Arquivo do mês: julho 2012

A quarta Olimpíada do resto de nossas vidas

Aneis olímpicos - Foto: Reprodução

Aneis olímpicos – Foto: Reprodução

Essa é a minha quarta Olimpíada como jornalista, a quarta Olimpíada de São Paulo (perdedor, hein?). Cada uma teve a sua peculiaridade, muito, graças ao tempo. Sim, é babaca falar isso, mas o tempo – o meu e dos Jogos – moldou isso.

A primeira foi em 2000, ainda na faculdade, fazendo aquele frila divertido e mal pago apenas dos jogos de futebol. Foi divertido porque eu trabalhava de casa e uniu o útil e o agradável. Afinal, eu ia ver as partidas mesmo, e escrever sobre foi até um extra.

Quatro anos depois eu estava fazendo placar ao vivo, resultados e quadro de medalhas no UOL. Foi algo insano, trocentas horas de trabalho por dia que passavam voando. Era tanta informação que, falando francamente, não guardei quase nada no cérebro. Quem ganhou o jogo tal? Não sei, mas trabalhei nele. Foi cansativo e, talvez, a cobertura mais legal que eu participei.

Pequim foi, talvez, uma das maiores lições que eu tive na profissão. Trabalhando no site da Abril, o Abril.com, fazia-se de tudo: notinhas, placar ao vivo, resultados, medalhas, álbuns, enfim. O que imaginar, a gente fazia. O horário era ingrato, e foi a cobertura que mais me estragou na vida – fisicamente falando. Só para ter uma ideia, o primeiro dia de sono pós-olímpico foi literalmente quase isso, um dia inteiro dormindo. O corpo estava morto, mas, a cabeça, feliz.

Agora vem Londres. A expectativa é bem realista: muito trabalho, vida social nula, chance zero de medalha. A expectativa só vai ser confirmada – ou não – depois da cerimônia de encerramento. Expectativa bem mais realista do que a de muitos atletas brasileiros em Londres.

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Joel, o técnico mais demitido do Brasil

Joel Santana no Flamengo - Foto: Bruno Turano/Vipcomm, Arte/Ricardo Zanei

Joel Santana no Flamengo – Foto: Bruno Turano/Vipcomm, Arte/Ricardo Zanei

Nunca na história recente desse país um técnico foi tanta vezes demitido como Joel Santana no Flamengo. É impressionante: basta o time jogar para que ele entre em campo na corda bamba. A partida termina, e ele balança, balança, balança. Até agora, cair, que é o que muita gente quer, não cai.

É curioso ver que, no dia seguinte após qualquer jogo, bom ou ruim, com vitória, empate ou derrota, rola uma reunião da diretoria. Eu imagino os caras fechados em uma bela sala refrigerada, tomando um cafezinho e beliscando aquele biscoito Globo, quando alguém resolve começar o papo: “E o Joel, hein?”. Duas horas depois, as portas são abertas, e a decisão é que o técnico fica.

Enquanto isso, acho que os amigos jornalistas que trabalham no Rio já cansaram de deixar pronto o texto da demissão. Sabe como é, como o cara pode cair a qualquer momento, é melhor estar previnido. Até eu teria o meu lide, algo como:

O técnico Joel Santana foi demitido do comando do Flamengo nesta xxxx. A decisão, anunciada nesta tarde por Zinho, diretor de futebol, foi tomada depois de uma reunião da cúpula rubro-negra. O motivo foi a série de maus resultados da equipe no Campeonato Brasileiro.

Ou:

O técnico Joel Santana pediu demissão nesta xxxx demitido do comando do Flamengo. A decisão foi anunciada pelo próprio treinador, depois de reunião com Zinho, diretor de futebol, e outros integrantes da cúpula rubro-negra. O motivo foi a série de maus resultados da equipe no Campeonato Brasileiro.

Ou ainda:

Joel Santana não é mais o técnico do Flamengo . A decisão, em comum acordo, foi anunciada nesta tarde por Zinho, diretor de futebol, depois de uma reunião da cúpula rubro-negra com o treinador. O motivo foi a série de maus resultados da equipe no Campeonato Brasileiro.

Acho que Joel ainda não caiu por duas razões. A primeira é o valor da multa rescisória, algo em torno de R$ 2 milhões. Outra é o fato de nenhum medalhão estar disponível no mercado. Sabe como é, na atual fase do Flamengo, o melhor é contratar um véio de guerra, né? Sem palavras.

Enfim, hoje é dia de mais uma reunião no Flamengo…

P.S.: Atualizando às 15h00, obrigado, Flamengo, por demitir o Joel bem no dia desse post. Que mancada…

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Uma visita sem graça ou enchendo as sacolinhas

Visita e sacolinhas de compras - Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

Visita e sacolinhas de compras – Foto: Lalo de Almeida/Folhapress

O Brasil não tem nenhuma medalha de ouro olímpica no futebol masculino principalmente graças à sua postura. Acho de uma arrogância absurda tirar o time da Vila Olímpica e deixar em um hotel de luxo, afastado de todo aquele clima bacana que une os Jogos.

Na verdade, as Olimpíadas só são o que são pelo clima que une atletas de todo o planeta. Ali, o cara do Sri Lanka dos 3.000 m com obstáculos almoça ao lado do indiano do badminton, flerta com a argentina do hóquei na grama e troca pins com o técnico de tênis de mesa da China. As pessoas se conhecem, conversam sabe Deus em que idioma, trocam informações e culturas, enfim, fazem aquele samba do criolo doido. O futebol brasileiro, bem, está fora de tudo isso.

A impressão que eu tenho é que os donos da CBF acham que a molecada é superior ao cara do Sri Lanka, ao indiano, à argentina, ao chinês. A impressão é que o futebol vale mais que o atletismo, o badminton, o hóquei na grama, o tênis de mesa. No fim, a medalha do futebol conta um pontinho na classificação, o mesmo que todos os outros esportes.

No fundo, a visita dos jogadores na Vila Olímpica ficou com cara de dia de folga no shopping. Sabe aquele dia que o técnico dá folga e todo mundo sai para fazer compras? Pois é. A cena que ficou foi essa. Ao invés de integração, de conhecer gente nova e culturas completamente distintas da sua, a seleção brasileira de futebol voltou para o seu ninho luxuoso com outra coisa: sacolinhas de compras. E muitos bichinhos de pelúcia.

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Renan Barão, a conquista do cinturão e o seleto “Clube dos 9”

Renan Barão, campeão do UFC - Foto: Nick Laham/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Renan Barão, campeão do UFC – Foto: Nick Laham/Zuffa LLC/Zuffa LLC via Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Existe um seleto grupo brasileiro no UFC. Para entrar na confraria, a regra é simples: comer muito feijão com arroz, ganhar de algumas babas, ganhar de muita gente casca grossa e ganhar o cinturão. Simples assim.

O seleto grupo era conhecido mundialmente como “Clube dos 8”. Na verdade, acabei de inventar o termo, mas ele já nasce defasado. Isso por que, na madrugada deste domingo, graças a um cara chamado Renan Barão, o “Clube dos 8” virou “Clube dos 9”.

Barão se credenciou a entrar na patotinha – e a mudar o nome da turminha – com a vitória sobre Urijah Faber no UFC 149, resultado que garantiu ao potiguar o cinturão interino do peso galo. Dane-se que é interino, cinturão é cinturão.

Mas que raios é “Clube dos 9”? Curioso isso… O UFC conta com mais de 2000 lutas em quase 19 anos de história, com 350 lutadore, sendo 60 deles brasileiros. Hoje, o MMA é um fenômeno mundial, e boa partes dos brasileiros fala de lutas como fala de futebol. Mas, olha só que coisa estranha, apenas 9 (leia-se NOVE) lutadores do Brasil conseguiram um cinturão.

Esqueça, por enquanto, dos primórdios. Pense apenas na era de disputas por cinturões, era que vivemos até hoje. Nessa era, o número de brasileiros campeões é 9. Pareciam mais, não? Além dos atuais Anderson Silva (médio), José Aldo (pena) e Junior Cigano (pesado), a lista conta com Murilo Bustamante (médios, UFC 35), Vitor Belfort (meio-pesados, UFC 46), Minotauro (interino dos pesados, no UFC 81), Lyoto Machida (meio-pesados, UFC 98) e Maurício Shogun (meio-pesados, UFC 113).

Se contar a era dos campeões em um dia e dos GPs, que durou mais ou menos até o UFC 17 (há controvérsias), são apenas mais três caras na lista: Royce Gracie (campeão nos UFCs 1, 2 e 4), Marco Ruas (UFC 7) e Belfort (UFC 12). Some os vencedores do TUF, e chegamos ao enorme número de 15 campeões: Diego Brandão (TUF 14), Rony Jason e Cezar Mutante (ambos TUF Brasil). E acabou.

São tantos caras bons, fala-se tanto de MMA no Brasil, que a minha impressão é o número de brasileiros campeões era gigante, e achei curioso encontrar esse número pequeno, o tal 9. Talvez, a leitura seja outra: “Clube dos 9” é um baita clube, afinal, são 9 campeões no evento que reúne os principais lutadores do planeta. Analisando por esse ângulo, 9 deixa de ser pequeno e se torna, no mínimo, respeitável.

Pequeno ou respeitável, o fato é que o seleto clube conta agora com um cara chamado Renan Barão. Um cara que perdeu uma luta na carreira – na estreia – e ganhou “apenas” 29 combates quase seguidos (teve um no contest no meio disso) para ter a chance de lutar pelo cinturão. Lutou e ganhou. Hoje, está no patamar de Anderson, Aldo e Cigano. E foi o responsável por mudar o número e criar o “Clube dos 9”. Esse, sim, um feito gigante e respeitável.

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Iziane, “tudo eu” e o futuro do pretérito

Iziane na seleção, apenas um rascunho - Foto: Gaspar Nóbrega/CBB, Arte/Zanei

Iziane na seleção, apenas um rascunho – Foto: Gaspar Nóbrega/CBB, Arte/Zanei

Infelizmente, nunca vamos saber o tamanho que Iziane poderia atingir na seleção brasileira. Seria ela uma Hortência, uma Paula, uma Janeth? Não sei, nem você. Mas parece que ela acha que é maior que todas elas. Maior, até, que o próprio time nacional.

Essa é a única explicação que encontro para os desencontros da atleta. Potencial, a gente sabe desde sempre, ela tem para se tornar uma das maiores atletas do planeta. Mas, quando o assunto é cérebro e equilíbrio emocional, parece que a ala não saiu do berçário.

Eu sei, é forte falar isso, mas dói escrever essas palavras para uma jogadora que poderia ter conquistado tudo, comandado uma nova geração na seleção, se eternizado com a camisa do Brasil. Poderia. Futuro do pretérito. Aquele tempo verbal condicional. Ou seja, só Deus sabe o que seria.

Além de achar que pode tudo na hora que quer, tenho a impressão que Iziane é aquele tipo de pessoa que se acha vítima de tudo. “Sempre culpa minha”, deve dizer a atleta quando encosta a cabeça no travesseiro. Às vezes, nêgo vira bode expiatório mesmo. Mas, quando a história se repete, é difícil acreditar.

Iziane teve problemas com três técnicos da seleção: Paulo Bassul, Enio Vecchi e Luis Cláudio Tarallo (leia-se Hortência). O motivo sempre teve a ver com indisciplina, sempre teve a ver com se achar melhor do que é, sempre teve a ver com quebrar as regras.

Agora, o motivo é levar o namorado para a concentração no período de treinos na França. Uma vez? Não, “várias noites”, disse ela. É grave? Acho que não, existem pecados bem mais condenáveis no mundo, mas, no caso, regra e regra, e Iziane, aquela do “tudo eu, tudo eu”, quebrou mais uma.

Inexplicavelmente, o basquete feminino do Brasil se renova. Ou se renovava. Inexplicavelmente, pois, mesmo sem apoio de ninguém, grandes jogadoras sucediam grandes jogadoras. Uma delas, no entanto, resolveu quebrar o ciclo. Iziane poderia ser um mais uma dessas grandes jogadoras. Infelizmente, desencanou. A culpa é minha, sua, dos técnicos? Que nada. Quando o assunto é Iziane na seleção, a atleta pode se gabar de ter estragado uma história que poderia ser belíssima. Poderia.

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Flamengo e Riquelme, do pecado à inteligência

Riquelme diz "não" ao Flamengo - Foto: Editoria de Arte/Jornal Extra

Riquelme diz “não” ao Flamengo – Foto: Editoria de Arte/Jornal Extra

Sou de uma época em que receber uma proposta do Flamengo era algo quase extra-terrestre. Caraca, era o FLAMENGO, com letras garrafais. Dizer “não” era digno de heresia, excomunhão. Hoje, as coisas mudaram. E muito.

O Flamengo foi atrás de Riquelme e usou o jogo contra o Corinthians para convercer o argentino a desembarcar na Gávea. Tudo errado. Primeiro, ir atrás de Riquelme. Segundo, usar o jogo contra o Corinthians.

Sou fã de Riquelme. Acho que foi um dos grandes meias do futebol mundial, um cara realmente acima da média. Foi, não é mais. E não foi a derrota para o Corinthians que mudou minha opinião. Sua carreira está em decadência, assim como a sua vontade de jogar, ou vice-versa.

Em um time que está mal, contratar um cara que é muito bom, mas está em baixa, me parece um erro daqueles. O torcedor quer ver nêgo comendo grama em campo – eu, pelo menos, quero. Riquelme, com essa boa vontade que tem mostrado nos últimos tempos, seria mais um a ser xingado e vaiado, e custando uma grana absurda.

Para convencer Riquelme, nada melhor do que mostrar o superclássico com o Corinthians. Pra quê? O Flamengo, assim como o Boca Juniors, levou um baile. Os jogadores, vaiados e xingados. Joel Santana, execrado.

Aí, veio o dia seguinte:

“O Riquelme disse que o problema não foi financeiro, mas sim futebolístico. Ele até elogiou nossa proposta, agradeceu, mas disse que ficou assustado com ontem [jogo contra o Corinthians]. Não gostou da atuação do time, da reação da torcida, da pressão daqui. Ficou complicado, infelizmente. Uma pena, pois fizemos todos os esforços para contratá-lo”

Zinho, diretor de futebol

Se o Flamengo usou o jogo com o Corinthians como termômetro, era de se esperar que, em caso de tropeço, o cara disse “não”. Simples, afinal, abriram essa brecha para Riquelme.

E veio o dia seguinte do dia seguinte:

“Ele não deve ter falado que o time é ruim, até porque, com todo o respeito ao jogador, ele não pode fazer um comentário deste sem ter passado por aqui. É o Flamengo. Quantos torcedores tem o Boca? Dez ou 15 milhões? Aqui são 40 milhões de rubro-negros.”

Joel Santana

Joel, Joel… O técnico mais demitido do Brasil – foram umas 15 demissões só neste ano. Trocentos anos de futebol e ainda esse papinho? Pergunte para qualquer rubro-negro, o mais fanático deles, e conte nos dedos quantas vezes você vai ouvir que “o time é bom”.

E torcida, fanatismo, gosto pelo futebol não se mede por “população”, Joel. Aliás, isso, o fanatismo, o gosto pelo futebol, é algo que não se mede. Um torcedor de um time de Santo André pode ser mais fanático que mil rubro-negros. Tem um régua pra isso? Claro que não. Logo você, Joel, caindo num papinho desses?

O fato é que Riquelme disse “não” ao Flamengo. Não foi o único, não será o último. Não queria entrar nesse barco e, venhamos e convenhamos, a nau à deriva não é culpa dele. O nome e a torcida rubro-negra são imensos, mas o time, hoje, amedronta, e não em um bom sentido. Dizer “não” ao Fla já foi pecado. Hoje é covardia? Que nada, é inteligência.

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Um ano e um dia, uma falha e um título, um aniversário bacana

Há um ano e um dia, nascia esse blog. O objetivo era, simplesmente, escrever, algo que, mesmo sendo jornalista, eu não fazia (e a história é longa para contar). O objetivo era dar pitaco em um monte de coisa que eu não tenho conhecimento, mas gosto de palpitar. Enfim, o objetivo era encher o saco e escrever bobagens divertidas. Missão dada, missão cumprida.

Minha ideia era escrever um post por dia, algo que eu não consegui fazer. Sabe como é, os compromissos com quem me paga, às vezes, me deixam sem tempo de teclar por aqui. Uma pena… Foram 317 posts até hoje. Tirando os fins de semana, acho que, na média, dá um post por dia. Mas, o ideial mesmo, era escrever todo dia. Exercício diário mesmo, sabe? Mas, infelizmente, não rolou. Missão dada, missão, bem, deixa pra lá.

O que acho mais bacana é a audiência. No dia de aniversário, o blog bateu a marca de 50 mil unique visitors. Para quem trabalha com internet, o número é simplesmente ridículo. O valor se refere ao ano inteiro. Então, é mais ridículo ainda. Mas, vejo por outro lado: quem lê, basicamente, é quem me conhece. E ter mais ou menos 135 cliques diários é algo que me deixa bem feliz.

O primeiro post desse blog fazia menção ao dia do meu aniversário, 16 de julho, dia que eu recebo o carinho de tanta gente, dia que eu geralmente fico puto com facilidade. Na mesma data, em 1950, o Brasil assistia à sua maior tragédia esportiva, a derrota para o Uruguai no jogo que decidiu a Copa do Mundo. Mas foi um 16 de julho de 1994 que começou a preparação para a final da Copa, no dia seguinte, entre Brasil e Itália.

Lembro que rolou uma festa absurda em casa para celebrar os meus 16 anos. A molecada foi ficando, foi ficando, e a gente praticamente não dormiu. Sei lá, deve ter sido a somatória da batida de chocolate que minha mãe fazia com a tensão pré-final. O detalhe é que tinha outro jogo antes: a estreia do meu time nas Olimpíadas, no Aramaçan.

Brasil nas Olimpíadas do Aramaçan em 1994 - Foto: Arquivo pessoal

Brasil nas Olimpíadas do Aramaçan em 1994 – Foto: Arquivo pessoal

Era assim: eu jogava futebol no clube, o Aramaçan, em Santo André, desde criança (sim, teve uma boa época da minha vida que eu joguei bola e não era perna de pau, viu). O campeonato sempre parava em julho: por causa das férias, muita gente viajava, e aí não dava para ter jogo. Mas muita gente também ficava, e aí inventaram as Olimpíadas. Tinha competição de vários esportes, mas eu sempre jogava futebol.

Naquele ano, caí no Brasil. Era um time absurdo de bom no papel, uma panela de vários moleques bons de bola. Minha expectativa – e, acho, de todo mundo que fez parte daquele esquadrão – era atropelar e ser campeão. Mas foi feia a coisa.

A estreia foi no dia 17 de julho, de manhã. Como já escrevi, eu não tinha dormido. E fazia sol, muito sol (tá aí a foto acima que não me deixa mentir). Sei lá, com 5min do primeiro tempo, alguém do time rival – que eu não lembro qual país era, mas acho que era Itália -, deu um chutão para o ataque. Eu, zagueirasso de rara habilidade, pensei: vou emendar e mandar a bola de volta para o ataque.

A bola veio, olhei para cima e vi o sol. Lindão, redondão, brilhando forte. Sem dormir, ver aquele solzão na cara pela manhã e ainda fazer o movimento de pegar uma bola de primeira se tornou algo humanamente impossível. Em uma fração de segundos, minha mente de craque da bola mudou de ideia, e achei que o melhor era dominar. No fim, a mente pensou, o corpo executou, e o resultado é que não fiz nem uma coisa nem outra. Furei a tentativa de dominar, a bola quicou no chão, bateu na minha perna e sobrou limpa para o atacante marcar. Nunca esqueci essa falha bizarra, uma das piores na minha ex-carreira ex-promissora. Por culpa dela, perdemos aquele jogo por 3 a 0.

Depois de ficar puto com o resultado, veio a final da Copa. A minha lembrança é de um jogo tenso e de uma casa lotada de gente para ver. O Brasil não era de empolgar, e a Itália, menos ainda. Mas a história, você já sabe: Roberto Baggio, espécie de Romário da Itália na época – sim, ele jogava muita bola -, perdeu o pênalti, e o Brasil foi campeão. Foi meu primeiro título mundial, e fizemos a festa em casa. Um dia inesquecível.

Lembro que o Brasil, aquele das Olimpíadas do clube, aquele cheio de moleques bons de bola, perdeu outros jogos e não vingou. Tendo a achar que tudo foi culpa daquela estreia ridícula. Mais do que isso, daquele primeiro gol sofrido, aquele bizarro. Naquelas Olimpíadas, eu fui meio que o Baggio do meu time. Naquelas férias, eu não fui nem para o pódio. Mas, naquela Copa, eu me senti campeão do mundo pela primeira vez. Enfim, foi um aniversário bacana. Mas, se eu tivesse tirado aquela bola, teria sido perfeito.

Brasil campeão do mundo em 1994 - Foto: Arquivo

Brasil campeão do mundo em 1994 – Foto: Arquivo

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