Sobre a alma e o “Bamos!”

Não importa o esporte, tem que ter alma. Não adianta ter garra, força, vontade. Ter alma é muito mais que tudo isso. Alma vem de um consciente que une um grupo em torno de um propósito.

Não precisa ser alto, forte. Não adianta ter técnica e habilidade. Ter alma é um acreditar acima de qualquer coisa. É superar limites físicos, mentais. É entender que, se tiver que correr mais para ajudar um companheiro, vou correr mais.

Ter alma é ter um sangue borbulhante, fervendo. É canalizar sua energia para a vitória. Se um jogador consegue isso, é um grande feito. Se um time consegue, ele se torna vencedor.

Depois de muito pensar sobre o jogo de ontem, cheguei à brilhante conclusão: o que falta na seleção brasileira é alma. Hoje, não temos os melhores jogadores do mundo, nem o melhor time do mundo. É ilusão pensar isso. Mas, pior que tudo, a seleção não tem alma.

Cruza-se uma fronteira, e ela, a alma, aparece. Eles não têm o melhor time do mundo, eles não têm os melhores jogadores do mundo. Mas eles têm alma.

E têm o “Bamos!”. Vi apenas o VT de Argentina x Uruguai, mas, ao final, o “Bamos!” estava ali. A cena: Forlán é levantado nos ombros por algum companheiro. No ar, aquele cara, que parecia ser o mais feliz do mundo naquele instante, solta um “Bamos!” pra todo mundo ouvir.

É uma espécie de grito de guerra, um mantra de união, que amedronta, intimida o oponente. É, como diria minha saudosa mãe, desopilar. Externar toda uma alegria, uma felicidade que não dá para conter. É mostrar que se está pronto para qualquer coisa. O “Bamos” traduz esse espírito, vem da alma.

Os uruguaios provam, há algum tempo, que têm alma. Um país pequeno, cativante, um povo acolhedor. Eles merecem, depois de tanto tempo, ter um time. Um time que se torna ainda mais forte com a alma do povo jogando junto. É um “Bamos!” coletivo.

Voltando da fronteira, cansa ouvir desculpas esfarrapadas. Cansa ouvir que o Brasil é sempre melhor e perde por A, B ou C. É difícil descer do salto e admitir que temos limitações (técnicas, físicas), que é preciso se formar um time, na acepção da palavra.

Uma recente propaganda do Gatorade (vídeo está no fim deste post) diz: “Eu não vi a seleção de 70. Também não vi a do bi, nem a do tetra. E a de 2002, eu quase não lembro. Mas, tudo bem. Por que agora é a vez dessa seleção. Agora eu vou ver como é bom torcer pelo Brasil”.

É esse tipo de soberba retratada na peça publicitária que faz com que o Brasil não tenha um time. Não tenha alma. Não tenha um “Bamos!”. É ridículo e patético.

Claro que a culpa não é da propaganda, pelamordedeus. Mas é o tipo de coisa que passa uma borracha num passado vitorioso, num passado de alma, de time, e colocam esse bando sem sangue como um Brasil imbatível. Jovem brasileiro, não viu times vencedores? Use o Google, o Youtube. Tá tudo aí, a um clique. Veja, aprenda. E não engula mais esse tipo de coisa.

O futebol brasileiro carece de alma.

O “Bamos!” de Forlán (pouco antes do minuto 6)

A propaganda do Gatorade

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