

Ignorante, no dicionário Houaiss:

Acepções
■ adjetivo de dois gêneros
1 que desconhece a existência de algo; que não está a par de alguma coisa
Ex.: um povo ainda i. da escrita
2 que denota a ignorância do autor ou daquele que é responsável por uma obra
Ex.: um livro i., um filme i.
3 sem malícia; puro, inocente
Ex.: uma alma cândida, i.
■ adjetivo e substantivo de dois gêneros
4 que ou quem não tem conhecimento por não ter estudado, praticado ou experimentado; incompetente, inexperiente
Ex.: i. em matemática, não passa de um i.
5 mal-educado, grosseiro; pretensioso, presunçoso
Ex.: maneiras i., é um i. que se acredita dono da verdade

Vi que ainda tem gente que nunca topou com um argentino, mas acha que todos são filhos da p***. Mais: que é um país ridículo, escroto, que não merece ser notado, quanto mais visitado. Enfim, além de ignorância, há o preconceito.

Preconceito, no dicionário Houaiss:

Acepções
■ substantivo masculino
1 qualquer opinião ou sentimento, quer favorável quer desfavorável, concebido sem exame crítico
1.1 idéia, opinião ou sentimento desfavorável formado a priori, sem maior conhecimento, ponderação ou razão
2 atitude, sentimento ou parecer insensato, esp. de natureza hostil, assumido em conseqüência da generalização apressada de uma experiência pessoal ou imposta pelo meio; intolerância
Obs.: cf. estereótipo (‘padrão fixo’, ‘idéia ou convicção’)
Ex.: p. contra um grupo religioso, nacional ou racial, p. racial
3 conjunto de tais atitudes
Ex.: combater o p.
4 Rubrica: psicanálise.
qualquer atitude étnica que preencha uma função irracional específica, para seu portador
Ex.: p. alimentados pelo inconsciente individual

Claro que eu sabia que isso existia, mas em tempos de Facebook, Twitter e informação imediata, fiquei impressionado, com a quantidade de gente que pensa assim.

Há, sim, uma rixa verdadeira entre Brasil e Argentina. Uma única rusga, única, ela se limita apenas e tão somente ao futebol. Saiu disso, acabou, meu caro. Eles são Maradona, a gente é Pelé. A gente, olha que engraçado, é verde e amarelo, e eles são azul e branco. Complementares?

“¿Qué Ves?” – Divididos
¿Que ves?
¿Que ves cuando me ves?
Cuando la mentira es la verdad

O argentino acha, sim, que é o melhor do mundo. Afinal, se eles não acharem, quem é que vai achar? A diferença é que eles não precisam me chamar de filho da p*** para isso, nem falar que meu país é uma bosta. Pelo contrário, todos com quem falei em quase um mês, em períodos distintos, elogiaram o Brasil. Alguns, sem saber que eu era brasileiro. Bem diferente do que temos aqui, não?

O que me deixa mais preocupado é que esse tipo de ignorância e preconceito pode tomar outros níveis. Alguém aí em sã consciência sabe me explicar por que a pessoa A xinga a pessoa B por causa da cor da sua pele? Paralelamente, temo que A seja a mesma pessoa que xingue a pessoa B – ou C ou D ou… – apenas pela localização geográfica de seu local de nascimento. Preconceito e ignorância, crimes que andam, via de regra, juntinhos, de mãos dadas.

Voltar para casa de uma viagem sempre me deixa meio deprimido, mas logo passa. Voltar de Buenos Aires sempre é diferente, porque a depressão é mais profunda, simplesmente pelo fato de “voltar”. Voltar de Buenos Aires e me deparar com o que deparei, esse preconceito e essa ignorância descabidos, me deixa ainda mais cabisbaixo. Pensar que, com tanta informação por aí, ainda tem gente que se nega a abrir os olhos.

Não sou a pessoa mais viajada do mundo, nem a mais inteligente, muito menos a mais correta. Mas, de uma forma ou de outra, procuro me informar. Não apenas por ser jornalista e ter que, muitas vezes, repassar uma informação da maneira mais simples e clara possível. Mas como cidadão, sabe? Tenho meus preconceitos e minhas ignorâncias, mas a mente está aberta para qualquer assunto e experiência. Claro que correr atrás de informação e tentar aprender algo aqui e ali é difícil. Mais fácil mesmo é achar que, se não é igual a mim, é tudo filho da p***, escroto, desprezível. E haja ignorância e preconceito. Uma pena.

“Por una cabeza” – Carlos Gardel


P.S.: Obviamente, generalizei as coisas. Claro que tem argentino filho da p***, assim como tem brasileiro filho da p***. Claro que lá não é o paraíso, assim como aqui não é também. É assim em todo o lugar do mundo, não? Bom, vocês entenderam, né?

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Barbárie entre torcidas (?) ou lugar de bandido é na cadeia

Torcida ou bandidagem? - Foto: Arquivo, Arte/Ricardo Zanei

Torcida ou bandidagem? - Foto: Arquivo, Arte/Ricardo Zanei

Já vi muito jogo de futebol na minha vida. Já fui de carro estacionando dentro do estádio, já fui de ônibus, metrô e trem. Já fui em um domingão de sol e em uma quarta-feira de chuva, muita chuva. Vivi momentos memoráveis de vitórias, vivi derrotas doídas. Vivi, também, o medo.

Para quem mora em Santo André, ver qualquer time, seja no Pacaembu, no Palestra Itália, no Canindé ou ainda no Morumbi, requer planejamento. Primeiro, escolher o meio de transporte é fundamental. Se for transporte público, sair mais cedo ainda é primordial.

Quem é gente de bem e já foi em clássico de transporte coletivo sabe que existe uma tensão permanente, o medo de uma briga de torcidas está ali, pairando no ar. Quem é bandido vê nisso tudo uma adrenalina, vê nisso o grande barato, e não o jogo que está por vir.

Lembro de um dia em que eu pensei que seria o fim. Início dos anos 90, época em que times grandes jogavam em São Paulo no mesmo horário. O lugar era o trem, saindo de Santo André, a caminho da Barra Funda, onde o Palmeiras jogaria com sei lá quem. Minha mãe, palestrina doente, me levava mais uma vez para ver um jogo que não era do meu time. E eu ia, afinal, a mãe mandou, o filho obedece, sem reclamar.

Não lembro contra quem o Corinthians jogaria naquele dia, nem a estação, mas o trem parou e todos os palmeirenses – palmeirenses? – de torcida organizada – torcida? – saíram do vagão. Pela janela, deu pra ver que tinham alguns corintianos na estação. O pau quebrou, e meia dúzia de policiais seguraram a bronca, evitando algo pior. Antes de as portas fecharem, estavam todos de volta, comemorando como se fosse um título.

Isso durou alguns segundos, 1 minuto, se tanto, tempo suficiente para que eu pensasse, pela primeira vez, que eu poderia morrer por absolutamente nada. Imagine o que é isso para um moleque de 12, 13 anos, que acompanhava sua mãe de 50 anos ao estádio. Se acontece algo com ela, como vou reagir? Imagine ainda o que é ver uma briga daquelas entre palmeirenses – palmeirenses? – e corintianos – corintianos? – e você, são-paulino, ali, quietinho. Naquele dia, pensei: “Se os caras descobrem que sou tricolor, os torcedores – torcedores? – dos dois times se unem me matam. Em dois segundos”.

Fui ao estádio com a minha mãe em mais trocentas vezes depois disso. Cada vez, escolhíamos um horário para ir pensando em não encontrar nenhuma torcida – torcida?. Ora saíamos cedo para comer em algum lugar e entrar no estádio assim que os portões abrissem. Ora, com ingresso na mão, chegávamos bem em cima da hora. Tudo bem, era uma mãe – às vezes, algumas amigas, todas mais velhas que a minha mãe – e um filho adolescente, gente que não vai fazer mal a ninguém. Mas, sabe como é, esse tipo de torcedor – torcedor? – não olha para nada, apenas quer brigar. Ou pior, matar.

Tem gente que ainda fala em torcida, briga de torcida, mas quem torce por um time não faz esse tipo de coisa. Quem torce, torce para um time, e não para uma, digamos, facção. Quem briga na rua é bandido. Quem marca lugar para brigar e vai lá horas antes de um clássico também não é torcedor, longe disso, é bandido. Lugar de bandido é na cadeia.

P.S.: Fico extremamente triste pelas famílias das pessoas que morreram em brigas de torcida, seja em São Paulo, seja em Campinas, seja em qualquer lugar do planeta. É gente que sofre, hoje, pela perda de alguém. Pena que esse alguém não pensou nisso antes. Uma pena.

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Chico Anysio, 80, RIP, e um sorriso eterno

Professor Raimundo - Foto: CGCom/TV Globo

Professor Raimundo - Foto: CGCom/TV Globo

Acho que os seres humanos especiais, inesquecívels, geniais, maravilhosos, são aqueles que não transbordam elogios, mas faltam palavras para defini-las. Por mais que se fale, tudo será pouco para a monstruosidade de Chico Anysio.

Ele foi uma das mentes mais criativas da história. Não digo apenas do humorismo, nem da TV, da história mesmo. Chico foi capaz de criar personagens – mais de 200! – absurdamente distintos. Todos, sem exceção, tinham vida própria, existiam por si só.

Fico pensando que tem um monte de cara por aí que faz um, dois personagens a vida inteira, e recebe tudo que é elogio. Não vejo demérito nisso, mas, imaginem criar mais de 200 – ! – personagens. É impressionante, impressionante.

Tenho 33 anos, quase 34, e Chico esteve ali por toda a minha vida. Ri muito, mas muito mesmo, com Alberto Roberto, Azambuja, Bento Carneiro, Bozó, Coalhada, Justo Veríssimo, Nazareno, Painho, Professor Raimundo, Tim Tones… São “apenas” nove exemplos de personagens inesquecíveis e hilários.

O mais impressionante de tudo isso era a caracterização de Chico. Cada um de seus, digamos, “alter egos”, tinha uma roupa própria, uma voz diferente, um ritmo distinto. Você batia o olho, por exemplo, no Professor Raimundo, e via o Professor Raimundo, não o Chico Anysio. Espetacular!

Esse texto poderia ter trocentos zilhões de caracteres, trocentos zilhões de elogios e, mesmo assim, seria pouco perto do que é Chico. Hoje, sem personagem, ele deixou no ar aquele minuto de silêncio. Mas, mesmo assim, acho que não é hora de choro. Proponho, sim, uma bela risada. Nada mais justo para quem sempre fez, faz e fará sorrir. Sempre.

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“Vai lá, macaco! Volta pro zoológico!”

Wallace - Foto: Divulgação/CBV

Wallace - Foto: Divulgação/CBV

Nunca imaginei que começaria um post com uma frase como essa. Nunca mesmo, ainda mais em um blog que trata, basicamente, de esporte. Mas ainda existem animais no planeta, com perdão à ofensa cometida aos nobres bichinhos. Pior que existem muitos, muitos mesmo. São “pessoas” que se acham muito melhores, superiores que as outras, por causa da cor da pele. Acho que palavras como “lamentável” e “inaceitável” são ínfimas perto da brutalidade de um crime como o preconceito. Sim, preconceito é crime, e deve ser tratado como tal. Só assim essa sociedade ridícula e falida pode dar uma resposta no mínimo aceitável para esse ato de crueldade e covardia.

Todo mundo sabe o que aconteceu com Wallace, jogador do Sada/Cruzeiro, na Superliga masculina de vôlei, não? Se não sabe, clique aqui e assista à matéria do SporTV, que merece elogios por ser bem elucidativa.

Porém, existem vários pontos que não se encaixam, coisas de uma sociedade, repito, ridícula e falida. Vamos aos fatos e aos comentários:

– Em nota, veiculada em seu site oficial, que pode ser lida aqui, o Sada/Cruzeiro diz: “Foi solicitado que o delegado responsável pela partida registrasse o fato no relatório do jogo, que será encaminhado para a Confederação Brasileira de Voleibol – CBV.”

Com todo o respeito ao Sada/Cruzeiro, dane-se a CBV. Isso é caso de polícia. É pegar as imagens de TV, fazer Boletim de Ocorrência e dar trabalho para os advogados do clube: esse “ser” que disse o que disse tem que responder criminalmente pelo que falou.

É lei, meus caros, número 9.459, de 13 de maio de 1997, assinada pelo então presidente Fernando Henrique Cardoso: “Art. 1º Serão punidos, na forma desta Lei, os crimes resultantes de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional”. Esse indivíduo, se é que pode ser chamado assim, tem que responder pelo que falou atrás das grades.

– Em nota, também em sua página oficial, que pode ser lida aqui, o Minas Tênis Clube diz que “lamenta e repudia o episódio” e que “É justo destacar que se tratou de manifestação individual, impossível de ser controlada pelo Clube e que em nada reflete a filosofia e os valores do Minas.”

Sinceramente, que nota oficial babaca. Sim, foi uma “manifestação individual” e é “impossível de ser controlada”: claro que o Minas, nem eu, nem ninguém, vai conseguir deter um ser acéfalo antes de ele cometer o crime que cometeu. Controlar não dá, mas coibir, dá sim. Falou o que falou, baixa polícia e pega o criminoso na unha. Mas, sabe como é, dá trabalho. E ninguém quer isso, né?

– O SporTV ouviu Ricardo Santiago, diretor de vôlei masculino do Minas, que “esclareceu” o que pode acontecer se a criminosa for descoberta, ou melhor, reconhecida: “Penalidade que vai até a exclusão do quadro de associados, isso não faz parte da cultura do Minas Tênis Clube”.

Para tudo, gente. Pelamordedeus, dane-se o quadro do clube. Cacete, estamos diante de um crime. Crime, sabe, daqueles que rola cadeia, que rola processo? Fico com a impressão que, para o Minas, é bem mais simples dizer que “repudia”, que isso e aquilo, ao invés de tomar ações drásticas. Vamos combinar que falar é bem mais simples que agir, não?

– Em nota, em seu site oficial, que pode ser lida aqui, a CBV diz: “Sobre o possível caso de preconceito” e blablabla. Segue a nota com “Sobre o fato, o relatório do delegado da partida em questão relata que, ao ser comunicado da agressão verbal direta, de cunho racista, (…) acionou a segurança para identificar o agressor. Até o fim da partida, o mesmo não foi identificado dentre o público presente na Arena Vivo, em Belo Horizonte (MG).”

A CBV, entidade que rege o vôlei no país, abre a sua nota oficial falando em “possível caso de preconceito”. Vamos lá: “Vai lá, macaco! Volta pro zoológico!”, realmente, deixa dúvida, não? O que esperar se, quem manda, começa uma nota oficial, ou seja, um documento, dessa maneira imbecil.

Vamos além. O delegado, pelo menos, acionou a segurança, mas não identificaram o agressor. Lembro que, quando a Lei Pelé passou a figurar, e as pessoas passaram a responder criminalmente sobre seus atos em arenas esportivas, qualquer papelzinho que caía num gramado era dedurado por quem estava ao lado. Sabe como é, aquele pedaço de algodão que foi lançado no campo pode tirar o mando de campo de seu time. Aí, quando rolava, não dava para contar a quantidade de dedo que apontava para o meliante, isso quando o mané já não tinha sido espancado pelos mais exaltados.

Mas agora estamos falando do quê? Racismo? Ah, que é isso, deixa pra lá. Não foi comigo mesmo, né? Meu time não vai perder o mando, né? Então, dane-se. Mas fico pensando: será que nenhum cidadão viu quem falou o que falou? Não tinha ninguém ali no ginásio, né? “Ah, é feio dedurar”. Sim, concordo. Mas, no caso de um crime, dedurar é denunciar, e denunciar é um ato de cidadania, mais do que isso, um dever.

O que passou pela minha cabeça ao ver o que aconteceu é impublicável, mesmo nesse blog que tem meia dúzia de leitores. Só posso dizer que o meu pensamento foi o mesmo de Wallace. Se ele falou que, graças a Deus, não encontrou a pessoa que falou o que falou, eu penso ao contrário: fico triste que ele não tenha encontrado. E, se eu estivesse ali, ajudaria. Com gosto.

O resumo da ópera é que nada vai acontecer. Ou, se acontecer, será no âmbito esportivo. Dane-se o esporte, o vôlei, dane-se tudo nesse episódio. É um caso de polícia, e é assim que tem que ser tratado. Ou seria, numa sociedade séria, mas, na nossa, falida e nojenta, não vai dar em nada.

Pior que tudo isso é saber que o caso Wallace é apenas mais um caso nesse Brasilzão preconceituoso. “Ah, que mentira, não tem preconceito no Brasil”. Ahã. Não tem pra você, que é branquinho (a) como eu, que é de classe média como eu. Preconceito existe em tudo que é canto, às vezes escondidinho, ali, debaixo do tapete, mas ele continua vivendo ali. O episódio em Minas é só um exemplo que, por sorte, foi flagrado pelo áudio da TV. E aqueles tantos outros, em quatro paredes, como ficam?

Não ficam, são tratados como se não existissem. Como se “Vai lá, macaco! Volta pro zoológico!” fosse um “possível caso de preconceito”. Nossa sociedade, especialmente quem manda nela, é de dar nojo.

P.S.1: Ao reler o texto, percebi que escrevi “tem que” várias vezes. Não mudei nenhuma delas. O “tem que” mostra como deveria ser se o nosso país fosse sério, mas não é, e o “tem que”, muitas vezes, pode ser lido como “teria que”.
P.S.2: Esse episódio me fez lembrar do Carnaval e aquele papelão em São Paulo, aquela revolta toda por causa de plumas, paetês, surdos e reco-recos. Agora, em um caso de preconceito, não teve uma alma que se levantou. Triste.
P.S.3: E ainda tem o caso Michael, que não podemos esquecer jamais.

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Uma lição de vida chamada Kareem Abdul-Jabbar

O gancho mortal de Kareem Abdul-Jabbar - Foto: Getty Images

O gancho mortal de Kareem Abdul-Jabbar - Foto: Getty Images

Kareem Abdul-Jabbar foi a estrela do “Bola da Vez”, da ESPN Brasil, na noite desta sexta-feira (24/02). É o tipo de programa que deveria ser distribuído gratuitamente nas escolas do Brasil e entrar na grade curricular. Uma vez por mês, tem que assistir e fazer uma redação sobre o tema. É daquelas entrevistas que, se você ver 500 vezes, terá 1.000 lições e zilhões de motivos para rever.

Tenho a nítida e triste sensação que pouca gente sabe quem é Kareem Abdul-Jabbar, especialmente no Brasil. É uma pena. Não vou dissecar a carreira dele aqui. Jogue o nome no Google e descubra as peripécias que esse cara aprontou em quadra. Mas acho que dá para dizer com todas as letras que, fora do basquete, ele ainda foi mais genial.

Dois pontos da entrevista me chamaram a atenção. Ambos têm íntima ligação com John Wooden, um monstro, uma lenda do basquete, um dos maiores técnicos da história do esporte, um Telê Santana da quadra. Não lembro muito bem a primeira pergunta, mas Jabbar disse algo assim:

“John Wooden sempre falava que o importante era estudar. A educação vinha sempre em primeiro lugar. O basquete vinha depois.”

A outra pergunta foi sobre o momento mais marcante da carreira de Jabbar. Ele disse que foi a conquista do título da NBA em 1985, quando o Los Angeles Lakers finalmente venceu aquele timinho do Boston Celtics, de Larry Bird, Kevin McHale, Roberto Parish, Dennis Johnson…

Foi aí que ele falou sobre a emoção que sentiu ao superar o recorde de pontos de Wilt Chamberlain e se tornar o maior cestinha da história da NBA. Só para constar, são 38.387 de Jabbar e 31.419 de Chamberlain, hoje o quarto na lista. Mas nem no videogame você marcou tantos pontos assim.

“Foi emocionante, mas John Wooden sempre nos ensinava que o mais importante era o coletivo, e não o individual.”

Os tempos mudaram, a realidade é outra, blablabla, mas tem coisas que não mudam: educação, caráter, consciência… A entrevista de Jabbar é uma lição de vida, daquelas para guardar para sempre. O cara foi um monstro em quadra e, fora dela, é um ser humano fora de série. Claro, não é santo, comete seus erros também, mas nos ensina o caminho a ser trilhado. Uma aula, uma aula…

Top 10 – As melhores jogadas de Kareem Abdul-Jabbar

P.S.1: Sei que o programa será repetido nas grades de ESPN Brasil e ESPN, mas não achei nada da entrevista em lugar algum. Procure e, se achar, me mande. É de chorar.
P.S.2: Foi perguntado quando ele começou a fazer o gancho, sua arma letal. Jabbar disse que começou a treinar aos 10, isso, DEZ anos de idade, foi aperfeiçoando aqui e ali, treinava com uma mão e com a outra, até que conseguia fazer o movimento e acertar a cesta do meio da quadra, de esquerda e de direita. Ou seja, o cara tinha talento, mas suou pouca coisa para chegar onde chegou, não? Fica mais uma lição.

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