Arquivo do mês: junho 2012

Pequeno manual prático para ganhar – ou perder – do Boca Juniors

La Bombonera, palco da final - Foto: Ricardo Zanei

La Bombonera, palco da final – Foto: Ricardo Zanei

Rabisquei uma enorme análise tática, mas, ao fim, depois de escrever e escrever, percebi o óbvio: o Boca Juniors é um daqueles times sem mistério. Não tem suspense na escalação, não tem mudanças táticas mirabolantes. Assim, resolvi ir direito ao assunto e fazer um pequeno manual para se bater a equipe argentina – ou, se você preferir, para se vencer o Corinthians. Tudo depende da leitura…

O Boca atua num 4-4-2 sem frescura. A equipe de Julio César Falcioni joga com quatro defensores, três volantes (ou um volantão e dois meias recuados), um meia meia mesmo, dois atacantes. Simples.

Orión é um goleiro experiente, de 31 anos, mas ainda assim, inconstante. É capaz de pegar um chute de Rivellino no ângulo e, no lance seguinte, levar um gol de Xandão, em chute de canhota, sem força, do meio-campo.

A zaga é formada por Schiavi, 1,91 m, veteraníssimo de 39 anos, e Caruzzo, 1,83 m, 27 anos, que assumiu a vaga do lesionado Insaurralde. Aí, talvez, esteja o principal problema da equipe, principalmente pelas falhas nas bolas alçadas na área: afastar o perigo, muitas vezes, é um tormento para a dupla.

São dois laterais: Roncaglia, pela direita, ataca pouco e marca com deficiência, enquanto Clemente Rodrígues, pela esquerda, ataca. O carequinha é responsável pela saída de jogo, aparece bem à frente para cruzar, gosta de chutar de longe e de bater faltas. É um dos pontos altos do time.

O meio-campo começa com Somoza, volantão clássico, à frente da zaga. Pela direita, Ledesma é um meia recuado, com duas missões: a prioridade é ajudar na marcação, mas, se der brecha, avança. Pela esquerda, o cabeludinho Erviti tem velocidade para atacar e forma uma bela dupla com Clemente Rodríguez. A parceria é imprescindível para que o Boca agrida o Corinthians.

Centralizado está Riquelme. Minha opinião sobre ele está no texto “Boca e Libertadores e um capeta chamado Riquelme: feitos um para o outro”. É um meia clássico, o cara que pode decidir tudo com um tapa na bola. Um monstro!

No ataque, Mouche é um canhotinho que adora cair pela direita. Cruza bem, sabe driblar, enfim, é perigoso. Atenção redobrada também para Santiago “El Tanque” Silva, esse grosso que virou piada quando passou pelo Corinthians, mas que faz gols no Boca.

Riquelme - Foto: Ricardo Zanei

Riquelme – Foto: Ricardo Zanei


Como fazer um golzinho
O ataque do Corinthians não é nem um pouco avassalador, mas a zaga do Boca também não é a melhor do planeta. O problemão argentino é a bola alçada na área: levantar a redonda, especialmente da intermediária, pode ser o caminho. Dos sete gols sofridos, seis nasceram de cruzamentos para a área, três deles nas costas de Roncaglia.

Mas, sem um atacante de área, será que o Corinthians conseguirá tirar proveito disso? Por isso, é sempre bom ter um plano B. Se a zaga tirar, o rebote pode ser a saída. Dois gols nasceram, ambos dentro da área (ambos contra o Unión Española, um fora e um em casa), de bolas mal rebatidas pela defesa argentina.

Para fazer gol no Corinthians, pelo retrospecto na Libertadores, é necessário um fator imprescindível: sorte. Foram apenas três gols sofridos no torneio, dois na pequena área, um na marca do pênalti. O que falta no ataque corintiano, o tal “homem de área”, pode ser a solução xeneize. Palermo parou, mas, quem sabe, Santiago Silva pode ser a salvação.

Depois dessa análise espetacular, ficou claro que o jogo está praticamente definido. Quem leu sabe que a bola nem precisa rolar. Está na cara: o campeão será o… Quarta-feira, dia 4, a gente conversa.

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São Paulo procura técnico desde outubro, mas precisa de um presidente há muito tempo

Emerson Leão é demitido do São Paulo - Foto: Divulgação/VIPCOMM

Emerson Leão é demitido do São Paulo – Foto: Divulgação/VIPCOMM

Emerson Leão chegou ao São Paulo em outubro do ano passado, inicialmente com um contrato de dois meses. Mais de oito meses depois, ele é demitido do cargo. Minha opinião sobre isso se mantém intacta, é a mesma de “São Paulo contrata Leão: uma questão de semântica?”, texto que publiquei aqui no blog na data da contratação.

Leão não conseguiu transformar o São Paulo em um time, equipe. Acho que o principal problema foi a ausência de habilidade do treinador no que deveria ser sua especialidade, ou seja, treinar. Sabe aquele lance de prazo de validade? Pois é, deve ser por isso. O choque na chegada camufla os erros táticos, mas, a longo prazo, eles vão aparecendo. No caso do São Paulo, está escancarado que o time não tem o mínimo de organização.

Quando o São Paulo contratou Leão, minha impressão era que o clube continuava atrás de um técnico. Aliás, em todo o seu período no clube, o ex-goleiro nunca teve um apoio maciço da diretoria, alguém que batesse na mesa e deixasse o cara trabalhar em paz. Pelo contrário, o treinador foi sabotado ali dentro em várias oportunidades. A mais clara delas foi o caso Paulo Miranda, que evidenciou a total falta de comando do clube.

E é aí o grande problema. Dane-se quem será o próximo treinador. Na verdade, o principal problema do São Paulo é o seu presidente. Juvenal Juvêncio ficou completamente entorpecido pelo poder. Perdeu o foco com a ausência do Morumbi na Copa do Mundo de 2014 e, dali para a frente, seu mandato degringolou. Mandato, aliás, perpetuado graças a uma manobra jurídica. Ou seja, tudo errado.

O São Paulo já foi, sim, um clube de vanguarda no assunto administração. Deu a cara para bater contra mandos e desmandos aqui e ali, achou soluções criativas para uma série de assuntos cá e acolá. Mas isso faz tanto tempo que parece estar num passado distante, quase esquecido.

Hoje, o São Paulo passa por uma crise política das mais graves de sua história. Nau à deriva. No comando, cambaleante, mas com um nariz empinado que só o dele, está lá Juvenal, impassivo, “soberano”. E é aí, por se achar tão “soberano” assim, slogan que estampou o tricampeonato brasileiro, que o dirigente se afundou. E vem afundando o time junto com ele.

Desde outubro o São Paulo procura um novo técnico. Mas, sinceramente, o buraco é mais embaixo. Ao invés de trocar de treinador, o clube deveria procurar uma renovação política e mudar, principalmente, de presidente, de diretoria. Se um dia, o sonho é voltar a ser vanguardista, tem que dar o primeiro passo agora. Arrumar a casa é o primeiro ato para arrumar o futebol. Sem Juvenal e sem tanta gente que já passou do tempo por ali.

Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo - Foto: Divulgação/VIPCOMM

Juvenal Juvêncio, presidente do São Paulo – Foto: Divulgação/VIPCOMM

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LeBron, Durant, dois abraços e grandes histórias

Cena 1

LeBron James abraça Kevin Durant - Foto: Don Emmert/AFP

LeBron James abraça Kevin Durant – Foto: Don Emmert/AFP

LeBron James, enfim, conquista o seu primeiro título da NBA. Um dos maiores jogadores da história da liga tem, agora, o carimbo de campeão. Era, basicamente, o que faltava.

Seu primeiro ato como campeão foi um abraço apertado em Kevin Durant. Um encontro emocionante entre presente e presente do basquete. A estrela do Oklahoma City Thunder é, pra mim, top 3 entre os melhores da liga e está a poucos passos do rol de imortais.

Isso tudo aos 22 anos, com foi com LeBron no passado. O abraço representa muito, muito mesmo. Imagino o cara que chegou ao Olimpo dizendo: “Meu amigo, eu já estive aí, já perdi, mas, veja só, ganhei agora. O próximo é você”. Emocionante, emocionante!

A entrevista

Doris Burke, da ESPN, é uma das melhores perguntadoras do jornalismo mundial, não apenas quando o assunto é esporte. Sem rodeios, ela tem o sangue frio de arrancar dos caras, ainda no calor do momento, respostas das mais francas. Quem é jornalista sabe que isso é uma arte.

A pergunta que me chamou a atenção foi: “Você dominou a final em um contraste com o que vimos na final do último ano. O que te colocou no trilho para voltar a ser LeBron James?”. É, ao mesmo tempo, uma pergunta crítica, pelo sumiço do craque na decisão da última temporada, e elogiosa, pela ascensão da fera na decisão de agora.

“Losing in the Finals last year put me back in place.”

Cena 2

Kevin Durant é consolado por seus familiares - Foto: Reprodução de TV

Kevin Durant é consolado por seus familiares – Foto: Reprodução de TV

Perder a final para o Dallas Mavericks na última temporada foi o “turning point” para LeBron. Talvez não apenas pela derrota em si, mas pela maneira como foi: fora de quadra, repleta de comentários pejorativos contra os rivais; com a bola nas mãos, apática.

Perder a final fez LeBron acordar, perceber que só se ganha no basquete com um jogo coletivo. Michael Jordan, Julius Erving, Magic Johnson, Wilt Charberlain, Bill Russell, Kobe Bryant, Larry Bird, monstros sagrados da história do esporte, nunca venceram nada sozinhos.

Perder a final fez LeBron crescer, amadurecer. O louco da história é constatar que, jogando coletivamente, o desempenho individual do craque floresceu, renasceu e, mais do que isso, explodiu. LeBron foi o cara das finais não porque pegou a bola e fez tudo sozinho. Foi o cara das finais porque soube o momento de decidir, soube o momento – e isso deve doer para quem tem habilidade para decidir – de passar a bola para alguém nem tão bom como ele soltar o braço.

Aí, as câmeras mostram a saída dos jogadores do Thunder. Durant, visivelmente abatido e abalado com aquele turbilhão de emoções, encontra os pais. Um abraço daqueles que enche os olhos de lágrimas só de lembrar. É mais do que o ato de colocar aos braços ao redor da cria: é acolher um gigante que, naquele momento, nada mais é do que uma criança cambaleante, sem destino, querendo apenas o colo dos pais.

Ontem, hoje, amanhã
É aí que passado e presente se unem. É aí que o círculo se fecha: a derrota de LeBron na última temporada, o abraço dele em Durant e o encontro da fera do Thunder com os pais. É aí que o tropeço – e, mais do que isso, a dor profunda que traz esse tropeço – de um ano vira aprendizado para o dia seguinte, o jogo seguinte, a final seguinte, o título inédito.

Durant talvez seja o LeBron de amanhã. Talvez seja mais, talvez seja menos. O futuro vai dizer. Mas deixam no ar que esses abraços, essa vitória e essa derrota significam muito, muito mesmo, para o esporte. Derrota e vitória, dor e sorriso unidos por um abraço. Nada mais bonito.

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1962, Garrincha, Pelé, choro, riso e um presente de Dia dos Namorados

Garrincha - Foto: Divulgação

Garrincha – Foto: Divulgação

Foi em um 17 de junho de 1962 que Mané Garrincha coroava aquele que foi, talvez, o maior momento de sua carreira. No Chile, sem Pelé, ele não colocou a bola embaixo do braço como fizera Didi quatro anos antes, mas foi “o cara” da Copa. Deus e o mundo já escreveram sobre isso, sobre aquele Mundial, sobre os 50 anos daquele título.

Mas foi nos anos 80 que eu descobri que existia Garrincha. A descoberta veio como tantas outras do mundo futebolístico: de mãe para filho. Palmeirense doente, minha mãe foi responsável por falar para mim sobre Mané.

Era curioso como ela tratava aquele cara. Sempre que surgia o assunto “como você começou a gostar de futebol?”, ela falava sobre a influência do meu avô espanhol – e, se não me falhe a memória, corintiano -, dos irmãos torcedores de tudo que é time e, claro, dos ídolos que formaram o seu caráter boleiro.

Ademir da Guia era uma espécie de divindade na minha casa. Leão, Luis Pereira, Dudu, César Maluco, idem. Pelé sempre foi tratado como o maior de todos. Mas Garrincha. A frase, aliás, era quase sempre a mesma, algo do tipo: “Pelé é o rei do futebol, mas o Garrincha…”. Aquele silêncio que vinha depois do “Garrincha três pontinhos” tinha um ar de saudade, de lembrança boa, daquelas que a gente se anima quando passa pela cabeça.

Fui, aos poucos, descobrindo quem foi Mané. Lembrem-se que os anos eram os 80, e o advento do videocassete – não sabe o que é, jogue no Google – ajudou muito nisso. Uma fita – não sabe o que é, jogue no Google – em especial, chamada “Garrincha, Alegria do Povo”, foi fundamental: era um documentário sobre Mané, recheado de dribles e lances espetaculares (está no Youtube, dá para ver no vídeo abaixo). Nascia ali uma idolatria.

Era sensacional ver aquele cara entortar quem estivesse pela frente. Parecia até ficção. Não era possível aqueles dribles, quase sempre iguais e, exatamente por isso, geniais. Coisa de outro planeta, de outro mundo.

No videocassete, dava para gravar o que se passava na TV – é verdade, taí a Wikipedia que não me deixa mentir -, e isso, em tempos de “Grandes Momentos do Esporte”, “Gol, o Grande Momento do Futebol” e “Canal 100”, era espetacular. E só contribuiu para aumentar minha paixão por Mané.

“Garrincha, Alegria do Povo”

O tempo passa, veio a faculdade, e um amigo cantou a bola: na biblioteca, tinha um exemplar de “Estrela Solitária”, de Ruy Castro. Não leu? Não sabe o que é? Ainda está parado aí? Goste ou não de futebol, corra atrás. É simplesmente uma das melhores biografias já escritas.

Foi com “Estrela Solitária” que eu pude entender os três pontinhos da minha mãe. Quando eu via – vejo – Pelé, seus dribles, seus gols, fico com uma espécie de riso bobo no rosto. Quando eu via – vejo – Garrincha, seus dribles, seus gols, fico com os olhos cheios de lágrimas, um misto de saudade de um cara que eu não conheci e só vi na TV, de felicidade por ter visto e revisto o que ele fez, e uma tristeza absurda pelo fim, não pelo fim em si, mas pelo fim como foi. Pelé é riso, Mané, lágrimas.

É curioso que o primeiro texto que escrevi e foi publicado em algum lugar era sobre Garrincha. Foi em um sábado, 23 de janeiro de 1999. Ao voltar de um São Paulo x Flamengo no Morumbi, fui surpreendido com uma pilha de exemplares do infelizmente finado jornal “A Gazeta Esportiva” em casa. Alguém falou para minha mãe que um texto meu havia saído lá, e ela basicamente comprou o que tinha na banca.

Talvez aquele tenha sido o maior orgulho jornalístico que minha mãe sentiu por mim. Como eu não canso de escrever, ela era fanática por futebol e, por um bom tempo, assinamos “A Gazeta Esportiva”. Ou seja, um texto escrito pelo filho e publicado ali era motivo de festa.

Sabe aquela parte “Palavra do Leitor”, algo do tipo? Foi ali que saiu o texto. Eu tinha acabado de ler “Estrela Solitária”, escrevi e mandei para lá na semana do aniversário de morte dele (20 de janeiro de 1983). Era uma ficção sobre um sonho que eu teria tido com o “Anjo de Pernas Tortas”. Estava longe de ser uma obra literária, mas virou até quadro em casa.

Aí chega o Dia dos Namorados deste ano e eu, colecionador de miniaturas, ganho uma do Garrincha. Ao tirá-lo da caixa, todo esse filme passou pela minha cabeça. Fiquei olhando aquele boneco e lembrei dos dribles, dos gols, da vida que poderia ter sido e que não foi, enfim, de tudo. E me emocionei mais uma vez.

Garrincha não ganhou o bicampeonato mundial sozinho, mas foi o principal nome daquele título, o nome mais comentado em tudo que é texto sobre a conquista. Aqui em casa, ele está no ponto mais alto da minha pequena biblioteca esportiva. Acho que, de madrugada, quando todo mundo está dormindo, ele sai dando seus dribles e chamando seus colegas bonecos de “joão”. Acho, não. Tenho certeza.

Miniatura de Garrincha na minha casa - Foto: Ricardo Zanei

Miniatura de Garrincha na minha casa – Foto: Ricardo Zanei

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Teófilo Stevenson, 60, RIP, o cara que estapeou os EUA

Alguém perguntou a Muhammad Ali o que teria acontecido se tivéssemos lutado, e ele disse que seria empate. Eu concordo.

Antes do MMA, havia o boxe. E havia uma lenda chamada Teófilo Stevenson.

Era um monstro, 1,90 m, 95 kg. Rápido, era difícil de ser acertado. Tinha uma esquerda invejável, batia, batia e batia de canhota. Tinha uma direita devastadora, usada, quase sempre, de forma única, “apenas” para finalizar os oponentes. Era um daqueles esportistas perfeitos.

Foi tricampeão mundial, tricampeão olímpico. Um currículo invejável. Mas seu maior feito foi se negar a ir para os EUA e lutar profissionalmente. Aí, sim, ele ganhou a maior batalha de sua vida.

Vale lembrar que Stevenson viveu no auge da Guerra Fria, e estapear os EUA era um feito maravilhoso para Cuba, União Soviética e afins. E ele estapeou os ianques a torto e a direito.

Teófilo Stevenson - Foto: Fighttoys

Teófilo Stevenson – Foto: Fighttoys

Dizem por aí que a oferta para deixar a ilha de Fidel e se tornar profissional chegou aos US$ 5 milhões. Dinheiro que arruma a vida de qualquer mortal hoje, imagine há 35, 40 anos? Era muita grana, mas não pagava tudo o que pairava por Stevenson, pelo comunismo, por todo aquele ar pesado da Guerra Fria.

Claro que virou rei em Cuba. Queridinho de Fidel, teve uma vida das mais confortáveis, graças aos benefícios do governo. Tudo pela luta, sem luvas, contra os EUA.

Se o mundo profissional teve Muhammad Ali, o mundo amador teve Teófilo Stevenson. Pasmem: antes do MMA, havia o boxe. E haviam lendas, também. Uma delas se chama Ali. A outra, Stevenson. Lendas que não morrem jamais.

Quem não gosta de boxe sempre diz: ‘Olhe para o Ali, ele lutou boxe a vida inteira e agora tem Mal de Parkinson’. Eu costumo responder: ‘Olhe para o antigo Papa. Ele tinha Parkinson e não lutava boxe’.

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Ronaldinho, um conto de fadas para Atlético-MG ver

Ronaldinho Gaúcho no Atlético-MG - Foto: Bruno Cantini/Divulgação

Ronaldinho Gaúcho no Atlético-MG – Foto: Bruno Cantini/Divulgação

Ronaldinho deixou o Flamengo pela porta dos fundos, sorrateiro, na calada da noite. Mas chegou ao Atlético-MG à luz do dia, sem a mesma festa dos tempos da Gávea, mas com trabalho, muito trabalho.

Colocou o uniforme, bateu bola com os companheiros, correu, suou. Animou os outros jogadores com o seu ânimo de jogar.

Diminuiu bastante a sua pretensão salarial. Ou seja, dane-se o dinheiro, que ele já tem muito: agora é a hora de jogar bola, de mostrar a que veio.

Ronaldinho, enfim, está com sangue nos olhos.

Tem tudo para ser aquele cara que encantou o mundo com a camisa do Barcelona. Dribles desconcertantes e inesquecíveis. Passes mirabolantes, vesgos, daqueles de olhar para a frente e mandar a bola lá do outro lado, redonda, limpa, para o atacante marcar.

Estão de volta as cobranças de falta magníficas. Aquele olhar fixo na bola, na barreira, no gol, na bola, na barreira, no gol, marca registrada do Gaúcho, vão abrilhantar o futebol mineiro.

É a hora da redenção, de botar para quebrar, de mostrar que quem é rei nunca perde a majestade.

É agora que Ronaldinho vai fazer tudo o que já fez, aquele futebol moleque, quase irresponsável, somado a uma objetividade ímpar. Aquele futebol que o fez ser comparado a deuses como Maradona e até Pelé.

Serão gols e mais gols, dribles e mais dribles. Haja replay para mostrar tanta habilidade, tanta maestria.

Ronaldinho, enfim, será Ronaldinho. E vai mostrar para o mundo que esse lapso na sua carreira foi apenas um lapso, uma página a ser virada. Daqui pra frente, é escrever de vez o nome na história do mundo da bola. Com letras maiúsculas!

Você acredita em tudo isso? Eu não. De pé junto, “duvideodó”. Mas parece que tem gente que ainda acredita. Até quando?

Capa do Jornal Meia Hora, edição de 05/06/12 - Foto: Divulgação

Capa do Jornal Meia Hora, edição de 05/06/12 – Foto: Divulgação

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