Arquivo do mês: março 2012

Flamengo dança

A dança de Ronaldinho e Vagner Love - Foto: AP, Arte/Ricardo Zanei

A dança de Ronaldinho e Vagner Love - Foto: AP, Arte/Ricardo Zanei

Tenho como convicção que, para jogar futebol, tem que ter coração. Coração é raça, é vontade. É jogar o arroz com feijão no momento de seriedade, é enxergar a brecha e colocar entre as pernas no momento de picardia. É, antes de tudo, alma. Pode perder, mas tem que ter alma Por tudo isso, hoje, deve ser difícil demais torcer para o Flamengo.

Vi o VT do jogo contra o Olimpia. A desvantagem é que você perde toda a emoção da surpresa. O lado bom é que, sabendo mais ou menos como foram as coisas, você fica mais atento e consegue perceber os detalhes, ou melhor, consegue visualizar o tamanho das bobagens.

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Não vou enumerar os inúmeros erros da equipe de Joel Santana. Aliás, chamar o Flamengo de equipe é ser muito legal. É um bando de jogadores, sem a menor organização tática, cometendo falhas absurdas e infantis. E não dando a mínima.

Mas o que mais me chamou a atenção foi a falta de coração. O Flamengo é um time morto, derrotado. A vontade de ganhar é ridícula, inexistente. Parece que os jogadores estão ali apenas para um momento: marcar um gol, sabe-se lá como, e cair na dança na comemoração.

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Nada contra as coreografias, acho até divertido. Mas tem coisa que soa falso demais. Em um time sem coração, sem raça, sem vontade, comemorar gol dançando sei lá o quê me parece uma afronta, uma provocação ao torcedor. Esse, sim, sofre com o time.

A realidade, para mim, é clara. O jogador dança ao fazer gol, o torcedor dança ao se esgoelar pelo time, e o Flamengo dança na Libertadores. No mesmo ritmo.

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Melhores momentos – Olimpia 3 x 2 Flamengo

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Millôr Fernandes, 88, RIP, e uma folha em branco

Millôr - Foto: Site oficial/Millôr Online

Millôr - Foto: Site oficial/Millôr Online

É difícil entender como as coisas acontecem, como começam, como terminam e, especialmente, quando terminam. É um processo doloroso, que leva tempo para cicatrizar. A perda de Millôr Fernandes, pouco depois do adeus de Chico Anysio, é um desses processos.

Tendo a achar que o dono do mundo – ou dos mundos – acreditou que precisava dos dois para a festa ser completa em outro lugar. Sabe como é, Chico era vários em um, Millôr era um em vários, ou melhor, um pouco em nós.

A biografia de Millôr está em tudo que é site, jornal, revista. Foi, assim como Chico, um daqueles caras especiais. Suas linhas, escritas, rabiscadas, coloridas, falaram muito, mas muito mesmo, do que a gente não queria ouvir, ver, ler. Escancararam muita coisa que a gente tinha medo de saber. Enfim, abriu caminhos na nossa vida, no nosso pensar.

Fica, acima de tudo, uma lacuna, aquele vazio. Fica preto e branco, papel em branco. “Todo homem nasce original e morre plágio”, disse Millôr. Se um pouco de cada um puder copiar o que ele foi, seremos melhores.

“Quem confunde liberdade de pensamento com liberdade é porque nunca pensou em nada.”

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Kobe Bryant, o último dos moicanos, o cara que quer a bola

Kobe Bryant - Foto: Ezra Shaw/Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Kobe Bryant - Foto: Ezra Shaw/Getty Images, Arte/Ricardo Zanei

Faço parte de uma geração que aprendeu a idolatrar caras como Michael Jordan, Larry Bird e Magic Johnson. Esse trio foi responsável por momentos antológicos, absurdos, mágicos. Hoje, se alguém merece entrar no hall de imortais da bola laranja, esse cara é Kobe Bryant.

O ala do Los Angeles Lakers é uma espécie de “último dos moicanos” de um basquete sem frescura, de um jogo puro e simples. Kobe é o cara que joga de braço quebrado, sem uma perna, e vai fazer questão de enterrar na sua cara, simplesmente pelo fato de ele ser isso.

Kobe é o cara que sempre quer a bola. É fominha, mas no bom sentido. Quer a bola porque sabe que pode decidir. Contra o Golden State Warriors, o jogo do recorde, reclamou de Pau Gasol: “I don’t give a shit, pass the fucking ball”. Traduza você mesmo. Só digo que ele é um monstro.

Nesta terça, Kobe quebrou uma marca de Michael Jordan e assumiu a segunda posição na lista de principais cestinhas da NBA por um único time. São 29.283 pontos em 16 anos de Los Angeles Lakers contra 29.277 de Michael Jordan em 13 anos de Chicago Bulls. O líder é Karl Malone, com 36.374 pontos em 18 anos de Utah Jazz.

Não é o recorde mais importante do mundo, mas só o fato de superar Jordan é um feito digno de salva de palmas. Eternas, eu diria.

Mesmo afastado das quadras desde 2003 e do Chicago Bulls desde 1999, imagino a birra de Jordan. Basta ler duas linhas de qualquer biografia para saber que ele é um dos caras mais competitivos da história de tudo que é esporte. Perder um lugar deve ter doído no Pelé do basquete. E isso não é uma crítica, é apenas o jeito de ser dele.

Jordan à parte, Kobe merece todos os elogios pelo que sempre jogou. Kobe é um monstro e, um dia, estará ao lado de Jordan, Bird e Magic no hall da fama do basquete. Nada mais justo. E ele ainda quer a bola.

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Kaká em noite de Marcelo: um alento

Kaká e Marcelo - Foto: Patrick Baz/AFP, Arte/Ricardo Zanei

Kaká e Marcelo - Foto: Patrick Baz/AFP, Arte/Ricardo Zanei


Fazia tempo que Kaká não jogava tanta bola. Foram 45min primorosos, daqueles de encher os olhos. Velocidade, arranque. Parecia até aquele Kaká dos velhos tempos, aquele do São Paulo, lapidado no Milan, vendido a peso de ouro ao Real Madrid. Aquele que a seleção tanto precisa.

Tudo bem, o Apoel não é a sétima maravilha do mundo, mas o time cipriota chegou às quartas de final da Liga dos Campeões, e isso é para poucos. Tudo bem que, depois do 1 a 0, as coisas ficaram mais fáceis. Mas já é alguma coisa.

Obviamente que eu não vou ficar aqui falando que Kaká deve ser convocado, que é o salvador da pátria. É só um jogo, mais um degrau em uma escala ascendente do meia. Parece que, aos poucos, ele vai reencontrando a boa forma. Futebol, ele tem. Resta saber se o corpo vai deixá-lo jogar.

Kaká brilhou, é fato, mas foi Marcelo quem me encheu mais os olhos. É habilodoso, tem velocidade, sabe driblar, enfim, é um lateral quase completo. Ainda precisa melhorar na marcação, mas, perto daquele dublê de ponta esquerda do começo de carreira no Fluminense, hoje dá para notar que ele evoluiu abdurdamente.

Foi uma noite dourada para o Real Madrid, daquelas que o torcedor não vai esquecer. Afinal, 3 a 0 é um passo enorme para as semifinais da Liga. Só um desastre tira a vaga dos merengues. Vaga esta conquistada graças ao futebol de Kaká e Marcelo. Finalmente, os brasileiros brilham lá fora, e brasileiros bons de bola. Ainda é pouco, mas é um alento.

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Barbárie entre torcidas (?) ou lugar de bandido é na cadeia

Torcida ou bandidagem? - Foto: Arquivo, Arte/Ricardo Zanei

Torcida ou bandidagem? - Foto: Arquivo, Arte/Ricardo Zanei

Já vi muito jogo de futebol na minha vida. Já fui de carro estacionando dentro do estádio, já fui de ônibus, metrô e trem. Já fui em um domingão de sol e em uma quarta-feira de chuva, muita chuva. Vivi momentos memoráveis de vitórias, vivi derrotas doídas. Vivi, também, o medo.

Para quem mora em Santo André, ver qualquer time, seja no Pacaembu, no Palestra Itália, no Canindé ou ainda no Morumbi, requer planejamento. Primeiro, escolher o meio de transporte é fundamental. Se for transporte público, sair mais cedo ainda é primordial.

Quem é gente de bem e já foi em clássico de transporte coletivo sabe que existe uma tensão permanente, o medo de uma briga de torcidas está ali, pairando no ar. Quem é bandido vê nisso tudo uma adrenalina, vê nisso o grande barato, e não o jogo que está por vir.

Lembro de um dia em que eu pensei que seria o fim. Início dos anos 90, época em que times grandes jogavam em São Paulo no mesmo horário. O lugar era o trem, saindo de Santo André, a caminho da Barra Funda, onde o Palmeiras jogaria com sei lá quem. Minha mãe, palestrina doente, me levava mais uma vez para ver um jogo que não era do meu time. E eu ia, afinal, a mãe mandou, o filho obedece, sem reclamar.

Não lembro contra quem o Corinthians jogaria naquele dia, nem a estação, mas o trem parou e todos os palmeirenses – palmeirenses? – de torcida organizada – torcida? – saíram do vagão. Pela janela, deu pra ver que tinham alguns corintianos na estação. O pau quebrou, e meia dúzia de policiais seguraram a bronca, evitando algo pior. Antes de as portas fecharem, estavam todos de volta, comemorando como se fosse um título.

Isso durou alguns segundos, 1 minuto, se tanto, tempo suficiente para que eu pensasse, pela primeira vez, que eu poderia morrer por absolutamente nada. Imagine o que é isso para um moleque de 12, 13 anos, que acompanhava sua mãe de 50 anos ao estádio. Se acontece algo com ela, como vou reagir? Imagine ainda o que é ver uma briga daquelas entre palmeirenses – palmeirenses? – e corintianos – corintianos? – e você, são-paulino, ali, quietinho. Naquele dia, pensei: “Se os caras descobrem que sou tricolor, os torcedores – torcedores? – dos dois times se unem me matam. Em dois segundos”.

Fui ao estádio com a minha mãe em mais trocentas vezes depois disso. Cada vez, escolhíamos um horário para ir pensando em não encontrar nenhuma torcida – torcida?. Ora saíamos cedo para comer em algum lugar e entrar no estádio assim que os portões abrissem. Ora, com ingresso na mão, chegávamos bem em cima da hora. Tudo bem, era uma mãe – às vezes, algumas amigas, todas mais velhas que a minha mãe – e um filho adolescente, gente que não vai fazer mal a ninguém. Mas, sabe como é, esse tipo de torcedor – torcedor? – não olha para nada, apenas quer brigar. Ou pior, matar.

Tem gente que ainda fala em torcida, briga de torcida, mas quem torce por um time não faz esse tipo de coisa. Quem torce, torce para um time, e não para uma, digamos, facção. Quem briga na rua é bandido. Quem marca lugar para brigar e vai lá horas antes de um clássico também não é torcedor, longe disso, é bandido. Lugar de bandido é na cadeia.

P.S.: Fico extremamente triste pelas famílias das pessoas que morreram em brigas de torcida, seja em São Paulo, seja em Campinas, seja em qualquer lugar do planeta. É gente que sofre, hoje, pela perda de alguém. Pena que esse alguém não pensou nisso antes. Uma pena.

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Futebol e uma questão de justa causa

Pesos e medidas diferentes. Dá a impressão que a gente tem que se acostumar com isso na vida. Não, não tem, e tem que se revoltar com certos pesos e medidas, justiças e injustiças.

Léo Rocha perdeu o pênalti ridículo para o Treze contra o Botafogo. Não mudo uma vírgula do que escrevi sobre o assunto. Daí, para o jogador ser demitido, vai uma distância muito grande.

“O campo, a bola, nada atrapalhou. Foi erro meu mesmo, eu peguei um pouco no canto da bola, a bola foi um pouco pro lado ali, fui infeliz. Todos os jogos que eu tive a oportunidade de bater pênalti eu bati no meio, então eu não tenho que provar nada para ninguém, para diretor nenhum. Eu não me arrependo de ter batido assim, só me arrependo de ter pegado mal na bola.”

Léo Rocha errou? Errou. Foi infantil? Sim. Assim como outros jogadores do time desperdiçaram cobranças de pênalti, perderam chances de gol, falharam na marcação, erraram em trocentos lances. O erro de Léo Rocha apenas foi o último e mais ingênuo, mas demissão? Demagogia, não?

Aí o Corinthians solta uma nota oficial dizendo que Adriano foi demitido por justa causa. No Rio, dizem que o Imperador pretende ir à Justiça contra o clube, alegando falta de tratamento médico. Hmmm. Peraí… Não era o Adriano que faltava às sessões – dizem, mais de 40! – de fisioterapia marcadas pelo clube? Não era Adriano que chegava sabe lá como para treinar?

É esse o mesmo Adriano, demitido por justa causa, que será contratado já já pelo Flamengo, a peso de ouro, com pompas de gênio. Já Léo Rocha…

“Ninguém gosta de perder o emprego né, foi uma notícia que me deixou muito triste.”

A frase acima, com certeza, não é de Adriano. Parecem mundos diferentes, mas são histórias do mesmo mundo, o da bola. Pesos e medidas distintos, causa justa, justa causa. É o futebol imitando a vida. Infelizmente.

P.S.: As frases em destaque foram retiradas da entrevista de Léo Rocha para a ESPN Brasil e podem ser vista aqui. Já a nota oficial da demissão de Adriano foi veiculada pelo site do Corinthians e pode ser vista aqui.

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Chico Anysio, 80, RIP, e um sorriso eterno

Professor Raimundo - Foto: CGCom/TV Globo

Professor Raimundo - Foto: CGCom/TV Globo

Acho que os seres humanos especiais, inesquecívels, geniais, maravilhosos, são aqueles que não transbordam elogios, mas faltam palavras para defini-las. Por mais que se fale, tudo será pouco para a monstruosidade de Chico Anysio.

Ele foi uma das mentes mais criativas da história. Não digo apenas do humorismo, nem da TV, da história mesmo. Chico foi capaz de criar personagens – mais de 200! – absurdamente distintos. Todos, sem exceção, tinham vida própria, existiam por si só.

Fico pensando que tem um monte de cara por aí que faz um, dois personagens a vida inteira, e recebe tudo que é elogio. Não vejo demérito nisso, mas, imaginem criar mais de 200 – ! – personagens. É impressionante, impressionante.

Tenho 33 anos, quase 34, e Chico esteve ali por toda a minha vida. Ri muito, mas muito mesmo, com Alberto Roberto, Azambuja, Bento Carneiro, Bozó, Coalhada, Justo Veríssimo, Nazareno, Painho, Professor Raimundo, Tim Tones… São “apenas” nove exemplos de personagens inesquecíveis e hilários.

O mais impressionante de tudo isso era a caracterização de Chico. Cada um de seus, digamos, “alter egos”, tinha uma roupa própria, uma voz diferente, um ritmo distinto. Você batia o olho, por exemplo, no Professor Raimundo, e via o Professor Raimundo, não o Chico Anysio. Espetacular!

Esse texto poderia ter trocentos zilhões de caracteres, trocentos zilhões de elogios e, mesmo assim, seria pouco perto do que é Chico. Hoje, sem personagem, ele deixou no ar aquele minuto de silêncio. Mas, mesmo assim, acho que não é hora de choro. Proponho, sim, uma bela risada. Nada mais justo para quem sempre fez, faz e fará sorrir. Sempre.

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