Arquivo da categoria: Análises espertas do cotidiano

Uma história sobre o “Dia Internacional das Minas”

Ainda é tempo, né?

Não me lembro ao certo a data, mas foi entre 2009 e 2011. Mas o que rolou é inesquecível, no péssimo sentido da palavra “inesquecível”. Foi em um belo fim de semana de trabalho que certo ser me pergunta se teríamos um álbum de fotos sobre determinado assunto, pois gostaria de usar o mesmo na home page de um portal no qual eu trabalhava. Era de praxe rolar o tal álbum, mas, como não era a área dele, ele não teria obrigação de saber que sempre fazíamos aquilo.

Pouco depois, 10, 15min, se tanto, a pessoa responsável pelo álbum, jornalista do mais alto garbo, competência e workaholic que só ela, mandou o link do mesmo para o email do requerente.

Passa o tempo, e nada. Passa mais de 1h, e nada. Ligo para o ramal do ser, a fim de saber se ele não usaria o link, afinal, ele mesmo havia pedido o tal álbum, que já havia, inclusive, sido turbinado com mais trocentas imagens. Ele me responde que não havia chegado nada por email.

Para me cercar de que não estava ficando louco, pergunto à jornalista que enviou o email se o mesmo havia sido, de fato, enviado. A resposta, claro, foi afirmativa. Volto a falar com o requerente e digo que ela – nesse momento, cito o nome dela no agradável papo telefônico – mandou o tal do link por email. A resposta: “Ah, é que vejo email com nome de mulher e nem penso que é de esporte”. Sim, amigos, isso aconteceu.

Quem trabalhou – trabalha – comigo sabe que meu sangue sobe de temperatura durante a labuta. Naquele dia, ferveu, ebulição instantânea, eu diria…

Acho meio piegas falar em Dia Internacional de A, B ou C, mas, mesmo sem nunca ter tocado nesse assunto publicamente, sempre surge essa história na minha mente quando chega o “Dia das Minas”. “Dia das Minas”, aliás, é a maneira carinhosa a qual me refiro à data e, mesmo assim, sou reprimido, anualmente e de forma severa, pela Bi, a minha eterna “mina”, que vai adorar a citação, mas vai odiar o “mina”. “Onde já se viu, mina? Hunf”, ela dirá, com ênfase no “mina”.

Em meio a tudo isso, posso falar da área que atuo, o jornalismo esportivo, e acredito que ser mulher nesse mundinho é uma provação diária. Tenho a sorte e o privilégio de ter vivido e de viver cercado delas. Hoje, convivo – à frente, ao lado, literalmente – trocentas horas por dia com uma mulherada que dá o sangue pelo que faz, que é trocentas vezes mais competente que tanto marmanjo que se acha por aí, que coloca muitos, mas muitos narizinhos empinados no chinelo. Ou na rasteirinha, na sandália, ou, quem sabe, no scarpin, termos mais adequado ao tema e à data.

Enfim, tudo isso para, mesmo com a pieguice, desejar um Feliz “Dia das Minas” atrasado, e que esse dia se espalhe pelos próximos 364. Dias, não, milênios. E que mostre que, mesmo com a idiotice humana citada nesse post, vocês, via de regra – tem umas exceções e até vocês sabem quem são -, são melhores. Sempre.

P.S.: Sobre a história, e tenho testemunhas para confirmar a veracidade da patacoada (para não chamar de filhadapu…), não vou citar nomes. O que posso dizer é que ela está aí, brilhando como sempre e, se é que isso é possível, sendo ainda mais sensacional. Mais: está prestes a conhecer um mundo novo, pronta para voar, voar, voar. Ele, sinceramente, não tenho ideia. Afinal, pra quê, né?

1 comentário

Arquivado em Análises espertas do cotidiano

Não existe racismo no Brasil*

Racismo? No Brasil? Não existe. Sério, pessoal, que papinho é esse.

Estamos no século 21, nosso país está mais civilizado e evoluído do que nunca. Racismo? Há!

Não entendo as pessoas ainda falarem disso. É claro, é cristalino, vejam meu exemplo.

A família do meu pai, italianos e cariocas, Orlandos, Mansuetos e Zaneis. Meu avô materno, espanhol, Parra Hernández, de Salamanca. Minha avó materna, de linhagem indígena, carregou um Camargo, que pode indicar um encontro espanhol antes do meu avô ou, ainda, ter nascido em Portugal. Ou seja, minhas raízes vieram de todos os cantos!

Minha pele é branca, bem branca, branca mesmo. Quando tomo sol, ou fico naquele rosa ridículo, ou naquele vermelho prestes a dar entrada no pronto-socorro. Tomo até vitamina D para suprir a falta dela no meu organismo!

Sou de Santo André. Para quem não sabe onde é, São Paulo faz parte da Grande Santo André. Para muitos, é interior. “Interior”. Há, balela.

Minha família sempre foi de classe média. Estudei em escola particular. Fiz faculdade particular.

Mesmo com tudo isso, com tudo isso, gente do céu, nunca fui vítima de racismo. Sou miscigenado, vindo do interior, e nunca vi nada disso. É verdade, gente. Nunca mesmo!

Deve ter muita gente (gente?) que pensa assim. É essa gente (gente?) que não pensa (pensa?) duas vezes antes de soltar um “macaco”, um “tinha que ser preto” ou qualquer outra blasfêmia preconceituosa. O motivo: a cor da pele.

Não existe racismo no Brasil. Claro que não, especialmente para alguém como eu. Mas, deveria, né? Afinal, é quase incompreensível que eu seja branco, ou, para quem olhar de perto, basicamente pálido. É só bater o olho, por exemplo, na família da minha mãe, que você tem a nítida noção da mistureba: tem negro, tem branco, tem todas as variações de cores entre o “negro” e o “branco”. Eu saí branco. Tem primo meu que é negro. E, bem, e daí?

E daí que tem muita gente como eu por aqui. Quando digo “por aqui”, falo com propriedade de São Paulo e sua mistureba toda. Quando digo como eu, digo essa essa gente (gente?) de pele branca e cara de gringo (e gringo, é bom explicar, não é preconceito com quem não é brasileiro, é apenas uma palavra de cinco letras para designar que estou falando de pessoas não nascidas no nosso país, ok?). Quando digo “como eu por aqui”, é gente (gente?) que está lendo esse texto e, pasmem, chegou até aqui na leitura. Para essa gente (gente?), para mim, não tem racismo no Brasil. É gente (gente?) que bate no peito para defender a tese furada do título desse post. Gente (Gente?)???

Tudo isso é incompreensível, mas aposto que tem gente (gente?) que consegue explicar, por A + B, todo o motivo desse repúdio. Gente (gente?) que convive comigo, com você. Gente (gente?) da minha, da sua família.

Esse blog trata prioritariamente de esporte. Os últimos acontecimentos racistas ligados a esportistas são, como diria Datena, “um tapa na cara da sociedade”. Um tapa na minha cara branca, que ficaria vermelha, depois rosa, depois voltaria ao transparente habitual. Um tapa que escancara como o brasileiro (gente, sabe?) é preconceituoso. É muito, mas muito preconceituoso.

PAUSE! Antes que os patrulheiros surjam, me antecipo. Por favor, não me venham falar que espanhol é preconceituoso, que africano é preconceituoso, que holandês, dinamarquês, japonês, dane-se. Esse texto não fala de espanhol, nem de africano, nem de holandês, dinamarquês, muito menos de japonês. Esse texto fala sobre coisas que estão acontecendo nas nossas caras, com brasileiros como eu e você, e essas “coisas” são apenas e tão somente a amplificação (“tapa na cara da sociedade”, manja?) de algo que está enraizado no nosso mundinho verde e amarelo desde sempre. Preconceito existe no Brasil desde que o “terra à vista” de Cabral, existe desde a criação da melhor mistura da história do homem, arroz com feijão. Arroz branco e feijão preto. Curioso, não? PLAY!

Se eu olhar para o meu umbigo, se eu quiser ler de uma maneira torta a parte em itálico desse texto, a conclusão clara e cristalina (clara? cristalina?) é que não existe mesmo racismo no Brasil. E tem gente (gente?) que pode não entender o quanto é torto – e mesquinho e infeliz, enfim, escolham os “elogios” – o texto em itálico aqui escrito. Uma pena que muita gente (gente?) viva a sua vida apenas em itálico, vida torta como o itálico. Pior que isso, é gente (gente?) que acredite piamente nesse papo que preconceito não existe. Século 21? Sociedade evoluída, civilizada? Balela.

P.S.1: Para quem não entendeu nada, duas aberrações nesta quinta-feira. “Árbitro relata insultos racistas e encontra bananas sobre seu carro” e “Racismo outra vez: Arouca é chamado de ‘macaco’ na saída de campo”, com direito ao áudio da agressão, que eu tive o total desprazer de ouvir ao vivo. Repugnante.
P.S.2: Ah, e para quem acha que isso é coisa de agora, tem um textinho de minha autoria na ESPN dos EUA, em inglês, que versa sobre o tema, “The not-so-beautiful side of Brazilian football”.
P.S.3: Ao me dar um beijo de boa noite, minha amada leu o título desse texto e soltou um “você realmente não está passando bem”, acho que em parte um trocadilho sobre a minha ausência no trabalho nesta quinta por motivos de saúde. Nada grave, calma, mas poderia ser se ela achasse, realmente, que eu defendia a “tese” do título. Ainda bem que foi só a pressão e a glicemia que baixaram demais. A noção de decência, não. Nem minha, nem dela.

*A falta que um sinal de ironia faz

Deixe um comentário

Arquivado em Análises espertas do cotidiano

“30 for 30”: Jimmy Connors, um bom livro de auto-ajuda e um babaca feliz

Jimmy Connors, "This Is What They Want" - Foto: Reprodução/ESPN

Jimmy Connors, “This Is What They Want” – Foto: Reprodução/ESPN

Um tenista de 39 anos, afastado das quadras, e sua última participação no US Open. Jimmy Connors fez de tudo, inclusive chover, na sua derradeira corrida, em 1991. Foi, sem dúvida nenhuma, uma das maiores sequências de jogos da história do esporte, não apenas pela qualidade, mas pela emoção e devaneio coletivo que o norte-americano causou na torcida local.

“This Is What They Want” é o documentário da espetacular e inigualável série “30 for 30” que trata desse torneio. Assista, está na programação dos canais ESPN. É de arrepiar, chorar, rir, se irritar, enfim, é tudo o que Connors representou naquele torneio. Mais: é reflexo de tudo que ele foi e fez em sua vitoriosa e quase interminável carreira.

LEIA TAMBÉM
Tudo sobre o genial “This Is What They Want” no site oficial da série “30 for 30”

A narrativa do filme é sensacional e te coloca naquele torneio como se fosse ontem. E ainda tem um lado que eu achei demais: imagine que exista um livro bom de auto-ajuda, e talvez, quem sabe, ele até já tenha sido escrito. Sabe aquelas frases de efeito, aquelas que servem em qualquer situação da sua vida, no esporte, na feira, em uma loja de CDs? Pois o filme é repleto de metáforas e de frases feitas que soam até como mantras. E o pior, ops, e o melhor é que todas fazem sentido. Sem elas, o filme não teria sentido.

Connors foi um gênio em quadra, um monstro da garra e da raça. Foi, também, um grande babaca, simplesmente porque ele era – e ainda é – um babaca. Sabe aquelas pessoas que você ama e odeia, ama porque são demais, odeia porque são babacas demais? Pois bem, Connors é um desses caras.

O final é dos mais surpreendentes. É tocante, quase indecifrável, ficam tantas perguntas no ar que o filme não acaba ali, faz você refletir sobre a vida, o mundo, enfim, como deve ser um bom livro de auto-ajuda.

Claro que não vou contar o que acontece, mas uma das frases mais curiosas vem do próprio Connors ao saber que era – é – chamado de babaca. O mais divertido é que o instante de indignação é substituído por um segundo de sinceridade, quando ele admite: “Quer saber, sou um babaca, mas sou um babaca feliz”.

E vendo o filme, fica muito claro: dá para amar e odiar muito esse babaca feliz.

P.S.: Para quem ainda não sabe, a ESPN fará uma série “30 for 30” apenas sobre futebol, aproveitando a Copa do Mundo. Não dá para adiantar nada, mas pelo que sei do que está rolando, sou obrigado a parafrasear Anitta, essa filósofa contemporânea: “Prepara”. Mais detalhes aqui.

Deixe um comentário

Arquivado em Análises espertas do cotidiano, Cinema, Tênis

14 de janeiro

Foi num 14 de janeiro que dona Zélia, minha mãe, culpada maior por eu ser quem sou, resolveu encontrar o véio que ela tanto amava e sumiu dessas bandas.

Já a culpei muito por isso. Já chorei, gritei. Já xinguei, dei murro na mesa. Já doeu, e doeu muito. Doeu tudo. Doeu no osso, na carne. Doeu na alma, até.

Não aceitei por um bom tempo. O pai, depois a mãe? Peraí, não é justo, não é assim que tem que ser.

Hoje, sei que é assim que tem que ser. Sei que aceitar diminui a dor. Sei ainda que o osso volta, a carne renasce, a alma renova.

Dói? Dói até hoje, doeu ontem, vai doer amanhã, a dor será sempre. Murro na mesa, xingar, gritar, chorar: tudo faz parte da dor, aquela dor dilacerante, descomunal. Mas faz parte, também, da volta por cima. Afinal, se não tem dor maior, se é o fundo do poço, o que resta é levantar a cabeça, se agarrar em algo e subir. Ressurgir.

A banda lá em cima hoje toca feliz, com alguns novos e surpreendentes integrantes, mas é a mais afinada do mundo. Sem culpa, o lugar é bem melhor que aqui. É, literalmente, um paraíso.

Foi num 14 de janeiro que dona Zélia, minha mãe, culpada maior por eu ser quem sou, resolveu encontrar o véio que ela tanto amava e sumiu dessas bandas.

Foi num 15 de janeiro que o herdeiro dela se deu conta que a ferida segue aberta. Dói, mas também virou saudade. Saudade de quem se ama e sempre vai se amar. Sem choro, vem vela, o que fica é isso, a lembrança, os risos, as brigas, os sorrisos. Que saudade boa!

Deixe um comentário

Arquivado em Análises espertas do cotidiano

A falta que um sinal de ironia faz

Millôr Fernandes propôs, certa feita, criar um sinal ortográfico para a ironia. Não tenho a menor dúvida que seria uma das maiores invenções da história. Mais: ajudaria a salvar a perdida humanidade.

Imagina só como seria mais fácil a sua vida com isso. Imagina, só imagina como seria escrever algo e colocar um ponto de ironia. Imagina isso nas mídias sociais, e a ideia surgiu anos-luz antes dessa praga se alastrar.

(Abrindo um parêntese para as mídias sociais: tendo a achar que o celular não é coisa de deus, e as mídias sociais são uma espécie de tridente do capeta. Se bem usadas, são sensacionais. Mas, como muita gente não tem a menor ideia do que faz, e não serei eu o guru dessa fatia da humanidade, servem apenas para cutucar e machucar, especialmente, a sua – a minha – inteligência.)

Voltando ao ponto de ironia. Imagina que lindo o quanto ele evitaria explicações e pouparia tempo, muito tempo na sua vida.  Imagina, só imagina como tudo seria como deveria ser: mais simples, mais tranquilo, mais no ponto. De ironia.

Mas, como quase tudo tem um “mas”, acho que nem ponto de ironia salvaria certa fatia da humanidade. Fatia que tem razão sempre, que entende o que quer e quando quer, que compreende só o que convém, que tem um mundo próprio e não se importa com mais nada. Aí, nem a invenção de Millôr faria milagre.

4 Comentários

Arquivado em Análises espertas do cotidiano

Jordan ou LeBron?

Existem discussões eternas, especialmente no mundo do esporte, sobre quem é melhor que quem. Pelé, Maradona ou Messi? Senna ou Schumacher? Jordan ou LeBron? A lista segue eternamente. São sete nomes nesse parágrafo: cada um com pontos a serem (arduamente) defendidos.

E se, sugestão breve, ao invés de ficar debatendo quem é melhor, quem sabe a gente resolvesse, vez ou outra, apreciar a genialidade desses caras? E se, quem sabe, e quem sou eu pra dizer, a gente trocasse a ranzinzice de brigar por A ou B e para aproveitar dribles, ultrapassagens e enterradas com sorrisos nos rostos?

Um exemplo. Apenas para esclarecer o ponto:

Quem é “viúva” de Michael Jordan levanta a mão?
Eu.

Quem acha que ele é um gênio?
Eu.

Quem torce para o Chicago Bulls por causa dele?
Eu.

Quem gosta de LeBron James?
Eu, bem, não.

Por quê?
Pela patacoada de sua saída de Cleveland.

Ok, dane-se o motivo. Ele é bom?
Sim.

Ele é muito bom?
Sim, muito.

Ele é um gênio?
Sim.

Ele é melhor que Jordan?
Não.

Ele será melhor que Jordan?
Não sei. E daí?

E daí que eu não vou discutir. Minhas razões para não gostar do que LeBron fez são as mesmas de trocentas outras pessoas, mas isso não me impede de achar que o cara é um monstro. É o cara mais perto de chegar no Olimpo de Jordan. É o cara que pode superar o reinado do eterno Michael. É o cara!

Perceba que há uma linha tênue entre o amor e o, digamos, ódio. Perceba que o não gostar bate de frente toda hora com a admiração. Perceba que prefiro ficar com a minha discussão interna e me divertir vendo o cara fazer coisas que ninguém fez do que ficar batendo boca sobre isso ou aquilo.

A linha tênue é tão fina que me animou a torrar mais dinheiro do que precisava para ver um Orlando Magic se arrastando contra um Miami Heat voando ao vivo e a cores só para contar para os netos que, se não vi Jordan em ação, vi, sim, LeBron “cara a cara”.

Mais que um? LeBron bate lance livre em quadra e no telão na vitória sobre o Magic - 20/11/2013 - Fonte: Ricardo Zanei

Mais que um? LeBron bate lance livre em quadra e no telão na vitória sobre o Magic – 20/11/2013 – Fonte: Ricardo Zanei

É legal discutir se ele é melhor que Jordan? É sim. É tema de bar, do pingado matinal à cerveja da madruga. Mas, às vezes, quem sabe, é mais legal deixar o bate-boca infinito de lado e ficar babando com as maravilhas que estamos testemunhando. Sabe aqueles senhores que falam de Pelé e Garrincha com um olhar invejoso (inveja boa) no passado, relembrando tempos geniais? Pois é, esse passado está ao vivo agora para quem quiser aproveitar.

Pensando nisso, LeBron fez coisas inacreditáveis nos últimos dias. Destaco duas delas. A primeira, contra os Lakers: uma enterrada de canhota. Uma enterrada de canhota em velocidade absurda. Uma enterrada de canhota em velocidade absurda com um olho no aro e outro na tabela, que passou milímetros de sua cabeça. Um lance para ser estudado pela ciência pela plasticidade, pela aceleração, pela sincronia, por tudo isso e muito mais. Uma jogada absurda.

A segunda: uma assistência. Dia: 30 de dezembro. Vítima: Nuggets. Foi cesta: não. Não deu em nada então? Ah, foi falta para o Heat, em cima do Mario Chalmers. Então… Então, foi genial! Sport Science se faz mais do que necessário para entender como o cara olha para a bola, vê um companheiro a meia quadra à frente e, com um tapa, repito, um TAPA, manda a bola na mão do amiguinho. Aguardo explicações lógicas para tal fato.

Quem é melhor? Pelé, Maradona ou Messi? Senna ou Schumacher? Jordan ou LeBron? Amanhã a gente discute!

1 comentário

Arquivado em Análises espertas do cotidiano, Fómula 1, Futebol, NBA

Recomeço

Já escrevi cartões de Natal, mensagens de Ano Novo. Emails na época dos emails. WhatsApp em tempos de WhatsApp. Confesso que quase parei com isso. São poucas as coisas que eu escrevo nessas datas, e cada vez escrevo menos. O motivo é simples: acho tudo muito simbólico, mas de uma falsidade absurda.

Ser legal nos dias 25 ou 31 de dezembro e esquecer disso nos outros dias do ano é de uma estupidez gigantesca. Não serei legal o tempo todo, mas a essência está ali. Usar essa essência sempre é mais importante do que o mundinho cor de rosa do Natal e do Ano Novo. Nada contra, nada contra mesmo, recebo e leio mensagens que de fato me emocionam de gente que eu sei que realmente diz aquilo de coração, mas não tenho mais como escrevê-las. Simplesmente prefiro dizer quando sinto vontade, não só nas datas simbólicas.

Assim, esse post não é para dizer Feliz Natal, muito menos um Próspero Ano Novo. Na verdade, é para anunciar um recomeço que não vai mudar a vida de ninguém, mas será legal pra mim. Pretendo reativar esse blog e voltar a escrever as bobagens de sempre. Ou melhor: mais bobagens e mais sempre, e não esporadicamente. Assim, soa mais como o meu “espírito de Natal”, aquele que não dura só na data em que os shoppings se entopem e os cartões de crédito comemoram com sorrisos largos.

Este post está parecendo auto-ajuda, mas vou continuar. Se muita gente usa o 31 de dezembro para recomeçar, vou aproveitar a data protocolar para o meu recomeço. Mais um, aliás. Muita coisa tem acontecido ultimamente, e não apenas em 2013. Muita coisa boa, algumas ruins, mas todas verdadeiras aulas que me fizeram encarar tudo de outra maneira. Mais simples, talvez. Mais direta, acho que sim. Melhor? Com certeza. Recomeço atrás de recomeço.

Se você gosta de mensagens de Ano Novo, este post não é pra você. Virou meia-noite, a vida segue, e não há champanhe quente que faça com que as coisas se acertem, a não ser que você mude, ou se aprimore no que faz melhor. Se você se importa com mensagens de Ano Novo, que feio ler este post justamente hoje, na véspera do feriado. Se você não está nem aí, mas um “nem aí” positivo, para o bem, talvez estejamos na mesma página.

E é nessa página que as coisas começam a mudar a partir de já. Sem contagem regressiva, nem mensagens tortuosas. Sem farofa, leitão, arroz com passas, maionese quente, cerveja e aquela cidra safada. Afinal, não posso comer nem beber nada disso. Mas, enfim, uau, que boa nova, hein? Uhu! Aos dois leitores assíduos deste blog, vamos que vamos.

1 comentário

Arquivado em Análises espertas do cotidiano

Anderson Silva e um tipo tipicamente brasileiro

– Não sei se fui só o único, mas ao lado do meu sobrinho e de um amigo, quando Anderson caiu estatelado, imperou o silêncio. Ninguém falou nada por mais de 10min.

– Perder é parte do jogo. Ninguém ganha sempre. A maneira como se perde é que causa tudo isso.

– Provocar é parte do jogo. Provocar, às vezes, ganha jogo. Provocas, outras vezes, perde jogo. É assim.

– O limite da provocação para o desrespeito é tênue e vai de pessoa para pessoa. O meu limite é diferente do seu, do Anderson Silva, do Chris Weidman…

– Arcar com as consequências dos seus atos é algo default na minha vida. Se faço A, tenho que responder pelo A que foi feito. Simples.

– Existe, claro, o (in)consciente coletivo: há o brasileiro provocador vencedor e o brasileiro provocador perdedor.

– O brasileiro provocador vencedor é resultado da provocação que dá certo. É o malandro, é a ginga, é o jeitinho, é o esperto, é o inteligente. Amado e louvado, obviamente, porque vence, quando vence.

– O brasileiro provocador perdedor é resultado da provocação que dá errado. É o idiota, é o desrespeitoso, é o espertalhão, é o burro. Execrado e xingado, obviamente, porque perde, quando perde.

– E quando é o rival do brasileiro que provoca? Execramos o herege. Tanto na vitória ou na derrota dele.

Isto posto, uma breve análise do assunto: Anderson Silva perdeu. E é claro que a maneira como foi me deixa puto, mas isso não apaga a história do cara, por mais que a imagem recente fique brigando, na minha mente, com os nocautes anteriores e espetaculares.

Sobre a derrota em si, para mim, ele superou a tênue linha que separa a provocação do desrespeito. “Ah, se fosse comigo, eu enchia a cara dele de porrada”, pensei. Foi o que Weidman fez. E, pensando que o esporte consiste basicamente em derrubar o oponente, o fez muito bem.

Voltando ao (in)consciente coletivo: Anderson Silva se tornou, em um piscar de olhos, no brasileiro provocador perdedor. Era um gênio até 1h30. Aquele cara bacana, que brinca com a própria voz fina, que faz aulas de inglês e come hambúrgueres em rede nacional. Uma canhota no queixo e, à 1h31, virou um grandioso idiota. De bestial a besta em 1min.

Em tempos internéticos, meu sobrinho, acho que sem saber, demonstrou o que muita gente sente. Entrou na página do Anderson no Facebook e “descurtiu”. “Daqui a um mês eu volto a curtir, mas hoje…”. Confesso que dá para entender.

No caminho para casa, fiquei pensando. Sei que o “se” não existe, mas não me saiu da cabeça: E se ele ganhasse a luta? E se a provocação desse certo? E se, ao invés da esquerda de Weidman, uma direita de Anderson colocasse o rival na lona, estatelado? E se…

Se apenas uma das suposições acima acontecesse, e acho que o (in)consciente coletivo não me desmentiria, ele seria o brasileiro provocador vencedor, o Emerson que não cai na laia argentina, provoca o zagueiro do Boca e ainda é campeão da Libertadores. O brasileiro malandro, esperto, sagaz.

Mas, bem, o “se” não existe. Então, ele volta a estaca zero, ou melhor, ao pedestal de inimigo público número 1, o completo idiota, o pai de todos os babacas, uma espécie de Higuita que perde a bola para o Milla e dá adeus à Copa. O brasileiro imbecil, estúpido, o malandro que só se ferra. O brasileiro, acima de qualquer coisa, perdedor. É, quem diria, Anderson Silva…

(Outra coisa que li por aí: foi armação? Eu acho que não e, se você acha que sim, te respeito, mas não mudo a minha opinião até que me provem o contrário.)

P.S.: Esse texto foi escrito na madrugada e, por favor, perdoem ocasionais erros de digitação.

1 comentário

Arquivado em Análises espertas do cotidiano, Lutas, MMA

E o céu ganhou um craque

Ele driblava todo mundo. Ele já devia ter driblado uns dois quando passou pelo quarto-zagueiro. O drible foi seco, mas o toque foi um pouco forte demais. A bola vinha em minha direção. Ele, idem. Eu, em direção a eles. Tudo muito rápido. Na linha da meia-lua, o encontro. Inexplicavelmente, eu cheguei antes e mandei a bola pro mato. Ele chegou um instante depois e soltou a bomba de esquerda. Se pegasse na bola, seria gol na certa, eu acho. Pegou em cheio, sim, no meu pé direito.

Pelo que falaram, o tombo dos dois foi cinematográfico. Eu voei pr’um lado. Ele, pro outro. Caí de costas no chão com aquela sensação de “aí, tá doendo tudo”. O juizão veio e disse, sem tato algum: “Ricardão, não mexe que eu acho que quebrou”. A caneleira estava dobrada. De longe, a impressão era que a perna tinha quebrado. Mas bastaram alguns segundos pra levantar e falar: “Pô, até que não dói tanto, tô bem”.

Acho que aconteceu o mesmo com ele. Quando a gente se deu conta que um tinha chutado o outro, foi aquele negócio de “Cacete, você tá bem? Caramba, foi mal, errei”. Mas a bola tinha que continuar rolando. Um abraço e segue o jogo. Quando acabou, nos falamos de novo, preocupados um com o outro. “Foi sem querer”. “Relaxa, nem doeu”.

Meu pé direito estava inteiro. Pelo menos, eu achava isso. Tinha um risquinho que ia do dedão até o calcanhar, na parte interna, na “chapa”. Meia hora depois do jogo, o risquinho se tornara uma faixa vermelha. Duas, três horas depois, estava preta. E doía. Como doía.

O ano, 1995, 1996, talvez 1997. Não lembro. Lembro que, na primeira semifinal, a do choque cinemaográfico, o time dele tinha vencido. O meu tinha liderado o ano inteiro, se classificado para o mata-mata em primeiro, mas perdemos a primeira semi. Não lembro, mas foi algo como 2, 3 a 0. Ele, como tantas vezes já fizera, sobrou naquele dia. Afinal, o moleque jogava muito. Não, você não está entendendo: ele jogava muito, mas muito mesmo. Levava o time nas costas.

No dia seguinte à primeira semi, veio a segunda. Sabe como é campeonato de clube, né? “Atleta” não pode muito descansar. Meu pé não cabia na chuteira. Doía, cacete, como doía. Que não me leiam, mas fui no massagista e enchi o pé e o meião de éter. Só daria para jogar se não sentisse o pé. Dois meiões e a caneleira? Que nada. Não cabia tudo isso na chuteira. Com o pé inchado, gigantesco, foi um meião só, sem caneleira, e quase sem conseguir amarrar o cadarço.

Eles ganharam? Empatamos? Ganhamos? Não lembro. Só sei que paramos na semi, e o time dele foi para a final. Não lembro se ele foi campeão ou não, mas eu não disputei o terceiro lugar: era dia de Fuvest e não pude jogar. Resultado: o último jogo que eu estava inteiro jogando foi contra ele. Ou melhor, com ele.

Meu pai conhecia o dele desde sempre. Minha mãe, idem. A gente se conheceu no clube. Jogamos juntos, até. Não lembro se foi em 1987, 1988, 1989… Só lembro que faz tempo. E dali nasceu um carinho, uma amizade e um respeito gigantescos. Nos 10 anos seguintes, praticamente nos víamos todos os fins de semana. Ora jogando um contra o outro. Ora quando calhava de ver o jogo um do outro. Ora praticamente na catraca, com um chegando pra jogar e outro indo embora depois de bater a sua bolinha. Isso quando não nos encontrávamos na rua, já que, por alguns meses, ele morou há um quarteirão de casa.

Veio o cursinho – não, eu não passei naquela Fuvest – e o destino quis que um primo dele se tornasse um dos meus melhores amigos. “Caraca, que mundo pequeno”. “Quem diria?”. Amigo esse que fez faculdade comigo. Amigo que casou e, se não me engano, foi no casamento que encontrei com ele pela última vez. Isso faz uns oito, dez anos? Não lembro.

Depois disso, os encontros se tornaram internéticos. Vez ou outra, uma troca de frases pelo Facebook, um “curtir” aqui e ali, cada vez menos frequentes. Mas, de qualquer forma, na Internet ou na vida real, nos últimos, sei lá, 25 anos, esse cara estava por ali. E o carinho e o respeito eram sempre recíprocos.

Eis que chega o 1º de maio, estou indo trabalhar e o WhatsApp pisca. A notícia foi arrasadora. Parei o carro no primeiro canto livre da Gabriel Monteiro da Silva e fiquei olhando para o celular, incrédulo. Dois cliques no Facebook e, bem, a notícia estava lá também. A pergunta que me veio à mente foi a mesma que aparecia quando ele fazia estripulias com a bola: Como assim? COMO ASSIM?

Pior – ou melhor – é que tudo tem seus “comos” e seus “assins”. É inacreditável num primeiro momento – e num segundo, terceiro… -, mas, uma explicação deve ter. Afinal, como assim? COMO ASSIM?

Só sei que, ao ficar olhando, incrédulo, para a tela do celular, me veio na cabeça a jogada inteira, a dividida, a queda, o abraço, o fim do jogo, a ida ao Cefro, o pé zoado na salmoura – fiquei um ano sem sentir o dedão, que só voltou a dar sinal de vida depois de algumas sessões de fisioterapia -, o futebol no clube, os anos de amizade. COMO ASSIM?

É, amigo, não sei responder a pergunta. Sinceramente, gostaria de voltar no tempo e dividir aquela bola contigo de novo. E de novo. E de novo. E até ia de dar uma “canja” e tirar o pé só pra ver de perto se ia sair mais um golaço. Acho que ia. Ia sim. Aquela canhotinha era precisa demais. E acho que ia dar vontade de aplaudir, mas, sabe como é, ia pegar mal pra mim.

Enquanto o “COMO ASSIM?” ecoa na cabeça, só sei que a pelada no céu ganhou um fora de série. E a gente aqui, enquanto não nos vermos por aí, vamos seguir dividindo, caindo, levantando. O pé pode doer, mas no dia seguinte tem outro jogo. Sem tempo de descanso. E não descansa daí não, moleque. Sai driblando que, daqui, a gente continua aplaudindo. Afinal, você foi, e sempre será, um craque.

3 Comentários

Arquivado em Análises espertas do cotidiano

Sobre Abidal, continuar e duas lições

Passei quatro dias longe de Internet, computador, trabalho e esporte. Vi quase nada do mundo. Depois de trocentos dias consecutivos – e algumas madrugadas – de trabalho, precisava dar férias para os neurônios. Mas, sabe como é, para fechar o domingo, resolvi ligar o maldito laptop. Dessa vez, bendito.

E foi só aí que vi que Abidal voltou a jogar.

É difícil encontrar palavras para falar sobre Abidal (recomendo o belo texto de Leandro Stein no Trivela). Dane-se se você gosta ou não de futebol. Saber que Abidal é um defensor francês que atua no Barcelona não muda em nada a história toda. O ponto central da questão é: por causa de caras como Abidal que a gente, inutilmente pequeno, vê que uma maneira digna de viver é continuar.

Ganhar e perder é do jogo, é da vida. Sabe como é, você pode fazer tudo direitinho e perder aos 48min do segundo tempo. Paciência. Ou, ainda, errar completamente a bola, pegar meio de canela e pensar que o chute vai sair do estádio, mas ela desvia no zagueirão, mata o goleiro e, olha só, é o seu time ganhando aos 48min.

A lição de Abidal é continuar. Continuar não significa fazer a mesma coisa sempre. Continuar é, sim, não desistir. É ver que, ganhando ou perdendo, mandando ou não a bola na arquibancada, ainda há esperança de ter mais um segundo, mais um momento para sorrir. Se esse segundo existir, agarre-se a ele. É de segundo em segundo que pequenas vitórias se transformam em conquistas.

Madrugada dessas, assisti ao mais do que espetacular “Survive and Advance”, mais um daqueles filmes da série “30 for 30” da ESPN que você tem vontade de ver, rever, rever, rever… E chorar em todas elas.

O discurdo de Jimmy Valvano no ESPY Awards de 1993 é daqueles para deixar sempre por perto. Naqueles dias em que o mundo está acabando, leia e releia. A transcrição pode ser encontrada nesse link, e o vídeo do discurso completo está aqui embaixo.

Uma parte veio muito a calhar neste domingo:

When people say to me how do you get through life or each day, it’s the same thing. To me, there are three things we all should do every day. We should do this every day of our lives. Number one is laugh. You should laugh every day. Number two is think. You should spend some time in thought. Number three is, you should have your emotions moved to tears, could be happiness or joy. But think about it. If you laugh, you think, and you cry, that’s a full day. That’s a heck of a day. You do that seven days a week, you’re going to have something special.

Ri neste domingo. Pensei na vida neste domingo. E, graças a Abidal, se tornou um dia completo.

I just got one last thing, I urge all of you, all of you, to enjoy your life, the precious moments you have. To spend each day with some laughter and some thought, to get you’re emotions going. To be enthusiastic every day and as Ralph Waldo Emerson said, “Nothing great could be accomplished without enthusiasm,” to keep your dreams alive in spite of problems whatever you have. The ability to be able to work hard for your dreams to come true, to become a reality.

Valeu, Jim. Obrigado, Abidal.

Texto de 05/08/2011 – Abidal, a cicatriz e a foto que diz mais que mil palavras

Deixe um comentário

Arquivado em Análises espertas do cotidiano, Futebol