Arquivo do mês: março 2014

Uma história sobre o “Dia Internacional das Minas”

Ainda é tempo, né?

Não me lembro ao certo a data, mas foi entre 2009 e 2011. Mas o que rolou é inesquecível, no péssimo sentido da palavra “inesquecível”. Foi em um belo fim de semana de trabalho que certo ser me pergunta se teríamos um álbum de fotos sobre determinado assunto, pois gostaria de usar o mesmo na home page de um portal no qual eu trabalhava. Era de praxe rolar o tal álbum, mas, como não era a área dele, ele não teria obrigação de saber que sempre fazíamos aquilo.

Pouco depois, 10, 15min, se tanto, a pessoa responsável pelo álbum, jornalista do mais alto garbo, competência e workaholic que só ela, mandou o link do mesmo para o email do requerente.

Passa o tempo, e nada. Passa mais de 1h, e nada. Ligo para o ramal do ser, a fim de saber se ele não usaria o link, afinal, ele mesmo havia pedido o tal álbum, que já havia, inclusive, sido turbinado com mais trocentas imagens. Ele me responde que não havia chegado nada por email.

Para me cercar de que não estava ficando louco, pergunto à jornalista que enviou o email se o mesmo havia sido, de fato, enviado. A resposta, claro, foi afirmativa. Volto a falar com o requerente e digo que ela – nesse momento, cito o nome dela no agradável papo telefônico – mandou o tal do link por email. A resposta: “Ah, é que vejo email com nome de mulher e nem penso que é de esporte”. Sim, amigos, isso aconteceu.

Quem trabalhou – trabalha – comigo sabe que meu sangue sobe de temperatura durante a labuta. Naquele dia, ferveu, ebulição instantânea, eu diria…

Acho meio piegas falar em Dia Internacional de A, B ou C, mas, mesmo sem nunca ter tocado nesse assunto publicamente, sempre surge essa história na minha mente quando chega o “Dia das Minas”. “Dia das Minas”, aliás, é a maneira carinhosa a qual me refiro à data e, mesmo assim, sou reprimido, anualmente e de forma severa, pela Bi, a minha eterna “mina”, que vai adorar a citação, mas vai odiar o “mina”. “Onde já se viu, mina? Hunf”, ela dirá, com ênfase no “mina”.

Em meio a tudo isso, posso falar da área que atuo, o jornalismo esportivo, e acredito que ser mulher nesse mundinho é uma provação diária. Tenho a sorte e o privilégio de ter vivido e de viver cercado delas. Hoje, convivo – à frente, ao lado, literalmente – trocentas horas por dia com uma mulherada que dá o sangue pelo que faz, que é trocentas vezes mais competente que tanto marmanjo que se acha por aí, que coloca muitos, mas muitos narizinhos empinados no chinelo. Ou na rasteirinha, na sandália, ou, quem sabe, no scarpin, termos mais adequado ao tema e à data.

Enfim, tudo isso para, mesmo com a pieguice, desejar um Feliz “Dia das Minas” atrasado, e que esse dia se espalhe pelos próximos 364. Dias, não, milênios. E que mostre que, mesmo com a idiotice humana citada nesse post, vocês, via de regra – tem umas exceções e até vocês sabem quem são -, são melhores. Sempre.

P.S.: Sobre a história, e tenho testemunhas para confirmar a veracidade da patacoada (para não chamar de filhadapu…), não vou citar nomes. O que posso dizer é que ela está aí, brilhando como sempre e, se é que isso é possível, sendo ainda mais sensacional. Mais: está prestes a conhecer um mundo novo, pronta para voar, voar, voar. Ele, sinceramente, não tenho ideia. Afinal, pra quê, né?

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Arquivado em Análises espertas do cotidiano

Não existe racismo no Brasil*

Racismo? No Brasil? Não existe. Sério, pessoal, que papinho é esse.

Estamos no século 21, nosso país está mais civilizado e evoluído do que nunca. Racismo? Há!

Não entendo as pessoas ainda falarem disso. É claro, é cristalino, vejam meu exemplo.

A família do meu pai, italianos e cariocas, Orlandos, Mansuetos e Zaneis. Meu avô materno, espanhol, Parra Hernández, de Salamanca. Minha avó materna, de linhagem indígena, carregou um Camargo, que pode indicar um encontro espanhol antes do meu avô ou, ainda, ter nascido em Portugal. Ou seja, minhas raízes vieram de todos os cantos!

Minha pele é branca, bem branca, branca mesmo. Quando tomo sol, ou fico naquele rosa ridículo, ou naquele vermelho prestes a dar entrada no pronto-socorro. Tomo até vitamina D para suprir a falta dela no meu organismo!

Sou de Santo André. Para quem não sabe onde é, São Paulo faz parte da Grande Santo André. Para muitos, é interior. “Interior”. Há, balela.

Minha família sempre foi de classe média. Estudei em escola particular. Fiz faculdade particular.

Mesmo com tudo isso, com tudo isso, gente do céu, nunca fui vítima de racismo. Sou miscigenado, vindo do interior, e nunca vi nada disso. É verdade, gente. Nunca mesmo!

Deve ter muita gente (gente?) que pensa assim. É essa gente (gente?) que não pensa (pensa?) duas vezes antes de soltar um “macaco”, um “tinha que ser preto” ou qualquer outra blasfêmia preconceituosa. O motivo: a cor da pele.

Não existe racismo no Brasil. Claro que não, especialmente para alguém como eu. Mas, deveria, né? Afinal, é quase incompreensível que eu seja branco, ou, para quem olhar de perto, basicamente pálido. É só bater o olho, por exemplo, na família da minha mãe, que você tem a nítida noção da mistureba: tem negro, tem branco, tem todas as variações de cores entre o “negro” e o “branco”. Eu saí branco. Tem primo meu que é negro. E, bem, e daí?

E daí que tem muita gente como eu por aqui. Quando digo “por aqui”, falo com propriedade de São Paulo e sua mistureba toda. Quando digo como eu, digo essa essa gente (gente?) de pele branca e cara de gringo (e gringo, é bom explicar, não é preconceito com quem não é brasileiro, é apenas uma palavra de cinco letras para designar que estou falando de pessoas não nascidas no nosso país, ok?). Quando digo “como eu por aqui”, é gente (gente?) que está lendo esse texto e, pasmem, chegou até aqui na leitura. Para essa gente (gente?), para mim, não tem racismo no Brasil. É gente (gente?) que bate no peito para defender a tese furada do título desse post. Gente (Gente?)???

Tudo isso é incompreensível, mas aposto que tem gente (gente?) que consegue explicar, por A + B, todo o motivo desse repúdio. Gente (gente?) que convive comigo, com você. Gente (gente?) da minha, da sua família.

Esse blog trata prioritariamente de esporte. Os últimos acontecimentos racistas ligados a esportistas são, como diria Datena, “um tapa na cara da sociedade”. Um tapa na minha cara branca, que ficaria vermelha, depois rosa, depois voltaria ao transparente habitual. Um tapa que escancara como o brasileiro (gente, sabe?) é preconceituoso. É muito, mas muito preconceituoso.

PAUSE! Antes que os patrulheiros surjam, me antecipo. Por favor, não me venham falar que espanhol é preconceituoso, que africano é preconceituoso, que holandês, dinamarquês, japonês, dane-se. Esse texto não fala de espanhol, nem de africano, nem de holandês, dinamarquês, muito menos de japonês. Esse texto fala sobre coisas que estão acontecendo nas nossas caras, com brasileiros como eu e você, e essas “coisas” são apenas e tão somente a amplificação (“tapa na cara da sociedade”, manja?) de algo que está enraizado no nosso mundinho verde e amarelo desde sempre. Preconceito existe no Brasil desde que o “terra à vista” de Cabral, existe desde a criação da melhor mistura da história do homem, arroz com feijão. Arroz branco e feijão preto. Curioso, não? PLAY!

Se eu olhar para o meu umbigo, se eu quiser ler de uma maneira torta a parte em itálico desse texto, a conclusão clara e cristalina (clara? cristalina?) é que não existe mesmo racismo no Brasil. E tem gente (gente?) que pode não entender o quanto é torto – e mesquinho e infeliz, enfim, escolham os “elogios” – o texto em itálico aqui escrito. Uma pena que muita gente (gente?) viva a sua vida apenas em itálico, vida torta como o itálico. Pior que isso, é gente (gente?) que acredite piamente nesse papo que preconceito não existe. Século 21? Sociedade evoluída, civilizada? Balela.

P.S.1: Para quem não entendeu nada, duas aberrações nesta quinta-feira. “Árbitro relata insultos racistas e encontra bananas sobre seu carro” e “Racismo outra vez: Arouca é chamado de ‘macaco’ na saída de campo”, com direito ao áudio da agressão, que eu tive o total desprazer de ouvir ao vivo. Repugnante.
P.S.2: Ah, e para quem acha que isso é coisa de agora, tem um textinho de minha autoria na ESPN dos EUA, em inglês, que versa sobre o tema, “The not-so-beautiful side of Brazilian football”.
P.S.3: Ao me dar um beijo de boa noite, minha amada leu o título desse texto e soltou um “você realmente não está passando bem”, acho que em parte um trocadilho sobre a minha ausência no trabalho nesta quinta por motivos de saúde. Nada grave, calma, mas poderia ser se ela achasse, realmente, que eu defendia a “tese” do título. Ainda bem que foi só a pressão e a glicemia que baixaram demais. A noção de decência, não. Nem minha, nem dela.

*A falta que um sinal de ironia faz

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