Arquivo do mês: dezembro 2011

Barcelona, triângulos, o mar e uma questão de natureza

Barcelona, campeão do mundo de 2011 - Foto: Reuters

Barcelona, campeão do mundo de 2011 - Foto: Reuters

Não achei justo escrever logo após Barcelona x Santos. Seria covardia. Preferi parar, pensar, ver, ouvir, enfim, ter uma ideia mais clara antes de dizer que o time espanhol é sensacional, é genial, que deu show. Isso, todo mundo sabe.

Muita gente compara a Holanda de Cruyff à equipe da Catalunha. Por uma questão de logística temporal, vi pouco a “laranja mecânica”, mas li muito mais sobre o “carrossel holandês” do que sobre o Barcelona de Messi e companhia. Aliás, pelo dinamismo, de “carrossel” aquele time não tinha nada. Assim, eu vi e vejo, por uma questão de logística temporal, muito mais o Barcelona atual. É só ligar a TV que, toda semana, tudo que é cronista esportivo enche a bola do time de Guardiola.

Mas o que é essa equipe? Qual é o segredo? Como ela joga? Ver, todo mundo vê, mas ninguém, até hoje (Ok, Mourinho e sua Inter conseguiram), teve capacidade de brecar uma das melhores equipes da história da bola.

Esqueçam o trocadilho óbvio com “Peixe”, mas a partida contra o Santos me ajudou a ver o Barcelona de duas formas, uma mais didática, mais fruto de todo o treinamento que esse time passa desde suas categorias de base, e outra mais lúdica, mais no “estilo Armando Nogueira”.

Santos 0 x 4 Barcelona

De forma prática, é óbvio que o grande diferencial do Barcelona é a movimentação. Mas, não adianta nada você se movimentar se o seu companheiro não tem capacidade de dar um passe de 2 metros. A relação entre linha da bola e movimentação também é de se espantar: ora os jogadores avançam além da linha da bola; em outros momentos, é a bola que recua, abrindo espaços para os avanços dos jogadores.

Vejo até um “quê” de basquete na coisa toda. Vocês se lembram do triângulo ofensivo do Chicago Bulls de Phil Jackson e Michael Jordan. Pois foi o auxiliar do treinador, um senhorzinho simpatico chamado Tex Winter, que lapidou a coisa toda (o esquema foi criado pelo técnico Sam Barry). Basicamente, a movimentação de ataque, com passes curtos e rápidos, criava novas opções de passe e fazia com que surgissem espaços na defesa rival. Parece ou não parece?

Quem joga contra o Barcelona não sabe muito bem quem marcar. “Vou colocar dois caras em cima do Messi”, pode pensar um técnico, mas e aí? O Xavi vai ficar livre? O Iniesta? A marcação rival se perde porque nunca se sabe por onde o time espanhol vai atacar. Daí a visão lúdia: o mar.

Fim de ano, todo mundo vai para a praia e entope as estradas e as águas de todo o país. O melhor para visualizar a coisa é ir enquanto todo mundo trabalha. Aí, sim, o cara chega na areia, com sol ou não, e ele resolve entrar na água. Ao fundo, ele vê aquela marolinha vindo. Curioso que ela não nasce sempre no mesmo lugar, mas surge de diversos pontos no meio daquele mar. Às vezes, não dá em nada, e ela some. Em outras, ela até chega perto, mas desaparece. Enfim, algumas viram ondas, umas mais encorpadas, outras mais leves, ou uma sequência delas… Assim é o Barcelona.

Onda - Foto: Clark Little

Onda - Foto: Clark Little

A jogada que começa lá atrás é uma marolinha, que pode vir por qualquer canto. Às vezes, não dá em nada, mas ela volta aqui e ali até virar uma onda certeira. A onda, aquela forte, muitas vezes atende pelo nome de Messi. Mas não adianta esperar apenas pelas “ondas Messi”. Outras ondas, como Xavi, Iniesta e etc e etc e etc, são tão ou mais letais que a tal Messi. Pior: pode vir uma Messi seguida de um Xavi seguida de um Daniel Alves seguida de um Piqué, e você ali, sem saber de onde veio tudo isso.

Claro que não tem magia nenhuma nesse Barcelona. O técnico não é o “Mister M”, nem ouviremos Cid Moreira anunciar que, no próximo domingo, ele desvendará esse sortilégio. A magia do Barcelona se chama treino, se chama suor. E não é o treino daquele cara de 25 anos, que se tornou profissional sem nem saber acertar o gol direito. É o treino desde moleque, criança, aquele treino que deixa o garoto capaz de realizar o básico de olhos fechados. Vira algo intrínseco, eu diria, até, que se torna é uma questão de natureza. Como o mar.

P.S.: Flavio Gomes dá mais uma aula em seu Blog com o imperdível “A Lição do Japão”.

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Minotauro, fratura e a imagem de uma dolorosa e dolorida derrota

Minotauro não ia bater. Perdeu uma luta ganha para Frank Mir e só bateu depois que algo aconteceu. Parecia um ombro deslocado, mas as imagens mostraram outra coisa. Jorge Guimarães, o “Joinha”, empresário do brasileiro, postou em seu Facebook uma foto da radiografia do braço direito de Minotauro: “Lyoto está bem e o Minota softeu uma fratura transversa no umero…”. Quem diria que uma das imagens que vai marcar o UFC 140 seria tirada horas depois do evento? Força, Minotauro!

Minotauro e seu braço fraturado - Jorge Guimarães/Facebook

Minotauro e seu braço fraturado - Jorge Guimarães/Facebook

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UFC 140: estômago, ombro, cabeça, força e precisão

Minotouro comemora a vitória sobre Tito Ortiz - Foto: Nick Laham/Getty Images

Minotouro comemora a vitória sobre Tito Ortiz - Foto: Nick Laham/Getty Images

O UFC 140 teve 12 lutas, mas três delas, venhamos e convenhamos, valiam alguma coisa, aquelas que tinham brasileiros no octógono. Foram três verdadeiros jogos de xadrez, com uma vitória nacional e duas derrotas, daquelas dolorosas. Uma noite de estômago, ombro, cabeça, noite de força e precisão.

Minotouro, talvez, fosse o mais “underdog” de todos os brasileiros no Canadá: vinha de duas derrotas e, se perdesse a terceira seguida, corria até o risco de perder o contrato com o UFC. Pela frente, Tito Ortiz, um dos lutadores mais carismáticos da história. Mais carismático do que perigoso, mas, sabe como é, o veterano já foi campeão dos meio-pesados e sabe bater.

Na verdade, quem mostrou “punch” foi Minotouro. Mostrou pegada e inteligência. Uma joelhada no lado esquerdo do estômago, na região do baço, levou Ortiz para o chão. Qual é a lógica de todo lutador quando derruba o outro: buscar golpes na cabeça do rival para terminar o combate. Minotouro, não: inteligente, socou o baço de Ortiz cirurgicamente até o veterano não aguentar mais. Força e precisão cirúrgicas, estratégia perfeita. Uma daquelas lutas para ver e rever.

Mir encaixa chave para vencer Minotauro - Foto: Nick Laham/Getty Images

Mir encaixa chave para vencer Minotauro - Foto: Nick Laham/Getty Images

Foi a vez do irmão gêmeo de Minotouro entrar no octógono. Minotauro vinha de uma vitória absurda no UFC Rio, embalado, bem treinado, enfim, totalmente preparado para a revanche contra Frank Mir. O norte-americano já foi campeão interino dos pesados, justamente quando nocauteou Minotauro.

A revanche estava nas mãos do brasileiro. Ele encaixou uma série de golpes, e Mir, literalmente, ficou com o rosto colado no chão do octógono. Essa era a hora de fazer, sim, como todo lutador que derruba o outro: soltar o braço até que o juiz pare a luta. Minotauro, não. Quis tentar uma imobilização improvável e deu a chance para Mir faz o que sabe, que é vencer no chão. Deu xeque uma, duas, 10 vezes, mas pareceu o bandido em filme de herói: não acabou com a história. Mir aproveitou a brecha e deu o seu xeque-mate: uma chave de braço perfeita, deslocando o ombro de Minotauro.

O brasileiro, do alto de suas 42 lutas na carreira, não poderia, de maneira nenhuma, deixar escapar uma vitória como essa. A luta acabou sendo impressionante em vários aspectos: a maneira como Minotauro deixou Mir virar o jogo, a maneira como Mir virou o jogo e a maneira como o ombro saiu do lugar instantes antes de Minotauro dar os três tapinhas e decretar sua derrota. Força e precisão cirúrgicas de um lado, estratégia extremamente errada de outro. Uma daquelas lutas para ver, rever e tentar compreender como tudo aconteceu.

Lyoto é apagado por Jones; imagem é forte - Foto: Nick Laham/Getty Images

Lyoto é apagado por Jones; imagem é forte - Foto: Nick Laham/Getty Images

O fim da noite reservou o duelo entre o campeão Jon Jones e o ex-campeão Lyoto Machida. Jones foi aclamado, recentemente, como uma espécie de novo Anderson Silva. A ascenção fulminante parece ter mexido com a cabeça do moleque de 24 anos: está marrento que só ele. A impáfia se tornou antipatia, e ele chegou a ser vaiado tanto na pesagem quanto em sua entrada no octógono.

Briga rolando, e a estratégia de Lyoto foi perfeita. Jones não achou o brasileiro no primeiro round e foi achado em algumas oportunidades. Jones percebeu que nome não ganha jogo, deixou a marra de lado no segundo round e mostrou sua maior virtude: a criatividade nos golpes.

Primeiro, o campeão conseguiu derrubar o brasileiro e, em seguida, usar uma da suas armas prediletas: o cotovelo. O corte profundo na testa foi o primeiro sinal de que Jones tinha entrado na luta. Lyoto levantou e, mesmo sangrando muito, tentou a reação. Mas o contragolpe de Jones foi espantoso, reflexo de sua enorme habilidade em encontrar espaços e terminar lutas.

Lyoto atacou, mas recebeu um direto em troca. Caiu, levantou, ganhou uma joelhada. Tentou respirar, mas Jones, ao invés de ir para os golpes na cabeça do rival, como todo lutador faz, armou um estrangulamento improvável. Em pé, de frente para o oponente, ele simplesmente apagou o brasileiro. A torcida atrás viu que Lyoto havia perdido a luta bem antes do lendário juiz Big John McCarthy decretar o fim. A cena que se segue é forte: Jones solta o brasileiro, que desaba desacordado. Nada de grave, mas, visualmente, é algo chocante. Tão chocante quanto a maneira que o campeão conseguiu a vitória. Força e precisão.

No resumo da ópera, Minotouro usou a cabeça para achar, no estômago, uma vitória das mais bonitas de sua carreira. Minotauro, com a luta ganha, perdeu a cabeça e viu, no ombro delocado, uma derrota das mais tristes de sua carreira. Jó Jones usou a cabeça para achar a cabeça de Lyoto e manter o cinturão. O UFC brasileiro teve finais distintos, com estômago, ombro e cabeça, mas, curiosamente, com uma linha comum: a linha da força e da precisão separou vencedores de derrotados. Esperemos os próximos rounds!

Jones mantém o cinturão após derrotar Lyoto - Foto: Nick Laham/Getty Images

Jones mantém o cinturão após derrotar Lyoto - Foto: Nick Laham/Getty Images

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Sócrates, o dia mais feliz da vida, o dia mais triste da história

Homenagem a Sócrates no site do Corinthians - Foto; Reprodução/Corinthians

Homenagem a Sócrates no site do Corinthians - Foto; Reprodução/Corinthians

Acordar tarde nesse domingo foi uma espécie de recompensa pela semana corrida. Descansar, repor as energias para mais um dia corrido. Quem mudou de casa sabe como as coisas são.

Antes de pensar no que fazer, resolvi ligar o computador. Ia fuçar aqui e ali, depois acabar um projeto há muito engatilhado antes de voltar ao batente. Quem já fez mudança sabe como é.

Bastou uma notícia. Confesso que fiquei estático por alguns segundos, tentando entender o que eu tinha lido. Como assim, Doutor?

Falei algo como “Sócrates morreu” para a namorida. Ficamos, os dois, lendo aqui e ali o que tinha sido noticiado, vendo fotos e infográficos, enfim. Para ela, foi entender um pouco mais do que representava o Doutor. Para mim, foi uma espécie de preparação para o choro que não consegui conter.

Conheci Sócrates em 2001. Ele ia ser uma espécie de comentarista do site que eu trabalhava. Amigo do dono, visitou o escritório. Hora do almoço, fomos para um restaurante ali do lado. O que começou com comida virou uma tarde de sol regada a muita cerveja. Por um par de horas, tive o prazer de conviver com aquele cara que eu sempre admirei.

Muito pode se falar sobre Sócrates. Você pode até gostar ou não dele. Mas é inegável que ele foi o jogador mais completo da história do nosso futebol. Não pela bola, mas por saber que era possível “usar” a pelota para mudar as visões das pessoas. Mudar uma maneira de pensar é essencial para mudar a vida. Sócrates sabia disso. E ninguém, antes e depois dele, teve essa clarividência da união entre esporte, sociedade e cidadania. Ninguém.

Fica um vazio enorme, um silêncio descomunal. Uma lacuna que, quem sabe, um dia, poderá ser preenchida. Mas nunca por alguém como Sócrates.

Daqui a algumas horas, o Corinthians de Sócrates pode ter o dia mais feliz da sua vida. Justamente, no dia mais triste da sua história.

P.S.: De Xico Sá, a mais bela homenagem: “Doutor Sócrates não morreu, nem morrerá, deu só um calcanhazinho de adeus”.

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O papel de Ronaldo na Copa de 2014: uma demagogia fenomenal

Ricardo Teixeira e Ronaldo - Foto: Mowa Press

Ricardo Teixeira e Ronaldo - Foto: Mowa Press

De forma oficial. Ronaldo agora faz parte do Conselho Administrativo do COL (Comitê Organizador Local) da Copa do Mundo de 2014. Começou do jeito que o chefe supremo gosta, Ricardo Teixeira, dono do futebol brasileiro: falando bem, divertindo a imprensa e pregando uma demagogia fenomenal.

Alguns trechos chamaram a atenção:

“Tem uma remuneração. Adianto a vocês que eu abro mão, conversando com o Ricardo. Meu compromisso é com o povo.”

Todo executivo de toda grande empresa deve receber salário. Um baita salário, diga-se de passagem, para evitar a corrupção. Ronaldo não é executivo de uma grande empresa (não no COL), mas será parte da maior empreitada da história do futebol brasileiro. Não receber salário é uma demagogia absurda.

“Não vou me licenciar da 9ine. Não há nenhum tipo de conflito de interesses.”

Será? O cara simplesmente é chefe de uma empresa que representa tantas outras no ramo esportivo e também tem palavra no COL, que trabalha com “n” empresas para fazer a Copa do Mundo. Tem boi na linha nisso aí.

“Meu compromisso é com o povo brasileiro, é fazer com que seja o maior evento de todos os tempos e que o brasileiro se sinta orgulhoso desse evento.”

Que povo, Ronaldo? O brasileiro pode até ficar orgulhoso, o que eu duvido, mas a palavra povo não pode ser empregada quando o assunto é Copa do Mundo. A Copa é para um povo diferente, um povo endinheirado bem diferente do povo que mal assiste ao “Jornal Nacional”. O povo, povo mesmo, vai ver em casa, quem sabe, em uma TV novinha, paga em trocentas prestações e com garantia até 2018. Copa do povo era o Desafio ao Galo, feito pelo e para o povo.

Enfim:

“Eu sabia que eu seria alvo de críticas, desconfiança, mas resolvi enfrentar, sabendo até que eu poderia jogar pela janela toda uma história de sucesso, de credibilidade. Eu não tinha nada a ganhar com isso, só a perder. Mas a minha ambição de fazer com que as pessoas se aproximem, as partes se aproximem, o povo se sinta orgulhoso desse evento.”

Pois é, Ronaldo, sua conclusão foi coerente, mas, a atitude, não. O jogo mal começou, e você já está perdendo. Uma pena.

Simples: Ronaldo tem carisma, fala bem demais e é um ídolo mundial. Já fez um monte de bobagem na vida, e isso nunca manchou a sua imagem. Pelo contrário, mostrou que ele era humano, que os homens erram, mas também são capazes de fazer coisas incríveis. Sempre gostei muito de Ronaldo e só espero que ele não sirva como mais um fantoche, fazendo “stand up comedy” e divertindo a galera nas entrevistas enquanto, nos bastidores, tudo fede. Pode ser mais um erro na carreira do Fenômeno, o maior erro de todos? Não pode. Pelas companhias, já é.

P.S.: Enquanto penso sobre o assunto, taças de uísque deve estar tilintando por aí. Enquanto a gente esquente a cabeça, outra gente, bem mais gente que a gente, sorri de cabo a rabo. E, ao que tudo indica, sai de fininho, rindo à toa, ileso mais uma vez. Uma pena…

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