Arquivo do mês: maio 2013

E o céu ganhou um craque

Ele driblava todo mundo. Ele já devia ter driblado uns dois quando passou pelo quarto-zagueiro. O drible foi seco, mas o toque foi um pouco forte demais. A bola vinha em minha direção. Ele, idem. Eu, em direção a eles. Tudo muito rápido. Na linha da meia-lua, o encontro. Inexplicavelmente, eu cheguei antes e mandei a bola pro mato. Ele chegou um instante depois e soltou a bomba de esquerda. Se pegasse na bola, seria gol na certa, eu acho. Pegou em cheio, sim, no meu pé direito.

Pelo que falaram, o tombo dos dois foi cinematográfico. Eu voei pr’um lado. Ele, pro outro. Caí de costas no chão com aquela sensação de “aí, tá doendo tudo”. O juizão veio e disse, sem tato algum: “Ricardão, não mexe que eu acho que quebrou”. A caneleira estava dobrada. De longe, a impressão era que a perna tinha quebrado. Mas bastaram alguns segundos pra levantar e falar: “Pô, até que não dói tanto, tô bem”.

Acho que aconteceu o mesmo com ele. Quando a gente se deu conta que um tinha chutado o outro, foi aquele negócio de “Cacete, você tá bem? Caramba, foi mal, errei”. Mas a bola tinha que continuar rolando. Um abraço e segue o jogo. Quando acabou, nos falamos de novo, preocupados um com o outro. “Foi sem querer”. “Relaxa, nem doeu”.

Meu pé direito estava inteiro. Pelo menos, eu achava isso. Tinha um risquinho que ia do dedão até o calcanhar, na parte interna, na “chapa”. Meia hora depois do jogo, o risquinho se tornara uma faixa vermelha. Duas, três horas depois, estava preta. E doía. Como doía.

O ano, 1995, 1996, talvez 1997. Não lembro. Lembro que, na primeira semifinal, a do choque cinemaográfico, o time dele tinha vencido. O meu tinha liderado o ano inteiro, se classificado para o mata-mata em primeiro, mas perdemos a primeira semi. Não lembro, mas foi algo como 2, 3 a 0. Ele, como tantas vezes já fizera, sobrou naquele dia. Afinal, o moleque jogava muito. Não, você não está entendendo: ele jogava muito, mas muito mesmo. Levava o time nas costas.

No dia seguinte à primeira semi, veio a segunda. Sabe como é campeonato de clube, né? “Atleta” não pode muito descansar. Meu pé não cabia na chuteira. Doía, cacete, como doía. Que não me leiam, mas fui no massagista e enchi o pé e o meião de éter. Só daria para jogar se não sentisse o pé. Dois meiões e a caneleira? Que nada. Não cabia tudo isso na chuteira. Com o pé inchado, gigantesco, foi um meião só, sem caneleira, e quase sem conseguir amarrar o cadarço.

Eles ganharam? Empatamos? Ganhamos? Não lembro. Só sei que paramos na semi, e o time dele foi para a final. Não lembro se ele foi campeão ou não, mas eu não disputei o terceiro lugar: era dia de Fuvest e não pude jogar. Resultado: o último jogo que eu estava inteiro jogando foi contra ele. Ou melhor, com ele.

Meu pai conhecia o dele desde sempre. Minha mãe, idem. A gente se conheceu no clube. Jogamos juntos, até. Não lembro se foi em 1987, 1988, 1989… Só lembro que faz tempo. E dali nasceu um carinho, uma amizade e um respeito gigantescos. Nos 10 anos seguintes, praticamente nos víamos todos os fins de semana. Ora jogando um contra o outro. Ora quando calhava de ver o jogo um do outro. Ora praticamente na catraca, com um chegando pra jogar e outro indo embora depois de bater a sua bolinha. Isso quando não nos encontrávamos na rua, já que, por alguns meses, ele morou há um quarteirão de casa.

Veio o cursinho – não, eu não passei naquela Fuvest – e o destino quis que um primo dele se tornasse um dos meus melhores amigos. “Caraca, que mundo pequeno”. “Quem diria?”. Amigo esse que fez faculdade comigo. Amigo que casou e, se não me engano, foi no casamento que encontrei com ele pela última vez. Isso faz uns oito, dez anos? Não lembro.

Depois disso, os encontros se tornaram internéticos. Vez ou outra, uma troca de frases pelo Facebook, um “curtir” aqui e ali, cada vez menos frequentes. Mas, de qualquer forma, na Internet ou na vida real, nos últimos, sei lá, 25 anos, esse cara estava por ali. E o carinho e o respeito eram sempre recíprocos.

Eis que chega o 1º de maio, estou indo trabalhar e o WhatsApp pisca. A notícia foi arrasadora. Parei o carro no primeiro canto livre da Gabriel Monteiro da Silva e fiquei olhando para o celular, incrédulo. Dois cliques no Facebook e, bem, a notícia estava lá também. A pergunta que me veio à mente foi a mesma que aparecia quando ele fazia estripulias com a bola: Como assim? COMO ASSIM?

Pior – ou melhor – é que tudo tem seus “comos” e seus “assins”. É inacreditável num primeiro momento – e num segundo, terceiro… -, mas, uma explicação deve ter. Afinal, como assim? COMO ASSIM?

Só sei que, ao ficar olhando, incrédulo, para a tela do celular, me veio na cabeça a jogada inteira, a dividida, a queda, o abraço, o fim do jogo, a ida ao Cefro, o pé zoado na salmoura – fiquei um ano sem sentir o dedão, que só voltou a dar sinal de vida depois de algumas sessões de fisioterapia -, o futebol no clube, os anos de amizade. COMO ASSIM?

É, amigo, não sei responder a pergunta. Sinceramente, gostaria de voltar no tempo e dividir aquela bola contigo de novo. E de novo. E de novo. E até ia de dar uma “canja” e tirar o pé só pra ver de perto se ia sair mais um golaço. Acho que ia. Ia sim. Aquela canhotinha era precisa demais. E acho que ia dar vontade de aplaudir, mas, sabe como é, ia pegar mal pra mim.

Enquanto o “COMO ASSIM?” ecoa na cabeça, só sei que a pelada no céu ganhou um fora de série. E a gente aqui, enquanto não nos vermos por aí, vamos seguir dividindo, caindo, levantando. O pé pode doer, mas no dia seguinte tem outro jogo. Sem tempo de descanso. E não descansa daí não, moleque. Sai driblando que, daqui, a gente continua aplaudindo. Afinal, você foi, e sempre será, um craque.

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Arquivado em Análises espertas do cotidiano