Arquivo da categoria: Análises espertas do cotidiano

Anderson Silva e um tipo tipicamente brasileiro

– Não sei se fui só o único, mas ao lado do meu sobrinho e de um amigo, quando Anderson caiu estatelado, imperou o silêncio. Ninguém falou nada por mais de 10min.

– Perder é parte do jogo. Ninguém ganha sempre. A maneira como se perde é que causa tudo isso.

– Provocar é parte do jogo. Provocar, às vezes, ganha jogo. Provocas, outras vezes, perde jogo. É assim.

– O limite da provocação para o desrespeito é tênue e vai de pessoa para pessoa. O meu limite é diferente do seu, do Anderson Silva, do Chris Weidman…

– Arcar com as consequências dos seus atos é algo default na minha vida. Se faço A, tenho que responder pelo A que foi feito. Simples.

– Existe, claro, o (in)consciente coletivo: há o brasileiro provocador vencedor e o brasileiro provocador perdedor.

– O brasileiro provocador vencedor é resultado da provocação que dá certo. É o malandro, é a ginga, é o jeitinho, é o esperto, é o inteligente. Amado e louvado, obviamente, porque vence, quando vence.

– O brasileiro provocador perdedor é resultado da provocação que dá errado. É o idiota, é o desrespeitoso, é o espertalhão, é o burro. Execrado e xingado, obviamente, porque perde, quando perde.

– E quando é o rival do brasileiro que provoca? Execramos o herege. Tanto na vitória ou na derrota dele.

Isto posto, uma breve análise do assunto: Anderson Silva perdeu. E é claro que a maneira como foi me deixa puto, mas isso não apaga a história do cara, por mais que a imagem recente fique brigando, na minha mente, com os nocautes anteriores e espetaculares.

Sobre a derrota em si, para mim, ele superou a tênue linha que separa a provocação do desrespeito. “Ah, se fosse comigo, eu enchia a cara dele de porrada”, pensei. Foi o que Weidman fez. E, pensando que o esporte consiste basicamente em derrubar o oponente, o fez muito bem.

Voltando ao (in)consciente coletivo: Anderson Silva se tornou, em um piscar de olhos, no brasileiro provocador perdedor. Era um gênio até 1h30. Aquele cara bacana, que brinca com a própria voz fina, que faz aulas de inglês e come hambúrgueres em rede nacional. Uma canhota no queixo e, à 1h31, virou um grandioso idiota. De bestial a besta em 1min.

Em tempos internéticos, meu sobrinho, acho que sem saber, demonstrou o que muita gente sente. Entrou na página do Anderson no Facebook e “descurtiu”. “Daqui a um mês eu volto a curtir, mas hoje…”. Confesso que dá para entender.

No caminho para casa, fiquei pensando. Sei que o “se” não existe, mas não me saiu da cabeça: E se ele ganhasse a luta? E se a provocação desse certo? E se, ao invés da esquerda de Weidman, uma direita de Anderson colocasse o rival na lona, estatelado? E se…

Se apenas uma das suposições acima acontecesse, e acho que o (in)consciente coletivo não me desmentiria, ele seria o brasileiro provocador vencedor, o Emerson que não cai na laia argentina, provoca o zagueiro do Boca e ainda é campeão da Libertadores. O brasileiro malandro, esperto, sagaz.

Mas, bem, o “se” não existe. Então, ele volta a estaca zero, ou melhor, ao pedestal de inimigo público número 1, o completo idiota, o pai de todos os babacas, uma espécie de Higuita que perde a bola para o Milla e dá adeus à Copa. O brasileiro imbecil, estúpido, o malandro que só se ferra. O brasileiro, acima de qualquer coisa, perdedor. É, quem diria, Anderson Silva…

(Outra coisa que li por aí: foi armação? Eu acho que não e, se você acha que sim, te respeito, mas não mudo a minha opinião até que me provem o contrário.)

P.S.: Esse texto foi escrito na madrugada e, por favor, perdoem ocasionais erros de digitação.

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E o céu ganhou um craque

Ele driblava todo mundo. Ele já devia ter driblado uns dois quando passou pelo quarto-zagueiro. O drible foi seco, mas o toque foi um pouco forte demais. A bola vinha em minha direção. Ele, idem. Eu, em direção a eles. Tudo muito rápido. Na linha da meia-lua, o encontro. Inexplicavelmente, eu cheguei antes e mandei a bola pro mato. Ele chegou um instante depois e soltou a bomba de esquerda. Se pegasse na bola, seria gol na certa, eu acho. Pegou em cheio, sim, no meu pé direito.

Pelo que falaram, o tombo dos dois foi cinematográfico. Eu voei pr’um lado. Ele, pro outro. Caí de costas no chão com aquela sensação de “aí, tá doendo tudo”. O juizão veio e disse, sem tato algum: “Ricardão, não mexe que eu acho que quebrou”. A caneleira estava dobrada. De longe, a impressão era que a perna tinha quebrado. Mas bastaram alguns segundos pra levantar e falar: “Pô, até que não dói tanto, tô bem”.

Acho que aconteceu o mesmo com ele. Quando a gente se deu conta que um tinha chutado o outro, foi aquele negócio de “Cacete, você tá bem? Caramba, foi mal, errei”. Mas a bola tinha que continuar rolando. Um abraço e segue o jogo. Quando acabou, nos falamos de novo, preocupados um com o outro. “Foi sem querer”. “Relaxa, nem doeu”.

Meu pé direito estava inteiro. Pelo menos, eu achava isso. Tinha um risquinho que ia do dedão até o calcanhar, na parte interna, na “chapa”. Meia hora depois do jogo, o risquinho se tornara uma faixa vermelha. Duas, três horas depois, estava preta. E doía. Como doía.

O ano, 1995, 1996, talvez 1997. Não lembro. Lembro que, na primeira semifinal, a do choque cinemaográfico, o time dele tinha vencido. O meu tinha liderado o ano inteiro, se classificado para o mata-mata em primeiro, mas perdemos a primeira semi. Não lembro, mas foi algo como 2, 3 a 0. Ele, como tantas vezes já fizera, sobrou naquele dia. Afinal, o moleque jogava muito. Não, você não está entendendo: ele jogava muito, mas muito mesmo. Levava o time nas costas.

No dia seguinte à primeira semi, veio a segunda. Sabe como é campeonato de clube, né? “Atleta” não pode muito descansar. Meu pé não cabia na chuteira. Doía, cacete, como doía. Que não me leiam, mas fui no massagista e enchi o pé e o meião de éter. Só daria para jogar se não sentisse o pé. Dois meiões e a caneleira? Que nada. Não cabia tudo isso na chuteira. Com o pé inchado, gigantesco, foi um meião só, sem caneleira, e quase sem conseguir amarrar o cadarço.

Eles ganharam? Empatamos? Ganhamos? Não lembro. Só sei que paramos na semi, e o time dele foi para a final. Não lembro se ele foi campeão ou não, mas eu não disputei o terceiro lugar: era dia de Fuvest e não pude jogar. Resultado: o último jogo que eu estava inteiro jogando foi contra ele. Ou melhor, com ele.

Meu pai conhecia o dele desde sempre. Minha mãe, idem. A gente se conheceu no clube. Jogamos juntos, até. Não lembro se foi em 1987, 1988, 1989… Só lembro que faz tempo. E dali nasceu um carinho, uma amizade e um respeito gigantescos. Nos 10 anos seguintes, praticamente nos víamos todos os fins de semana. Ora jogando um contra o outro. Ora quando calhava de ver o jogo um do outro. Ora praticamente na catraca, com um chegando pra jogar e outro indo embora depois de bater a sua bolinha. Isso quando não nos encontrávamos na rua, já que, por alguns meses, ele morou há um quarteirão de casa.

Veio o cursinho – não, eu não passei naquela Fuvest – e o destino quis que um primo dele se tornasse um dos meus melhores amigos. “Caraca, que mundo pequeno”. “Quem diria?”. Amigo esse que fez faculdade comigo. Amigo que casou e, se não me engano, foi no casamento que encontrei com ele pela última vez. Isso faz uns oito, dez anos? Não lembro.

Depois disso, os encontros se tornaram internéticos. Vez ou outra, uma troca de frases pelo Facebook, um “curtir” aqui e ali, cada vez menos frequentes. Mas, de qualquer forma, na Internet ou na vida real, nos últimos, sei lá, 25 anos, esse cara estava por ali. E o carinho e o respeito eram sempre recíprocos.

Eis que chega o 1º de maio, estou indo trabalhar e o WhatsApp pisca. A notícia foi arrasadora. Parei o carro no primeiro canto livre da Gabriel Monteiro da Silva e fiquei olhando para o celular, incrédulo. Dois cliques no Facebook e, bem, a notícia estava lá também. A pergunta que me veio à mente foi a mesma que aparecia quando ele fazia estripulias com a bola: Como assim? COMO ASSIM?

Pior – ou melhor – é que tudo tem seus “comos” e seus “assins”. É inacreditável num primeiro momento – e num segundo, terceiro… -, mas, uma explicação deve ter. Afinal, como assim? COMO ASSIM?

Só sei que, ao ficar olhando, incrédulo, para a tela do celular, me veio na cabeça a jogada inteira, a dividida, a queda, o abraço, o fim do jogo, a ida ao Cefro, o pé zoado na salmoura – fiquei um ano sem sentir o dedão, que só voltou a dar sinal de vida depois de algumas sessões de fisioterapia -, o futebol no clube, os anos de amizade. COMO ASSIM?

É, amigo, não sei responder a pergunta. Sinceramente, gostaria de voltar no tempo e dividir aquela bola contigo de novo. E de novo. E de novo. E até ia de dar uma “canja” e tirar o pé só pra ver de perto se ia sair mais um golaço. Acho que ia. Ia sim. Aquela canhotinha era precisa demais. E acho que ia dar vontade de aplaudir, mas, sabe como é, ia pegar mal pra mim.

Enquanto o “COMO ASSIM?” ecoa na cabeça, só sei que a pelada no céu ganhou um fora de série. E a gente aqui, enquanto não nos vermos por aí, vamos seguir dividindo, caindo, levantando. O pé pode doer, mas no dia seguinte tem outro jogo. Sem tempo de descanso. E não descansa daí não, moleque. Sai driblando que, daqui, a gente continua aplaudindo. Afinal, você foi, e sempre será, um craque.

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Sobre Abidal, continuar e duas lições

Passei quatro dias longe de Internet, computador, trabalho e esporte. Vi quase nada do mundo. Depois de trocentos dias consecutivos – e algumas madrugadas – de trabalho, precisava dar férias para os neurônios. Mas, sabe como é, para fechar o domingo, resolvi ligar o maldito laptop. Dessa vez, bendito.

E foi só aí que vi que Abidal voltou a jogar.

É difícil encontrar palavras para falar sobre Abidal (recomendo o belo texto de Leandro Stein no Trivela). Dane-se se você gosta ou não de futebol. Saber que Abidal é um defensor francês que atua no Barcelona não muda em nada a história toda. O ponto central da questão é: por causa de caras como Abidal que a gente, inutilmente pequeno, vê que uma maneira digna de viver é continuar.

Ganhar e perder é do jogo, é da vida. Sabe como é, você pode fazer tudo direitinho e perder aos 48min do segundo tempo. Paciência. Ou, ainda, errar completamente a bola, pegar meio de canela e pensar que o chute vai sair do estádio, mas ela desvia no zagueirão, mata o goleiro e, olha só, é o seu time ganhando aos 48min.

A lição de Abidal é continuar. Continuar não significa fazer a mesma coisa sempre. Continuar é, sim, não desistir. É ver que, ganhando ou perdendo, mandando ou não a bola na arquibancada, ainda há esperança de ter mais um segundo, mais um momento para sorrir. Se esse segundo existir, agarre-se a ele. É de segundo em segundo que pequenas vitórias se transformam em conquistas.

Madrugada dessas, assisti ao mais do que espetacular “Survive and Advance”, mais um daqueles filmes da série “30 for 30” da ESPN que você tem vontade de ver, rever, rever, rever… E chorar em todas elas.

O discurdo de Jimmy Valvano no ESPY Awards de 1993 é daqueles para deixar sempre por perto. Naqueles dias em que o mundo está acabando, leia e releia. A transcrição pode ser encontrada nesse link, e o vídeo do discurso completo está aqui embaixo.

Uma parte veio muito a calhar neste domingo:

When people say to me how do you get through life or each day, it’s the same thing. To me, there are three things we all should do every day. We should do this every day of our lives. Number one is laugh. You should laugh every day. Number two is think. You should spend some time in thought. Number three is, you should have your emotions moved to tears, could be happiness or joy. But think about it. If you laugh, you think, and you cry, that’s a full day. That’s a heck of a day. You do that seven days a week, you’re going to have something special.

Ri neste domingo. Pensei na vida neste domingo. E, graças a Abidal, se tornou um dia completo.

I just got one last thing, I urge all of you, all of you, to enjoy your life, the precious moments you have. To spend each day with some laughter and some thought, to get you’re emotions going. To be enthusiastic every day and as Ralph Waldo Emerson said, “Nothing great could be accomplished without enthusiasm,” to keep your dreams alive in spite of problems whatever you have. The ability to be able to work hard for your dreams to come true, to become a reality.

Valeu, Jim. Obrigado, Abidal.

Texto de 05/08/2011 – Abidal, a cicatriz e a foto que diz mais que mil palavras

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Saudade

“Oi, mãe!”

“Que horas são?”

“Meianoiteepouco”

(silêncio)

“O Palmeiras contratou o Riquelme?”

“Parece que vai contratar.”

(silêncio)

“Você jantou?”

“Comi no trabalho.”

“Tem macarrão e bife na cozinha, vai comer.”

E lá ia eu para a cozinha, beliscar alguma coisa. E, minutos depois, lá vinha ela atrás de mim, querendo saber se eu estava bem e se o Riquelme já era do Palmeiras. Mais ou menos assim era o diálogo diário quando eu chegava em casa. Mais ou menos nessa ordem. A diferença era a combinação carboidrato + proteína. Do mais, era mais ou menos assim.

Com o passar dos anos, você acaba percebendo que o número de “nunca mais” se multiplica. Você pode fazer o macarrão e fritar o bendito bife do mesmo jeito, mas “nunca mais” será igual ao dela. “Nunca mais” a roupa estará lavada daquele jeito. Sabe suco em pó, que vem com “manual”: pois é, “nunca mais” será igual ao dela. Nem aquele copo d’água, retirado do mesmo filtro, parece ter o mesmo sabor. É, amigo, “nunca mais”…

E de “nunca mais” em “nunca mais” os dias passam. Semanas, meses. Anos, até. Sete, mais precisamente. Sete anos sem a preocupação e as broncas maternas – que saudade das broncas! -, sem a maluquice alviverde, sem os diálogos, sem a presença… Sete anos de muitos “nunca mais”.

De “nunca mais” em “nunca mais” a gente vai levando e nem percebe que, cada vez mais, a gente se parece. O jeitão, as atitudes, as palavras, as reações, os pensamentos. Essa é a herança, o legado.

De “nunca mais” em “nunca mais”, a gente vai levando… Fica a saudade. Essa, inversamente proporcional. Essa, na casa do “sempre mais”. E é nessa gangorra que a gente vai levando…

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Um ano e um dia, uma falha e um título, um aniversário bacana

Há um ano e um dia, nascia esse blog. O objetivo era, simplesmente, escrever, algo que, mesmo sendo jornalista, eu não fazia (e a história é longa para contar). O objetivo era dar pitaco em um monte de coisa que eu não tenho conhecimento, mas gosto de palpitar. Enfim, o objetivo era encher o saco e escrever bobagens divertidas. Missão dada, missão cumprida.

Minha ideia era escrever um post por dia, algo que eu não consegui fazer. Sabe como é, os compromissos com quem me paga, às vezes, me deixam sem tempo de teclar por aqui. Uma pena… Foram 317 posts até hoje. Tirando os fins de semana, acho que, na média, dá um post por dia. Mas, o ideial mesmo, era escrever todo dia. Exercício diário mesmo, sabe? Mas, infelizmente, não rolou. Missão dada, missão, bem, deixa pra lá.

O que acho mais bacana é a audiência. No dia de aniversário, o blog bateu a marca de 50 mil unique visitors. Para quem trabalha com internet, o número é simplesmente ridículo. O valor se refere ao ano inteiro. Então, é mais ridículo ainda. Mas, vejo por outro lado: quem lê, basicamente, é quem me conhece. E ter mais ou menos 135 cliques diários é algo que me deixa bem feliz.

O primeiro post desse blog fazia menção ao dia do meu aniversário, 16 de julho, dia que eu recebo o carinho de tanta gente, dia que eu geralmente fico puto com facilidade. Na mesma data, em 1950, o Brasil assistia à sua maior tragédia esportiva, a derrota para o Uruguai no jogo que decidiu a Copa do Mundo. Mas foi um 16 de julho de 1994 que começou a preparação para a final da Copa, no dia seguinte, entre Brasil e Itália.

Lembro que rolou uma festa absurda em casa para celebrar os meus 16 anos. A molecada foi ficando, foi ficando, e a gente praticamente não dormiu. Sei lá, deve ter sido a somatória da batida de chocolate que minha mãe fazia com a tensão pré-final. O detalhe é que tinha outro jogo antes: a estreia do meu time nas Olimpíadas, no Aramaçan.

Brasil nas Olimpíadas do Aramaçan em 1994 - Foto: Arquivo pessoal

Brasil nas Olimpíadas do Aramaçan em 1994 – Foto: Arquivo pessoal

Era assim: eu jogava futebol no clube, o Aramaçan, em Santo André, desde criança (sim, teve uma boa época da minha vida que eu joguei bola e não era perna de pau, viu). O campeonato sempre parava em julho: por causa das férias, muita gente viajava, e aí não dava para ter jogo. Mas muita gente também ficava, e aí inventaram as Olimpíadas. Tinha competição de vários esportes, mas eu sempre jogava futebol.

Naquele ano, caí no Brasil. Era um time absurdo de bom no papel, uma panela de vários moleques bons de bola. Minha expectativa – e, acho, de todo mundo que fez parte daquele esquadrão – era atropelar e ser campeão. Mas foi feia a coisa.

A estreia foi no dia 17 de julho, de manhã. Como já escrevi, eu não tinha dormido. E fazia sol, muito sol (tá aí a foto acima que não me deixa mentir). Sei lá, com 5min do primeiro tempo, alguém do time rival – que eu não lembro qual país era, mas acho que era Itália -, deu um chutão para o ataque. Eu, zagueirasso de rara habilidade, pensei: vou emendar e mandar a bola de volta para o ataque.

A bola veio, olhei para cima e vi o sol. Lindão, redondão, brilhando forte. Sem dormir, ver aquele solzão na cara pela manhã e ainda fazer o movimento de pegar uma bola de primeira se tornou algo humanamente impossível. Em uma fração de segundos, minha mente de craque da bola mudou de ideia, e achei que o melhor era dominar. No fim, a mente pensou, o corpo executou, e o resultado é que não fiz nem uma coisa nem outra. Furei a tentativa de dominar, a bola quicou no chão, bateu na minha perna e sobrou limpa para o atacante marcar. Nunca esqueci essa falha bizarra, uma das piores na minha ex-carreira ex-promissora. Por culpa dela, perdemos aquele jogo por 3 a 0.

Depois de ficar puto com o resultado, veio a final da Copa. A minha lembrança é de um jogo tenso e de uma casa lotada de gente para ver. O Brasil não era de empolgar, e a Itália, menos ainda. Mas a história, você já sabe: Roberto Baggio, espécie de Romário da Itália na época – sim, ele jogava muita bola -, perdeu o pênalti, e o Brasil foi campeão. Foi meu primeiro título mundial, e fizemos a festa em casa. Um dia inesquecível.

Lembro que o Brasil, aquele das Olimpíadas do clube, aquele cheio de moleques bons de bola, perdeu outros jogos e não vingou. Tendo a achar que tudo foi culpa daquela estreia ridícula. Mais do que isso, daquele primeiro gol sofrido, aquele bizarro. Naquelas Olimpíadas, eu fui meio que o Baggio do meu time. Naquelas férias, eu não fui nem para o pódio. Mas, naquela Copa, eu me senti campeão do mundo pela primeira vez. Enfim, foi um aniversário bacana. Mas, se eu tivesse tirado aquela bola, teria sido perfeito.

Brasil campeão do mundo em 1994 - Foto: Arquivo

Brasil campeão do mundo em 1994 – Foto: Arquivo

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Espanha x Itália e a história de mais um brasileiro

Itália x Espanha, do meu sangue para a coleção de camisas - Foto: Ricardo Zanei

Itália x Espanha, do meu sangue para a coleção de camisas – Foto: Ricardo Zanei

Espanha x Itália, Itália x Espanha. Final da Eurocopa. Jogo daqueles de tirar o fôlego, de deixar o coração apertado. Não apenas pelo futebol, mas por ser um duelo que une histórias de vida, curiosamente, de tantos brasileiros. A minha, com certeza.

Da Itália, vieram Orlando, Mansueto e Zanei. Até onde sei, o Orlando veio de minha avó paterna. Mansueto e Zanei, do meu avô paterno. O encontro dos sobrenomes pode ter sido na Lombardia, nos arredores de Milão, ou em Trentino Alto Adige, pros lados de Trento.

Da Espanha, Parra, Hernández e Camargo. Meu avô materno era Parra Hernández, nascido em Salamanca. Minha avó, sinceramente, eu não lembro, mas o Camargo pode ter saído do norte da Espanha, mais precisamente Cantábria, colada no País Basco.

Quando pequeno, por influência da minha mãe filha de espanhol, adorava a “Fúria”. Zubizarreta, Hierro, Michel, Martín Vázquez, Sanchís, Nadal, Bakero, Ferrer, Goikoetxea, Sergi e, claro, Butrageño, são nomes que fizeram parte da minha infância. Da mesma forma, a herança italiana estava ali, e caras como Zenga, Massaro, Ancelotti, Ferrara, Bergomi, Vierchowod, Giannini, Donadoni, Mancini e Viali, além dos imortais Baresi, Maldini e Baggio.

Trocentos anos depois, minhas origens espanholas e italianas se encontram na decisão da Eurocopa. Se você pensar bem, minha razão genética de ser está toda ali. Talvez seja a final que mais explique muito do que sou, como sou ou por que sou. Assim, a final traz sentimentos, de pessoas, de sensações. Lembranças intensas e boas demais!

Todo mundo tem uma história. Algumas, mais claras. Outras, nem tanto. A decisão da Euro é, para muitos, mais um grande jogo de futebol. Para mim, é uma grande lupa sobre a minha história, a história de mais um brasileiro.

P.S.1: Um site legal para ter uma ideia geográfica de sobrenomes italianos é o Gens. De espanhóis, o MiParentela.
P.S.2: O palpite e a torcida: Itália, Azzurra! Mas, se der Espanha, o coração e a alma ficarão em paz!

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“Once Brothers”, choro e silêncio

"Once Brothers" - Foto: Divulgação

“Once Brothers” – Foto: Divulgação

É impossível ficar impassível diante do turbilhão chamado “Once Brothers”, documentário da série “30 for 30”, com 30 filmes em celebração aos 30 anos da ESPN. Não viu? Corra e assista.

Não sou especialista em cinema. Adoro filmes, mas os vejo cada vez menos. Quanto a documentários, a assiduidade é ainda menor. Mas “Once Brothers” é, pra mim, um dos melhores documentários no que já vi.

Existem trocentas sinopses do filme na internet, e não vou me ater muito nisso. Resumindo, é a história de como amizade entre Drazen Petrovic e Vlade Divac, ambos jogadores de basquete, se deteriora graças à guerra na Iugoslávia.

Na verdade, o parágrafo é uma grande mentira. É amizade, guerra, encontros, desencontros, sucessos, fracassos, sorrisos, lágrimas. É, sim, uma grande história de erros e acertos, de escolhas pessoais e impessoais, de vida.

Você aí que está pensando “há, falou que eu vou perder 1h30 da minha vida vendo uma historinha de basquete”, deixe o preconceito de lado. Não adianta disfarçar não, é com você mesmo que eu estou falando. O basquete está ali, servindo de pano de fundo, mas passa desapercebido em tantas e tantas vezes que você até esquece que tem a ver com uma bola e duas cestas.

"Once Brothers", Petrovic e Divac - Foto: Reprodução

“Once Brothers”, Petrovic e Divac – Foto: Reprodução

Aliás, a história é tão complexa e envolve tanta coisa que o doente por esporte, e só por esporte, corre o sério risco de ficar boiando. Ou de ficar apenas na superfície do que está na tela, sem perceber que tudo está debaixo daquele enorme tapete. Curiosamente, é um documentário de foge tanto do âmbito esportivo que se torna um prato cheio para aulas de Filosofia, Geografia, História e Sociologia.

Vi o filme pela primeira vez em dezembro de 2010, numa madrugada solitária de trabalho no UOL Esporte. Fico feliz pelo “solitária”, já que chorei que nem criança. Hoje, 16/05, em um intervalo de “A Liga”, da Band, corri os canais e vi que estava passando ma ESPN. Vi e chorei novamente.

Claro, existem pontos de vista e pontos de vista, e “Once Brothers” mostra apenas um deles. Com isso em mente, fica evidente que Divac não é um santo, nem Petrovic é o diabo. E vice-versa. É uma história sem mocinho nem bandido.

“Once Brothers” é o tipo de filme que te deixa pensando na vida por horas, dias. Tentar entender como e por que irmãos “de sangue” se separam exatamente pelo mesmo sangue que os uniu, pelo ponto geográfico onde nasceram, é um desafio. Aí, a vida passa, e tudo que poderia ser dito se perde no silêncio.

“Once Brothers” – Trailer legendado

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