14 de janeiro

Foi num 14 de janeiro que dona Zélia, minha mãe, culpada maior por eu ser quem sou, resolveu encontrar o véio que ela tanto amava e sumiu dessas bandas.

Já a culpei muito por isso. Já chorei, gritei. Já xinguei, dei murro na mesa. Já doeu, e doeu muito. Doeu tudo. Doeu no osso, na carne. Doeu na alma, até.

Não aceitei por um bom tempo. O pai, depois a mãe? Peraí, não é justo, não é assim que tem que ser.

Hoje, sei que é assim que tem que ser. Sei que aceitar diminui a dor. Sei ainda que o osso volta, a carne renasce, a alma renova.

Dói? Dói até hoje, doeu ontem, vai doer amanhã, a dor será sempre. Murro na mesa, xingar, gritar, chorar: tudo faz parte da dor, aquela dor dilacerante, descomunal. Mas faz parte, também, da volta por cima. Afinal, se não tem dor maior, se é o fundo do poço, o que resta é levantar a cabeça, se agarrar em algo e subir. Ressurgir.

A banda lá em cima hoje toca feliz, com alguns novos e surpreendentes integrantes, mas é a mais afinada do mundo. Sem culpa, o lugar é bem melhor que aqui. É, literalmente, um paraíso.

Foi num 14 de janeiro que dona Zélia, minha mãe, culpada maior por eu ser quem sou, resolveu encontrar o véio que ela tanto amava e sumiu dessas bandas.

Foi num 15 de janeiro que o herdeiro dela se deu conta que a ferida segue aberta. Dói, mas também virou saudade. Saudade de quem se ama e sempre vai se amar. Sem choro, vem vela, o que fica é isso, a lembrança, os risos, as brigas, os sorrisos. Que saudade boa!

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