Arquivo do mês: janeiro 2014

Diabo veste azul: Eto’o e a química com Mourinho

Foto do ano? Eto'o, o rei do clássico - Foto: Getty

Foto do ano? Eto’o, o rei do clássico – Foto: Getty

Chelsea 3 x 1 Manchester United. Samuel Eto’o 3 x 1 Red Devils. Ou seria Blue Devil 3 x 1 Reds de vergonha?

Samuel Eto’o sempre soube fazer gols. Sempre. Nasceu para isso. Veloz, habilidoso, exímio finalizador. O que mais de características um artilheiro precisa? Nenhuma. Ele sempre foi assim.

Mas quis o destino que um tal José Mourinho surgisse na vida do camaronês. Justo ele, que havia afirmado que não gostaria de trabalhar com o português. Mal sabia o atacante que seria com o “Special One” que ele somaria outros atributos à sua lista de qualidades: poder de marcação, recomposição no meio-campo, arranque de longa distância para o ataque.

Foi assim, na Inter de Milão, que Mourinho transformou um time limitado em campeão da Champions League. Diego Milito pode ter sido o grande matador daquela equipe dona da Europa em 2009-2010, mas, sem o esforço e desapego de Eto’o, duvido se iria tão longe.

A saída de Mourinho para o Real Madrid, em maio de 2010, mostrou muito bem o quanto aqueles jogadores entenderam o recado de um técnico. A despedida emocionada de Marco Materazzi, duro que nem pedra, mostra que os brutos também amam. E amaram muito aquele cara.

Ano vai, ano vem, e Mourinho volta ao Chelsea. O técnico pede, e Eto’o troca os zilhões do Anzhi por Stamford Bridge. Dane-se o salário, mas dizem por aí que ele abriu mão de mais de metade do que ele ganhava para ir para Londres. Você faria isso? “Ah, ele ganha milhões, é fácil”. Será? Confiança pouca, não?

Passa jogo, entra jogo, e pinta um Chelsea x United. Um time azul brigando pelo título palmo a palmo com Arsenal, Manchester City e, quem sabe, Liverpool, Tottenham e Everton. Um time vermelho que numa draga danada, lutando por um milagre para chegar à próxima Champions.

E vai o destino de novo abençoar Eto’o. Sorte no primeiro, posicionamento no segundo, oportunismo no terceiro. Um, dois, três gols, e o camaronês renasce sob o comando de Mourinho, mantém o Chelsea na briga e afunda ainda mais o United. Melhor, impossível. Que os deuses do futebol explicam. Ou os diabos, né, Red Devils?

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Kaká sonha com a Copa; Felipão, não

Kaká contra a Croácia, em 2006; esperança de jogar em 2014 - Foto: Reuters

Kaká, Croácia, golaço em 2006; esperança de jogar em 2014 – Foto: Reuters

Babando, com sorriso no rosto e olhos marejados cheios de esperança, Kaká falou que sonha em ser convocado para a Copa do Mundo de 2014. Chegou a ser emocionante ver a vontade que ele mostrou em disputar mais um Mundial, vontade ampliada após Felipão “deixar as portas abertas” para seu retorno à seleção. A vontade é tamanha que ele toparia jogar “meia hora”, como fez em 2002. Mas, sejamos sinceros, não vai rolar.

Galvão Bueno conduziu muito bem a entrevista com o meia, veiculada no “Esporte Espetacular”. A proximidade do narrador com o jogador fez com que ele se soltasse e falasse sobre tudo: lesão, recuperação, Real Madrid e, por fim, seleção e Copa.

Claro que tem o lado ufanista da coisa, e isso ajudou no clima emotivo. Galvão disse torcer (um torcer com cara de “tenho certeza”) para ver o craque em campo ou no banco no Brasil x Croácia, dia 12 de junho, abertura da Copa. Kaká ficou besta com isso. Eu também ficaria, visualizaria, até.

O sonho é lindo, e tem que sonhar mesmo, mas é certeza que não vai rolar. Quem conhece a história de Felipão sabe que o técnico fecha a sua “Família Scolari” bem antes de um Mundial. O grupo está definido desde a Copa das Confederações, com uma ou outra dúvida, e Kaká, nem de longe, faz “cósquinha” nas dores de cabeça do treinador. “Portas abertas” é uma maneira educada e inteligente para não queimar um jogador do quilate de Kaká, mesmo que a história recente – ou nem tão recente assim – mostre que sua cotação está bem abaixo do que já foi.

Se ele estivesse quebrando tudo, rasgando a bola, arrancando como nunca, fazendo gols, sendo rei das assistências, rolaria ainda um clamor popular por sua convocação. Mas o meia ainda oscila demais, é pouco ou nada comentado no Brasil. Ou seja, segunda-feira chega e quase ninguém sabe se ele jogou ou não no fim de semana.

A chegada de Seedorf pode ser um novo alento para Kaká, mais um combustível em seu sonho de jogar a Copa. Acho, inclusive, que vai ajudá-lo a recuperar o bom futebol. Mas nem uma explosão vai fazer Felipão mudar de ideia.

Brasil x Croácia, primeiro jogo da seleção na Copa-2006. Um chute de canhota, de fora da área, 1 a 0, vitória do “quarteto fantástico”. Aquele, sim, foi o último grande lampejo de um Kaká já debilitado. Brasil x Croácia, abertura da Copa-2014. Kaká, jogue o que jogar até lá, verá pela TV.

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Neymar, CBF, milhões e nenhuma surpresa

No ESPN.com.br: CBF propõe adiantamento financeiro para Portuguesa aceitar Série B

Alguém, sinceramente, se choca com a atitude da CBF? Pelas pessoas envolvidas, não dá para ficar abismado com isso. Dá para ensinar índole e caráter? Não, não dá.

Obviamente, o fato de não se chocar não quer dizer o quando isso é repugnante. Nojo, sabe? É esse o tipo de gente que manda no “nosso” mundinho da bola. “Nosso”, há!

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Manchete do “El Mundo”: Neymar custou mais do que o anunciado e foi mais caro que Cristiano Ronaldo

Simples, rápido, apenas duas palavras explicam: Sandro Rosell. Sem mais.

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O futebol tem a sorte de ser um esporte absolutamente sensacional e apaixonante, que mexe, muito, com corações e emoções. Sinceramente, o submundo dele, que nem é tão sub assim, é de uma podridão absurda. Se não fosse pela magia, já era, estava morto e enterrado. Uma pena.

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Como convencer um time a perder?

Joakim Noah: retroceder nunca, render-se jamais - Foto: Divulgação/McFarlane

Joakim Noah: retroceder nunca, render-se jamais – Foto: Divulgação/McFarlane

A temporada 2013-2014 da NBA tem vivido um fenômeno dos mais curiosos: se seu time é de médio para ruim, desista já do campeonato e brigue para ficar entre os últimos. O objetivo é garantir uma boa posição no próximo draft e contratar um jogador com potencial de craque a preço de banana. Todos os anos são assim, mas, dessa vez, parece que os candidatos a piores estão se multiplicando. O problema é convencer um time que perder é o grande negócio. O mais bizarro é a torcida concordar com isso. Alguns nem discutem mais isso, já admitiram que estão ali cumprindo tabela. Mas, no caso do Chicago Bulls, esse convencimento é simplesmente impossível.

A história que ronda o ex-manto de Michael Jordan não é nova: a franquia cedeu Luol Deng para o Cleveland Cavaliers por escolhas nos próximos drafts e Andrew Bynum. Em seguida, se desfez do pivô. Ou seja, abriu mão de uma de suas maiores estrelas no século para ganhar força na folha salarial. Todos os detalhes você encontra em “Para perder, Bulls tem primeiro de vencer Thibodeau”, do monstro Giancarlo Giampietro. Vale a leitura.

Pensando no futuro, a coisa é maravilhosa, afinal, repito, gasta-se menos, abre-se espaço para contratações, e as chances de candidatos a astros chegarem nos próximos drafts são boas. Para ficar perfeito, é só o time naufragar com gosto na temporada e ficar em uma péssima posição, abrindo caminho para mais um bom draft. Só esqueceram de combinar isso com o elenco e, principalmente, com o técnico Tom Thibodeau, fato que chegou a “irritar” alguns fãs de Chicago.

Muitos, mas muitos torcedores dos Bulls querem que o time siga ganhando, mas, sabe como é, nem tanto. Explicando a mentalidade: ganhar é bacana, é legal, mas ir para os playoffs e cair logo não vale a pena. O que vale a pena é tropeçar aqui e ali, fazer um ano ridículo e garantir um bom lugar no draft na próxima temporada. Você concorda?

Thibodeau, não. O coach é um daqueles caras que mataria e morreria pelo time. Exigente, estudioso, enérgico: características de um cara que não sabe perder. Não sabe e não quer perder. E passa isso para os seus comandados.

Joakim Noah, pivôzão, ídolo da torcida, resolveu dar a cara para bater contra a galera que prefere perder agora a ganhar lá na frente do que jogar o jogo como deve ser.

“Não digo nada para esses fãs, eles podem pensar o que quiserem. Mas, sabe, esse não é o verdadeiro torcedor para mim. Entende o que estou dizendo? Você quer mesmo que seu time perca? O que é isso?”

O espírito é, basicamente, aquele que deveria permear todo e qualquer atleta profissional: quando eu jogo, corro, nado, entro para vencer. Ponto final. Não importa se meu time é um lixo, não importa se é ruim para os negócios, não importa se o futuro pode ser sombrio. Dane-se. Se entrei em quadra, minha obrigação é jogar para ganhar.

Talvez por isso, por essa mentalidade, é que o Chicago apareça como a segunda melhor defesa da temporada. O ataque é péssimo, o segundo pior da liga, e pode “liderar” o quesito com a saída de Deng. Mas, de fato, isso não importa. Afinal, no basquete, não se ganha atacando, mas, sim, defendendo. E só defende, e defende bem, quem não quer perder. Tanto não quer perder que o time é o sexto melhor do Leste e, se o campeonato acabasse hoje, estaria nos playoffs. Dos sete jogos no ano, seis vitórias.

“Você realmente pensa que falamos sobre isso [perder jogos]? Sem chance, cara. Sem chance. Isso é tão distante da nossa realidade. Jogamos para um técnico que… é difícil. É difícil todos os dias. Nos trituramos todos os dias, nos esforçamos ao máximo todos os dias.”

O cenário desolador com a saída de um ídolo como Deng parecia perfeito pela maneira como a troca foi arranjada. Tudo combinado para que o time tivesse chance de fazer uma restruturação daquelas. Só esqueceram que, para ter a cereja no bolo, era necessário perder. E como convencer um elenco que isso é o melhor? Que treinar duro, duro mesmo – e Thibodeau cobra, cobra mesmo – não é a saída? Que lutar com unhas e dentes não é o melhor negócio? Que perder, ao invés de lutar para ganhar, é a bola da vez? Todas a perguntas têm a mesma resposta: com os Bulls, não vai rolar. É um time que pode não ganhar, e não vai ganhar muitas e muitas vezes, mas abrir de lutar, jamais.

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E se Neymar…

A lesão de Neymar - Foto: Reprodução

A lesão de Neymar – Foto: Reprodução

… tiver uma lesão mais complicada?

E se essa lesão o tirar da Copa do Mundo?

Ah, o “se” não existe. Concordo, e tudo aqui é um exercício de futurologia, é pensar na pior situação possível. Há uma possibilidade? Sim, e vamos trabalhar com ela.

A respostas para a questão acima é simples: sem Neymar, o Brasil perde a Copa. Se, com ele, já acho que será um feito e tanto, sem ele, já era.

A comparação é simples. Se acontece o mesmo com Messi, a resposta seria a mesma. Cristiano Ronaldo? Ribéry? Idem e idem. Eles são os melhores do mundo. Com eles, há chances, umas melhores, outras nem tanto. Perdendo qualquer um deles, esquece.

O desfalque de um cara como Neymar faria com que Felipão tivesse que quebrar a cabeça e mudar tudo em uma seleção armada, em um grupo fechado. Lembrando que o Brasil tem apenas um amistoso antes da Copa, contra a África do Sul, dia 5 de março, a situação seria calamitosa, catastrófica.

Obviamente, os deuses do futebol aprontam aqui e ali, e seria politicamente correto dizer que “tudo pode acontecer”. Neymar pode sofrer a lesão, Felipão convocar Lucas, Lucas destruir e ser “o cara” do hexa. Mas sem ficar em cima do muro, um desfalque do quilate do craque do Barcelona seria devastador. Ousaria até dizer que as chances de avançar em um mata-mata seriam ridiculamente pequenas.

Para muitos, a Copa começa dia 12 de junho, com Brasil x Croácia. Para mim, ela pode acabar em um 17 de janeiro.

P.S.: Escrevo esse texto na noite desta quinta, então, ele tem prazo de validade. Se, olha o “se” de novo aí, tudo der certo, eu mudo. Se não, fica por isso mesmo.

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Nenê x LeBron: quando um toco vale mais que mil palavras

O toco de Nenê em LeBron: antológico - Foto: Getty

O toco de Nenê em LeBron: antológico – Foto: Getty

Toco. Block, chame como quiser. O fato é que a jogada é uma das mais especiais do esporte. O objetivo do basquete, claro, é a cesta. O toco é a “anti-cesta”, o momento em que a frustração de quem o leva se mistura com a euforia de quem o aplica. É nessa hora que os imortais percebem do que uma mão espalmada batendo na bola é capaz. É nessa hora que os imortais se tornam se sentem meros mortais.

Quarta-feira, 15 de julho. Washington Wizards 114 x 97 Miami Heat. O placar, nesse caso, nada importa. O que valeu mesmo não demorou nem 1min para acontecer. Contragolpe do Heat, bola nas mãos de LeBron James. Explosão, velocidade, apetite pela cesta. A cena se repete noite após noite na NBA: lá vem mais uma jogada absurda do herdeiro de Michael Jordan.

Quando uma cena se repete muito, a gente sabe o que vai acontecer. Talvez Nenê Hilário, em um daqueles lampejos que sabe deus de onde surgem, soubesse desde o início. LeBron arranca. O brasileiro, no meio do garrafão, parece desistir da jogada. O gênio do Heat acelera e passa fácil por dois rivais. O pivô, “morto” no meio do garrafão, também. O craque voa. O gigante, idem. O monstro ensaia e executa uma bandeja. Uma mão estratosférica surge no caminho, um tapão na bola daqueles ecoa. A cena de sempre, pasmem, teve um novo final. O imortal, pasmem, trombou com um mortal. O imortal, pasmem, acaba a jogada no chão. O imortal, pasmem, se vê como um ser humano normal.

O lance é um dos mais espetaculares da temporada da NBA. Esqueçam que Nenê é brasileiro. O ponto é outro: parar LeBron é quase impossível. No ar, então, fazendo o que mais sabe, que é atacar a cesta, a tarefa é praticamente impraticável. O que geralmente se faz é parar, ver o que vai rolar e bater palma: ponto para o Heat, mais uma jogada para o DVD infinito de melhores momentos do craque. É assim o script.

Mas o pivô subverteu a ordem natural das coisas. Ousou. Os passos, contei dois aqui, foram rápidos, precisos. O salto, o tapa na bola, enfim, o movimento todo foi extremamente sincronizado. E LeBron, que cansou de fazer cestas assim, se viu estatelado no chão.

É óbvio que não foi o primeiro toco que LeBron levou na vida. É óbvio que não será o último. Mas foi “o” toco. com todos os ingredientes de crueldade que um block tem. Chame como quiser, e esse texto de seis parágrafos tenta, tenta, mas não explica nada. É a imagem que vale. E Nenê mostrou para uma das lendas vivas do esporte mundial que um belo toco vale mais que mil palavras.

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14 de janeiro

Foi num 14 de janeiro que dona Zélia, minha mãe, culpada maior por eu ser quem sou, resolveu encontrar o véio que ela tanto amava e sumiu dessas bandas.

Já a culpei muito por isso. Já chorei, gritei. Já xinguei, dei murro na mesa. Já doeu, e doeu muito. Doeu tudo. Doeu no osso, na carne. Doeu na alma, até.

Não aceitei por um bom tempo. O pai, depois a mãe? Peraí, não é justo, não é assim que tem que ser.

Hoje, sei que é assim que tem que ser. Sei que aceitar diminui a dor. Sei ainda que o osso volta, a carne renasce, a alma renova.

Dói? Dói até hoje, doeu ontem, vai doer amanhã, a dor será sempre. Murro na mesa, xingar, gritar, chorar: tudo faz parte da dor, aquela dor dilacerante, descomunal. Mas faz parte, também, da volta por cima. Afinal, se não tem dor maior, se é o fundo do poço, o que resta é levantar a cabeça, se agarrar em algo e subir. Ressurgir.

A banda lá em cima hoje toca feliz, com alguns novos e surpreendentes integrantes, mas é a mais afinada do mundo. Sem culpa, o lugar é bem melhor que aqui. É, literalmente, um paraíso.

Foi num 14 de janeiro que dona Zélia, minha mãe, culpada maior por eu ser quem sou, resolveu encontrar o véio que ela tanto amava e sumiu dessas bandas.

Foi num 15 de janeiro que o herdeiro dela se deu conta que a ferida segue aberta. Dói, mas também virou saudade. Saudade de quem se ama e sempre vai se amar. Sem choro, vem vela, o que fica é isso, a lembrança, os risos, as brigas, os sorrisos. Que saudade boa!

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